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CAPITALISMO EM CRISE
Mídia e a morte do projeto neoliberal
(*)

Bernardo Kucinski (**)

O projeto neoliberal morreu repentinamente, de modo trágico, depois de uma vida curta em que só fez estragos. A mídia brasileira, chocada, ainda não percebe todas as implicações do vazio que se criou. Mas não fala de outra coisa nas suas reportagens. É interessante observar ao vivo a mudança de um paradigma. A mídia foi um instrumento de implantação do projeto neoliberal e para isso adotou o discurso único. Agora precisa se reciclar. Vai levar algum tempo, mas o processo já começou.

Neste último final de semana deu-se um momento importante nesse processo. Recomendo as reportagens das revista semanais Época, IstoÉ e CartaCapital sobre a crise financeira. Cada uma delas mostra, de uma forma, que o ciclo FHC acabou deixando aos brasileiros uma terrível uma heranças de dívidas impagáveis e crises insolúveis.

Herança de dívidas e quebradeiras

Época mostra como se estancaram de repente todas as linhas externas de financiamento ao Brasil, coisa que não aconteceu nem na moratória de 1987. E adverte que pode se dar uma quebradeira de empresas de agora até o final do ano. Tenta botar a culpa no protocolo de Ouro Preto, assinado por Ciro Gomes.

IstoÉ adverte que o cenário é de uma brutal recessão, devido à paralisia das empresas, e que podemos desembocar uma crise institucional. CartaCapital faz um balanço minucioso da herança de dívidas e problemas deixadas por FHC. Título da matéria principal: "O enterro de uma era". Menos feliz é o título da matéria devastadora de Delfim Netto: "A construção de um castelo de areia". Castelos de areia desabam se machucar ninguém. Não foi o nosso caso.

Talvez a moratória?

Na Folha de S.Paulo de segunda-feira (5/8), dois importantes economistas franceses dizem que predomina ente os banqueiros o medo de uma moratória do Brasil. Dizem que o FMI precisa emprestar 40 bilhões de dólares para evitar isso. Estão puxando a brasa para sua sardinha. Talvez seja melhor mesmo a moratória. Mas que FHC assuma a responsabilidade.

A morte do modelo neoliberal ficou muito clara também no primeiro debate dos candidatos à presidência na Band, que resultou na condenação unânime do governo FHC. Mas apenas a Gazeta Mercantil, em matéria de primeira página, assinalou isso: "Uma guinada na política econômica (...) é talvez o único consenso entre as forças dominantes na cena política brasileira".

A agonia de uma ideologia

O neoliberalismo como ideologia também agoniza. É o que deduz do numero cada vez maior de artigos que o condenam. Em "Democracia e capitalismo" , na página B 2 da Folha de domingo (4/8), Luiz Gonzaga Belluzo discute os mecanismos ideológicos do neoliberalismo e como nesse sistema impera sempre a lei do mais forte. O texto é meio complicado.

Mais surpreendente é o artigo de Benjamin R. Barber, "Falha da democracia, não do capitalismo", na página A 2 do Estado de S.Paulo do mesmo domingo. Ele diz que a ideologia do neoliberalismo "apregoa que nos liberta mas na verdade nos rouba a liberdade". Isso num espaço nobre do mais neoliberal dos jornalões, o Estadão.

Um apagão cambial?

A expressão aparece no meio da reportagem da IstoÉ sobre a crise financeira, quando Mario Bernardini, da Fiesp, sugere a criação de uma câmara emergencial para a crise financeira, "nos moldes do ministério do apagão surgido no ano passado para gerir a crise energética".

Mas a prova concreta de que se tratou de mais um apagão da turma de FHC está na reportagem da página B 4 da Folha de domingo (4/8). A reportagem mostra que desde o final do ano passado o BNDES vinha alertando o governo sobre o risco concreto de uma crise cambial às vésperas da eleição.

O BNDES percebeu que muitas empresas estavam deixando de tomar empréstimos de longo prazo (8 ou 10 anos), e tomando outros de curto prazo. E que isso ia estourar numa crise de pagamentos mais ou menos agora.

E por que as empresas deixaram de tomar empréstimos de longo prazo? Porque o próprio governo as induziu a isso, por meio da lei nº 9.950, de janeiro de 2000, que acabou com uma isenção do imposto de renda de 15% sobre os pagamentos de juros dos empréstimos de mais de 8 anos de prazo.

O objetivo do governo era acabar com uma isenção fiscal. Aumentar a arrecadação. Só que não atentou para as conseqüências. Ou seja, o próprio governo criou as condições para a crise que viria depois. Nem depois de advertido pelo BNDES, tomou alguma providência. Um verdadeiro apagão.

É o que também diz, mas muito sutilmente, Roberto Teixeira da Costa, primeiro presidente da Comissão de Valores Mobiliários, nas entrelinhas do seu artigo do domingo na página A3 de Folha, "Inquietudes do câmbio flutuante". Depois de falar de como foram interrompidos os fluxos de financiamento, ele lembra outros tempos, dizendo: "Paulo Lyra tinha uma grande preocupação com situações como essa que estamos atravessando. Fazia com Fernão Bracher previsões de fluxo de caixa para se certificar de que, no vencimento, haveria recursos para atender os compromissos".

Nem isso Malan tomou o cuidado de fazer. Mesmo depois de advertido pelo BNDES.

(*) Carta Ácida de segunda-feira, 5 de agosto de 2002; texto originalmente produzido para a Agência Carta Maior <www.agenciacartamaior.com.br>; título da redação do OI

(**) Jornalista, professor da ECA-USP, autor de Jornalistas e revolucionários (Scritta), Jornalismo Econômico (Edusp) e outros

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