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NOTAS SOBRE NOTÍCIAS
Dinâmica da verdade vence malícia do Sistema
Alberto Dines
Enganam-se os que imaginam que cessam por aqui os desdobramentos das revelações do livro de Mario Sergio Conti [veja próximas notas]. Na verdade, os desdobramentos mal começaram: tudo o que foi dito ou escrito, com raríssimas exceções, está contido e sugerido pelolivro, mesmo quando expresso de forma discreta.
Apesar da acusação de estar a serviço de uma guerra entre grupos profissionais rivais – fenômeno tipicamente paulista; no Rio, os confrontos são individuais –, Mario Sergio mostrou uma coragem e honestidade sem igual. O autor de Notícias do Planalto escreveu o que sabia. Não escondeu. E a discrição que utilizou em certas revelações, evidentemente proposital, não passou despercebida dos leitores atentos. Caso do "pacto de sangue" entre o senador Antônio Carlos Magalhães e jornalistas.
As raras revelações suplementares são os casos da compra de consciências na imprensa carioca para abafar as seqüelas do estouro da Delfin, e a generosidade do Banespa no período Quércia-Fleury para projetos editoriais de jornalistas e empresários.
O Sistema engalanou-se para saudar as revelações de Mario Sergio Conti. Queria mostrar transparência e impor limites às repercussões. Jornalista entende dessas coisas. Se o livro fosse abafado ou circunscrito às esferas "alternativas" poderia aumentar o seu teor explosivo. "Acolhido" pelo Sistema de forma extraordinária teria seus efeitos rapidamente controlados. Contava com a dinâmica do sensacionalismo e sua natural conseqüência, a exaustão.
Ninguém contava com a dinâmica da verdade. Aguardem.
Folha recusou oba-oba
A.D.
Em certas horas a Folha de S.Paulo mostra indícios de franqueza e integridade que a colocariam plenamente na contramão do Sistema. Se este potencial pudesse ser devida e responsavelmente desenvolvido, a Folha do ano 2000 poderia orgulhosamente apresentar-se como filha legítima da "Folha-1975".
Esse núcleo de consciência e decência transparece claramente no depoimento do Diretor de Redação, Otavio Frias Filho, gritante exceção na página de oba-oba com que o Sistema Mediático saudou as denúncias de Mario Sergio Conti [íntegra do depoimento disponível nesta seção].
Como todo o respeito aos autores dos textos ali coligidos, profissionais íntegros e qualificados, o depoimento de OFF é o único que admite plena e cabalmente a vulnerabilidade do modo de informar da mídia brasileira.
Mesmo quando aponta as virtudes de agora comparadas com os vícios de ontem. Dizer que depender do mercado é melhor do que depender do governo é assumir de forma inequívoca que tudo continua na mesma.
De resto, a autocrítica é uma denúncia ao status quo. Notável demarcação das críticas ao status quo ante.
Trechos:
- Num ambiente de extrema concorrência pela notícia, denúncias são publicadas sem verificação adequada e às vezes o tom da cobertura resvala para um moralismo simplório, quando não parcial.
- Nem sempre temos nos mostrado habilitados a vencer esse desafio
(a cobertura econômica, principal vetor contemporâneo).
- O legado da despolitização tem sido fragmentar ainda mais as coberturas, nas quais ganha ênfase o componente anedótico, sensacional ou apenas utilitário
.
- Talvez estejamos fracassando no principal, que é oferecer uma visão integrada dos fatos relevantes.
- Assim como governos e partidos, os meios de comunicação perseguem cada vez mais uma mesma fórmula, o que está levando à descaracterização de suas identidades. Nunca tivemos tanta diversidade e nunca eles foram tão semelhantes entre si.
Ao longo de 80 edições – mais de três anos – este Observatório tem dito precisamente a mesma coisa (na home page, acionem o mecanismo de BUSCA para palavras-chave e EDIÇÕES ANTERIORES para procura por data de circulação).
NOTÍCIAS DO PLANALTO
Alberto Dines
"Turbulências à vista. Caíram por terra os pudores, a hipocrisia e o corporativismo. A casta que queria manter-se imune às críticas abre mão da arrogância. Afinal, temos o jornalismo tratando do jornalismo. A partir de agora algumas luzes vão ser dirigidas sobre um negócio que deveria ter regras muito especiais para merecer os privilégios outorgados. Está instalada uma controvérsia longamente protelada.
Notícias do Planalto - A Imprensa e Fernando Collor (Cia. das Letras, 719 pág.), de Mario Sergio Conti, lançado esta semana, não é pioneiro sob o aspecto cronológico. As confissões de Campos Sales, Da Propaganda à Presidência (Editora UnB, Brasília, 1983), escritas depois de 1902, são o ponto de partida de uma pequena e significativa bibliografia sobre a precariedade daquele se autodenominou Quarto Poder.
Mas estas notícias constituem um marco histórico. Antes de Conti e depois de Conti deverá ser a nova periodização dos estudos midiático-políticos no Brasil e não apenas pelo teor explosivo mas também pela qualificação do autor. Mario Sergio foi diretor do semanário Veja durante o período que retratou. Deixou a função para escrever sobre ela. Foi iniciador e protagonista de uma cruzada, agora dispõe-se a devassá-la.
Assim como a imprensa americana logo após os triunfos na derrubada de Nixon foi buscar nas academias uma obscura disciplina chamada media criticism para convertê-la num exercício de auto-disciplina, também percebe-se na opção de Mario Sergio Conti uma disposição de derrubar tabus. Mesmo conhecendo a dinâmica do bumerangue.
Os jornais de ontem [26/11/99] já começaram a esmiuçar suas revelações.
Como sempre, o primeiro impulso é para o episódico, o pessoal e o sensacional. O mais importante, porém, está numa idéia que perpassa o livro e está sintetizada na entrevista que o autor concedeu ao repórter Fernando de Barros e Silva (Folha, 26-11-99, pág. 4-1, 4-6 e 4-7): ‘Collor se fez em função de jornalistas, não de patrões’.
A tese, aparentemente patronal, levanta uma discussão até hoje mantida no âmbito especializado: a ‘nova classe’ de executivos que nos anos 80 e 90 foi encarregada de ‘profissionalizar’ as redações. Com mandato das empresas para varrer os ‘românticos’ e impor um padrão arrevesado de sucesso, dispuseram-se a reinventar a roda. Montados num voluntarismo que os próprios patrões teriam pudor em exibir, com a ajuda decisiva dos marqueteiros treinados para vender margarina, desmandaram-se. Avalizam como jornalistas decisões que degradam e desqualificam o jornalismo.
Se, como sugere Conti, o segredo de Collor consistiu em conquistar os corações do primeiro escalão das redações é preciso levar essa conclusão às últimas conseqüências: as regras desse jogo não foram ali inventadas. O vale-tudo veio de cima. Não houve subversão mas reiteração de usos e costumes. Prova disso vem dos EUA (onde nossas empresas costumam buscar os maus paradigmas), com o escândalo que desmoralizou o Los Angeles Times. O jornal associou-se clandestinamente a uma jogada imobiliária promovida num de seus cadernos sem que os jornalistas disso soubessem. A indecência foi assumida pela publisher, Kathryn Downing, figura máxima na operação cotidiana do jornal. Mas o modelo de atuação foi imposto por seu superior, Mark Willes (egresso do negócio de refeições matinais) que, ao assumir, prometeu derrubar as paredes que separavam a redação da área comercial.
O lançamento de Notícias do Planalto coincide com as extraordinárias revelações trazidas pela CPI do Narcotráfico. A mídia tem muito a ver com a extensão e profundidade da degradação ora escancarada. Os jornalões e revistas fecharam a maioria das sucursais que mantinham nos estados. Dispensaram-se correspondentes, inventaram-se pools e outras formas de terceirização que limitam, senão liqüidam, a capacidade de projetar nacionalmente fatos locais. Cortou-se um elo vital do processo de federalizar as informações. Neste vácuo, livre do escrutínio, armou-se a superconexão entre o novo crime organizado e a velha corrupção.
O feito investigativo do Correio Popular de Campinas no caso do narcotráfico só teve repercussão dada a proximidade com São Paulo. Mas também porque o jornal tem mais estatura e fôlego do que alguns jornalões. Numa cidade mais distante, tais revelações seriam ali sepultadas ou sequer impressas diante da fragilidade da imprensa provincial no jogo pesado dos coronéis da comarca.
Alguns jornalões de quinta-feira publicaram um informe publicitário pago pelo Grupo Meio Norte, de comunicação e outros negócios, que atua no Maranhão e Piauí. Seu presidente defendia-se das acusações de envolvimento no narcotráfico. Em outros veículos, o empresário obteve generoso espaço para acusar o governo do Piauí de fomentar uma campanha de represálias como resposta à ‘imparcialidade’ dos seus jornais e rádios.
Se está ou não envolvido nos tentáculos do crime logo se saberá. Espantoso é o tal grupo assumir com toda a naturalidade a propriedade de uma rede de bingos espalhada por 15 estados, o Poupa Ganha, que entre outras jogadas patrocina um clube, o Guarani Futebol Clube, de Campinas.
Quando o tubarão da mídia Rupert Murdoch tentou comprar um clube de futebol, as autoridades inglesas o proibiram. Decisão trombeteada pelo mundo, inclusive aqui. Qualquer estudante de jornalismo sabe que um veículo verdadeiramente imparcial não pode ser dono de um gerador de notícias. Compromete a sua lisura. Isso vale no esporte, no entretenimento e no mercado financeiro. No Piauí não existe a noção de conflito de interesses? Uma empresa jornalística, teoricamente comprometida em fiscalizar a moralidade da coisa pública, pode envolver-se no negócio do bingo mesmo que seja legalizado?
E onde fica a instituição jornalística e suas entidades representativas que não conseguem enxergar tamanho perigo para a sua credibilidade? Cartéis do crime só proliferam em sociedades entranhadas no espírito de cartel com suas lealdades enviesadas e pactos de silêncio.
Essa é uma questão para jornalistas e patrões. Estamos apenas começando a Era Conti. Imperioso prosseguir."
"A imprensa como notícia", copyright Jornal do Brasil, 27/11/99
xxx
"Dizia Samuel Wainer (que nada tinha de religioso) que Deus só ajuda o bom jornalista: coloca-o na esquina certa, dirige o seu olhar para o ângulo devido, aguça seu ouvido para o que é importa – no momento apropriado.
Uma semana depois do tremendo rebuliço causado pelo lançamento do livro-reportagem Noticias do Planalto, seu autor, o jornalista Mario Sergio Conti foi presenteado pela Divina Providência com um extraordinário reforço: a decisão do TJ de São Paulo de aceitar o recurso dos dois diretores (e mais um funcionário) da Escola Base de São Paulo reclamando uma reparação pelos prejuízos financeiros e morais sofridos por ocasião do linchamento em março de 1994 (o recurso de uma quarta pessoa envolvida na onda de calúnias ainda não foi julgado). Os cinco foram apontados levianamente por um delegado como os responsáveis pelos abusos sexuais cometidos contra alunos da Escola. Cada uma das vítimas receberá 100 mil reais do Estado e um terço de 10 mil reais pagos pelo delegado divulgador da informação infundada aos repórteres.
Como se não bastasse esta braçada de lenha numa fogueira que hoje já poderia estar apagada, o governador Mario Covas com o jeito franco que lhe é peculiar soprou no braseiro: disse que paga uma parte da indenização pela irresponsabilidade da autoridade mas a outra parte quem paga são os meios de comunicação que propalaram, sem investigar, a informação do policial. Mário Covas está certo, oxalá não seja dissuadido de levar a questão até o fim.
Um dia antes, através de enorme matéria paga nos principais jornais do país, uma empresa naval investiu contra a mídia acusando-a de parcialidade na cobertura de suas desavenças com a Petrobras. Fecha a catilinária contra a mídia a seguinte frase: ‘A Marítima não permitirá ser transformada em mais um caso do tipo Escola Base!’ A Escola Base foi destruída mas transformou-se em símbolo da precariedade do nosso processo informativo.
Eis, assim, as Notícias do Planalto magnificadas para ‘Notícias do Brasil’ e o subtítulo oríginal, ‘A Imprensa e Fernando Collor’, antes a ponta de um iceberg, ultrapassado pela exibição do iceberg.
A culpa não é dos jornalistas nem do patronato (falso dilema, como explicou o próprio Conti, armado por uma titulação infeliz da sua entrevista à Folha). A culpa, na opinião deste observador da mídia, é do sistema midiático, mais uma griffe produzida pela capacidade francesa de dar nome aos bois.
Sistema é uma ‘disposição das partes ou dos elementos de um todo, coordenados entre si, e que funcionam como estrutura organizada (cf. o Aurélio)’. O sistema midiático não é uma conspiração mundial para dominar os corações ou mentes. Articulou-se de forma natural, espontânea, imanente – para usar uma palavra tão cara aos franceses – em decorrência das atuais circunstâncias socioeconômicas, políticas, culturais e tecnológicas.
Um flagrante do sistema foi mostrado dramaticamente no filme de Milos Forman, The Mad City (Quarto Poder) onde todos os personagens – os empresários de comunicação, os chefes, o jornalista, a inocente estagiária e até a desgraçada vítima midiatizada – têm parcelas iguais na consumação daquela tragédia. Na velha sociedade burguesa o tal sistema mantinha-se encoberto, suavizado pelas hipocrisias mas compensado eventualmente pelos arroubos dos ‘românticos’.
Neste nosso modo vertiginoso de viver e produzir, onde já não há mais lugar para os valores, a mídia ela própria e talvez sem o querer, converteu-se em modelo daquilo que retrata. O sistema midiático não é juízo de valor, é uma realidade. Também não é a soma das qualidades individuais, mas a representação dos interesses que as mantêm juntas. Cimentada pela arrogância, vaidade, sofreguidão, insensibilidade e a cupidez dos tempos que correm.
O arrombamento das redações brasileiras pelo marketing nos estertores da ditadura pode ser visto como uma espécie de rito de passagem, a perda da inocência. O jogo foi assumido, pesado e sujo. Independente do viés partidário – há vanguardistas de esquerda brandindo os tacapes das leis do mercado e o desprezo pela moral com a mesma fúria de neoliberais.
A versão brasileira desse sistema midiático (e cujo desmonte está sendo ensaiado por Mario Sergio Conti) não ocorreu apenas no período Collor. Pouco antes tivemos no Rio de Janeiro o sepultamento do escândalo da Delfin graças as relações de jornalistas e empresários com a instituição financeira. Em São Paulo, o dinheiro do Banespa correu a rodo para financiar projetos editoriais mirabolantes. O ‘pacto de sangue’ (mencionado discretamente por Conti) entre jornais, jornalistas e ACM deu ao senador baiano fôlego e imunidade ímpares na cena brasileira.
Isso é o sistema, empurrado pelas melhores intenções. No período Collor, antes e depois da eleição, operou com mais desfaçatez. Não surgiu ali nem desapareceu com o impeachment. Explica-se em parte a inédita repercussão do livro de Conti: era preciso configurar que a promiscuidade foi restrita, página virada. Agora somos diferentes, viva nós! O sistema engalanou-se para um Auto da Fé onde alguns seriam sacrificados e o resto, devidamente regenerado, aceito no santo grêmio dos penitenciados.
Numa das quatro páginas que O Globo dedicou generosamente ao livro no sábado passado, há um valioso retrato para o álbum de família do sistema – uma enquete com os diretores de sete dos onze veículos nacionais (porque as omissões?). Pergunta central: ‘O que mudou na imprensa nos últimos 10 anos?’. Resposta unânime, uníssona e ululante: a imprensa mudou para melhor. Coletando as restrições que alguns permitiram-se fazer – pensando sempre no concorrente, apenas um assumiu o tom de autocrítica – pode-se constar que persistem os mesmos vícios. Alguns até mais aberrantes porque admitidos como virtude: achar que depender do mercado é mais sadio do que depender de governos.
Notícias do Planalto é desses livros que exigem seqüelas e impõem continuação. Poderão constituir o fim da Escola Base e a base de uma nova escola de jornalismo."
"A imprensa como notícia (II)", copyright Jornal do Brasil, 4/12/99
Veja
"Foi lançado na semana passada um livro que devassa a intimidade das catedrais onde se fabrica a imprensa brasileira. O livro se chama Notícias do Planalto – A Imprensa e Fernando Collor, e seu autor é Mario Sérgio Conti, um paulistano de 45 anos, ex-diretor de redação de Veja, cujo trabalho se tornou nos últimos dias o assunto mais discutido nas grandes redações brasileiras. Conti fez um livro em três camadas. A primeira tenta mostrar as relações da grande imprensa com a superfície e os subterrrâneos do governo Collor. A segunda trata da imprensa em si, descrevendo a história de seus proprietários e jornalistas nos últimos cinqüenta anos. A terceira camada, mais diluída, espalhada por todo o livro e nunca analisada explicitamente pelo autor, contempla o Brasil das grandes maquinações que enriquecem empresas, elegem políticos e se infiltram nos círculos do poder por meio da compra ou troca de facilidades. No fim do livro, o autor relata um dos muitos encontros que teve com o ex-tesoureiro de Collor, Paulo César Farias, que acabara de deixar a cadeia e vivia em liberdade condicional em Maceió, enquanto Fernando Collor, afastado do cargo, levava uma vida ensolarada em Miami. Provocado pelo jornalista, PC faz esta reflexão: ‘Não dá para escrever a história da política brasileira sem que as grandes empreiteiras apareçam em cada página e sem dedicar um monte de capítulos aos banqueiros’. É desse tipo de material que o livro é feito.
Poucas pessoas estariam tão equipadas para escrever um trabalho como esse. Conti trabalhou em Veja durante 14 anos, os últimos sete como diretor de redação. Conviveu com caciques da Rede Globo, como José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, que se tornaria seu amigo, e Roberto Marinho, o presidente do conglomerado, que o recebia na mansão do Cosme Velho, no Rio de Janeiro, ou na casa de praia, em Angra dos Reis. Dava-se bem com Silvio Santos, o dono do SBT. Talvez tenha sido o jornalista brasileiro que mais entrevistou Fernando Collor de Mello e PC Farias. Desvenda em Collor, através de declarações de entrevistados, um político com o gênio teatral de um Jânio Quadros, intuição suficiente para se vender como um produto inédito e moderno, além da sorte de contar com o adversário Luís Inácio Lula da Silva, que assustava o patronato nacional, do qual saem as doações para as campanhas eleitorais. O aparecimento do fenômeno PC é tão vertiginoso quanto o de seu chefe. ‘Com a posse do amigo na Presidência, Farias radicalizou seu plano de ascensão social. A fina flor do empresariado o paparicava e propunha negócios’, escreve Conti. PC Farias achava que o grupo alagoano se manteria encastelado no poder durante vinte anos. Para isso, ele teria de eleger governadores e uma bancada formidável em 1990. ‘Agiria nas sombras, azeitando concorrências públicas, privatizações e promovendo meganegócios – sempre em consonância com os interesses de Collor. Agiria no sentido de pôr de pé uma companhia de aviação que se contrapusesse ao poderio da Varig. Começaria por participar da privatização da companhia aérea do governo paulista, a Vasp. Tentaria comprar um jornal e talvez montasse uma rede de televisão. A sua autoconfiança se transformara em megalomania.’
É preciso notar que a megalomania se apoiava numa sólida mala de dinheiro, 160 milhões de dólares arrecadados na campanha de 1989, dos quais sobraram 60 milhões para gastar depois, segundo as estimativas obtidas pelo autor. PC comprou jatos para criar uma empresa de transporte aéreo e contribuiu com Wagner Canhedo na compra da Vasp. Entrou com dinheiro para que o empresário paranaense José Carlos Martinez pudesse montar uma rede de televisão. Ofereceu 120 milhões de dólares a Manoel Francisco do Nascimento Brito pelo Jornal do Brasil, acerto que não se concretizou. Criou um jornal em Maceió, onde tinha planos de estabelecer uma teia local de rádios e televisão. Esse dinheiro todo foi extraído por PC Farias de empresários ricos, conhecidos e respeitados do Centro-Sul, ávidos por adular o caixa de Collor, a fim de ser recompensados com favores oficiais.
Mario Sérgio Conti pesquisou muito em arquivos e ouviu 141 pessoas, como nota no livro. Notícias do Planalto, editado pela Companhia das Letras, ficou com 719 páginas, apresenta 1.200 personagens e custa 35 reais. Na semana passada, muitos dos personagens que freqüentam suas páginas queixavam-se, principalmente pelas redações, da irrelevância que o autor teria conferido a seus papéis em determinados episódios, nos quais ele próprio apareceria com realce. Ouviram-se também críticas a respeito da descrição preconceituosa, contra e também a favor, que Mario Sérgio teria dado a muitos personagens. Talvez seja inevitável, num calhamaço que coloca em cena 1.200 figurantes, cada um deles com a expectativa natural de aparecer bem. E muita gente aparece mal nesse livro sobre jornalistas e donos de jornais, revistas e estações de TV. Esse também foi o motivo pelo qual o livro despertou tanto interesse nas redações.
Sobre Veja, há farto material, especialmente em relação às dezenas de denúncias que a revista publicou sobre Collor, PC Farias e outros personagens do grupo alagoano, culminando com os bastidores da entrevista que Pedro Collor, irmão do presidente, concedeu à revista, um dos elementos impulsionadores de seu impeachment. Há ainda, a respeito de VEJA, a sugestão de Conti de que a revista teria publicado em duas ocasiões, mediante pagamento, matérias favoráveis a Iris Rezende, na época em que ele era pré-candidato a presidente pelo PMDB, em 1989, e candidato a governador de Goiás, em 1990. O jornalista não faz uma acusação frontal. Diz que nem mesmo insinua. ‘Eu não consegui apurar, apenas registrei fatos isolados que descobri durante a apuração do material do livro e considerei significativos’, afirma Conti. Também é volumoso o material sobre jornais como Folha de S.Paulo, Estadão, JB e Globo. Entra-se pelos gabinetes de comando desses órgãos e conhecem-se seus ocupantes ao ponto das manias de cada um. A excursão também passa pela revista IstoÉ, pela Rede Bandeirantes e pela TV Globo.
Numa passagem sobre a Globo, Tancredo Neves, recém-eleito presidente, pergunta a Antonio Carlos Magalhães, que ele havia chamado para ser ministro das Comunicações, se o baiano se incomodaria de receber o convite diretamente de Roberto Marinho. Tancredo queria agradar ao dono da Globo. ‘Não, não me incomodo. Ele é meu amigo’, respondeu ACM. Antes de ser nomeado ministro da Fazenda de José Sarney, Mailson da Nóbrega encontrou-se com Roberto Marinho, a pedido do presidente, e foi sabatinado sobre temas econômicos. Saiu do encontro aprovado no teste e soube de sua nomeação pelo plantão do Jornal Nacional, antes que Sarney o avisasse.
Ainda em torno da Rede Globo, há um capítulo mostrando como o debate entre Collor e Lula foi editado às vésperas da eleição para que, no Jornal Nacional, o candidato favorito do eleitorado e vitorioso no debate parecesse massacrar com mais força ainda o adversário diante das câmaras. Não é novidade, mas há detalhes copiosos sobre o episódio, entrelaçados com a briga pelo poder no departamento de jornalismo da emissora, de onde foi ejetado Armando Nogueira, para que lá pudesse reinar Alberico de Souza Cruz, apontado por Conti como o responsável pela edição do debate entre Collor e Lula. ‘Não li o livro, mas, se ele realmente diz que a responsabilidade pela edição foi minha, então está mentindo. A edição foi correta, mas não fui eu quem a fez’, diz Alberico. Por reações como a de Alberico, pode-se dizer que a história escrita em 719 páginas continua e continuará a se desenrolar fora do livro."
"O raio X do poder", copyright Veja nº 1.626, 1º/12/99
Otavio Frias Filho
"Enquanto seu interlocutor fingia prestar atenção, toda ela voltada, na verdade, para o temporal que sacudia a aeronave, um dos mais respeitados jornalistas do país batizou o livro de Mario Sergio Conti de CPI da mídia. Ao longo de 719 páginas, o trabalho disseca as relações perigosas entre o governo Collor e a imprensa.
Até para reter o leitor, a narrativa se desenvolve por meio de episódios, mantendo-se no perímetro dos bastidores onde eles tantas vezes resvalam para o anedótico. O resultado é um mosaico ao mesmo tempo vasto e detalhista, um marco na história do jornalismo local e uma leitura que não é fácil deixar pelo meio.
Conforme o volume era absorvido, pipocaram reações de escândalo nas redações. A maioria dos personagens da mídia aparece sob luz compreensiva; o autor limitou-se a cruzar informações decisivas ou controvertidas, aceitando o restante dos depoimentos tais como os colheu, depois de retocar aqui e ali.
Três ou quatro jornalistas são acusados de delitos, que eles negam. Como instituição, porém, a mídia aparece como cúmplice do empresariado e do próprio Collor na fabricação de sua presidência. Toda discussão sobre a conduta da imprensa, que supostamente fiscaliza as demais condutas públicas, é útil e importante.
Mas o livro não se esgota no plano episódico, nem no corporativo. Ele capta a transição de um modelo a outro, fixando o momento em que o novo e o antigo ainda se justapunham. Emergia um jornalismo profissional e crítico, que teve sua consagração com o impeachment, nosso Watergate com quase 20 anos de atraso.
Até então, a mídia era formada menos por empresas do que por agências de influência. Conforme passavam a depender mais do mercado, as empresas dependiam menos do poder, e a mídia ganhou autonomia. É preferível uma imprensa que se rende ao mercado àquela que vivia de favores, alinhamentos partidários e vendettas.
A ditadura do mercado é boa porque reduz idiossincrasias, obriga a compromissos públicos mesmo que de fachada), dá latitude e independência de ação. Mas acarreta nivelamento pela média, conformismo e pasteurização. Banaliza a identidade dos veículos e converte toda pluralidade em efeito pirotécnico.
Outro aspecto a destacar está no cerne da mefistofélica comunidade de interesses entre Collor, um político de mercado, e a mídia mercadológica, num quadro paradoxal em que cada um precisa do outro, mesmo quando o combate. Purgados pelo impeachment, costumamos imaginar que Collor foi uma anomalia.
Ele só tinha mais talento do que os outros. Porque com ele se dá também a transição para um novo modelo em que a política se converte em administração de imagens, em estetização comercial do espaço público. Políticos sempre foram, metaforicamente, atores. Collor mostrou que agora eles são atores em sentido literal. (Notícias do Planalto – a Imprensa e Fernando Collor, de Mario Sergio Conti, Companhia das Letras, 719 págs.)
"CPI da mídia", copyright Folha de S.Paulo, 2/12/1999
Luiz Fernando Ferreira Levy
"Um editorial assinado, na primeira página é algo inusitado na Gazeta Mercantil. Este é um gesto de respeito pelo leitor e de reafirmação dos princípios que consideramos mais relevantes: a credibilidade do jornal e a confiança em nossos colaboradores.
Ao longo de seus quase 80 anos de história, este jornal tem ignorado os eventuais ataques de que tem sido alvo. Nossos leitores nos conhecem. Se mudamos hoje esta atitude é porque as circunstâncias assim o requerem. O nosso principal executivo da área editorial foi atacado em sua honorabilidade nas páginas de um livro que pretende refletir o comportamento da imprensa durante o governo Collor. Essas levianas acusações foram amplamente reproduzidas e difundidas com destaque, nos últimos dias, por outros veículos de comunicação.
Ao atacar diretamente o nosso colaborador, as afirmações mal intencionadas e insinuações veladas atingem, de maneira indireta, mas clara e evidente, este jornal – e esse parece ser o objetivo mal encoberto das reações de alguns órgãos de imprensa. Aparentemente, a escalada ascendente deste jornal vem incomodando concorrentes, desconfortáveis ante o êxito editorial e comercial de um jornal especializado que os supera em qualidade, independência, confiabilidade e credibilidade.
Há uma explicação muito simples para o crescimento da Gazeta Mercantil: informação, análise e respeito pelo leitor.
A respeito do livro, uma observação. Se o seu autor tivesse aplicado, em sua apuração, redação e edição, as normas que este jornal aplica todos os dias para informar a seus leitores, pouco sobraria dele.
Nesta casa, os jornalistas sabem que: a) não devem publicar boatos; b) as informações devem ter fonte definida; c) todas as partes envolvidas numa questão devem ser sempre ouvidas; d) não publicar nada sobre ninguém – pessoa, empresa, entidade – sem ouví-los antes. Se à pessoa acusada dos maiores crimes é dada, sempre, nos tribunais, a oportunidade de defesa e de apresentar livremente sua posição, um jornalista não pode transformar-se em acusador e juiz ao mesmo tempo publicando informações sem antes procurar a pessoa mencionada; e) as diferentes versões ou pontos de vista devem ser colocados de maneira clara e isenta; f) o noticiário do jornal não pode ser usado para agradar amigos ou punir inimigos; g) Se houver dúvida sobre a autenticidade, a notícia não deve ser publicada, ainda que o jornalista acredite que a informação é "99% certa". Esses 99% não são suficientes. A notícia não deve ser publicada ainda que se saiba que outros jornais ou meios de informação pretendem divulgá-la.
Os princípios mencionados acima formam parte das Normas Gerais de Redação das publicações da Gazeta Mercantil. Se houvessem sido aplicados, certamente as alegações sobre nosso colaborador nunca teriam sido publicadas. Mas o seu autor não foi formado nesta escola.
O nosso colaborador, Mário Alberto de Almeida, é um respeitado e conhecido jornalista. Tem uma longa e vasta experiência na imprensa. Já tinha trabalhado em diversos jornais e revistas quando se incorporou pela primeira vez a este jornal nos anos 70, como editor de Política. Voltou para ter uma brilhante passagem como correspondente em Paris, de onde retornou ao Brasil para dirigir a revista IstoÉ, que então fazia parte do conjunto de publicações deste empresa. Depois de uma passagem pelo mundo dos negócios, regressou de novo ao que é sua verdadeira vocação – o jornalismo – como diretor de redação, cargo que passou a acumular com o de vice-presidente da área editorial.
Ele recebeu os ataques com estoicismo e serenidade. Teve o apoio e solidariedade da direção, das redações da empresa e do grande número de amigos e colegas que o conheceram ao longo de trinta anos de exercício do jornalismo.
Nesta casa, nosso colaborador sempre aplicou as mais elevadas normas de comportamento ético. E foi sempre o primeiro a dar o exemplo. Se hoje a Gazeta Mercantil é considerada, no Brasil e no exterior, como um dos melhores jornais de economia e negócios do mundo, isso se deve em grande parte, ao trabalho, seriedade e exemplo dado por ele e pela equipe de jornalistas que ele dirige.
Ele foi atingido no que de mais precioso tem a pessoa humana, que é a sua honorabilidade e a sua reputação. Isso reforçou ainda mais o solidariedade e o afeto de todos os que o conhecem. Mas os ataques por ele recebidos não vão ficar sem resposta. Ele está entrando na justiça, abrindo um processo crime contra os que atentaram contra a sua honra. E evidente que a Gazeta Mercantil lhe dá todo o seu apoio.
Da mesma maneira, esta casa vai reagir ante a tentativa indireta mas clara e mal-intencionada – de terceiros, de usar esse episódio pata atingi-la no seu mais precioso patrimônio e que alguns deles têm em escassez: a sua credibilidade."
"A Imprensa, a notícia e a ética jornalística", copyright Gazeta Mercantil, 30/11/1999
Márcio Moreira Alves
"Não li e não creio que venha a ler as 719 páginas do livro Notícias do Planalto - a imprensa e Fernando Collor, de Mario Sergio Conti. Li os comentários de muitos dos mais distintos colegas, publicados ao longo do fim de semana. Dou-me por satisfeito com eles. Não acredito que a leitura de tão substanciosa obra vá me ensinar alguma coisa de novo sobre as nossas relações com o poder.
O livro de Conti certamente nos obrigará, a nós, repórteres em lida diária com o poder, a refletir mais sobre o nosso próprio trabalho. Essa obrigação, que deveria ser permanente, pode ser espicaçada pela revelação de detalhes íntimos das relações passadas da imprensa, ao longo de um período negro da ética na política e, portanto, na imprensa também. Ninguém consegue ser muito melhor que o seu meio, no tempo que lhe cabe viver. Convém, no entanto, antes de colocarmos o cilício na cintura e castigarmos as costas com o flagelo da penitência, lembrarmos dois acontecimentos históricos: 1) Foi a imprensa e, em especial, a parcialíssima edição do último debate com Lula, mostrada no Jornal Nacional às vésperas da eleição, quando não havia correção possível, quem deu a vitória a Fernando Collor; 2) Foi também a imprensa que cassou o seu mandato. Se a IstoÉ não tivesse descoberto o motorista Eriberto França, que deu as informações sobre os bancos onde PC Farias depositava o dinheiro para as despesas particulares do presidente e de sua mulher, uma consumista desvairada, nada teria acontecido. As revelações de Pedro Collor causaram escândalo, mas não produziram provas. O decisivo foi o motorista Eriberto.
Passei o fim de semana lendo outro jornalista, Flávio Tavares. O seu Memórias do esquecimento é um livro soberbo, tanto pelo conteúdo como pela forma literária, seca e refletida. Torturado duas vezes, no Brasil e no Uruguai, Flávio faz as mais pungentes descrições de tormentos que já li, mesmo tendo lido centenas de relatos e entrevistado dezenas de vítimas. Seqüestrado pelos militares do Uruguai, sofreu a tortura do colgamiento, pendurado pelos braços, algemado pelas costas, narra:
– Suspendem-me apenas alguns centímetros, o suficiente para que eu paire no ar, e a minha tendência natural é tocar o piso como bico do sapato. À medida que eu tento tocar o solo, eles voltam a me suspender alguns centímetros e o corpo cai para a frente. Tudo se apóia nos braços estendidos para trás e que tentam, inutilmente, encontrar apoio na ponta do calçado que não consegue encontrar o piso. No início, parece um brinquedo bobo. Aos poucos, porém, uma dormência nos braços se expande pelo corpo, como uma gangrena seca, progressiva. Primeiro a mão, logo o braço esquerdo, depois o direito, mais
adiante o ombro, tudo se gangrena, como milhões de agulhas picando o tecido já amortecido ou já morto. Essa sensação de necrose só chega ao corpo. A mente continua lúcida. Não se perde o raciocínio – como no choque elétrico – e é aí que a penduração alcança o requinte: o preso sabe que está sendo destruído, que o corpo e as forças se esvaem, pouco a pouco. E sente o impacto da morte, como eu senti, desfeito, sem forças para sequer rezar.
Flávio, gaúcho, era o representante da Última Hora em Brasília, quando do golpe de 1964. Foi muitas vezes clandestino ao Uruguai, conversar com Leonel Brizola, sobre a necessidade de se montar uma resistência armada aos militares. Tornou-se um elo importante para as tentativas de guerrilha que se montaram no Brasil Central, parte de um plano que incluía a guerrilha da Serra do Caparaó, na fronteira entre Minas e o Espírito Santo. Essa guerrilha, politicamente desmotivada, caiu antes de começar, aprisionada sem
dar um tiro. Flávio foi preso por acaso, em virtude de um contato sem importância que fizera com um grupo de Uberaba, que também sonhava em pegar em armas, mas nada de concreto fizera para pôr o sonho em execução. Uberaba foi a guerrilha que não houve, como a Batalha de Itararé, na Revolução de 1930, que, pelo menos, deu ao humorista Aparício Torelli o título que o tornou famoso: Barão de Itararé.
As Memórias do esquecimento revelam, pela primeira vez em detalhes, os projetos de luta armada dos exilados que, em Montevidéu, gravitavam em torno de Leonel Brizola. Mostra como esses planos eram precários, como não passavam por uma discussão ideológica de um projeto para o Brasil e como o seu chefe dela não estava verdadeiramente convencido, o que o levou a abandonar os companheiros depois do primeiro revés.
Finalmente, Flávio dá um depoimento sobre João Goulart no exílio argentino. Velho, alquebrado, a sua inata humildade o impedia de ver a importância histórica do que havia iniciado no seu governo. Morreu de tristeza.
Uma lição: a relação do repórter político com o poder não deve passar pela organização de guerrilhas.
"Imprensa e poder", copyright O Globo, 30/11/99
Paulo Vasconcellos
"Notícias do Planalto - A Imprensa e Fernando Collor, livro do jornalista Mario Sergio Conti lançado esta semana pela Companhia das Letras, não é nitroglicerina pura, mas faz seus estragos. Em 718 páginas não há escândalos suficientes para justificar uma CPI contra empresários de comunicação em particular e jornalistas em geral. Sobram, porém, relatos das relações promíscuas entre o poder e a imprensa. As feridas do primeiro governo eleito depois da redemocratização continuam abertas. Se agora sangram do lado de cá é porque ainda não estavam devidamente cicatrizadas.
Mario Sergio Conti entrevistou 141 pessoas para compor um painel em que se misturam nada menos de 1200 personagens numa história de heróis esparsos, bandidos a granel, inocentes úteis aos montes. A ascensão e queda de Fernando Collor de Mello é reconstruída com minúcia e preciosismo típicos de Veja. Conti foi diretor de redação da revista durante sete anos. Deixou o cargo, mas não a Editora Abril, no final de 1997 para se dedicar ao livro. Atravessou o campo minado das relações entre governo e jornalismo e saiu ileso. ‘Espero não ter fechado nenhuma porta porque ainda sou jornalista e quero continuar sendo’, dizia ontem, quando o livro já começava a provocar as primeiras marolas.
A expectativa do autor diz muito da obra. Notícias do Planalto revê os bastidores do nascedouro da candidatura Collor, o deslumbramento de um eleitorado não acostumado a votar e de uma elite tacanha com um político outsider, a ascensão meteórica do ‘messias dos descamisados’, as trapalhadas e maracutaias da turma que compunha a República de Alagoas, os confrontos com o irmão Pedro Collor e a derrocada até o impeachment – tudo isso no curto intervalo de tempo entre 1989 e 1992.
Jornais e jornalistas ganham pela primeira vez os refletores nessa história nada edificante. No episódio mais comprometedor, Mario Alberto de Almeida, hoje diretor de redação do jornal Gazeta Mercantil, aparece como emissário de uma proposta de US$ 250 mil para o colega Augusto Nunes, na época diretor de redação de O Estado de S. Paulo, publicar uma reportagem que catapultasse a pré-candidatura do ministro Íris Rezende no PMDB. O livro deixa no ar a suspeita de que a proposta também foi feita à Veja, que publicou reportagem com o teor sugerido ao Estadão. Mario Alberto também teria intercedido para que uma capa da revista IstoÉ com Paulo César Farias, tesoureiro da campanha eleitoral de Collor, não fosse publicada.
O livro praticamente isenta os donos da Rede Globo e do jornal O Globo, o empresário Roberto Marinho e os filhos João Roberto e Roberto Irineu, pela edição do último debate da eleição presidencial de 1989, exibida no Jornal Nacional às vésperas da abertura das urnas, no qual o candidato petista Luiz Inácio Lula da Silva é massacrado por Fernando Collor. Os três não haviam gostado da forma como o debate fora condensado no Jornal Hoje, pediram mudanças que estampassem melhor a vitória do candidato do PRN, mas o resultado ficou muito além do esperado. O culpado? O então todo-poderoso Alberico de Souza Cruz, diretor da Central Globo de Telejornalismo, que acabaria caindo no ostracismo quase simultaneamente ao ex-presidente e hoje é diretor de jornalismo da nova Rede TV!.
Sorte melhor só a do diretor de um jornal que Paulo César Farias teria subornado por US$ 180 mil. Mario Sergio Conti conta no livro que o relato foi feito pelo caixa de campanha no último dos mais de vinte encontros que tiveram. O dinheiro serviu para amainar a oposição ao governo Collor. O jornalista jura que o empresário não lhe revelou o nome nem em off – como se diz de informação que o jornal não pode publicar ou, se publicar, tem de preservar a fonte no anonimato. ‘Paulo César Farias prometeu me contar no encontro seguinte, mas acabou assassinado antes com a amante, Suzana Marcolino’, diz Conti. O autor confessa no livro seus próprios pecadilhos. Deixou de dar uma reportagem ruim para o porta-voz Cláudio Humberto Rosa e Silva de olho nas informações que ele lhe poderia passar mais adiante. ‘Foi uma opção. Preferi perder uma boa matéria naquela semana para criar uma boa fonte’, admite Mario Sergio Conti. ‘Preservar a fonte, mesmo quando ela é notícia, é um dos maiores dilemas do jornalismo.’
Trata-se de uma posição discutível. Mario Sergio Conti não se furta a informar no livro que o colunista Elio Gaspari, ex-diretor-adjunto de Veja, tinha um pacto de sangue com uma de suas fontes, o senador Antônio Carlos Magalhães, mas não dá ao detalhe qualquer adjetivação. Da mesma forma o autor relata, exaustiva mas friamente, o processo de fritura de Alceni Guerra que acabou expondo sem pudores o filho do ministro da Saúde. As conversas entre Paulo César Farias e M. F. do Nascimento Brito, que envolveriam, segundo o livro, a venda da empresa para o caixa de campanha de Collor, também são reveladas, mas num tom que não teria captado a ironia peculiar do presidente do Conselho Editorial do Jornal do Brasil, garantem amigos do empresário.
‘A intenção do livro não era fazer uma devassa na imprensa, mas revelar como ela se relacionou com o poder tendo como mote a ascensão e queda de Fernando Collor de Mello’, diz Mario Sergio Conti. ‘O livro desmistifica a imprensa, mas acho que a imagem dela não sai arranhada. Nós jornalistas trabalhamos direito, mas fomos afetados pelas circunstâncias.’ Talvez seja essa ambigüidade que faça de Notícias do Planalto um livro fundamental, mas não definitivo."
"Nitroglicerina quase pura", copyright Jornal do Brasil, 27/11/99
Francisco Luiz Noel
"Um dos vilões de Notícias do Planalto, o jornalista Mario Alberto de Almeida, diretor de redação da Gazeta Mercantil, promete buscar a reabilitação na Justiça, mas corre o risco de enfrentar nos tribunais Augusto Nunes, ex-diretor de redação de O Estado de S. Paulo. Mario de Almeida, apontado como intermediador de proposta de suborno para a publicação de reportagens favoráveis ao pemedebista Íris Resende no Estadão, jura inocência. Mas Nunes, hoje diretor de redação da revista Época, garante que a denúncia é verdadeira e se oferece para depor contra o colega.
Mario Alberto de Almeida diz que acionou advogado para representá-lo. ‘Tenho 30 anos de jornalismo. Sou honesto e vou lutar pela minha carreira. Conheço as regras e as sigo. Não faria diferente mesmo fora da imprensa’, defende-se. Em 1989, quando teria ocorrido o episódio, o jornalista estava no setor privado. Ele não nega ter sugerido a Augusto Nunes matéria sobre Íris Resende, dizendo que o considerava uma boa alternativa do PMDB à Presidência da República. ‘Mas jamais brandi dinheiro’, garante.
Augusto Nunes assegura que ouviu a oferta de US$ 250 mil em troca de reportagens favoráveis a Íris Rezende. ‘Ele só tem um caminho a seguir se se considera injustiçado: me processar’, desafia. Augusto Nunes, que já contara o caso em mais de uma palestra, disse que não denunciou a proposta de suborno na época porque temia não ser acreditado e ver o caso terminar em disse-me-disse. ‘Se eu pudesse saber das ligações que envolvem o Mario Alberto, teria denunciado’, afirma.
Um mês antes da conversa de Mario Alberto de Almeida e Augusto Nunes, a revista Veja publicara matéria sobre Íris Rezende, em que aparecia, no texto, a frase que Mario Alberto teria sugerido que fosse o título da matéria no Estadão – ‘O ministro das boas notícias’. Dez anos depois, o diretor de redação de Veja na época, José Roberto Guzzo, rechaça insinuações sobre a publicação. ‘Quem me conhece sabe quem sou’, diz.
Mario Alberto de Almeida também é acusado, no livro, de ter tentado subornar o jornalista Mino Carta, da IstoÉ, para que a revista não publicasse reportagem de capa sobre atividades suspeitas de Paulo César Farias, o PC. ‘Jamais pedi para tirar matéria’, diz Almeida. O jornalista afirma que, atendendo pedido de um ‘amigo’ que trabalhava na área econômica do governo, foi a Mino Carta apenas para saber se a reportagem sairia. ‘Voltei, telefonei a meu amigo e falei: tem a capa.’ A reportagem sobre PC foi publicada na IstoÉ."
"Acusado quer processo", copyright Jornal do Brasil, 27/11/99
F. L. N.
"Notícias do Planalto - A imprensa e Fernando Collor vem produzindo incômodo sentimento de culpa entre jornalistas que exerciam postos de comando durante a escalada do caçador de marajás ao Planalto. ‘O livro mostra que todos erramos muito na cobertura de Collor’, penitencia-se o ex-editor do Jornal do Brasil Marcos Sá Corrêa, atualmente na revista Época. ‘Não soubemos mostrar ao leitor o perigo que Collor representava’, completa Augusto Nunes, diretor de redação da Época, que dirigia a redação de O Estado de S. Paulo na ocasião.
Um dos poucos a não dar tréguas a Collor na grande imprensa, o jornalista Ricardo Noblat, que mantinha coluna política no JB, atribui ao medo da ascensão da esquerda a excessiva boa vontade com o ex-governador de Alagoas. ‘Acho que a imprensa, de maneira geral, sabia de todos os pecados de Collor’, diz. ‘Mas havia uma grande torcida pela eleição de Collor, para evitar o risco da vitória de Lula.’ Para Noblat, diretor de redação do Correio Brasiliense, ‘a imprensa fica muito mal no livro, mas fez por merecer’.
O jornalista Alberto Dines, editor do Observatório da Imprensa, programa de TV especializado em crítica dos meios de comunicação, concorda com a avaliação de que a imprensa se sai mal no livro, mas considera que isso não deixa de ser ‘salutar’ para o debate sobre o jornalismo. ‘O livro abala um pouco a credibilidade da imprensa, que, aliás, já vem sendo abalada. Mas contribui para tirá-la de um pedestal indevido e colocá-la entre as instituições passíveis de crítica, como o Judiciário’, analisa.
Para Dines, o livro de Mario Sergio Conti é importante não só porque põe em foco a relação imprensa-poder, mas, também, porque mostra que o jornalismo moderno é feito por redações bem estruturadas e hierarquizadas. ‘Esse é um fato positivo, porque representa a autonomia de poder dos profissionais. O problema é que, às vezes, esse poder é exercido de forma voluntarista e até em benefício próprio.’ Dines assinala que o livro ‘é uma grande alavanca para se começar a examinar o esquema de poder nas redações’.
Marcos Sá Corrêa afirma que o erro da imprensa foi não ter investigado os antecedentes políticos e administrativos do ex-governador de Alagoas. ‘Em toda a cobertura das eleições, à exceção de algumas iniciativas da Folha de S. Paulo, a imprensa foi pouco a Alagoas averiguar. Foi preciso Collor passar a repetir em Brasília o que fez em Alagoas para que começássemos a ver quem ele era’, avalia. ‘A grande imprensa não vai ao interior. Antes da CPI do Narcotráfico, por exemplo, tudo isso que acontecia em 14 estados era ignorado.’
Para Augusto Nunes, Notícias do Planalto mostra que ‘as relações que costumam ser promíscuas entre imprensa e poder chegaram a um grau muito elevado’. A polêmica suscitada pelo livro, ele acrescenta, ‘é uma boa chance para explicações de pessoas que aparecem envolvidas em casos de corrupção’. Nunes minimiza o episódio em que foi presenteado por Collor com uma gravata italiana – ‘É de mau gosto’, diz – e afirma que também recebeu lagostins de Alagoas. ‘Saboreei com muita tranqüilidade. Não vi nada grave. Foi um gesto simpático dele.’ (F.L.N.)"
"Jornalistas fazem avaliação", copyright Jornal do Brasil, 27/11/99
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"Os registros de relações perigosas entre o poder e a imprensa no Brasil remontam à Monarquia. Mas é do republicano Campos Sales, presidente de 1898 a 1902, o relato mais detalhado do relacionamento promíscuo de jornalistas com o governo, no livro de memórias políticas Da propaganda à Presidência, editado pelo Senado Federal. ‘Se isso constitui crime, eu o confesso, sem declinar de mim a responsabilidade inteira’, escreveu em capítulo dedicado à imprensa. E não escondeu ter achado ‘conveniente não descuidar de alguns jornais e jornalistas’.
Subvenções governamentais para jornais e agrados a jornalistas, segundo Campos Sales, foram dadas também pelos presidentes que o antecederam – Floriano Peixoto e Prudente de Moraes. No livro, Campos Sales conta com orgulho que eliminou a verba secreta destinada à imprensa, contestando adversários que o acusavam de ter desembolsado de seis mil a oito mil contos com os jornais. Pelas contas do presidente, a despesa foi de apenas mil contos, gastos fora das autorizações dadas ao governo pelo Congresso.
Nos trechos em que volta aos tempos do Império, Campos Sales não economizou tinta para falar de afagos pecuniários do erário a donos de jornais e jornalistas. Referindo-se a Joaquim Nabuco, o republicano assinala que ‘nas contas das verbas secretas dos ministérios de Nabuco há recibos de jornalistas a quem o governo auxiliava’. Invocou também testemunho do Marquês de Paraná. Os governos, disse o marquês, precisam de quem lhes defenda. ‘É necessário que essa tarefa sejá recompensada’, pregou.
O Visconde do Rio Branco, apontou Campos Sales, foi outro que, discursando no Congresso, em 1871, abordou a prática de premiar jornalistas com dinheiro. ‘Todos os ministros do Brasil, sem exceção, têm lançado mão desse meio, têm mandado para os órgãos de publicidade artigos que explicam e justificam os seus atos, defendendo os princípios e os interesses que incumbe sobretudo ao governo defender e sustentar’, afirmou. (F.L.N.)"
"Perigosas e antigas relações", copyright Jornal do Brasil, 27/11/99
Fernando de Barros e Silva
"Notícias do Planalto – A Imprensa e Fernando Collor, do jornalista e ex-diretor de redação da revista Veja Mario Sergio Conti, é um livro que pode suscitar no leitor a vontade de pedir o impeachment de setores do jornalismo brasileiro. Anuncia que é uma história das relações da mídia e dos jornalistas com o fenômeno Fernando Collor, da ascensão e da campanha à Presidência, em 89, à execração pública e ao impeachment, em 92.
Mas esse é apenas o pretexto de 719 páginas de histórias sobre como se fizeram jornais, revistas e TVs nos últimos 30 anos, às vezes mais; sobre encontros e negócios entre gente renomada de imprensa e parte expressiva da elite política e empresarial do país – são 1.200 os seus personagens.
Nos perfis de jornalistas e empresas jornalísticas, há relatos de profissionalismo e honestidade, mas também de fraude e manipulação corrupta. Há, claro, uma descrição rica dos anos Collor, da família Collor, de sua história e ligações. O livro de Conti é, porém, fundamentalmente uma vasta reportagem sobre o funcionamento do poder no Brasil. Não teoriza, não explicita juízos, é econômico nos adjetivos, narra, apenas.
Há no livro diálogos detalhados de pressões vulgares de governantes sobre jornalistas ou de participação direta destes em peças publicitárias de campanha eleitoral; panoramas, histórias nada edificantes ou francamente criminosas de como se fizeram e se mantiveram jornais e proprietários da mídia, mas também políticos, traficantes de influência e burocratas (leia trechos abaixo).
Notícias do Planalto é um dos raros livros brasileiros a mostrar, dando nomes, como funcionam o jornalismo, redações e empresas editoriais. Conti viu muito do que conta, entrevistou 141 pessoas, recortou o que de útil e factual há de publicado sobre o assunto. Narra escândalos e relações promíscuas como quem observasse com naturalidade a passagem de rinocerontes por uma sala de estar.
Por vezes, as feras são seus próprios colegas de trabalho ou subordinados; outras, ele mesmo é o rinoceronte, e a naturalidade tem um pouco de autocomplacência, embora tal característica seja uma segunda natureza ou vício profissional de jornalistas.
Fofocas e ódios
Que o livro de Conti é destinado a um muito provável sucesso de escândalos já pôde ser medido pela excitação algo mórbida que causou em colegas e políticos antes mesmo de ser lido. O livro chegou às livrarias anteontem, mas já circulava pelas redações desde segunda-feira. Jornalistas gostam de fofocas, sobre seus pares em particular. Nisso não diferem de políticos ou de intelectuais. E o ex-diretor da Veja lhes serviu o prato dileto: histórias, e ótimas histórias, histórias terríveis.
Já provocou ansiedade, ódios antecipados, pequenas e grandes decepções. As reações colhidas pela Folha com alguns dos principais personagens vão do sintomático ‘não li, não gostei’ à acolhida triunfal (‘é sensacional’). ‘O livro é mais pretensioso, não é uma sucessão de escândalos; os podres, que são significativos, estão dimensionados’, diz Conti.
Collor recebeu o livro do autor anteontem. Disse que deu apenas uma espiada. ‘Parece um relato importante de um período instigante da política nacional’, disse, por intermédio de um assessor. Dificilmente manterá a mesma opinião depois de ver esmiuçados sua biografia e seu governo.
Mas é na empresa em que trabalha, a editora Abril, na qual está desde o início de 98 em licença remunerada para escrever o livro, que Conti provocou a reação mais irada. José Roberto Guzzo, atual diretor da revista Exame, sentiu-se pessoalmente atingido por um trecho em que o autor dá a entender que Veja publicou, mediante pagamento, duas reportagens favoráveis a Iris Rezende (ex-ministro da Justiça de FHC) quando este era candidato ao governo de Goiás, em 90, e pré-candidato do PMDB à Presidência, em 89. Guzzo era diretor de redação da Veja naquela época.
Segundo Conti, o jornalista Mário Alberto de Almeida, hoje diretor de Redação da Gazeta Mercantil, teria oferecido a Augusto Nunes, então diretor de Redação de O Estado de S. Paulo, US$ 250 mil para fazer uma reportagem sobre Rezende. O título, ‘obrigatório’, seria ‘O ministro das boas notícias’ (Rezende era ministro da Agricultura de Sarney). Nunes, hoje dirigindo a revista Época, confirma a tentativa de suborno, que Almeida nega. A formulação que deveria constar no título apareceu, com leves alterações sintáticas, em duas reportagens de Veja sobre Rezende, em fevereiro de 89 e agosto de 90.
A Folha apurou que Guzzo teria ido se queixar nesta semana ao presidente do grupo Abril, Roberto Civita. Mas nenhum dos personagens fala sobre o assunto.
O tema em questão ocupa apenas duas páginas do livro (da 375 à 377). Há nele muitas outras histórias pormenorizadas, da edição do debate entre Lula e Collor feita pelo Jornal Nacional, em 89, passando pelos bastidores da invasão da Folha pela Polícia Federal, no início do governo, em 90, até casos de corrupção no governo Fleury, em São Paulo. O livro tem esse efeito, de ressuscitar cadáveres na memória do leitor.
Fumante contumaz, o ex-diretor da Veja estava visivelmente eufórico e ansioso quando falou à Folha sobre o livro, na quarta-feira. Mas não demonstrava nenhum traço que lhe deu entre colegas a fama de ser um chefe de redação particularmente taciturno e tirânico. ‘Estou pela primeira vez do outro lado do balcão.’
Conti comandou a revista de 91 a 97. Diz estar agora em negociações com Civita para dirigir uma nova publicação da Abril, ‘uma revista mensal com reportagens’, para o ano que vem. Aos 45 anos, está desde 83 na Veja, depois de ter editado por um ano o extinto Folhetim, da Folha, onde iniciou sua carreira, em 77.
No epílogo do livro, o autor narra uma conversa que teve com PC Farias quando este conquistou a liberdade condicional. ‘Farias gargalhou quando pedi que comentasse uma frase de Samuel Wainer, o criador da Última Hora, no livro de memórias que escreveu: ‘Não é possível escrever a história da imprensa brasileira sem dedicar um vasto capítulo aos empreiteiros’. PC disse: ‘Não dá para escrever a história da política brasileira sem que as grandes empreiteiras apareçam em cada página, e sem dedicar um monte de capítulos aos banqueiros’. Farias contou também que, em 1990, deu 180 mil dólares ao diretor de um órgão de imprensa para que ele amenizasse as críticas a Collor no início do governo’. Conti diz que PC não quis lhe revelar a identidade do personagem. Mas revelações não faltam neste que é um marco e uma pedra no jornalismo nacional."
"Os donos do (4º) poder", copyright Folha de S.Paulo, 26/11/99
F.S.P.
"Págs. 162/163
‘O ápice da influência de Roberto Marinho no governo se deu durante a Nova República. Influência pedida e acatada por Tancredo Neves e José Sarney. ‘Eu brigo com o ministro do Exército, mas não com Roberto Marinho’, dizia Tancredo na formação de seu governo. Presidente eleito, ele escolheu Antônio Carlos Magalhães, dono da retransmissora da Rede Globo na Bahia, para ser o ministro das Comunicações. ‘O senhor se incomoda se Roberto Marinho lhe fizer o convite para ser ministro?’, perguntou Tancredo a Antônio Carlos, querendo agradar o dono da Globo. ‘Não, não me incomodo, ele é meu amigo’, respondeu o político. Mas Roberto Marinho não aceitou. Explicou a Tancredo que, se ele fizesse o convite, estaria enfraquecendo Antônio Carlos, que deveria ser visto como ministro do presidente, e não da Globo. Ao demitir Dilson Funaro do Ministério da Fazenda, o presidente José Sarney quis pôr no cargo o governador cearense Tasso Jereissati e articulou uma conversa entre ele e Roberto Marinho, Jereissati não foi ministro porque Ulysses Guimarães impôs Bresser Pereira, que ficou meses no Ministério. Novamente, Sarney organizou um encontro entre Roberto e seu candidato para o cargo, Mailson da Nóbrega. Eles se reuniram no escritório da Globo em Brasília no começo de 1988. Cortês, Roberto Marinho sabatinou Mailson da Nóbrega. Queria saber as idéias dele sobre inflação, câmbio, juros, tudo. Mailson saiu da sala e encontrou Antônio Carlos Magalhães, que entrou para falar com Roberto Marinho, voltou e lhe disse que o dono da Globo gostara da conversa. Dez minutos depois, antes que Sarney avisasse Mailson, o plantão do Jornal Nacional noticiou que ele era o novo ministro.’
Pág. 558
‘Jorge Bornhausen chegou ao edifício Abril no começo da noite, acompanhado de Antônio Martins, seu assessor de imprensa, e Mauro Salles. Conversou brevemente com Roberto Civita. Em nenhum momento ele pediu que Civita não publicasse a entrevista. Quis saber o que Pedro Collor falava e o dono de Veja lhe disse que era melhor conversar comigo. Recebi o ministro em minha sala, junto com Tales Alvarenga e Paulo Moreira Leite. Ele lamentou a crise provocada pelo irmão do presidente. Disse que o ministério fora totalmente reformado e o governo estava recomeçando em novas bases. Não pediu que a entrevista não fosse publicada, mas indagou se nela havia fatos graves.
–‘De que tipo, ministro?’, perguntei.
–‘Por exemplo, tem corrupção?’
–‘Tem.’
–‘Tem drogas?’, prosseguiu Bornhausen.
–‘Tem.’
–‘Tem sedução?’
–‘Tem.’
–‘Tem rabo?’
–‘Como, ministro?’
–‘É, tem rabo, homossexualismo?’
–‘Não, não tem.’'
Bornhausen interrompeu o questionário. Conversamos mais um pouco e ele foi embora.’"
"Trechos", copyright Folha de S.Paulo, 26/11/99
F. B. S.
"Leia abaixo trechos da entrevista que o jornalista Mario Sergio Conti concedeu à Folha na quarta-feira, na sede da editora Companhia das Letras, em São Paulo.
Folha – Lendo o livro, se tem a impressão de que você fez com a imprensa o que ela fez com Fernando Collor durante o período que culminou no processo de impeachment. Ou seja, uma espécie de devassa. O livro trata mais da imprensa do que do governo Collor, embora tenha revelações sobre este também.
Mario Sergio Conti – É isso mesmo. O livro é, em primeiro lugar, sobre a imprensa e, em segundo, sobre o poder, sobre as relações do poder com essa outra instância de poder que é a imprensa. Em terceiro lugar, é sobre o Collor, que funciona quase como um pretexto.
Escolhi o período por ter participado da sua cobertura e porque a imprensa nunca foi tratada no Brasil da maneira como mereceria. Há livros excelentes a respeito, o do Claudio Abramo (A Regra do Jogo) e o do Samuel Wainer (Minha Razão de Viver), e eu me inspirei neles.
Mas em relação aos diversos níveis de apuração e de decisão, do patronato aos repórteres e fotógrafos, não há praticamente nada publicado. Parece que a imprensa brasileira não tem história. Não fiz a história da imprensa, mas pego os últimos 30, 40 anos para contá-la por dentro.
O objeto do livro é muito maior do que o período Collor. Era essa a idéia inicial?
Conti – Na cobertura do Collor, os órgãos de imprensa agiram segundo a sua formação, a sua história. Se a Folha é boa em polêmica, em puxar briga, no tom agressivo, eu quis investigar de onde vem isso. Da mesma forma o Estadão. Se ele é respeitado pelos editoriais, pela sua palavra, por refletir um certo anseio da burguesia e da classe média paulistana, é preciso investigar o porquê.
Você diz na biografia que se inspirou fundamentalmente em The Powers That Be, de David Halberstam, que conta a história de quatro empresas jornalísticas norte-americanas até o caso Watergate.
Conti – Ele pega a Time, a CBS, o Los Angeles Times e o The New York Times desde o começo até o Watergate. Meu livro é nitidamente inspirado nisso, mas não é uma transposição automática, contempla particularidades da história brasileira.
As biografias que o livro traça resultam às vezes simpáticas aos retratados, embora o conjunto seja avassalador. O livro mostra que a imbricação da imprensa com o poder é maior do que se imagina. É um raio X do patronato brasileiro?
Conti – Concordo que o livro seja simpático à imprensa sem ser condescendente. Todo leitor de Antonio Candido deve lembrar quando ele diz, na abertura da Formação da Literatura Brasileira, que, sem abandonar o espírito crítico, é simpático ao assunto; sem ir longe na comparação, eu também me arrogo ao dizer que, sem abandonar o espírito crítico, sou simpático à imprensa. É o meu meio, gosto e vivo disso. É importante, além disso, que se tenha no país uma imprensa livre, atuante, dinâmica. Isso tem os seus outros lados: uma tremenda competição entre as empresas. E a imprensa está imbricada com o poder. Não é uma relação umbilical, é uma simbiose.
Eu quis mostrar como isso se dá na prática. Não sei se é uma devassa da imprensa, talvez não seja essa a melhor palavra, mas é uma tentativa de raio X do seu modo de operar. A intenção não foi hostilizar, foi mostrar a vida real, como isso funciona na prática.
Mas você não trata os meios de comunicação em bloco, procura as idiossincrasias, as especificidades. Quando começou, o projeto era esse?
Conti – O livro nasceu da minha curiosidade de entender os meios de comunicação. Por exemplo, por que certos meios que tinham maior vocação para fazer a exposição dos escândalos envolvendo Collor não o fizeram? A Folha tinha tudo para fazer isso. Foi a primeira a apurar, ainda durante a campanha eleitoral, os escândalos de Collor em Alagoas. Fez uma série de reportagens assinadas por Elvira Lobato, Clóvis Rossi. No entanto, perdeu o pé. Por que perdeu? Eu não tinha respostas a essas perguntas, acho que o livro reúne elementos para se traçar o perfil e o comportamento de cada órgão de imprensa, durante, mas também antes de Collor.
O livro tem dois movimentos claros, sinalizados nas duas partes em que se divide. O primeiro, de incorporação de Collor pela chamada burguesia, os setores dominantes da sociedade; o segundo, de expulsão de Collor por aqueles que o haviam acolhido. Embora você não faça a análise política desse processo de maneira explícita, ela está pressuposta. Fica claro que Collor não caiu por causa da corrupção, apenas.
Conti – Concordo. O livro procura mostrar como um sujeito de um Estado afastado, periférico, desconhecido, consegue ascender ao plano nacional e galvanizar os eleitores. Há um senso comum que diz ‘a Globo fez o Collor’. Não foi assim. O Roberto Marinho tinha outros candidatos, resolveu apoiar o Collor um pouco a contragosto, quando ele tinha 43% das preferências. O Collor se fez muito em função do que conseguiu com os jornalistas, não com os patrões. A entrevista para o Jornal do Brasil, o Globo Repórter e as páginas amarelas da Veja em 87, a capa da Veja em 88. Tudo foi responsabilidade dos profissionais, não adianta colocar a culpa no patrão. Fomos nós que fizemos aquilo. Por identidade política ou por inexperiência. Isso mostra o crescimento do Collor e como a burguesia foi atrás dele sabendo em parte quem ele era. Depois, no governo, é evidente que ele não caiu só por corrupção. Foi um movimento muito mais amplo. A hostilidade dele em relação ao empresariado, o plano delirante do PC de ter uma TV que se contrapusesse à Globo e uma companhia de aviação que fizesse frente à Varig, isso tudo tem de ser levado em conta. Não vamos negar a corrupção, obviamente, mas a queda só se consuma depois das manifestações populares.
A capa do ‘Caçador de Marajás’, publicada pela Veja em 88, ficou com má fama depois de tudo o que aconteceu na ‘Era Collor’. Você sugere que a escolha da capa foi quase casual, que havia outra reportagem para ser capa e que acabou pesando em favor de Collor uma boa foto que havia sido feita por Ubirajara Dettmar. Pode soar como desculpa a posteriori.
Conti – Aquela capa estava correta. Você tem um governador de Alagoas que está combatendo o nepotismo, a ineficiência da máquina pública, o apadrinhamento, e que está atacando o governo central. Esse sujeito é bem-apessoado, articulado, fotogênico, carismático. Isso é notícia. Uma das funções da imprensa é revelar personagens novos.
Não acho correto atribuir a ela benefício eleitoral ao Collor. A reportagem é de março de 88, a eleição foi no fim de 89. Isso seria estigmatizar a grande imprensa por razões erradas. Pode-se e deve-se atacá-la, mas com inteligência. Era melhor dar a capa ao bonitão com aquela foto do que ao Ulysses Guimarães, conhecidíssimo, manobrando pelo parlamentarismo, um tema chatíssimo. Foi uma opção editorial.
Depois de ter feito a capa com Pedro Collor denunciando o esquema PC e outra com Renan Calheiros dizendo que Collor sabia de tudo desde o início, a Veja publicou uma capa perguntando ‘No que vai dar a crise?’, colocando, em forma de teste, as alternativas seguintes: ‘Impeachment; renúncia; parlamentarismo já; Collor continua, forte; Collor continua, fraco’, esta última assinalada. Você atribui a responsabilidade da capa a uma decisão pessoal sua, mas a impressão é de que houve um recuo, fruto da pressão sobre Roberto Civita.
Conti – O Roberto estava viajando. A decisão foi tomada por mim, e eu errei na avaliação. Imaginei: o Collor está se recuperando, está se apoiando na paralisia da apuração e acho que ele vai até o fim, enfraquecido. Errei.
Qual veículo de comunicação se saiu melhor no período, em termos jornalísticos?
Conti – Não é um campeonato. Isso empobrece a discussão. A capa do Pedro Collor foi fundamental. Não acho que ela teria saído se não houvesse a história da Veja, uma cultura acumulada desde as reportagens de 69 sobre o regime militar que eu recupero no livro. Não acho também que seria possível aquela capa sem o que a Folha fez antes, a apuração em Alagoas durante a campanha, a reação ao processo que o presidente moveu contra jornalistas da Folha, a carta aberta ao Collor escrita pelo Otavio (Frias Filho). Tem também as reportagens do Jornal do Brasil sobre a LBA, envolvendo a Rosane (Collor). Isso vai criando uma acumulação, e os diversos órgãos vão reagindo aos fatos à sua maneira. Não se deve subestimar o trabalho dos repórteres, aqueles que descobrem as coisas e conseguem publicá-las porque o órgão em que trabalham é de certa maneira.
O que mudou na imprensa depois de Collor?
Conti – Estruturalmente não mudou nada. Continuam as mesmas empresas e basicamente os mesmos profissionais à frente delas. Mas é mais difícil que um aventureiro possa ser tratado hoje como Collor foi tratado na campanha, com certa ligeireza. A imprensa está mais atenta.
E a imbricação dos meios de comunicação com o poder, mudou alguma coisa?
Conti – Estruturalmente permanece a mesma coisa. É claro que há mudanças. Hoje quem está na direção de jornalismo da Rede Globo é o Evandro (Carlos de Andrade), não é mais o Alberico (Souza Cruz). Quem está na direção são Roberto Irineu e José Roberto, o doutor Roberto Marinho está se afastando. Isso provoca alguma modificação. Mas não são mudanças estruturais.
Você incluiu denúncias de corrupção envolvendo jornalistas. Mário Alberto de Almeida, atual diretor de redação da Gazeta Mercantil, é acusado de ter oferecido, em 89, 250 mil dólares ao então diretor de redação de O Estado de S. Paulo, Augusto Nunes, em troca de reportagens favoráveis a Íris Rezende, ministro da Agricultura de Sarney, que queria se cacifar como candidato do PMDB para a eleição presidencial.
Conti – Essa história em parte não é nova. Está relatada numa tese universitária escrita por Liege Socorro Albuquerque Peres, que entrevistou o Mino (Carta), que se referiu ao episódio sem citar nomes. Eu sabia os nomes.
Mas no seu livro, logo depois de relatar o caso, você diz que a Veja publicou duas reportagens a respeito de Íris Rezende, uma em fevereiro de 89 e outra em agosto de 90, quando era candidato ao governo de Goiás. Nas duas reportagens, a expressão ‘o ministro das boas notícias’, que, segundo você diz, deveria constar como título obrigatório da suposta reportagem recusada por Nunes, aparece no meio do texto, com pequenas variações. É uma coincidência?
Conti – Não há nenhuma insinuação, nenhuma conclusão. Eu não consegui apurar. Apenas registrei que a expressão que Mário de Almeida exigia está em Veja.
O diretor da Veja na época era José Roberto Guzzo. Você está sugerindo que houve corrupção na revista?
Conti – Estou apenas registrando o fato. Não gostaria que o livro fosse lido em função desses casos, embora sejam significativos.
No epílogo, você aborda a morte de PC e parece reiterar a versão do crime passional seguido de suicídio. A Veja comprou a versão na época. Você ainda acredita nela?
Conti – A nossa primeira reportagem não era taxativa em favor do crime passional. Depois demos uma capa dizendo ‘Caso encerrado’, quando obtivemos o laudo com exclusividade. Acreditei que o laudo estava bem fundamentado e se casava com a hipótese do crime passional. Posteriormente viu-se que o laudo era contestável. No livro eu quis retomar a tese do crime passional, que ficou esquecida. Mas o caso não está encerrado e devemos ir com calma."
"Collor se fez em função de jornalistas, não de patrões", copyright Folha de S.Paulo", 26/11/99
Ascânio Seleme e João Domingos
"BRASÍLIA. Algumas das mais importantes páginas da história da imprensa brasileira foram escritas entre 1990 e 1992, anos em que Fernando Collor ocupou o Palácio do Planalto. Noticiando, investigando e confirmando as denúncias que envolviam presidente e assessores num vasto esquema de corrupção, jornais, revistas e emissoras de TV municiaram os deputados que, a 29 de setembro de 1992, aprovaram por 441 votos a 38 a abertura, pelo Senado, do processo de impeachment.
Não deixa de ser curioso que seja justamente esse período o campo de reflexão do livro Notícias do Planalto - A imprensa e Fernando Collor’ do jornalista Mario Sergio Conti (Cia. das Letras, 719 páginas, R$ 35), que chegou às livrarias esta semana: no livro estão os bastidores das relações, não raramente promíscuas, entre os jornalistas e o poder, e o que da leitura resulta é a imprensa com as vísceras expostas. Conti, de 45 anos, começou a escrever o livro após deixar o cargo de diretor de redação da revista Veja. O autor quis mostrar como agem jornalistas e donos de empresas de comunicação, que laços estabelecem com o poder político e como funcionam as redações da grande imprensa, ‘essa corporação que investiga todos os meandros da vida nacional e tão pouco revela de si mesma’, diz Conti na apresentação da obra.
– A intenção é abrir o debate. Quero levar o livro às faculdades, às redações – diz.
Publicado depois de quase dois anos de entrevistas (141) e leituras (101 publicações, fora as notícias de jornais e revistas), o relato de Conti ao mesmo tempo em que consagra alguns bons profissionais deixa outros numa situação desconfortável. A grande novidade do livro, por exemplo, é pôr alguns daqueles que comumente denunciam o suborno no papel dos corruptos e dos corruptores. Um dos episódios mais polêmicos diz respeito a Mario Alberto de Almeida, hoje diretor do jornal Gazeta Mercantil, e Fernando Sandoval, ex-assessor de imprensa do Governo paulista. Eles teriam, em épocas distintas, tentado subornar colegas. Segundo o livro, Almeida teria oferecido, sem êxito, US$ 250 mil a Augusto Nunes, então diretor de redação de O Estado de S. Paulo, para que fizesse, pessoalmente, reportagens favoráveis ao trabalho de Íris Rezende à frente do Ministério da Agricultura no Governo José Sarney. Iris queria ser candidato a presidente e disputaria a vaga na convenção do PMDB com Ulysses Guimarães e Waldir Pires.
No relato de Conti, Mario de Almeida aparece dizendo que Nunes precisava ‘pensar no futuro de suas filhas e fazer um pé-de-meia’. Teria sugerido que Nunes participasse de um esquema em que a soma mencionada lhe seria entregue se ele assinasse a primeira reportagem, com o título de ‘O ministro das boas notícias’. Mario de Almeida, que estaria nervoso e teria mostrado a Nunes um envelope com notas de dólares, teria dito ainda que já havia conversado sobre o mesmo assunto na Veja e na IstoÉ. Teria acrescentado que nesta o esquema não passava por Mino Carta, seu diretor de redação. Não teria feito, contudo, nenhuma ressalva quanto a José Roberto Guzzo, então diretor de redação de Veja, hoje diretor da Exame, da Editora Abril.
Mario Sergio Conti reproduz trechos de uma notícia publicada pela Veja de 22 de fevereiro de 1989, na qual enaltece o trabalho de Íris no Ministério da Agricultura. Diz o texto de Veja: ‘Íris Rezende foi um dos poucos ministros da era Sarney que saiu do Governo ainda segurando um punhado de prestígio. Ao contrário dos demais ministros da área econômica, Íris sempre teve alguma boa notícia para anunciar no seu pedaço de governo’. O termo ‘boa notícia’, oferecido a Nunes, aparece em Veja.
– Eu não digo que Guzzo recebeu dinheiro – afirma Conti. – Há fatos. Narro os fatos. Não escrevi que recebeu dinheiro nem que ele escreveu a matéria.
Em outro trecho do livro, porém, o autor faz referência direta a Guzzo, envolvendo Fernando Sandoval, apresentado a Conti pelo próprio Guzzo. Segundo o autor de Notícias do Planalto, Sandoval teria oferecido US$ 200 mil a Paulo Moreira Leite, editor de Veja. O dinheiro seria para que uma pessoa, não identificada, tivesse proteção da revista. E seria pago em três meses. Conti diz que Guzzo ficou escandalizado quando soube da oferta de Sandoval. Mais tarde, entretanto, sugeriu que Veja não escrevesse a notícia de que ocorrera tentativa de suborno, alegando que a revista liquidara o caso com uma nota na coluna ‘Radar’. A nota, porém, não mencionava nomes.
O livro relata que Sandoval teria tentado comprar o mesmo Augusto Nunes, que já havia sido vítima de Mario Alberto de Almeida. Ele teria procurado Nunes, então, diretor do Estado de S. Paulo, meses antes, oferecendo repartir US$ 600 mil se ele cuidasse de ‘zelar pela imagem de Fleury no Estadão’. Luís Antônio Fleury Filho era o governador de São Paulo na ocasião.
Mario Alberto de Almeida desmente as informações de Conti. Diz ter as mãos limpas e ameaça processar o autor do livro. Ele confirma que falou com Nunes sobre Íris, mas nega ter oferecido qualquer soma ao jornalista. Diz ainda que só conversou uma única vez com Mario Sergio Conti, quando este telefonou pedindo uma entrevista.
– Não dei a entrevista mas confirmei que falara sobre Íris, que sonhava ser candidato, com o Augusto Nunes – diz Mario de Almeida, que confirma também ter interferido em favor de PC Farias junto a Mino Carta, diretor de IstoÉ, que preparava uma capa sobre o tesoureiro de Fernando Collor. – Mas não falei de dinheiro. E jamais sugeriria um título de matéria a um colega que sabe perfeitamente como fazê-lo. Tenho as mãos limpas.
Posto pelo livro sob suspeita de ter recebido propina, José Roberto Guzzo não quer falar sobre o assunto. Segundo ele, jornalista não dá e sim faz entrevista.
– O que tenho a dizer, digo aqui na redação, para os que trabalham comigo e me conhecem. Fora disso, não vou falar sobre essa bobajada toda – resume Guzzo.
Embora Guzzo não confirme, ele estaria tão aborrecido que teria dado um ultimato, ao dono da Editora Abril, Roberto Civita:
– Ou ele ou eu – disse a Civita, referindo-se a Conti, que ainda é funcionário da empresa e está em licença remunerada.
Augusto Nunes, hoje diretor de redação da revista Época, confirma o relato de Conti. Foi ele, inclusive, quem observou que Veja publicara reportagens nos termos propostos por Mario Alberto de Almeida. Segundo Nunes, a revista voltaria a tratar bem Íris em outras ocasiões imediatamente posteriores.
– Confirmo tudo. Já havia dado uma entrevista sobre esta questão mas apenas agora aparece o nome de Mario Alberto. Ele me ofereceu dinheiro e pediu para que assinasse a primeira matéria. Queria a impressão digital – diz Nunes.
Mario Sergio Conti também faz uma acusação genérica em seu livro baseando-se unicamente num relato de PC Farias, impossível de ser checado. Numa visita que Mario Sergio, ainda diretor de Veja, fizera a PC em Maceió, depois do relaxamento de sua prisão, o ex-tesoureiro de Collor lhe fez a revelação que Conti trata desta forma no epílogo do livro: ‘Farias contou que, em 1990, deu 180 mil dólares ao diretor de um órgão de imprensa para que ele amenizasse as críticas a Collor no início do Governo’.
– Não sei quem era esse diretor. PC não me disse. Queria voltar a tratar desse assunto com ele, mas PC morreu – diz Conti.
Outro ponto sujeito a polêmica em Notícias do Planalto é o detalhamento da forma como foi publicada, pelo Jornal do Brasil, a primeira notícia sobre a ‘Operação Uruguai’, o controvertido empréstimo de US$ 5 milhões feito por Collor no Uruguai. O empréstimo foi a justificativa que Collor encontrou para explicar como mantinha um alto padrão de vida, incompatível com seus rendimentos. A CPI de Paulo César Farias, que desembocou no pedido de impeachment de Collor, concluiu depois que a operação fora uma fraude. Segundo Conti, Manoel Francisco do Nascimento Brito, dono do JB, sabia da movimentação de Etevaldo Dias, seu diretor em Brasília, enviado ao Uruguai para fazer entrevistas exclusivas com dois banqueiros encarregados do empréstimo, revelando, assim, em primeira mão, o que viria a ser conhecida como ‘Operação Uruguai’. No livro, Conti não afirma que a operação foi uma fraude.
– Fiz o que qualquer repórter faria – diz Etevaldo. – Tive a oportunidade de uma matéria exclusiva e fui fazê-la. Não tinha tempo nem condição de aprofundar as investigações. Minha matéria no JB não assinou a defesa da operação. Era apenas um relato fiel da entrevista com dois dos personagens daquilo que a imprensa apelidou de ‘Operação Uruguai’.
Etevaldo foi o último porta-voz de Collor. Saiu do Jornal do Brasil poucos dias depois de escrever a reportagem sobre a ‘Operação Uruguai’, para ocupar o cargo de assessor de imprensa do Palácio do Planalto.
O diretor de redação do jornal na época, Dacio Malta, estava em Londres quando as reportagens de Etevaldo foram publicadas. Ao voltar, chamou Etevaldo ao Rio e o afastou da coluna ‘Coisas da Política’, que substituía a ‘Coluna do Castelo’ às segundas-feiras. Etevaldo protestou, disse que estava sendo censurado e que tivera o respaldo de Manoel Francisco do Nascimento Brito para fazer a viagem ao Uruguai. Dacio manteve a sua decisão e sugeriu a Etevaldo que aceitasse o convite para ser porta-voz de Collor, noticiado pelo Estado de S. Paulo. Etevaldo disse a Dacio que não havia convite algum e voltou depois do almoço para a Brasília. No fim da tarde, ligou para Dacio dizendo que fora convidado e aceitara ser porta-voz do Planalto.
Um dos episódios mais polêmicos da eleição de Collor diz respeito à edição que o Jornal Nacional da Rede Globo fez do último debate antes do segundo turno da eleição presidencial, entre Collor e Lula, em 1989. Conti afirma que o jornalista Alberico Souza Cruz fez a edição do debate favorável a Collor, dando-lhe um minuto e doze segundos a mais que Lula. O livro diz que o presidente das Organizações Globo, jornalista Roberto Marinho, mandara reeditar a versão do vespertino da emissora, o Jornal Hoje, para deixar claro que Collor havia se saído melhor que Lula, mas não que isso implicasse diferenças de tempo na tela entre os candidatos. Para Conti, Alberico privilegiou Collor por conta própria. Alberico contesta.
– Se ele diz que a responsabilidade pela edição é minha, ele está mentindo – afirma. –Ainda não li o livro. Mas tenho uma certeza: os patrões devem ter ficado muito bem. Insisto que a edição foi totalmente correta. E não tive responsabilidade. Incorreta foi a edição do Hoje.
O diretor de jornalismo da Rede Globo na época era Armando Nogueira.
– Eu disse ao Alberico que reproduzisse no Jornal Nacional a versão que tinha ido ao ar no Jornal Hoje e que era absolutamente correta – conta Nogueira. – Por conta própria, o Alberico e o Ronald de Carvalho modificaram a versão, distorcendo os fatos. Duvido que o doutor Roberto tenha dado esta orientação. Isto foi feito lá embaixo, nos porões do telejornalismo.
Nogueira conta ainda que, depois da exibição do debate, disse a Roberto Marinho que que a edição fora muito infeliz e tomou providências, tirando Alberico da organização da pauta do Jornal Nacional por ele não merecer mais sua confiança.
O próprio Mario Sergio Conti se põe na berlinda no livro. Ele assume ter se recusado a publicar em Veja uma notícia sobre os gastos excessivos de Cláudio Humberto Rosa e Silva, então porta-voz do Planalto, com seu cartão de crédito, porque queria ganhar a sua confiança.
– Não publiquei a notícia e Cláudio Humberto virou minha fonte – admite Conti. – Isso é discutível. Eu fiz e assumo. Acho que outros já fizeram.
Cláudio Humberto foi poupado por Veja também quando deixou o cargo de porta-voz. A maioria dos outros veículos de comunicação o atacava. A revista, por determinação de Conti, publicou que ele tinha sido durante toda a gestão um ‘profissional competente’. Cláudio Humberto retribui dizendo que a sua relação com Veja era de confiança mútua.
– Acho que uma fonte se credencia pela credibilidade e o jornalista por ser um interlocutor competente – afirma Cláudio Humberto. – Minha relação de confiança com a revista é anterior a Mario Sergio. Ele ainda não era o diretor quando saiu a capa com o título ‘O caçador de marajás’. O caso da reportagem sobre o cartão de crédito, que Mario Sergio não quis fazer, era uma bobagem, mas foi a demonstração de um gesto de boa vontade. Ajudou-me a criar a relação de confiança. Quando eles estavam no caminho errado, eu dizia: isso aí está no caminho errado. Eu podia até não ajudar, mas nunca atrapalhei. Não ia ajudar ninguém a derrubar o Governo, mas também não atrapalhava. Eles aprenderam a interpretar o meu silêncio."
"A imprensa na berlinda", copyright O Globo, 27/11/99
Trechos
"‘Na tarde de Sexta-Feira Santa, 24 de março de 1989, Mario Alberto de Almeida entrou na sala de Augusto Nunes no Estado de S.Paulo. Vestia um abrigo. Estava nervoso. Suas mãos tremiam levemente. Começou dizendo que Nunes ganhava pouco e mencionou o salário do diretor de redação do ‘Estado’ (...). ‘Você precisa pensar no futuro das suas filhas, Augusto, tem que fazer o seu pé-de-meia’, disse Almeida. Ele poderia dar um jeito para que Nunes participasse de ‘esquema’ que envolvia a Andrade Gutierrez, o Banco de España e passava por Campinas. Nunes receberia, disse, 250 mil dólares para publicar no Estado matérias elogiosas a determinados políticos. A primeira delas focalizaria Íris Rezende, precisaria ser assinada pelo próprio Nunes e teria o título obrigatório de ‘O ministro das boas notícias’. (...) O pagamento pelas reportagens seria feito por meio da agência do Banco de España na Avenida Paulista, ou ‘em verdinhas’, completou Almeida, exibindo um envelope fechado. O diretor do Estadão supôs que ‘Campinas’ significasse Orestes Quércia, cidade onde o governador paulista fora prefeito. Mas não perguntou se sua interpretação estava correta. Ficou na dúvida se encerrava a conversa ou pedia mais detalhes. Acabou indagando: ‘Mas como é isso?’ Mais relaxado, Almeida respondeu: ‘Tenho conversa na Veja e na IstoÉ’. E esclareceu: ‘A conversa na IstoÉ não passa pelo Mino’. Nunes (...) falou que pensaria no assunto. Mas em seguida relatou o ocorrido a seu superior imediato, Julio de Mesquita Neto, e a seu braço direito na redação, o editor-executivo José Paulo Kupfer, que a repetiu a outros colegas. Almeida telefonou e ofereceu um jatinho que o levaria a Brasília para entrevistar Íris Rezende. Nunes recusou e o ex-colega continuou a telefonar. O diretor do Estado, nascido em Taquaritinga, no interior paulista, mandou então um bilhete a Mario Alberto de Almeida. ‘Coloque na conta da minha (de)formação interiorana, mas não sei lidar com corrupção’, escreveu. (...) ‘Espero que você volte ao bom caminho.’ Almeida reconhece que esteve com Augusto Nunes naquela ocasião e falou sobre Íris Rezende, mas nega que tenha oferecido dinheiro ao diretor de redação de O Estado de S. Paulo.
Na edição de 22 de fevereiro de 1989, Veja publicou uma reportagem de duas páginas intitulada ‘O cacife de Íris’, com o subtítulo ‘No meio da guerra interna do PMDB, o ministro da Agricultura luta para lançar sua candidatura’.’
***
Pedro Collor pediu a uma equipe da TV Gazeta que estivesse em sua casa às dez da noite. Telefonou a Luis Costa Pinto no hotel e falou para ele estar lá no mesmo horário. Queria gravar a entrevista em vídeo, para que não houvesse dúvidas de sua intenção. (...) Os técnicos da emissora montaram um arremedo de estúdio. A gravação se estendeu da meia-noite às quatro da manhã. Como foi feita com equipamento U-Matic e Costa Pinto precisava de uma fita em VHS para assistir a ela e trancrevê-la no videocassete da redação de Veja, ele saiu direto da casa de Pedro para a TV Gazeta. Com a ajuda de uma editora da emissora, transcreveu a fita original para o outro sistema. Pegou então a fita-mãe e tacou fogo nela. (...) A atitude, aparentemente bárbara, tinha razão de ser. Além de conseguir matérias exclusivas, o repórter de um semanário precisa manter suas descobertas em segredo até o dia da publicação da revista. Como era quarta-feira e Veja só seria impressa no sábado, ele não poderia correr o risco de que o material fosse visto por outros jornalistas.
Raiava o dia quando o repórter telefonou para a casa de Pedro Collor. Pretendia deixar um recado para que ele lhe telefonasse logo ao acordar, pois queria explicar porque queimara a fita original. O próprio entrevistado atendeu o telefone e disse que fizera bem em destruir o registro em U-Matic. Costa Pinto foi para o hotel, tomou banho e voltou para a casa de Pedro Collor. Estranhara que ainda estivesse acordado. Suspeitava que pudesse estar com outro jornalista. Chegando lá, Costa Pinto gelou; sua fonte estava conversando com Ricardo Amaral, repórter de O Globo. Pedro, no entanto, fizera a Amaral um resumo superficial do que dissera ao jornalista de Veja.’
***
‘Em conformidade com o acordo das redes e das assessorias dos candidatos, Collor e Lula falaram cerca de 70 minutos cada um durante o debate. Foram 30 falas para cada um. Na condensação do Jornal Nacional, Lula falou sete vezes. Collor, oito: teve direito a uma fala a mais que o adversário. No total, Lula falou 2min22. Collor, 3min34: 1min12 a mais que o candidato do PT. No resumo do JN, Collor foi o tempo todo sintético e enfático, enquanto Lula apareceu claudicante, inseguro e trocando palavras (cerca em vez de seca). É possível argumentar que a escolha das falas dos dois candidatos tentou refletir o conteúdo total do debate. Mas é impossível defender que o Jornal Nacional buscou espelhar o debate de modo neutro e fiel: dar 1min12 a mais para Collor foi uma maneira clara de privilegiá-lo. A responsabilidade pela edição foi de Alberico Souza Cruz e Ronald Carvalho, pois nem Roberto Marinho nem seus filhos ordenaram que Collor tivesse mais tempo que Lula na versão final. Roberto Marinho mandou que se refizesse a compactação para evidenciar que Collor vencera. Mas não revogara a decisão tomada no início do segundo turno: os candidatos deveriam ter o mesmo tempo de exposição nos telejornaisda Rede Globo.’
***
‘Moreno estava atrás do cheque com o qual Eriberto França pagou o Fiat Elba de Collor. Ele já conseguira um cheque nominal, assinado por PC, para Rosane. Mas a vigilância entre os parlamentares e a disputa entre os repórteres aumentaram, e todos os cheques da CPI haviam sido trancados num cofre. (....) Moreno foi ao Banco Central, onde catalogavam os cheques das empresas de Paulo César Farias e depois os entregavam à CPI. Ele era amigo de uma pessoa que trabalhava no banco. Sabia que os cheques passavam pelas mãos dela. Mas, como essa pessoa era muito zelosa do seu trabalho, o repórter não lhe fez perguntas. (...) Conversaram sobre a situação do presidente. ‘Agora, com esse cheque do José Carlos Bonfim para pagar a Fiat Elba, o Collor fica numa posição complicada’, disse a pessoa. (...) Moreno pensou que algum jornal já tivesse dado a notícia e ele não percebera. Afinal , todos os dias eram publicadas dezenas de reportagens sobre a CPI, e o seu interlocutor falara como se o assunto fosse sabido. José Carlos Bonfim era o nome de um correntista-fantasma cujos cheques eram assinados pelo piloto Jorge Bandeira, sócio de Paulo César Farias. A pessoa deu mais detalhes sobre Bonfim, Bandeira e o cheque. Esbaforido, Moreno foi para a sucursal do Globo.
‘Doutor Ali, a Elba foi comprada pelo PC’, contou ele ao chefe, usando o tratamento com que se dirigia a todas as pessoas. Foi para o computador, escreveu a reportagem e a entregou a Ali Kamel. ‘Moreno, a gente precisa confirmar essa história’, disse o chefe. O repórter convidou a pessoa com quem falara no Banco Central para tomar um drinque no Piantella. ‘Olha, eu já escrevi a matéria sobre o cheque, você só precisa me confirmar’, disse ele no restaurante. A pessoa começou a chorar. ‘Se essa matéria sair eu vou perder o emprego’, falou. Era a confirmação que Moreno precisava. Na sucursal, Ali Kamel pediu ao repórter que tentasse obter uma outra confirmação. Moreno telefonou para o presidente da CPI, Benito Gama, e percebeu que havia gente ao lado do deputado.
– Doutor Benito, o senhor pode falar?
– Não, não posso.
– Então o senhor só me confirme se a Elba foi paga com um cheque do Bonfim.
– Não posso dizer nem que sim nem que não.
– Mas essa é a manchete de primeira página do Globo de amanhã.
– Pode ser uma barriga – disse o deputado.
Jorge Moreno percebeu que Benito Gama se esquivara de desmentir taxativamente a informação. (...) A reportagem foi publicada. Ela provava que Paulo César Farias usara um cheque fraudado para comprar um automóvel particular de Collor. Ou seja, que PC e o presidente viviam num regime de comunhão de bens.’
***
‘Etevaldo Dias, diretor do Jornal do Brasil em Brasília, conversou com Marcos Coimbra e Lafaiete Coutinho para saber que explicações o Governo daria sobre a origem do dinheiro de Collor. Ambos lhe disseram que ele receberia as informações em primeira mão. Uma semana antes do depoimento de Cláudio Vieira, o presidente do Banco do Brasil disse a Dias: ‘Se você quer aquele material, prepare-se para viajar para o exterior. Vá para o Rio e aguarde que eu te telefone’. Coutinho tinha boas relações com o jornalista. Quando era presidente da Caixa Econômica, ele perguntara se Dias conhecia um jornalista que pudesse ajudá-lo na redação de discursos. ‘Até conheço uma, a Ingrid, mas fico meio sem jeito de sugerir porque ela é minha mulher’, respondeu o jornalista. Ingrid Rocha era dona de uma assessoria de imprensa, que fundara antes de se casar com o chefe do JB em Brasília. A empresa dela prestou serviços à Caixa e ao Banco do Brasil.
Dias relatou a conversa a seu patrão, Nascimento Brito, e com a autorização dele viajou para o Rio. (...) Na ocasião, o editor-chefe, Dácio Malta, estava em Londres visitando sua namorada, e (...) Merval Pereira chefiava interinamente a redação. Ele ganhara uma bolsa e passara um ano nos Estados Unidos estudando política internacional na Universidade Stanford, na Califórnia. Em vez de voltar para o Globo, Pereira aceitara o convite de Dácio Malta para ser editor executivo no Jornal do Brasil, cargo que havia acabado de assumir. (...) Ele estranhara a cobertura que o jornal vinha fazendo do caso Collor-PC: o JB só tomava furos. Não publicara nenhuma matéria exclusiva que deixasse o presidente em situação ruim.
– A gente não pode dar furos sobre a CPI? - perguntou ele a Dácio Malta.
– Ninguém me disse que a gente não pode dar furos. Vamos cobrir esse assunto direito.
Na sexta-feira, 24 de julho, Dias atendeu a um telefonema de Coutinho.
– Você precisa alugar um jatinho para ir a Montevidéu – disse o presidente do Banco do Brasil.
– Para entrevistar o PC? –perguntou o jornalista. Dias imaginou que o tesoureiro de Collor havia fugido e, no exterior, assumiria a responsabilidade por tudo o que fizera de errado, inocentando o presidente.
– Não, para fazer uma matéria sobre a origem do dinheiro.
Coutinho disse a ele que, em Montevidéu, entrevistasse Ricardo Forcella, dono da Alfa Trading, o escritório de corretagem que fizera o empréstimo a Cláudio Vieira, e o doleiro Emilio Bonifacino. Ambos lhe explicariam o negócio. Nascimento Brito autorizou Dias a fretar um jato. (...) Merval Pereira sugeriu que ele levasse um outro repórter, para ajudá-lo na apuração, mas Dias quis ir sozinho.
Lafaiete Coutinho contou a história do empréstimo uruguaio a Antônio Carlos Magalhães, a seu filho Luís Eduardo e ao ministro Ricardo Fiúza. ‘Isso é um absurdo, um escândalo’, reagiu o governador da Bahia. ‘Todo mundo vai ver que isso é uma fraude’.
Etevaldo Dias voltou do Uruguai na segunda-feira, 27 de julho. No avião, escreveu num computador portátil sua reportagem. No mesmo dia, Cláudio Vieira depôs na CPI. Ele explicou que tomara emprestados 5 milhões de dólares da Alfa Trading, num contrato avalizado por Collor, Paulo Octávio e Luiz Estevão. Em abril de 1989, ele sacou 3,75 milhões de dólares do empréstimo e os entregou ao doleiro Najum Tuner, que comprou trezentos quilos de ouro. Quando Collor precisava de algum dinheiro, Turner vendia uma parte do metal e fazia depósitos nas contas de Ana Acioli."
"Trechos do livro", copyright O Globo, 27/11/99
Luiz Garcia
"Cena de redação, uns 40 e tantos anos atrás: um repórter entrevista um grupo que pretende ver suas reivindicações estampadas no jornal. O jornalista ouve tudo e pondera que o assunto não dá boa notícia, é melhor que saia como matéria-paga (anúncio com aparência de reportagem). Ele se encarrega de tudo e, informação dispensável, ganhará os 20% de comissão.
Não era raro, e poucos se escandalizavam. Afinal, não passava de uma das conseqüências óbvias dos salários miseráveis que os jornalistas ganhavam na época. Submetiam-se a ganhar pouco os que faziam da profissão um meio-expediente, os futuros ou frustrados políticos e literatos, os que não tinham competência para carreiras consideradas sérias e os chamados picaretas, que usavam o trabalho como gazua. Os patrões não eram muito diferentes: havia os políticos, os com outros negócios, os que não sabiam fazer coisa melhor, e os picaretas também. Já existiam, mas eram poucos – na redação ou na direção – os que entendiam o jornalismo como antes de mais nada um serviço público, com compromissos éticos particulares e especiais.
Tempos depois – digamos, no começo da década dos 60 – o quadro já começara a mudar. Havia nítida diferença entre publicações sérias e as dedicadas ao escândalo e ao achaque. O jornalismo, como profissão, transformava-se num fim em si, da mesma maneira que as empresas descobriam que podiam prosperar oferecendo ao cidadão as informações indispensáveis para viver na coletividade. Repórteres que se respeitavam não agenciavam anúncios, e repeliam quem o fazia (por mais que invejassem o padrão de vida). Mesmo assim, ainda era dado como natural e certo pedir ou aceitar emprego público, financiamento na Caixa ou participação em comitiva oficial ou empresarial, com diária em dólar. Sem falar nos empréstimos do Banco Nacional de Minas Gerais, do político Magalhães Pinto – elásticos papagaios, renováveis até o Dia do Juízo Final.
Esses tempos da imprensa brasileira (inclua-se na expressão, por comodidade, a televisão) não estão em livros, com a solitária exceção da reveladora autobiografia de Samuel Wainer... Uma pena, por diversos motivos; entre eles, impedir uma boa avaliação do quanto se avançou até hoje, e do que falta avançar. Certamente as coisas já eram muito diferentes na época investigada por Mario Sergio Conti, da mesma forma que há alguma mudanças nítidas de então até hoje
Notícias do Planalto é esforço raro, talvez único. Temos algumas biografias e memórias, diversos manuais de redação e outras tantas teses sobre comunicação, mas nenhum livro-reportagem sério sobre a profissão. Será por timidez, escrúpulo, medo de municiar a crítica? Por nos considerarmos pouco importantes? Ou importantes demais? Seja como for, é curioso que só agora se esteja entrando num terreno extensamente cultivado pelo jornalismo americano, que em tantas coisas é modelo para o brasileiro.
A propósito, Conti se diz inspirado em The powers that be, de David Halberstam, sobre a história de quatro gigantes da mídia americana, e The final days, de Carl Berstein e Bob Woodward, sobre os episódios finais da queda de Richard Nixon. Mais no primeiro do que no segundo, certamente, e essa é uma característica importante do livro. Embora narre em detalhes a ascensão e queda de Fernando Collor, o ex-presidente não é de fato o protagonista. Em primeiro plano estão jornalistas e empresários de jornalismo; e o assunto é sua relação com o poder.
Pecados e virtudes, erros e acertos, ficam especialmente evidentes – e emprestam dramaticidade à leitura, o que é um alívio quando se encara um volume de 700 páginas – por se tratar de uma situação histórica em que o poder do Estado foi usado com verdadeiro furor, a serviço de um projeto que incluía tanto mudar radicalmente o país como quase literalmente botá-lo no bolso.
Conti divide a narrativa em capítulos dedicados alternadamente a cada veículo, e acrescenta à descrição do que fizeram em dado momento um pouco da história da empresa e dos diretores e jornalistas. Isso dá ao fio da história mais meandros do que seria ideal, mas é provável que não houvesse outro jeito de manter a atenção do leitor focalizada no comportamento da imprensa e não nas peripécias de Collor e seus amigos.
Seja por desígnio ou recurso, o fato é que essa organização da trama bota a imprensa debaixo dos holofotes – e isso pode doer um pouco mas é para o seu próprio bem. Ao sentir na pele o aguilhão da especulação indevida, a facada da extrapolação improcedente, a estocada do erro factual (independentemente de serem esses golpes reais ou imaginados), podemos todos aumentar o nosso estoque pessoal de senso de responsabilidade. Não para perder a audácia, mas para ganhar em eficiência. Depois de caçado, o caçador sempre caça melhor.
E é justo que a imprensa seja posta sob escrutínio, já que considera, com razão, que nenhum setor da sociedade deve ser imune a ele. Ainda bem que a mão no holofote seja honesta. Capaz de errar, certamente, mas, tanto quanto a leitura permite avaliar, sem deliberadamente puxar a brasa para suas sardinhas pessoais ou grupais.
É pena, a propósito, que parte crucial do livro – quando começam a se multiplicar as denúncias contra Collor – encontre o autor no comando da revista Veja. Ele com certeza narra com honestidade o que aconteceu em sua redação, mas seria talvez demais exigir que fosse rigorosamente objetivo no peso que atribui – em espaço, se não em palavras – à atuação de cada jornal, revista ou TV.
Falhas humanas à parte, a grande lacuna das Notícias é de outra natureza. O caso Collor foi um marco na história da imprensa brasileira pós-ditadura: há décadas não nos sentíamos tão contribuintes da História. Na hora, poucos perceberam; hoje, uma crônica daqueles dias não deveria omitir o quanto houve de exagero e abuso naqueles dias de santa e patriótica embriaguez. Resumindo ao extremo: publicaram-se e se levaram ao ar todas as provas necessárias para provar a conspiração Collor-PC contra o país. Ótimo. Mas também foi divulgada uma quantidade de denúncias, com escassa ou nenhuma comprovação, sobre a vida pessoal dos acusados. A consciência dessa leviandade – mais tarde batizada de denuncismo – contribui, hoje, para a consciência ética de quem leva a profissão a sério.
É pena que Conti não tenha pensado nisso. Principalmente por ser um admirador de Woodward e Bernstein, que não apenas mantiveram a apuração do caso Watergate acima do nível pessoal, como nunca publicaram uma acusação sem confirmação por duas fontes independentes. É verdade que Woodward parece ter afrouxado os critérios com o passar dos anos, e seu último livro-reportagem, Shadows tem sido acusado de apresentar como reprodução literal diálogos que ele não poderia ter conhecido. Mas a lógica do método popularizado pela dupla na década de 70 permanece impecável. Não há sinal de que o cuidado de conferir informações tenha imperado na edição, pela Veja (comandada por Conti), da entrevista-bomba de Pedro Collor. Não se discute a decisão de usar o material de Pedro, nem a veracidade do que disse, mas sim a necessidade de buscar fontes independentes de comprovação e de oferecer direito de contestação simultânea aos atingidos. Numa visão talvez rigorosa demais (levando-se em conta o clima da época, e a quantidade de coisas sobre as quais existia a perigosa mas sedutora certeza moral), as denúncias do irmão repelido e magoado seriam mais pauta do que matéria final. É verdade que daria um trabalhão.
Pode-se aceitar que Conti não discute agora o problema da privacidade porque, na época dos fatos narrados ele não estava em questão. Mas a lacuna existe.
O livro tem outras qualidades para os seus leitores jornalistas. Ele lembra que a figura do picareta, o profissional realmente corrupto, ainda não desapareceu: sobrevive, até mesmo em altas esferas. É visível uma outra área de risco: aquela determinada pela inevitável proximidade, principalmente na cobertura política, entre o jornalista e suas fontes. O problema não é só brasileiro. Nos Estados Unidos, Ben Bradlee, editor do Washington Post era vizinho e amigo do senador John Kennedy. A amizade não esfriou quando Kennedy se mudou para a Casa Branca e, mesmo sem duvidar da honestidade e do espírito público de Bradlee, é incontestável que a sua aproximação com o presidente (e a de dezenas de outros editores e repórteres com outros membros da corte) de alguma forma protegeu o presidente da fiscalização rigorosa que toda administração merece.
Na Brasília de Collor, não foram poucos os que saíram chamuscados por chegarem perto demais da fogueira do poder e passarem a agir como personagens e não como observadores. Conti oferece alguns exemplos tristemente educativos.
Hoje, parece que o risco é um pouco menor. Não porque o inquilino do Planalto seja outro: a fogueira existe sempre. Mas simplesmente porque as pessoas aprendem, com o que vêem e o que lhes acontece.
(Isso vale tanto para jornalistas como para os donos de empresas jornalísticas, que enfrentam as dificuldades da dupla regência: são donos de empresa e prestam o serviço público de disseminar informações. Há quase dez anos, como se lê nas Notícias, não era comum que os patrões vissem com nitidez a separação entre as duas agendas. Hoje, a maioria parece estar ciente de que não enxergar direito só causa tropeços.)
Em termos ideais, todo relacionamento entre jornalista e fonte deve ser marcado pelo distanciamento, por uma cordialidade não fraterna. Especialmente em cidades como Brasília, isso é reconhecidamente difícil. Alguns profissionais com experiência na área afirmam que um distanciamento rigorosos é praticamente impossível: as coisas são assim mesmo, e pouca diferença faz, desde que as pessoas sejam honestas. Pode ser. Mas se aceitarmos que até o conceito de honestidade é relativo, talvez seja mais seguro definir a intimidade – no bar, no jantar, no churrasco à beira do lago, na carona de jatinho – como mal necessário. Sempre ajuda a manter a guarda alta.
O fato de que o livro de Mario Sergio Conti provoca também essa discussão é uma das medidas de sua oportunidade e de sua importância."
"Os caçadores caçados", copyright O Globo, 27/11/99
A. S. e J. D.
"" O jornalista Mario Sergio Conti, 45 anos, diretor de redação da revista Veja de 1991 a 1997, escolheu para tema de seu primeiro livro, Notícias do Planalto, algo que vivenciou de muito perto: o relacionamento da imprensa com o Governo Collor. Ele imaginava escrever perto de 400 páginas. Escreveu 719. ‘Foi como uma grande reportagem. Quanto mais eu apurava, mais me entusiasmava e via que precisava ir adiante’, conta.
O livro terminou por se tornar um tratado sobre as relações entre o poder em geral – e não apenas no Governo Collor – e os órgãos de comunicação, com reflexões sobre a dimensão ética dessa proximidade. Conti afirma que o livro homenageia os jovens repórteres: ‘Sem eles, não teria havido o caso Collor’.
O senhor deixa claro no livro que toda a imprensa apoiou a candidatura de Collor. Quando ela se afastou, ele caiu. Sem esse apoio, um presidente consegue governar o Brasil?
Mario Sergio Conti – Acho difícil. Mas lembro que, no final do Governo Sarney, o apoio ao presidente nos órgãos de imprensa era bem restrito, e ele não caiu.
Mas seu livro realça que todo Governo procura manter uma proximidade com a imprensa. Por que essa relação tão estreita?
Conti – Porque a imprensa é parte do poder, faz parte da mesma classe social. Mas essa manipulação não é absoluta. A imprensa reflete também o anseio de seus leitores/espectadores, as expectativas de seus profissionais. É uma coisa dinâmica, tensa e cheia de nuances essa relação entre a imprensa e o poder. Não é só o que o dono da empresa determina. Isso ocorre em todos os países que conheço, como França e Estados Unidos. Você pode dizer que lá há mais profissionalismo, mas não há afastamento do poder.
Profissionalismo como? A imprensa no Brasil não é profissional?
Conti – Em termos de valores de imprensa, não. The New York Times, por exemplo, faz editoriais de apoio a um candidato, mas na cobertura tenta ser o mais isento possível. Isso vem desde 1896: dar todas as notícias sem favorecimento e sem medo. É um bom lema. Acho que a gente poderia caminhar nesse sentido.
Em seu livro, o senhor dedica um grande espaço à cobertura da TV Globo ao candidato Collor. Foi a Globo a responsável pela eleição dele?
Conti – A TV Globo não ‘fez’ o Collor. Ela participou de um processo de cobertura que, na minha opinião, foi correto. Cito o exemplo daquele Globo Repórter dos marajás. Acho que o programa cabia naquele momento, assim como a reportagem do Jornal do Brasil e as páginas amarelas de Veja, quando Collor tomou posse no Governo de Alagoas. Com relação à campanha eleitoral, se formos conferir as datas, veremos que o doutor Roberto Marinho começou a apoiar Collor em agosto, quando ele já tinha 43% das preferências, muito adiante de Lula e Brizola. A influência da Globo não foi determinante. Acho, porém, que há episódios específicos. No último debate, em que Lula se saiu mal, houve influência na decisão dos eleitores. A edição que foi feita pelo Jornal Nacional na véspera da eleição teve um papel que eu esmiúço em detalhes no livro. Mas é impossível você dizer que isso garantiu a vitória. A própria existência da Globo possibilitou, por exemplo, que o PT fizesse a campanha nos moldes que fez, parodiando a linguagem televisiva da Globo. O jingle ‘Lula-lá’ foi cantado pelo elenco da Globo.
No seu livro, fica claro que foram os jornalistas novos, sem vícios, que deram as principais notícias sobre o caso Collor. Por quê?
Conti – As principais matérias que contribuíram para o afastamento de Collor foram feitas por repórteres jovens e talentosos, muitos deles de fora de Brasília. Eles tiveram um papel preponderante e muito superior ao dos colunistas e ao dos editores. Naquela ocasião, a reportagem deu o tom. E eles puderam publicá-las em órgãos cuja relação com o Governo era ou atritada, ou distante, ou contraditória.
Quem tinha muitas divergências com Collor era a Folha de S. Paulo, por causa do processo contra os seus jornalistas. Mas quem acabou publicando as reportagens que resultaram na CPI foi a Veja, que não fazia oposição.
Conti – O trabalho da revista se beneficiou do que outros órgãos fizeram antes. A reportagem das fardas superfaturadas do Exército foi feita pelo Globo, a denúncia dos desmandos da LBA em Alagoas foi do Jornal do Brasil. A resposta da Folha ao processo do presidente, que foi a carta aberta de Otavio Frias Filho, criou um processo que possibilitou o avanço de outros. Veja avançou porque é uma tradição dela aquele tipo de cobertura. Eu explico no livro que ela vem desde 1969, criada pelo Raimundo Rodrigues Pereira e pelo Mino Carta, que lançaram o modelo de dar a notícia sem favorecimento e sem medo.
Algumas pessoas que leram o livro acham que ele deixa os repórteres mal e os patrões, muito bem.
Conti – Não concordo. Sem os repórteres jovens, não teria havido o caso Collor. Minha homenagem é a todos eles. Mas eu quis explicar também em que órgãos de imprensa eles trabalhavam, e quem os construiu. Foram os patrões e foram os diretores de redação anteriores. Minha visão dos patrões não é estanque. Você vê patrões se comportando de maneira muito digna num momento e não muito bonita em outros. Ninguém é perfeito.
A relação do jornalista com o poder é promíscua?
Conti – Há casos em que a gente se aproxima demais da fonte, há casos em que a gente fica amigo, há os que protegemos. Tudo deve ser avaliado de situação em situação. Deve haver um limite? Deve. A gente não pode ter uma relação promíscua. Mas isso depende de cada profissional. Não tenho regras a oferecer."
"‘Não pode haver promiscuidade’", copyright O Globo, 27/11/99
O Globo
"Em Notícias do Planalto, Mario Sergio Conti declara a inspiração de The powers that be, de David Halberstam, e The final days, de Bob Woodward e Carl Bernstein. Ambos foram escritos por jornalistas americanos, tratam das relações entre imprensa e poder e, também, são exemplares de um filão editorial consagrado: o jornalismo que se olha no espelho.
Os bastidores da imprensa brasileira começaram a vir à tona em livro em 1987 com Minha razão de viver (Record), de Samuel Wainer. Chatô (Companhia das Letras), de Fernando Moraes, também revelou meandros do império de Assis Chateaubriand. O cruzamento entre vida profissional e pessoal de grandes repórteres e editores faz a tradição do gênero. Foi assim com o âncora da CBS Walter Cronkite (Repórter), o correspondente de guerra da CNN Peter Arnnet (Ao vivo, do campo de batalha) e o ex-editor-executivo do Washington Post Ben Bradlee (Uma boa vida).
As vidas de grandes veículos foram contadas sob diversos ângulos, como The paper’, em que Richard Krugman faz a crônica do New York Herald Tribune. O New York Times já teve idas e vindas reviradas por Gay Talese (The kingdom and the power) e em The trust, de Susan E. Tifft e Alex S. Jones. A crise de credibilidade na imprensa americana é o tema de Breaking the news (aqui Detonando a notícia)."
"A imprensa no espelho vira um best-seller", copyright O Globo, 27/11/99
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"1990
21 de setembro: O Estado de S. Paulo revela o romance entre os ministros da Economia, Zélia Cardoso de Mello, e da Justiça, Bernardo Cabral.
19 de outubro: Luís Otávio da Motta Veiga se demite da presidência da Petrobras e acusa PC Farias de pressioná-lo para ajudar a Vasp.
1991
Agosto: O Jornal do Brasil denuncia irregularidades cometidas por Rosane Collor na presidência da LBA.
20 de outubro: O Globo revela a compra de uniformes superfaturados pelo Exército.
3 de dezembro: O Correio Braziliense revela a compra de bicicletas superfaturadas pelo Ministério da Saúde.
1992
22 de março: O Estado de S. Paulo denuncia o esquema PP, montado pelo chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Pedro Paulo Leoni Ramos, para lesar a Petrobras.
Maio: A revista Veja publica, em semanas consecutivas, um dossiê sobre as empresas de PC no exterior, as declarações de renda do tesoureiro e, por fim, a capa ‘Pedro Collor conta tudo’, com a entrevista em que o irmão do presidente o acusa de ser o chefe do esquema PC.
26 de maio: O Congresso decide instalar uma CPI para investigar as denúncias de Pedro Collor.
27 de junho: A revista IstoÉ publica uma entrevista em que o motorista Eriberto França afirma que PC paga as despesas pessoais de Collor.
29 de dezembro: O Senado dá início à sessão de impeachment de Collor. Minutos depois, ele renuncia."
"Cronologia do escândalo", copyright O Globo, 27/11/99
Zuenir Ventura
"O jornalismo costuma registrar as turbulências que ocorrem em seu redor, mas não as que se passam dentro dele, no seu interior. É raro olhar para o próprio rabo, como acontece agora em Notícias do Planalto – A imprensa e Fernando Collor, de Mario Sergio Conti. O que vou fazer não se faz: falar de um livro antes de terminar sua leitura. Mas não resisto à tentação de dividir com vocês as primeiras impressões dessa leitura inacabada.
Foi o assunto preferido dos jornalistas essa semana: não se falou de outra coisa nas conversas, nos telefonemas, nos e-mails, nos bares: ‘você viu fulano? que coisa, hein!’, ‘já chegou na parte do suborno?’. Talvez não seja exagerado dizer que algumas redações ficaram em estado de choque com certas revelações. Uma febril atividade, divertimento nervoso, foi consultar os quase mil nomes do índice onomástico para ver os desempenhos, como cada um se sai nas 719 páginas dessa espécie de CPI da imprensa.
Na verdade, não é uma CPI, mas às vezes tem o mesmo efeito, pela surpresa ou pelo poder devastador de algumas denúncias. No clima de mãos limpas que domina o país, em meio aos escândalos morais que têm alimentado a imprensa nesses últimos tempos, a sensação é de que agora chegou ‘a nossa vez’.
O objetivo principal do livro está anunciado no subtítulo: as relações entre o Planalto e a mídia durante o Governo Collor. É uma pesquisa exaustiva de como repórteres, fotógrafos, editores e donos de empresas jornalísticas agiram e tomaram decisões nessa época: o jogo de poder, as relações perigosas, as manipulações, as amizades cúmplices, os interesses econômicos.
Diretor de redação da revista Veja de 1991 a 1997, o autor desvenda o caso Collor do começo ao fim – sua eleição, seu governo corrupto, seu impeachment. A parte mais significativa talvez seja o começo do processo. Fica-se com a certeza de que a imprensa não fez o seu dever de casa: não apurou. Se tivesse trabalhado com afinco, se não tivesse se deslumbrado tanto com ‘o caçador de marajás’, se tivesse fuçado um pouco mais a República das Alagoas, Collor poderia ter existido, mas não teria surpreendido o país.
Mesmo que não tivesse mudado o rumo da História, a imprensa não estaria discutindo agora para saber se foi cúmplice, omissa ou incompetente – ou tudo isso junto, pelo menos enquanto estava sendo chocado às claras o ovo da serpente. O fio da meada estava lá. O seu governo estadual foi um laboratório. O esquema PC, que sobreviveu ao seu criador e criou raízes tão sólidas e polivalentes que até hoje têm ramificações na rede do narcotráfico, foi gestado lá.
Como o autor assumiu com os 141 entrevistados o compromisso de não identificá-los como fontes, teve que adotar o ponto de vista do narrador de ficção, onisciente e onipresente, que a tudo assiste ou vê, sem precisar dar satisfações a ninguém. A técnica confere ao relato um ritmo rápido, de aventura, mas há denúncias e inconfidências, às vezes diálogos literais, que o leitor sente necessidade de saber como foram obtidos, mesmo confiando na credibilidade do autor. É apenas um incômodo.
A parte mais explosiva do trabalho de Conti é a que relata com detalhes e diálogos algumas tentativas de suborno. O livro é para ser desarmado aos poucos, com cuidado. Ele mexe e remexe nas entranhas do jornalismo contemporâneo, e sai de muitas páginas um cheiro ruim: de corrupção, tráfico de influência, promiscuidade com o poder, conivência e algumas tentativas explícitas de suborno.
Nada que vá levar alguém para a cadeia, nada que se compare a um Luiz Estêvão, muito menos a um Hildebrando. Perto do senador, que aliás aparece no livro quando era apenas o modesto avalista de Collor em US$ 5 milhões e não o agora suspeito de negócios fraudulentos de US$ 34 milhões, é tudo mixaria. Mas há trechos que parecem saídos de depoimentos da comissão do narcotráfico, como esses: ‘O funcionário do Palácio dos Bandeirantes iniciou a conversa de maneira insinuante, com frases como ‘você deve pensar na sua família, precisa fazer o teu pé de meia’(...) Ele me disse que tinha 600 mil dólares...’
O tal ‘funcionário’ corrupto, um assessor bem situado no palácio de Fleury e em algumas redações paulistas onde tem amigos poderosos, aparece no livro como um trapalhão que fracassa em suas tentativas de extorsão: escolheu as pessoas erradas. Mas e se tivesse escolhido as pessoas certas?
Notícias do Planalto vai provocar um saudável mal-estar na nossa comunidade de informações - parecido com o que ocorreu em outras instituições quando começaram a mexer em suas feridas. E olha que no caso não é uma CPI, é apenas um livro."
"A nossa vez", copyright O Globo, 27/11/1999
Luís Costa Pinto
"Jornalistas erram muito. Terão errado de maneira imperdoável caso ignorem ou subestimem Notícias do Planalto – A Imprensa e Fernando Collor, de Mario Sergio Conti. Diretor de redação da revista Veja entre maio de 1991 e dezembro de 1997, Conti narra a ascensão e a queda do ex-presidente cassado por corrupção em 1992. A imprensa foi o palco onde a saga se desenrolou. Econômico nos adjetivos, nos juízos de valor e em conceituações, o autor cruza a biografia política de Collor com biografias de jornalistas e veículos de comunicação que considera relevantes para a compreensão do que aconteceu.
Mario Sergio Conti produziu mais que um bom livro. Ele desvendou mistérios, contou segredos, devassou episódios apenas sussurrados em corredores de redações e, com isso, contribuiu para a remontagem da História do Brasil contemporâneo. Será contestado, como costuma ocorrer a quem lida com personagens que permanecem vivos, eventualmente poderosos. Alguns seguem vivos demais. O livro descreve casos de jornalistas que se venderam a empresários ou tentaram comprar outros jornalistas, sem sucesso. E de jornalistas que foram comprados por empresários e compraram colegas, com sucesso. Ao fazer a necropsia do governo Collor, Conti acabou jogando luz nos porões onde bandos de jornalistas muitas vezes se escondem.
A imprensa brasileira é pilhada em flagrantes variados. Além de distribuição de propinas, registraram-se desvios ideológicos e avaliações equivocadas do quadro político. Um dos erros capitais foi planejar a cobertura jornalística como se o Brasil se resumisse a Brasília e aos figurões que circulam na órbita do poder federal. Os métodos usados por Collor na Presidência foram apenas uma reedição, ampliada pela sensação de impunidade, das fórmulas que aperfeiçoara entre 1987 e 1989 no governo de Alagoas.
‘Não tivemos o mérito de saber dizer isso, de descobrir esse fenômeno. Erramos’, reconhece Mario Sergio Conti. Para ele, Collor deve sua chegada ao Planalto muito mais aos equívocos (involuntários ou deliberados) dos profissionais das redações que a tramas supostamente engendradas pelos donos dos meios de comunicação. Ao lançar-se candidato a presidente, o governador alagoano não tinha partido nem plataforma. Fizera uma administração ruinosa num dos Estados mais pobres da Federação. Para Conti, a Folha de S.Paulo foi quem melhor radiografou os desvios regionais do candidato.
Um escritor e dois estilos
O jornalista Mario Sergio Conti escreveu Notícias do Planalto com um estilo muito diferente do adotado pela revista Veja, que dirigiu de 1991 a 1998. O livro raramente recorre a adjetivos. Autor de excelentes textos jornalísticos, Conti é um dos raros profissionais que costumam melhorar as narrativas dos repórteres sem lhes adicionar qualquer palavra. Ele prefere cortar expressões dispensáveis e mudar a posição de parágrafos.
Em 1992 Conti recebeu da World Press Review, dos Estados Unidos, o título de Editor do Ano. A honraria, considerada o Oscar do jornalismo, nunca havia sido entregue a um brasileiro. Foi indicado para o prêmio em razão do trabalho à frente da equipe de repórteres e editores de Veja durante as investigações que levaram ao impeachment do presidente Fernando Collor.
Aos 45 anos, não quer trocar o jornalismo pela profissão de escritor. ‘Gosto de redação’, diz. No momento, desenvolve o projeto para a criação de uma revista mensal de reportagens. Continua vinculado à Editora Abril, que edita Veja."
"Luz nos porões", copyright Época, 28/11/99
José Sarney
"É um tema que jamais se esgotará as relações imprensa versus governo. Foi no século 18 que se estabeleceu uma grande regra sobre esse antagonismo: a primeira emenda à Constituição Americana, de autoria de Thomas Jefferson, que assegurava a liberdade de imprensa, contrabalançando a inviolabilidade da palavra dos congressistas.
Àquele tempo, a imprensa jeffersoniana era um panfleto-jornal, do tamanho do que é hoje uma página de livro, impresso em prensa artesanal, papel grosso e molhado. Duzentos anos se passaram. Hoje, tudo mudou. O jornal é o rádio, a televisão, o outdoor, a Internet e centenas de meios maiores, menores, imaginativos, grosseiros, o chamado instrumental da comunicação, não para contrabalançar a inviolabilidade da palavra do Legislativo, mas para influir sobre as pessoas, criar opiniões, induzir o consumo, os hábitos, monitorar e forçar decisões. Deixou de ser o quarto poder para ser aquele sobre o qual nenhum controle institucional é lícito existir.
Comunicação tem mais a ver com o conjunto das atividades econômicas do que com o governo. Mas há, por trás desse processo, um aspecto político que evidencia a obsolescência do sistema concebido por Montesquieu, que durou 250 anos e está em total desintegração. Agora, a discussão é saber: quem representa o povo? O Legislativo ou a mídia? A mídia já ganhou essa batalha. Há uma falência da democracia representativa que não pode concorrer com a massificação dos assuntos, em tempo real.
Nasceu um novo interlocutor da sociedade democrática: a opinião pública, que se expressa pela mídia, que é um dos maiores ramos econômicos mundiais e influencia todos os outros negócios públicos ou privados, direta ou indiretamente. Orienta o mercado financeiro, o consumo, os hábitos e tem o poder de acuar governos. Não há mais vínculo com a instituição jeffersoniana do século 18.
A legitimidade de governar no sistema representativo é dada pelas eleições. Essas são, hoje, um ritual meramente formal. As eleições envelhecem. São apenas um momento, um estado de espírito. Não é incomum, um mês depois de eleito, um mandatário perder a legitimidade. Esta reside na opinião pública, aferida por pesquisas de opinião.
Duas grandes revoluções ocorreram: o alto desenvolvimento tecnológico dos meios de comunicação e a libertação da mídia da publicidade governamental. O grande faturamento vem de setores particulares. Esses necessitam da mídia para ganhar dinheiro, e a mídia libertou-se do governo. A única ameaça que ronda seu poder é a Internet, mas a mídia já invadiu a Internet e com ela tem estreita relação.
O livro do senhor Mario Conti, Notícias do Planalto, está reacendendo essa discussão que, além do perigo da manipulação política, pesquisada com correção e trabalho exaustivo, nos remete a uma reflexão sobre um novo modelo, pós-democracia representativa, que certamente vai surgir, tema de efervescência entre os cientistas políticos. Acham estes que o Muro de Berlim não caiu somente sobre o comunismo, mas sobre o modelo político do Ocidente, abalado por dois setores novos: a mídia e as ONGs."
"Imprensa e governo", copyright Folha de S.Paulo, 3/12/99
O que mudou na imprensa nos últimos 10 anos?
O GLOBO
João Roberto Marinho
‘A minha geração viu o jornalismo emergir da censura férrea para a liberdade política absoluta e sentiu o choque da mudança súbita. Interlocutores necessários entre os políticos e o público, nós jornalistas com freqüência nos deixamos seduzir pela ilusão de que somos um agente do poder. Essa ilusão é alimentada pelos próprios políticos, sempre dispostos a pedir opinião particular ou conselho de jornalistas, dando a estes a sensação de participar das grandes decisões nacionais. A presteza com que um político, seja qual for, atende a um telefonema de jornalista corresponde à expectativa do bom tratamento e da ampla divulgação que conseguirá para a sua manifestação. Essa relação íntima se transforma num modo sutil de desviar o jornalista da sua função.
Entendo, portanto, que, ao mesmo tempo que é nosso dever estar em permanente contato com os políticos ou detentores de qualquer tipo de poder, para obter as informações que são a nossa razão de ser, em momento algum devemos cair na tentação de nos supormos atores e não testemunhas da História. Por outro lado, é uma ação legítima do jornalista participar do debate público das questões relevantes para a comunidade através de artigos assinados e editoriais, com transparência e tendo por motivação apenas o interesse público. Sou otimista. Sinto uma sensível mudança da atitude dos jornalistas em geral, cada vez mais zelosos da dignidade da profissão e saudavelmente desconfiados do canto das sereias que se instalam nos palácios.’ [João Roberto Marinho, vice-presidente do Globo]
Merval Pereira
‘Mudou a relação dos donos dos jornais com seus próprios jornais. Hoje os jornais são empresas e precisam estar mais perto do público leitor do que dos governantes para serem bem-sucedidos. Para tanto, publicam textos ou depoimentos com posições antagônicas, dando mais opções de informação aos seus leitores. E demarcam mais claramente a sua opinião, tratando que ela não influencie o noticiário, que deve ser o mais imparcial e abrangente possível. Os jornais deixaram de ser partidários, sectários, e isso é sinal de amadurecimento, político e empresarial.
Não mudou, porém, a relação com o poder. É inerente ao jornalismo estar perto do poder, porque ele é fonte de notícia. O repórter esportivo, por exemplo, tem que estar próximo a Romário, senão pode ficar sem as informações do jogador mais importante. Quem cobre política, hoje, tem que ter acesso a Antonio Carlos Magalhães, por exemplo. Mas estar perto do poder não quer dizer acobertar eventuais descaminhos ou coonestar atitudes inaceitáveis. E exige atenção permanente. Somos como o domador que para exercer sua profissão, tem que entrar na jaula do leão. Se ele ficar muito à vontade na jaula, ou se achar que o leão é manso, pode acabar sendo engolido.
Traçar este limite ético para exercer a profissão sem se perder é a chave da questão. Existe uma máxima sobre a relação dos jornalistas com os poderosos que, embora anedótica e simplificadora, é exemplar. Segundo ela, existiriam dois tipos de jornalistas: os que querem dinheiro e os que querem notícia. Oferecer dinheiro a quem quer notícia é uma ofensa. Oferecer notícia a quem quer dinheiro é um desperdício.
Essa linha que separa o ético do aético; o legítimo do ilegítimo, é que vem se definindo mais claramente, para o nosso bem. Antigamente, era comum jornalistas, grandes jornalistas inclusive, terem emprego público, tão comum que ninguém estranhava. Hoje em dia, está claro que ter emprego público afeta a independência de qualquer jornalista. Sempre houve jornalista corrupto e sempre haverá. Sempre haverá notícia e regalia, notícia e vantagem pessoal. Assim, a relação que um jornalista estabelece com o poder tem que ser uma relação de trabalho. Mas corre-se o risco de ultrapassar o limite quando o poder que a profissão dá nos sobe à cabeça. Daí a nomear ou tentar nomear um diretor de estatal ou dar palpite no discurso de um político, é um passo.
Mas é evidente que existem os acordos, as negociações. Quando elas têm o objetivo de publicar uma notícia, são legítimas. Quando visam à obtenção de lucros pessoais, são corruptas. Tão complexo quanto isso. Atravessando todo esse emaranhado, contam também a história de cada um, suas convicções, suas relações pessoais, como em todo trabalho em que o preponderante é o ser humano. E é isso que torna a nossa profissão tão fascinante, para nós e para os que nos lêem.’ [Merval Pereira, diretor de Jornalismo do Globo]
REDE GLOBO
Evandro Carlos de Andrade
‘Faz algum tempo, uma autoridade de governo pediu à presidência da Globo que determinada notícia não fosse dada no Jornal Nacional. Informado do pedido, procurei saber do que se tratava. A notícia estava disponível na editoria mas não ia ser divulgada, porque os editores tinham achado de pouco interesse. Liguei para a presidência, relatei a situação e acrescentei que, de fato, não íamos divulgar a notícia, mas já que nos fora pedido para não divulgar tornava-se dever nosso divulgar. A nossa presidência concordou e a matéria foi ao ar.
O critério da decisão foi o seguinte: qualquer pessoa pode pedir que se dê uma notícia, nada há de irregular nisso. O editor recebe o pedido, apura se a notícia é verdadeira e, sendo, avalia se merece divulgação. Mas ninguém tem o direito de pedir a um jornalista que não divulgue uma notícia, porque nesse caso o pedido é uma afronta à nossa profissão.
Conto esse episódio porque ele é ilustrativo do quanto se vem evoluindo nos últimos anos, no respeito aos princípios fundamentais do jornalismo: independência, isenção, exatidão, imparcialidade, respeito à lei e sobretudo às garantias individuais.
Sem dar aos poderosos a chance do conluio ou do cochicho.’ [Evandro Carlos de Andrade, diretor da Central Globo de Jornalismo]
FOLHA DE S.PAULO
Otavio Frias Filho
‘As mudanças foram muitas, mas vou tentar resumi-las a duas tendências, uma delas a meu ver positiva, a outra, negativa. A primeira é um crescente distanciamento dos meios de comunicação em relação ao poder. Acho que, com diferenças de grau, a imprensa tem hoje mais autonomia para investigar e criticar. Não é sempre que as apurações são bem realizadas. Num ambiente de extrema concorrência pela notícia, denúncias são publicadas sem verificação adequada e às vezes o tom da cobertura resvala para um moralismo simplório, quando não parcial. Mas me parece fora de dúvida que a mídia funciona de maneira mais livre e desenvolta do que no passado. Ela depende mais do mercado e portanto depende menos do poder.
O segundo aspecto é que a imprensa, como tudo o mais, sofreu uma forte despolitização. O foco deixou de ser a política e passou a ser a economia. Não há como fugir a essa tendência, ela é o principal vetor contemporâneo. Os temas exigem um tratamento mais técnico, e nem sempre temos nos mostrado habilitados a vencer esse desafio. A vantagem é que os veículos procuram aproximar-se da vida concreta dos consumidores de informação, atender melhor suas demandas específicas etc.
Mas o legado da despolitização tem sido fragmentar ainda mais as coberturas, nas quais ganha ênfase o componente anedótico, sensacional ou apenas utilitário. Talvez estejamos fracassando no principal, que é oferecer uma visão integrada dos fatos relevantes. Um agravante é que, assim como governos e partidos, os meios de comunicação perseguem cada vez mais uma mesma fórmula, o que está levando à descaracterização de suas identidades. Nunca tivemos tanta diversidade de meios, nunca eles foram tão semelhantes entre si. É óbvio que toda mudança gera conseqüências boas e más. Nosso trabalho deveria ser estimular aquelas e coibir, na medida do possível, estas.’ [Otavio Frias Filho, diretor-editorial da Folha de S.Paulo]
O ESTADO DE S.PAULO
Ruy Mesquita
‘O que mudou nas relações entre a imprensa e o poder nos últimos 10 anos foi que, cessado o risco físico e financeiro de se enfrentar o poder, que existiu sempre, desde os primórdios da Republica até o fim do regime militar, a parcela da imprensa que ainda não sabia disso descobriu o seu próprio poder e passou a se permitir usá-lo.
Nos tempos da ditadura varguista o poder publico era incontestável. Sobreviviam os que concordavam em servir o regime. Mas os órgãos de imprensa que ousaram enfrentá-lo foram sumariamente fechados por força militar, sendo seus proprietários exilados do país.
O regime militar pós-64 foi mais ‘sutil’. Com a economia sob controle quase absoluto do Estado, os órgãos de imprensa que lhe eram dóceis puderam desfrutar da preferência do, então, maior anunciante do país, o que era negado aos que lhe resistiam. E do, AI-5 em diante, muitos aceitaram ‘empregados extras’, inclusive diretores de redação, impostos pelo regime. Os que resistiram, alem das represálias econômicas, sofreram a intervenção de censores oficiais, que apenas no caso de algumas empresas jornalísticas eram denunciados aos seus leitores pela publicação de receitas culinárias ou poemas indicando o espaço das matérias censuradas, ou até atentados a bomba (no nosso caso, tanto dos terroristas da esquerda quanto dos ligados ao regime) contra suas instalações.
Depois da abertura democrática, tudo mudou. A imprensa que antes cedia ou hesitava passou a sentir-se a vontade para exercer o jornalismo e, com o progressivo enfraquecimento dos governos civis, chegou, em alguns casos, a embriagar-se dele. A tal ponto que alguns órgãos de imprensa, que hoje já não temem ser fechados pelo governo, comprazem-se em testar a sua força tentando fechar o governo.
Ainda que tenha sido uma evolução muitas vezes distante do heroísmo, esta nova fase promete acelerar o processo de amadurecimento da democracia brasileira, agora servida de uma de suas ferramentas essenciais que é uma imprensa livre e mais combativa.’[Ruy Mesquita, diretor do Estado de S.Paulo]
VEJA
Roberto Civita
‘Generalizar sobre a imprensa é como generalizar sobre os homens: virtualmente impossível. Mas há algumas mudanças e tendências que talvez possam ser consideradas comuns para grande parte da imprensa brasileira na última década:
O declínio da importância da publicidade oficial – Embora diferentes veículos tenham sido ‘prestigiados’ com diferentes volumes de publicidade do governo ao longo dos anos, este item, sempre manipulável por motivos políticos, está em franco declínio. Isto porque a privatização das empresas estatais automaticamente elimina uma parte do problema e porque – do outro lado – o governo vem adotando critérios mais objetivos para a aplicação de suas verbas.
Evidentemente, a manipulação de verbas de empresas públicas para fins políticos – inclusive a nível estadual e municipal – continua, e precisa ser combatida energicamente. Mas a tendência na direção de sua redução é extremamente saudável.
A redução de pressões e chantagens governamentais – Sem nunca esquecer ou diminuir a coragem de alguns poucos que resistiram às pressões em defesa dos seus ideais, é preciso reconhecer que este tipo de coisa, tão comum e tão deplorável, tem diminuído muito desde o fim dos governos autoritários, e praticamente desaparecido no governo Fernando Henrique Cardoso.
A maior objetividade de uma nova geração de jornalistas – Lembro dos tempos em que qualquer assunto era visto, discutido e enquadrado do ponto de vista ideológico. Não se podia falar de política, economia, negócios e até entretenimento sem esbarrar nos preconceitos ou patrulhamento dos defensores desta ou daquela visão do mundo. Hoje, graças em boa parte ao fracasso do modelo comunista no planeta inteiro, as novas gerações de jornalistas estão menos polarizadas do que seus antecessores, e também melhor preparados para a tarefa de apurar e relatar os fatos com maior profissionalismo, na acepção exata da palavra.
Obviamente, os velhos problemas decorrentes do excesso de dependência de empresas de comunicação em decisões dos governos ainda existem, e inevitavelmente influenciam o comportamento de seus dirigentes. Mas acredito que – aos poucos – a criação de órgãos regulatórios mais independentes e a maior transparência de todo o processo decisório (graças principalmente à insistência da própria imprensa) contribuirão significativamente para nos levar na direção da luz: cada vez mais objetividade e mais preocupação com a ética jornalística.’ [Roberto Civita, presidente da Editora Abril]
ÉPOCA
Augusto Nunes
‘Hoje, as relações entre a imprensa e o centro do poder federal são bem menos promíscuas que no período radiografado por Mario Sergio Conti.
Diferentemente de Fernando Collor, o presidente Fernando Henrique Cardoso é um homem honrado, circunstância que impede a existência de quadrilhas formadas à sombra do Palácio do Planalto. Mas permanecem em cargos importantes, nas empresas de comunicações e em órgãos oficiais, figuras que protagonizam, no livro, episódios nada edificantes.
Até agora, podia-se simular a inexistência de denúncias para justificar-se a impunidade de jornalistas corruptos. (O verbo é esse mesmo: simular. Tornei públicas, por exemplo, as duas tentativas de suborno que sofri. O corporativismo das redações impediu que ambos os casos fossem investigados por outros repórteres). Agora, o tumor foi exposto. Órgãos de imprensa que não tratarem de removê-lo perderão o direito de formular qualquer tipo de denúncia.’[Augusto Nunes, diretor de redação da revista Época]
JORNAL DO BRASIL
José Antônio Nascimento Brito
‘Nos últimos 10 anos, três tendências se desenvolveram nos jornais brasileiros:
A primeira, desenvolvimento tecnológico, mas de uma forma muito ampla. Ela envolve melhorias em sistemas gerenciais, sistema de impressão e distribuição de jornais.
A segunda se refere à parte editorial. Há um nítido esforço para aumentar a credibilidade do trabalho da imprensa. Isto é bom.
Por outro lado, o maior defeito da imprensa que pauta o Brasil é, justamente, o de cobri-lo com irregularidade. O país, em geral, gira em torno do eixo Rio-São Paulo-Brasília e desnecessário dizer que ele é muito maior e complexo do que estas três regiões metropolitanas.’[José Antônio Nascimento Brito, diretor-presidente do Jornal do Brasil]"
(*) Copyright O Globo, 27/11/99
Anotações rápidas de uma leitura ligeira
Victor Gentilli
A leitura do livro de Mario Sergio Conti é envolvente. Texto agradável, fluente, bem escrito e uma história eletrizante só poderiam resultar numa obra daquelas que se lê de um fôlego só.
Mario Sergio comete pequenos erros e deslizes pessoais. Erra nomes de personagens secundários com muita freqüência. Não é o caso aqui de listar.
A versão, consagrada, de que a imprensa derrotou Collor sai arranhada. Permanece a essência do fenômeno – a mídia foi, institucionalmente, a produtora das informações que resultaram no afastamento do presidente. Mas rompeu-se com o maniqueismo: a dicotomia bem e mal. O governo era o mal, a imprensa era o bem.
A forma como jornalistas obtiveram acesso às informações do cartão de crédito de Claudio Humberto, a forma como Kaike Nanne obteve a declaração de renda de PC Farias, a maneira como Mario Sergio abre mão dos dados obtidos pela Folha e tantos e tantos outros relatos humanizam o fenômeno histórico e mostram as pessoas de carne e osso tomando suas decisões e optando por determinadas ações ou iniciativas.
Mario Sergio expõe as vísceras da imprensa, de alto a baixo: do patronato aos chefões, dos chefetes ao reportariado. Permite ao leitor entender como são feitos os jornais, as revistas, os telejornais.
Os jornalistas sempre expuseram as vísceras dos personagens das histórias que contam. Nunca tiveram as suas próprias tão expostas.
O jogo bruto, as chantagens, as negociações, os almoços, jantares e ameaças relatados expõem com frieza o jogo do jornalismo na sua prática cotidiana na grande imprensa brasileira.
A sociedade sempre quis saber até onde vai o poder do jornalista. Os incontáveis casos narrados mostram que existem momentos em que um jovem repórter pode fazer uma capa de revista. Pode também ver todo o seu esforço ir para o ralo. Aliás, a leitura do livro mostra que coleguinhas são mais poderosos que patrões. Quando Veja consegue uma entevista exclusiva, o repórter do jornal diário se dá conta que foi até Maceió à toa. A fonte não fala mais com ele.
Mario Sergio faz uma história recente da imprensa através de pequenos relatos entremeados ao longo do livro.
Muita história conhecida é requentada. Mas, pingados, aqui e ali, alguns relatos jogam luz sobre episódios marcantes da história da imprensa brasileira.
A crise de 1977 da Folha, que resultou na ida de Boris Casoy para a direção de redação, talvez tenha, no livro de Conti, o seu relato mais circunstanciado.
Mas ainda há muita sombra sobre o período.
A mídia sabia, sim
Celso Fernandes da Cunha
Liguei a televisão e tive oportunidade de ver o Observatório da Imprensa do dia 30/11, desde quase o começo, imagino. O mea culpa tardio de alguns jornalistas, a par de obviamente extemporâneo, soa falso. Quem era Fernando Collor todos sabíamos, qualquer criatura dotada de QI pouco acima do de um camelo médio tampouco o ignorava. Em junho de 1989, consegui publicar curta matéria acerca de uma entrevista realizada pelo jornalista Dirceu Brisola, da Band, com Fernando I, onde denunciei o caráter – ou melhor dizendo, a absoluta ausência dele, ostentatada pelo entrevistado. Editada, competentemente, diga-se, pelo Jornal do Brasil, e na íntegra, diga-se também, eivada de erros, pela Última Hora do Rio, foi publicada nas colunas de Cartas do Leitor, sem grande repercussão. Veja abaixo original.
"Brisola x Collor
Prefeito biônico na fase militar da ditadura, que hoje, à paisana, adota o cognome ‘Transição’; fiel do trem pagador de Maluf ao reformatório eleitoral; lídimo representante da retrógrada e excludente oligarquia canavieira nordestina; príncipe herdeiro do monopólio da comunicação global nas Alagoas. Trânsfuga contumaz, sobreviveu ao naufrágio do PDS, surfando na prancha do estelionato Funaro/Cruzado, que o elegeu pelo PMDB. Esse o curriculum vitae, ou melhor dizendo, a folha penal do Sr. Mello, F. Collor, divulgado no programa Crítica & Autocrítica (TV Bandeirantes, 28/589), pelo competente jornalista Dirceu Brisola, que conduziu a entrevista com o senso de humor reclamado pela farsa.
O bisonho candidato da Renovação Nacional (agora Partido, não mais Aliança) à presidência da República discorreu mais de hora e meia sobre o marajaísmo, neologismo por ele criado para nominar sua tosca versão fantasiosa dos moinhos de vento do genial Cervantes. Emaranhado nas próprias contradições, o D. Quixote tupiniquim tropeçou no vocabulário recém-adquirido, chegando a mencionar um movimento telúrico que o conduziria ao Planalto. Telúrico, por certo, há de entender o trêfego farsante como o doce latifúndio familiar, sustentáculo de suas pretensões.
Andou mal a direita brasileira, outrora servida pela retórica do Corvo do Lavradio, ao aposentar o Cavaleiro da Triste Figura que, desta feita, ao renunciar, não ‘fê-lo porque quí-lo’, substituindo-o por esse modelito prêt a porter, bonitinho mas ordinário. Pagou caro: sem demérito algum ao brilhante jornalista Brisola, restou claro que para desmascarar Collor basta Dirceu, não carece Leonel."
A carta foi publicada no Jornal do Brasil e na Última Hora, respectivamente, em l2/6/89 e 1/6/89. Ambos os jornais omitiram a observação constante do rodapé acerca de reformatório eleitoral, expressão que cunhei para denominar o Colégio Eleitoral (colégio que só tem ladrão e bandido é reformatório), posteriormente usada por meu amigo Fausto Wolf e apropriada indevidamente pelo Sr. Hélio Fernandes, de então em diante.
Como se constata, cumpri meu dever cívico, alertando com bastante antecedência para o caráter – ou a explícita falta – do facínora.
Acredito que programas de TV como o Observatório da Imprensa teriam imenso valor, tal como as lições da História, caso a experiência haurida nos erros do passado pautasse o comportamento de nossos "formadores de opinião". Lamentavelmente não é o que ocorre. Será que alguém ainda acredita na honradez de Fernando Henrique Cardoso e seus ministros? E na sui generis "privatização"? Será que quando a imprensa se livrar da censura (imposta, auto-imposta, inocente nociva, interessada ou não, conivente, pouco importa o adjetivo) vai esperar que FHC caia em desgraça, como seu antecessor, para criticá-lo? Comparado com o Segundo, Fernando Primeiro roubou pouco, mal e foi pilhado, um mero ladrão de galinhas de Canapi. O mesmo não se pode dizer de seu sucessor, que aditou, completou, superou em muito, em muitos bilhões de dólares, a obra nefasta de Collor.
A propósito, o Manifesto dos Juristas Brasileiros, produzido pelo Institudo dos Advogados do Brasil, é documento da maior atualidade e importância, seja por seu conteúdo como pelo peso de seus redatores e signatários – o primeiro nome é Barbosa Lima Sobrinho. Com as raras e honrosas exceções de sempre, a mídia fingiu ignorar, mas está saindo em livro. No site <www.ibpinet.com.br/iab/> se pode ver a prova final da obra.
(*) Advogado
TRÉPLICA
CartaCapital e Folha de S.Paulo
Não se trata de honra. Trata-se de correção profissional. A decisão anterior, de "não responder a CartaCapital", é sintomática dentre os jornalistas nativos [veja remissões abaixo]. Imaginam-se, sempre, abrigados por um guarda-chuva maior que os demais. Esquecem-se, quase sempre, que guardas e chuvas – se você não é o patrão –, assim como vêm, se vão. É da vida.
Estabelecida a "decisão" de responder, vamos ao conteúdo.
1. "Nem mesmo sabia que eles tinham dado algo a respeito".
Gravíssimo, senhora Cantanhêde, ainda que a frase toda possa conter algum cálculo no desprezo. Colunista de tal importância desconheceu, por 45 dias, que a segunda companhia telefônica do mundo e o governo brasileiro estão envolvidos numa disputa de R$ 1 bilhão?
Vá lá que CartaCapital não seja digna de merecer sua leitura, mas o Jornal da Record, de Bóris Casoy e grande audiência, noticiou a capa e o caso com destaque. Também a Rádio Bandeirantes. E ainda o Correio Braziliense, na coluna de Miriam Guaraciaba. Também aí, nem a colunista nem ninguém na redação percebeu o bilhão em disputa. É isso?
2. Megalomania e ridículo à parte, até porque adjetivos dependem do lado da calçada, "por que os lados interessados não vazariam?" Elementar: quem teria interesse em vazar algo a respeito não dispunha do material. Se dispusesse, teria usado.
Mas admitamos, como hipótese, que alguém tivesse interesse – à época – e se dispusesse vazar. Ainda assim, numa informação dessa relevância, não há como não indicar aos leitores que o assunto já estava nas praças, nas bancas e telejornais há 45 dias. Mas, sabemos, e sabe qualquer jornalista que conheça o mínimo de uma redação, que é proibido citar o outro. Qualquer um com qualquer um. Salvo quando absolutamente inescapável.
3. Não se julgou a qualidade dos colegas Ribamar e Gustavo. Observou-se um fato: o Estado de S.Paulo não usou um fac-símile, uma foto, uma xerox das cartas. Redigiu-as de novo. Com a ausência da data, o que identifica a origem. Admitamos, mais uma vez como hipótese, que desconheciam o assunto até então e que também nesta redação ninguém lê CartaCapital nem dá uma passada de olhos pelo jornal do Bóris, ou pelo Correio Braziliense – ou ouve a Bandeirantes. Não parece desconhecimento demais para tantos jornalistas de renome?
4. Não se trata da honra de ninguém, e sim do debate sobre equívocos que qualquer um pode cometer. E que, infelizmente, têm se avolumado nestes tristes tempos. Há, ainda ao longo de 1999, outros episódios, muito mais graves, que envolvem Folha de S.Paulo e CartaCapital. Mas, deixemos para lá.
5. Não duvido nem de sua honra nem da capacidade do Bob Fernandes de atestá-la. Mas, no caso, você se dirigiu a quem aqui mais uma vez assina. Mino Carta
DEU A LOUCA NA MÍDIA
Irresponsável incentivo ao ódio
Marcelo Nogueira
Vou ser rápido e objetivo. O caderno Internet do Jornal do Brasil de 2/12/99 traz a seguinte matéria de capa (com continuação na página 2): "Comunidades digitais".
A matéria começa dizendo que, de sites nazistas a discussões evangélicas, é possível encontrar de tudo na web. Cita vários possíveis interesses, entre os quais o nazismo, e termina o primeiro parágrafo sugerindo: "Então, a postos. Ache a sua tribo-metade e tire o melhor proveito possível".
A matéria continua na segunda página, e termina abrindo uma janela, sob a chancela "Serviço", onde são dados vários endereços, sendo os três primeiros do site Nazismo Brasileiro, Links para sites Nazistas e Grupos Racistas. Nesta mesma janela constam, então, endereços de sites de samba, festas rave, congada, tatuagens, tecno etc.
Que tipo se serviço é esse? Desde quando, fora da Alemanha de Hitler, um jornal da importância e da suposta responsabilidade do JB indica grupos de reuniões nazistas e racistas como se estivesse prestando um serviço?
Serviço para quem, cara-pálida? Serviço para história? Para a civilização moderna? Para a humanidade? Ou para um bando de assassinos que há não muito tempo destruíram milhões de vidas, destruíram um continente inteiro, destruíram famílias?
Se o JB não percebe a tamanha falta de responsabilidade pública ao prestar este deplorável "Serviço", deveria pelo menos conhecer e ter um pouco de respeito pela Constituição brasileira, que proíbe qualquer ato de incitação racista.
Definitivamente, não podemos deixar este tipo de comportamento voltar a bater às nossas portas. Precisamos agir.
Passe este texto para as suas listas de postagem. Liguem para o JB, falem com o editor-chefe do jornal, com o editor do caderno de informática, ameacem cancelar suas assinaturas, retirar anúncios por menores que sejam, recusem-se a colaborar com tais reportagens.
Precisamos exigir uma retratação publica, um pedido de desculpas, alguma ação que demonstre o reconhecimento de um ato de tamanha irresponsabilidade.
Por fim, prestem atenção, a matéria é assinada. Sugiram a Andrea Rosa e Elis Monteiro um cursinho intensivo de historia moderna e direitos humanos.
ASPAS
Jornal do Brasil
No dia seguinte, 3/12, o Jornal do Brasil publicou o seguinte texto na coluna A Opinião dos Leitores:
"Nazismo na Internet
Leitores do JB criticaram a reportagem do caderno Internet, que em sua edição de ontem registrou a existência de sites de partidários do nazismo. O objetivo da reportagem foi, na verdade, mostrar como a Web vem se transformando em campo fértil para a disseminação de ideologias de todos os tipos. Uma das grandes virtudes da Internet consiste em trazer para a luz do dia movimentos subterrâneos, que agindo na clandestinidade podem contrariar a constituição de um país, ou induzir à violência, antes que se criem anticorpos para combatê-los. Em nenhum momento o caderno Internet pretendeu, sob a rubrica "serviços", induzir à visitação de quaisquer dos sites mencionados. Com o passar do tempo, com certeza a Internet vai desenvolver códigos de ética e conduta mais rigorosos para prevenir o proselitismo dos movimentos radicais. O desejável é que isso ocorra através da auto-regulação, e não de novas formas de censura. – O Editor"
Copyright Jornal do Brasil, 3/12/99
Comentário criminoso
Marcelo Cerqueira (*)
"Aidéticos devem reservar vaga no cemitério", diz editorial do jornal A Tarde, de Salvador! Em nome do Fórum Baiano de ONGs/Aids, solicitamos que mensagens de protesto sejam enviadas ao e-mail <atarde@atarde.com.br>, do jornal A Tarde, "o maior jornal do Norte-Nordeste do Brasil", pelo discriminatório editorial divulgado exatamente do Dia Mundial da Aids (1º/12), no qual se lê:
"Uma data simbólica faz sentido para alertar os mais descuidados. Mas, a rigor, todo dia deve ser dia de combate à Aids. O que só se consegue com prevenção, porque remediar de nada adianta. Quando o vírus [HIV] começa a produzir sintomas, o mais correto para a vítima é procurar uma funerária ou um coveiro. Reservar uma vaga no cemitério é ser mais realista do que perder dinheiro com coquetéis que embebedam o orçamento familiar e no máximo prorrogam por alguns meses ou semanas o dia fatal dos aidéticos."
Solicitamos que A Tarde corrija seu desastrado editorial divulgando as seguintes informações:
1) De acordo com a OMS e o Ministério da Saúde, com as modernas terapias a Aids cada vez mais se torna uma espécie de "doença crônica’, perfeitamente tratável, aumentando por anos e décadas a esperança e qualidade de vida do portador de HIV ou doente de Aids;
2) Mesmo antes do surgimento dos sintomas, tão logo a pessoa tenha conhecimento do resultado positivo de seu exame sorológico, o correto é procurar imediatamente um médico especializado a fim de iniciar a terapia antiviral e seguir aconselhamento psicológico a fim de valorizar a vida e enfrentar a doença com esperança e auto-estima;
3) O termo "aidético" é rejeitado pelas pessoas com HIV/Aids, pelas ONGs/Aids e entidades de direitos humanos, na medida em que segrega e estigmatiza os portadores, devendo portanto ser evitado, sobretudo nos meios de comunicação.
(*) Centro Baiano Anti-Aids
ASPAS
Christianne González
"O Fórum baiano de ONGs-Aids (Organizações Não-Governamentais que trabalham na prevenção da Aids) anunciou ontem que vai ingressar com uma representação no Ministério Público contra A Tarde – jornal de maior circulação no Norte e Nordeste que, anteontem, publicou um editorial considerado preconceituoso pelas 25 entidades que integram o fórum.
No editorial ‘Dia contra a Aids’, o jornal publicou o seguinte trecho: ‘Quando o vírus começa a produzir sintomas, o mais correto para a vítima é procurar uma funerária ou coveiro. Reservar uma vaga no cemitério é ser mais realista do que perder dinheiro com coquetéis que embebedam o orçamento familiar e no máximo prorrogam por alguns meses ou semanas o dia fatal dos aidéticos’.
Segundo a coordenadora do Departamento de Assistência do Grupo de Apoio e Prevenção à Aids na Bahia, Gleide Almeida, 34, o editorial fere os direitos humanos. ‘As críticas que o jornal faz ao medicamento utilizado para combater os efeitos do HIV são infundadas, além de violar o direito do cidadão de acesso aos medicamentos e de banalizar a luta pela qualidade de vida’, disse.
Ontem, o jornal publicou nota dizendo que houve má interpretação do editorial. Segundo a nota, o objetivo do editorial era o de advertir contra a Aids e esclarecer que ‘o combate à doença só se consegue com prevenção, porque remediar de nada adianta’.
A nota também diz que o jornal não se coloca contra soropositivos ou portadores de qualquer doença, ‘embora a advertência severa possa ter chocado os portadores da doença’."
"ONGs prometem ir à Justiça contra editorial de jornal baiano" , copyright Folha de S.Paulo, 3/12/99
BARRIGA CAPIXABA
Imprensa amiga da onça
Victor Gentilli
Manchete de A Gazeta (25/11/99), do Espírito Santo, induz o leitor a erro. Insinua que a amiga de uma pessoa assassinada tem envolvimento no crime. Expliquemos: em 24 de outubro, a estudante Isabela Negri Cassani saiu de sua casa para encontrar a amiga. Jamais chegou ao destino. Foi achada morta no dia seguinte, vítima de violência física e estupro.
A polícia vem fracassando na investigação do caso.
A amiga é americana. Morava no centro da cidade de Vitória, mudou-se logo após o crime e decidiu retornar aos Estados Unidos.
Leann Collen Gridley, missionária de 25 anos, era amiga e confidente de Isabela. A mãe de Isabela, conforme informa A Gazeta de 26 de novembro, alertou a polícia diversas vezes que a amiga pretendia voltar aos Estados Unidos. Mas a polícia evitava convocá-la para prestar novos depoimentos.
Ao viajar para os EUA, Leann conseguiu a indignação do delegado que investiga o caso e de um juiz, que decidiu pedir sua prisão preventiva, inclusive com pedido de ajuda à Interpol.
Mas o jornal errou muito mais. O fato é verdadeiro. Mas não tem a menor importância. Tanto que, no dia seguinte, o jornal não deu continuidade. Trouxe apenas, em pé de página, entrevista com a mãe da vítima criticando a maneira como a polícia vem conduzindo as investigações.
Leann fez muito bem em ir para os EUA. Permanecer no Espírito Santo sem sua amiga, com esta polícia e com esta imprensa, é demais.
ROUBADA DO MILÊNIO
CNN em estado de choque
Marinilda Carvalho
O toque de recolher e o estado de emergência civil decretados pelo prefeito de Seattle em plena Rodada do Milênio da Organização Mundial do Comércio deixou a CNN chocada. Acostumados a segurar numa boa coberturas de quebra-quebra e desobediência civil em todo o planeta, os âncoras da emissora mostravam estupefação total diante dos acontecimentos da terça-feira em sua própria terra, quando ativistas de ONGs do mundo inteiro provocaram um distúrbio tal que atrasou a abertura da reunião da OMC. Algo que os americanos não viam desde os anos 60.
Aqui, O Globo demonstrou, pela cobertura pífia, que também foi apanhado de surpresa.
Acontece que as ONGs vinham atulhando as redações – nacionais e internacionais – com releases anunciando que esculhambariam o evento, chamado no Brasil de "Roubada do Milênio".
Não acreditou – e não se preparou – quem não quis.
PRÊMIO ESSO
O Clube dos Treze
Paulo Oliveira
Aluysio Barbosa, Folha da Manhã (Campos-RJ); Antonio Carlos, Folha de S. Paulo; Ari Schneider, revista Jornal dos Jornais; Ariovaldo Bonas, Época; Bruno Thys, Extra; Eduardo Martins, Estado de S.Paulo; Gilberto Pauletti, Gazeta Mercantil; Lenora Barros, Elle; Mariza Tavares, O Globo; Mônica Maia, Agência Estado; Ramiro Alves, IstoÉ; Rosangela Bittar, Jornal do Brasil; Sérgio Costa, O Dia.
Assim como os "cartolas" dos clubes de futebol, os jornalistas também defendem no "tapetão" os interesses dos veículos em que trabalham. O campo de jogo é o bastidor do Prêmio Esso de Jornalismo.
Este ano, dos 13 convidados da comissão de escolha dos finalistas (ver os nomes acima), 11 conseguiram indicações para suas empresas. Só o jornal Folha da Manhã, de Campos (RJ), e a Elle não tiveram reportagens na finalíssima, que será julgada por outro júri a ser escolhido nos próximos dias.
O "Clube dos Treze" também conseguiu levar para o âmbito do prêmio a disputa de foice que vem sendo travada por O Dia e Extra pela supremacia de ser o jornal popular mais vendido no Rio. Não é por coincidência, afinal, que os dois jornais estão disputando o título da Regional Sudeste – o terceiro finalista é da revista IstoÉ.
A briga é tão acentuada que antes mesmo de a assessoria da Esso anunciar formalmente a relação da primeira fase do prêmio O Dia publicou meia página, na quinta-feira, com matéria sobre sua indicação. Só fez isso porque a direção da empresa soube através de seu representante do resultado e resolveu fazer um lobby em suas páginas.
Todo ano é a mesma coisa. Alegria, frustrações e reclamações de que boas reportagens ficaram fora da disputa por conta dos acordos entre os jurados. A Esso, que organiza a festa e distribui um total de R$ 69 mil, sempre se isenta de qualquer responsabilidade, com a desculpa que a escolha dos finalistas e vencedores é responsabilidade dos profissionais de imprensa.
No entanto, vale ressaltar que para recuperar o prestígio da década de 50 e 60 – o prêmio foi instituído em 1955 –, os organizadores têm que aprimorar permanentemente o regulamento.
Aumentar o número de julgadores – em 93, eram apenas cinco – não conseguiu afastar as reclamações de que grandes jornais e revistas costumam ser beneficiados por acordos entre seus pares.
Incluir professores de comunicação e repórteres, diminuir o número de chefes e editores entre os jurados e fazer com que jornalistas de estados do Nordeste, por exemplo, escolham o prêmio regional Sul ou Sudeste, pode trazer melhores resultados.
Ou evitar que se repita a história de um famoso editor que jurou nunca mais abastecer seus carros no posto Esso, aos gritos de "O tigre é viado", porque a matéria de seu jornal foi desclassificada num "acordo de cavalheiros".
Em causa própria
O número de indicações, de acordo com os veículos com representação na comissão julgadora:
- Folha de S.Paulo
e IstoÉ – 3
- Jornal do Brasil
, O Dia, O Globo e Estado de S.Paulo (o grupo Estado também estava representado por uma gerente da agência de notícias) – 2
- Gazeta Mercantil
, revista Jornal dos Jornais, Extra e Época – 1
A revista Jornal dos Jornais foi agraciada com o prêmio de melhor contribuição à imprensa por "sua postura democrática, aberta ao livre debate de idéias sobre os rumos do jornalismo e da indústria editorial".
O total de indicações dos veículos representados na comissão de seleção equivale a 50% do total de finalistas, 72% das indicações para as seis principais categorias e 100% dos candidatos ao prêmio principal. Vale lembrar que foram inscritos trabalhos de 142 publicações de todo o Brasil.
Finalistas
De acordo com a consciência dos jurados, os finalistas do Prêmio Esso 1999 são:
Reportagem
Segredos do poder, Elvira Lobato e Fernando Rodrigues, Folha de S.Paulo
Caso PC: uma investigação sobre as mortes de Paulo César Farias e Suzana Marcolino, Mário Magalhães, Ari Cipola e Paulo Peixoto, Folha de S.Paulo
Riocentro, Chico Otávio, Ascânio Seleme e Amaury Ribeiro Júnior
Fotografia
PMs matam dois na Baía de Vitória, Claudney Pessoa, A Gazeta (ES)
Domingo de Pavor, Marco Terranova, Jornal do Brasil
Acidente na Lagoa, Carlo Wrede, Jornal do Brasil
Informação Econômica
Caro Chico..., Daniel Stycer, IstoÉ
Brasileiro falido esbanja em Londres, William Waack, Época
Queda de Gustavo Franco, Jorge Bastos Moreno, O Globo
Informação Científica
Projeto Água, equipe Gazeta Mercantil/Planalto Paulista
Transgênicos, o último debate do século, equipe Estado de S.Paulo
Rastros indomáveis, Cláudio Cerri, Globo Rural
Especial Interior
HB apura desaparecimento de corpo, Rita Magalhães, Diário da Região, São José do Rio Preto (SP)
Cidadania nas escolas: a arma contra violência, Daniela Arbex, Tribuna de Minas, Juiz de Fora (MG)
Ascensão e queda de Antônio Izzo Filho, Nelson Gonçalves, Jornal da Cidade, Bauru (SP)
Criação Gráfica – Jornal
O preço da liberdade, André Hippertt e Renata Maneschy, O Dia
Insatisfação marca opinião dos de bem com a vida, Marcelo Plinger, Folha de S.Paulo
Patativa do Assaré – 90 anos, Andréa Araújo e equipe, O Povo (CE)
Criação Gráfica – Revista
Matar por esporte, Editoria de Arte da Trip
A natureza em fúria, Saulo Ribas, Artur Lopes, Ronaldo Ribeiro e José Airton Milanez, Terra
Um cadáver político, João Carlos Alvarenga Freire, IstoÉ
Regional Norte
A ferida está aberta, Lilian Orfano, Jaime Moreira e Sílvio Martinello, A Gazeta (AC)
Violência entre galeras faz legião de mutilados, Orlando Farias e Siglia Regina, A Crítica (AM)
Manobras isentam madeireiras de ITR, Kátia Brasil, O Estado de S.Paulo
Regional Nordeste
Caso Campelo – Documentos inéditos ligam diretor da PF a caso de tortura, equipe do jornal O Povo (CE)
Patativa do Assaré – 90 anos, equipe do jornal O Povo (CE)
Rumo ao Deserto, Marcos Peixoto, Diário do Nordeste (CE)
Regional Centro-Oeste
Cuidado! Você pode cair na armadilha do radar, João Carlos de Faria, O Popular (GO)
Criança no lixo, nunca mais, Sandra Kiefer, Francis Rose, Déa Januzzi e Evaldo Sérgio, Estado de Minas
Esquema para compra de carteira envolve policiais einstrutores, José Cleves, Estado de Minas
Regional Sul
Transamargura, Eliane Brum, Zero Hora (RS)
O corredor da esperança, Fabíola Bach e Humberto Trezzi, Zero Hora
A vida que ninguém vê, Eliane Brum, Zero Hora (RS)
Regional Sudeste
O escândalo da adoção, Mário Simas Filho, IstoÉ
A cova dos 259 Josés, Victor Javoski, Extra
O preço da liberdade, João Antônio Barros, O Dia
PÉROLAS
Reuters in portuguese
Marco Aurélio Marcondes
Encontrei na página brasileira da agência Reuters os textos abaixo:
- "No coração do sistema de gráficos estão os computadores Apple Macintosh numa rede de pares transsados";
- "Isto significa que as notícias que nós enviamos para os clientes deve sempre ser acima de tudo verácil, rapidamente entregue e claramente escrita";
- "Nossa principal expertise está na área de notícias em tempo real, cujo mercado no Brasil é muito jovem, apenas 5 anos. Nele, nos destacamos pelo seu foco na acuracidade e velocidade da informação".
Pobres clientes.
Saudades do redator
Marco Aurélio Nascimento
Qual é mesmo a agência dona da conta da Heineken? Um redator de lá escreveu – e foi ao ar:
– [no ano 2000]... haverão milhares de festas.
Leia também
Cuidado, canibais em ação
Resposta a Mino Carta, por Eliane Cantanhêde
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