CARTAS
Empirismo e ignorância

Recentemente a imprensa tem divulgado uma série de notícias um tanto quanto "tendenciosas". Talvez isso acontece por pura falta de informação de parte deles, ou somente por algum tipo de interesse que ainda não consegui descobrir. Enfim, escrevo esse texto para tentar jogar uma pequena luz na ignorância dos que dizem que o RPG (Rolling Playing Game) é danoso aos que jogam e à sociedade.

Sempre que me perguntam o que é RPG eu digo que a pessoa só vai conseguir entender exatamente quando sentar numa mesa e jogar uma sessão. Isso é uma verdade, mas vou tentar dar uma explicação teórica. Todo RPG começa com a formação de um grupo, não necessariamente de amigos (a amizade pode surgir depois), logo exige um certo grau de convívio social. Com o grupo já formado escolhe-se um tema a ser jogado. E atenção! Esse tema é totalmente livre! Se o grupo quiser jogar com serial killers, eles têm o direito, mas a verdade é que a grande maioria dos jogos (pelos menos dos bons jogos) se desenrola sobre um tema em que os personagens são os bonzinhos da estória, ou quando não, são simplesmente "eles".

Com o tema escolhido, o mestre começa a narrar a aventura, exatamente com um narrador de um livro. Mas a semelhança termina quando o mestre exige que os personagens (interpretados pelos jogadores do grupo) escolham que caminhos tomar. Se eles quiserem ficar em casa vendo TV, têm toda a liberdade. E assim o jogo se desenrola por onde os jogadores quiserem e seus personagens permitirem, dentro das limitações do tema. Por exemplo, se a aventura acontecer nos dias de hoje, é incabível que os jogadores queiram perseguir um dragão (a menos que nesse jogo o mestre decida que há dragões voando por aí). Todas as ações são mediadas por regras que variam de sistema a sistema (entre os mais jogados estão Dungeons & Dragons, Vampiro: a máscara e GURPS), isso controla de uma forma justa e um tanto quanto aleatória o que é possível e o que não é. É como se houvesse regras para as brincadeiras de policia e ladrão.

Diferente do xadrez, por exemplo, o RPG exige cooperação entre os jogadores, e não competição. Portanto, considerando tudo o que já foi dito, é injusto culpar o jogo pelos comportamentos de alguns. Dentro e fora de um sessão de RPG, todos são livres para fazer o que bem entenderem. O fato é que eu (que sou só mais um entre muitos como eu) conheci quase todos os meus melhores amigos graças ao RPG, me interessei pela leitura e cultura graças ao RPG (talvez esteja aí o problema? A cultura?). Sendo assim, sugiro a todos os que criticam o jogo sem conhecê-lo que venham me procurar ou a qualquer outra pessoa que jogue, e peça para jogar uma sessão rápida. Isso é o mínimo que se deve fazer quando quiser criticar alguma coisa.

Peace!

Raphael Orsi é estudante de cinema na FAAP, joga RPG há oito anos e nunca matou ninguém



O culpado é o assassino

Parece que encontramos um culpado para os assassinatos em Teresópolis: o RPG! Que ótimo! Esqueçam o fato de que eles usam e traficam drogas, afinal as drogas fazem menos efeito sobre o comportamento de um ser humano que o RPG. O RPG é fatal. As drogas não. Agora, vemos autoridades assombradas com o conteúdo dos livros. "Eles ensinam a estrangular uma pessoa", dizem. Alguém aí já assistiu ao programa Linha direta, da TV Globo? Ele ensina perfeitamente a armar uma emboscada para alguém ou onde o tiro deve ser disparado para que a morte seja imediata, através de relatos de casos reais.

Isto não é alarmante? Não. Isto não, pois a Rede Globo quase não é assistida pelo público. Mas o RPG, sim, é letal! Alguém aí já acessou a internet e encontrou, sem querer, sites que ensinam a fazer bombas caseiras e coisas muito piores do que estrangular uma pessoa? Sim, mas isto é insignificante. O pior é o RPG. A mente humana é estudada há décadas a sério e ninguém consegue chegar sequer perto de seu funcionamento. Descarto Sigmund Freud, que na minha humilde opinião se limitava a explicar as coisas de forma tão complicada e sem sentido que ninguém se atrevia a discordar dele, pensando "puxa, para falar desta forma este cara só pode saber mesmo do que está falando".

O problema das drogas está aí e as autoridades, em vez de assumirem sua responsabilidade enquanto Estado e tomarem atitudes para resolvê-lo, se preocupam com um jogo. Um jogo por si só inofensivo, pois se passa no plano imaginário das pessoas.

Imaginação todos nós temos e usamos e abusamos dela. Quantas vezes um homem imagina o que fazer com aquela mulher maravilhosa ou uma mulher imagina o que fazer com aquele homem maravilhoso? Quantas vezes, num momento de raiva, imaginamos o que fazer com aquela pessoa que nos enraiveceu? Tudo isto se passa no plano imaginário. Quando se decide passar do plano imaginário para o real, executando as ações imaginadas, quando publicamente, moralmente ou judicialmente proibitivas, têm-se um desvio no cérebro do indivíduo que faz com que ele, mesmo sabendo da contravenção, pratica o ato.

Todos sabemos como fazer sexo com alguém. Daí a realmente ver uma mulher bonita e agarrá-la à força, é uma decisão do ser humano. Quer saber onde aprendemos a fazer sexo? Muito até mesmo em conversas com os pais ou nas escolas em aulas de orientação sexual. Portanto, perceba: o conhecimento é público. O que fazer com ele é uma decisão do indivíduo, não necessariamente partilhado por outros. Pergunto: o que impede uma criança de 8 anos de pegar seu lápis e enfiá-lo nas costas de seu coleguinha de classe? A falta de informação de como fazê-lo? Não. A simples consciência do "Isto é errado. Eu sei como fazer, conheço as conseqüências e não o farei porque não é certo". A mente humana funciona de uma forma muito complexa. Complexa demais até mesmo para as mentes (privilegiadas?) das autoridades deste país.

Parem de culpar o RPG. Ele é apenas um jogo.

Carlos Alberto Fraga Leite



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