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ASPAS

O CIRCO DA RENÚNCIA
Eliane Cantanhêde

"ACM: mito e vítima?", Folha de S. Paulo, 31/05/01

"No primeiro dia do Fórum Global de Combate à Corrupção, aqui em Haia, Holanda, um colega jornalista de Cabo Verde se aproximou de mim: ‘Você é brasileira? E aí, o Antonio Carlos Magalhães vai renunciar mesmo?’.

Quase caí dura. A fama de ACM atravessou continentes e oceanos, e a história da violação dos votos secretos do Senado ganhou o mundo.

No texto da Transparência Brasil apresentado no encontro, lá está ACM de novo. Ele é citado, primeiro, como uma espécie de dono da Bahia, onde controla com mão-de-ferro os meios de comunicação. Depois, indiretamente, quando a Transparência aponta dois Estados com iniciativas interessantes para garantir acesso público às ações da administração.

Está aí, nesse texto, um resumo da imagem polêmica, controversa, de ACM. O homem autoritário, chegado ao mandonismo, conivente com o regime militar. E o homem que se cerca de técnicos competentes e moderniza a Bahia. Ou que forja essa imagem à custa dos meios de comunicação...

O fato é que, aos 73 anos, quase 50 de vida pública, mitificado após a morte do herdeiro político, adversário número um do governo FHC, ele não é um político qualquer.

ACM cometeu um crime, e é alvissareiro que, além de roubos e desvios, o país tenha amadurecido o suficiente para não perdoar também falhas de caráter ético, quase subjetivo. Mas não me peçam que solte fogos com a sua desgraça.

Comemoro o processo, mas não o revés, a dor pessoal, o golpe num homem sempre tão invulnerável. Ele errou muito. Não só no caso do painel, mas ao longo da vida. É, porém, um marco na história, para o bem e para o mal. Como desprezar o lado dramático de tudo isso?

De qualquer forma, isto aqui não é um necrológio político. Ao contrário. ACM deixa o Senado, mas se mantém um mito e deve investir na aura de ‘grande vítima’. Deixa o filho no gabinete de Brasília, dispõe de um bom quadro como Paulo Souto na Bahia e está livre e solto para pintar e bordar. Principalmente em 2002."



Augusto Nunes, Lydia Medeiros e Carolina Brígido

"As longas pernas da mentira", Época, 4/06/01

"O presidente Tancredo Neves foi o escolhido para acabar com o Brasil de fantasia construído por mitômanos fardados e decorado por espertalhões e prestidigitadores à paisana. Como do lado de baixo do Equador a lógica vive sujeita a cambalhotas, a implosão desse país imaginário, grande e sólido como um prédio erguido por Sérgio Naya, exigiu de Tancredo a participação num prodígio de ilusionismo fotográfico que resultaria na imagem ao lado, produzida em 25 de março de 1985. É um retrato impecável do Brasil da mentira.

A foto foi feita no Hospital de Base, em Brasília, onde o presidente eleito acabara de sofrer cirurgia imposta por graves complicações no intestino. Tancredo sorri. Também sorriem os demais atores - a primeira-dama Risoleta e cinco médicos escalados como figurantes. Só se manteve séria uma enfermeira que, agachada atrás de Tancredo Neves, segurava o soro destinado a prorrogar, como diriam boletins oficiais tão verdadeiros como uma cédula de 13 reais, ‘as funções vitais preservadas’. A enfermeira foi removida por retoques na foto. Até parece mentira.

Num país onde se mente com tamanha freqüência, a verdade é muito prezada - e, sobretudo em ambientes políticos, o som dessa moeda pode ecoar como um vulcão de dólares na favela.

- Alguém aqui está mentindo! - disse o senador Jefferson Péres, do PDT amazonense. Ele se referia aos colegas Antonio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda, protagonistas da acareação promovida pelo Conselho de Ética e Decoro Parlamentar. Declamada a frase, o autor deixou o recinto com expressão ofendida.

Péres escolhera criteriosamente o tempo verbal. Caso optasse pelo passado e dissesse ‘Alguém aqui mentiu’, o senador pedetista se arriscaria a provocar efeitos semelhantes aos descritos pelo cronista Nelson Rodrigues sobre as conseqüências do grito ‘Olha o rapa!’ nas antigas praças do Rio. (‘Rapa’, esclareça-se aos mais jovens, era a polícia especializada em fiscalizar - e achacar, sempre que possível - os vendedores ambulantes.) Pois não há um único senador que jamais tenha mentido.

Três meses antes, o próprio Jefferson Péres, então candidato à presidência do Senado, garantia a todos os companheiros da Casa que tinha chances de vencer o favoritíssimo Jader Barbalho. Mentia, claro. Melhor: dizia uma inverdade, porque o Congresso é um clube que exige - ou exigia, antes da revogação de antigos ritos pelo duelo entre Jader e ACM - ao menos um verniz de polidez de seus freqüentadores. Lá não se diz, por exemplo, ‘você é ladrão’. Manda a etiqueta parlamentar que se utilize outra fórmula:

- Vossa Excelência é um ladrão.

Também não se ouvem mentiras no Congresso. Alguém ‘falta com a verdade’, outro ‘diz uma inverdade’. É possível ‘incorrer em equívocos’, mas ninguém mente. Oficialmente. Na prática, mente-se muito. Antes da campanha, depois da eleição. E durante a vida pública.

Entre políticos de todos os sotaques, o elogio da verdade é tão rotineiro quanto recorrer à mentira como arma, de ataque ou defesa. Mas a inventividade brasileira roça com tal ousadia as fronteiras do inverossímil que chegou a criar o avesso de Pinóquio. Na história imaginada em 1881 pelo escritor italiano Carlo Collodi, o nariz do boneco de madeira crescia a cada mentira contada por Pinóquio.

Presidente dos Estados Unidos entre 1933 e 1945, quando morreu pouco depois de eleito para o quarto mandato consecutivo, Franklin Delano Roosevelt transformou-se numa prova desconcertante de que a mentira pode até prescindir de pernas. Ele chegou à Casa Branca já seriamente afetado pela poliomielite que o surpreendera aos 39 anos. E assim começou a caminhada triunfal.

Em 1940, quando preparava os americanos para reelegê-lo e, logo depois, entrar em guerra, Roosevelt estava aprisionado a uma cadeira de rodas. Graças a um conjunto de trunfos - aparelhos médicos que lhe sustinham as pernas enquanto apoiava as mãos em púlpitos ou mesas, cordões improvisados por auxiliares, a complacência de fotógrafos que só o mostravam da cintura para cima e a predisposição das platéias em acreditar no que parecia mais patriótico -, um paraplégico pôde agir, durante quase cinco anos, como o líder onipresente da mais sólida democracia do planeta.

Outras mentiras, de diferentes calibres, marcaram a Era Roosevelt. O lesbianismo de sua mulher, Eleanor, permaneceu confinado no olhar de algumas amigas que dividiam com a primeira-dama os fins de semana. Muitos anos depois alguns escritores ousariam tratar do tema. Na época, pareceria algo tão irreal quanto afirmar que Roosevelt soube do ataque japonês a Pearl Harbor a tempo de impedi-lo. Teria preferido mentir para expor aos EUA a verdade da guerra.

Mais de 100 anos depois, o ex-governador Orestes Quércia provou que, no Brasil, mentir pode reduzir essa parte da face. Em 1989, depois de alguns dias de sumiço, Quércia reapareceu com o nariz menor e, em vez de adunco, afilado. Jurou que não se submetera a cirurgias plásticas. Meses depois, outro sumiço e outra mudança. Sem bisturis, reiterou. Anos mais tarde Quércia admitiu a operação. Mas a mentira já lhe diminuíra o nariz.

Certos políticos poderiam ter a efígie cunhada sobre um dístico oferecido pelo humorista Stanislaw Ponte Preta: ‘Mentia com tanta ênfase que até mesmo o contrário do que dizia estava longe de ser a verdade’. Ou, então, de outra frase de Millôr Fernandes: ‘Fala-se muita mentira com extrema sinceridade’. Em sua defesa, os rostos reduzidos a efígie talvez pudessem esconder-se sob o argumento exposto pelo francês Benjamin Constant num texto de 1797: ‘O princípio moral que declara ser um dever dizer a verdade, se alguém o tomasse incondicional e isoladamente, tornaria impossível qualquer sociedade.’

Surgido em 1928 da admirável imaginação do escritor Mário de Andrade, Macunaíma personifica o malandro cheio de lábia e ardis, mitômano e preguiçoso. Chegou ao cinema em 1969, encarnado de forma magistral pelos atores Grande Otelo ,(foto) e Paulo José, no filme sob a direção de Joaquim Pedro de Andrade

Poderiam, também, simplesmente desculpar-se como o escritor Gilberto Amado: ‘O amor da verdade me é inerente, não o posso suprimir dentro de mim. Só lamento não poder dizê-la, sempre, e inteira.’ Quem conheceu Gilberto Amado de perto garante que, se achava verdadeiro o que escreveu, o autor não teve pouco a lamentar. Político - e político no Brasil - por algum tempo, Gilberto Amado também ficaria alvoroçado se, numa sessão qualquer do Congresso, fosse surpreendido por uma voz a exclamar:

- Alguém aqui mentiu!

Mas é improvável que olhasse para os lados.

A terra que tem em Macunaíma um de seus heróis convive pacificamente com mentiras há 501 anos. A carta de Pero Vaz de Caminha, diria um parlamentar, falta com a verdade em vários trechos. O que os indígenas ouviram dos portugueses desembarcados das caravelas não coincidiria com a realidade. Pacíficos que somos, travamos a última guerra no continente entre 1864 e 1870, contra o Paraguai. Mas os arquivos que ocultam a verdade continuam zelosamente guardados pelos comandos militares. Os brasileiros ainda não sabem se é mentira a história, corrente do outro lado da fronteira, segundo a qual a luta terminou com o virtual extermínio da população masculina do país vizinho (e hoje muito amigo). Quem espalhou a versão de que a mentira tem pernas curtas não estava interessado na verdade. Tem pernas suficientemente longas para estender-se pelo planeta inteiro, ou cobrir qualquer país de um extremo a outro. Com a idade do homem, exibem nervos e músculos cuja força lhes permite sonhar com a eternidade.

Ninguém aqui está mentindo.

Quem viver o suficiente para alcançar a adolescência e garantir que só disse verdades estará mentindo. Ser verdadeiro todo o tempo parece tão possível quanto viver sem respirar. ‘É inútil chamar alguém de mentiroso: todo mundo é’, constatou o pensado Millôr Fernandes. Como passar a vida sem escorregar numa das tantas categorias em que a mentira se divide? Seguem-se algumas:

* Fantasiosa - Dizer a uma criança que Papai Noel ou o coelhinho da Páscoa existem.

* Utilitária - O filho dizer aos pais que chegou na hora combinada, não no começo da manhã. Os pais dizerem ao filho ‘volto já’ quando saem para jantar fora.

* Gentil - Elogiar o traje de alguém que está agredindo a elegância ou a silhueta de quem precisa de exercícios.

* Inevitável - Jurar que ‘não é o que você está pensando’ quando surpreendido em companhia incômoda.

* Piedosa - O médico sonegar ao paciente detalhes de algumas doenças.

* Compulsiva - Coisa de mitômano. É gente que mente mesmo sem nenhum motivo."



Marcelo Migliaccio

"TV Senado vira ‘cult’ com escândalos e renúncias", Folha de S. Paulo, 3/06/01

"CHORO, intriga, ironia, papéis comprometedores, relações obscuras, mentiras desmentidas. Ingredientes comuns na teledramaturgia estão levando a TV Senado a alcançar picos de audiência. Embora não seja citado no ranking do Ibope das TVs pagas referente a março e abril, o canal registrou grandes audiências ao exibir, na íntegra, os depoimentos e as renúncias dos senadores José Roberto Arruda e Antonio Carlos Magalhães, envolvidos na quebra do sigilo do painel eletrônico da casa.

‘Nosso site, que normalmente computa entre 250 e 300 acessos diários, no dia da acareação entre ACM, Arruda e a funcionária Regina, chegou a receber 6.400 visitas’, afirma o diretor do canal, Aluizio Oliveira, 35, no cargo há um mês e meio. Segundo ele, o aumento das ligações para o serviço 0800 do Senado durante os depoimentos cruciais do caso do painel eletrônico também evidencia a popularidade conquistada pela TV Senado, que atinge um universo estimado em 40 milhões de pessoas, que têm TV paga (cabo e satélite) ou parabólicas.

A estudante Dandara Ferreira, 15, que cursa a 1ª série do 2º grau num colégio paulistano, sempre dá um jeito de chegar mais cedo em casa nos dias em que as sessões do Senado prometem emoções fortes. ‘Assistindo ao ‘Jornal Nacional’, não dá para saber exatamente como os senadores se comportaram nos depoimentos. As reportagens são editadas. Vendo a sessão toda na TV Senado, fica mais fácil julgar.’

Os câmeras da TV Senado, que dividem espaço no plenário com jornalistas e equipes técnicas de quase todas as redes televisivas do país, já conhecem os ‘atores’ do ‘cast’. ‘O Pedro Simon (PMDB-RS) sempre sabe onde eu estou posicionado’, diz um dos cinegrafistas, mostrando-se preocupado em preservar seu anonimato. Colega de partido de Simon, Ney Suassuna (PB), já reclamou várias vezes, em tom de brincadeira, de ter que ir com uma gravata diferente a cada dia para que eventuais repetições no visual não sejam percebidas pelos telespectadores da TV Senado. E um outro senador parou de fumar, pelo menos durante as sessões, depois de receber reclamações da audiência via e-mail.

Com 180 funcionários, entre técnicos e jornalistas, o canal já foi incorporado ao dia-a-dia das sessões. ‘Por favor, senhores senadores, desliguem seus celulares, pois os ruídos estão sendo captados pelos microfones da TV Senado’, pede habitualmente o presidente do Conselho de Ética, Ramez Tebet (PMDB-MS).

Na virada do semestre, deve desembarcar em Brasília uma delegação do legislativo mexicano. Parlamentares e assessores técnicos vêm fazer um estudo da TV Senado para implementar algo similar em seu país. Com um orçamento incorporado ao da casa -e que Aluizio Oliveira diz não poder precisar-, o canal, implantado em 1996, possui 14 câmeras, um estúdio, ilhas de pós-produção e ocupa dois andares de um dos anexos do prédio do Senado, na Esplanada dos Ministérios.

Além das transmissões ao vivo das sessões, que ocupam mais da metade da programação e podem ser reprisadas na madrugada, a TV Senado exibe documentários sobre o legislativo, espetáculos teatrais, óperas, um programa musical apresentado pelo ex-senador Arthur da Távola (PSDB) e o ‘Fala Cidadão’, em que pessoas abordadas nas ruas fazem perguntas e reclamações aos legisladores."



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