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ORIENTE, PRÓXIMO
Notas para um caderno sobre guerras e mídia

Alberto Dines

*** A guerra do Criméia (1854-1856) foi a primeira em que houve cobertura jornalística profissional. De um lado, a França, Inglaterra e o Império Otomano, do outro a Rússia tzarista.

O conflito, por coincidência, foi provocado por uma disputa em torno da guarda dos Lugares Santos na Palestina dominada pelos turcos. Apesar de estar no lado vitorioso, o Império Otomano começou naquele momento o seu lento desmoronamento que culminou em 1918. Nas suas frestas enfiaram-se os poderosos interesses ingleses e franceses e instalaram-se os germes do atual conflito.

*** A cobertura jornalística sobre a Criméia foi decisiva para estabelecer um debate longe da linha de frente sobretudo na Inglaterra liberal, onde os jornais gozavam de razoável liberdade. Na França, o debate foi menos intenso. Na Rússia totalitária a imprensa não piou.

Pela primeira vez, a opinião pública – e os políticos – discutiram o desempenho dos militares. Pela primeira vez, igualmente, o horror da guerra chegou à retaguarda. O trabalho humanitário de Florence Nightingale foi resultado direto da cobertura do teatro de operações na Criméia.

*** Sem o telégrafo, recém-inventado, a cobertura da sangueira seria impossível embora os despachos fossem ilustrados por desenhos. As palavras, as idéias, e não as imagens, foram decisivas para permitir o grande avanço social da imprensa.

** O pacifismo – como nome e movimento organizado – foi gerado em 1914. Mas a primeira vítima da 1ª Guerra Mundial caiu num café parisiense dias antes que os exércitos entrassem ação. Jean Jaurés, o tribuno e panfletário socialista francês, defendia um movimento operário europeu contra a guerra. Foi abatido por um "patriota" francês. O horror começou antes mesmo que as linhas de frente fossem estabelecidas e os jornalistas para lá fossem enviados. Fomentado em grande parte pelo ressentimento e preconceitos políticos anteriores.

*** A cobertura da 1ª Guerra foi tecnologicamente mais avançada com a introdução da fotografia e do cinema. Nem a aliança austro-alemã muito menos a franco-russo-britânica permitiram a presença de correspondentes oriundos de países inimigos junto às suas posições. Como os EUA entraram na guerra posteriormente (1917), a imprensa americana tentou funcionar como neutra, embora evidentemente simpática à causa franco-britânica. A guerra nas trincheiras, o uso mortífero de tanques, aviões e sobretudo o horror da guerra química (gases letais) só apareceram na cobertura jornalística pelos relatos dos jornalistas autorizados a acompanhar as tropas.

*** A guerra civil espanhola (1936-1939), ensaio geral da 2ª Guerra Mundial, foi, teoricamente, um conflito interno e teve ampla cobertura da imprensa tanto dos países ditos democráticos como da imprensa oficial do eixo nazifascista (Itália e Alemanha). Mas esta mesma imprensa democrática ou burguesa (inclusive no Brasil) freqüentemente torceu o noticiário contra os republicanos (apoiados pela URSS, pelos partidos progressistas, comunistas, socialistas e anarquistas do Ocidente). A manipulação ideológica deu-se a partir das redações e não em função de eventuais distorções dos repórteres nas linhas de frente. Jornais liberais como o New York Times conseguiram escapar da guerra psico-ideológica.

*** Os EUA só entraram efetivamente na 2ª Guerra Mundial (1939-1945) em seguida ao ataque japonês a Pearl Harbour (7/12/41). Portanto, a imprensa americana cobriu os dois primeiros anos de guerra nas duas frentes mas teve grandes dificuldades para acompanhar as tropas alemãs na blitzkrieg. Mesmo as matérias políticas enviadas de Berlim sofriam rigorosa censura. As primeiras perseguições aos judeus dentro da Alemanha e nos países ocupados foram precariamente cobertas ou não foram cobertas.

*** A 2ª Guerra Mundial foi o paraíso para os correspondentes de guerra junto aos exércitos aliados (inclusive na frente russa). Também inaugurou a cobertura radiofônica ao vivo (por ondas curtas). Os comandantes militares aliados compreenderam a importância de liberar as informações para os jornalistas e permitir seu acesso às linhas de fogo. Confronto entre o Bem e o Mal – nenhum jornalista escreveria um relato que pudesse prejudicar a causa dos aliados e de alguma forma ajudar o Eixo. Usavam uniformes (alguns até andavam armados), tinham acesso direto aos generais e conseguiam antecipar-se às vanguardas militares (caso de Ernest Hemingway, na retomada de Paris). Mesmo os jornalistas que acompanharam os horríveis bombardeios anglo-americanos a Dresden garantiam que nenhum alvo civil fora atingido. Não era verdade.

*** Na guerra do Vietnã o fator decisivo foi a TV. Inspirado nas lições da 2ª Guerra e confiando no "patriotismo" dos jornalistas, o comando americano permitiu ampla cobertura de ações militares. Quando a TV começou a levar para dentro dos lares americanos o horror da guerra, e quando o conceito de patriotismo relativizou-se, os EUA desistiram.

*** A Guerra dos Seis Dias (1967), embora fulminante, foi plenamente coberta pelo lado de Israel porque as autoridades contavam com as simpatias mundiais. No que foram muito ajudadas pelos países árabes beligerantes (Egito, Síria e Jordânia), que dificultaram ao máximo a entrada de jornalistas estrangeiros.

*** O conceito de "guerra-espetáculo" – iniciado com a invasão da Somália e desenvolvido nas guerras do Golfo, da Iugoslávia e do Afeganistão – prende-se à sofisticação do arsenal guerreiro. Guerra aérea com controle remoto torna impossível o trabalho do correspondente, convertido em mero divulgador dos comunicados, briefings e fotos por satélite. A cobertura do "outro lado" (Bagdá e Cabul), dominada pela máquina de propaganda de dois regimes abertamente arbitrários, jamais conseguiu ser devidamente verificada.

*** A primeira utilização em larga escala de ações terroristas num contexto militar deu-se agora, no confronto entre Israel e a Autoridade Palestina, 18 meses depois de iniciada a segunda Intifada (setembro de 2000). Ações terroristas não rendem boas imagens: nenhum fotografo ou cinegrafista ousará filmar um pedaço de cabeça, braços ou entranhas espalhados pelo chão, sejam de crianças, adolescentes, mulheres grávidas, adultos ou idosos. Mesmo porque, segundo os preceitos religiosos judaicos, os restos mortais devem ser rapidamente reunidos e enterrados. Sobram apenas os números – X mortos e Y feridos, mutilados não contam. Os feridos, porque precisam ser rapidamente socorridos, são imediatamente levados para os hospitais. Não há horror visual. Em compensação, abundam as fotos dos terroristas-suicidas ou de seus parentes, em geral felizes com a recompensa.

*** Imagens de TV, porque captam o movimento, são menos sujeitas às ilusões de ótica que as fotografias, nas quais uma teleobjetiva pode aproximar figuras distanciadas. Imagens de TV prescindem de legendas, a narração não pode contraditar o que está sendo mostrado de forma inequívoca. Mas as fotografias de jornal exigem uma "interpretação literária". O problema são os verbos: um soldado armado a cinco metros de um civil desarmado deve estar "ameaçando", "intimidando" ou "pronto para atirar". Sem verbos não há ação e sem ação não há jornalismo quente.

*** Coberturas equilibradas pressupõem títulos equilibrados e estes pedem a descrição simultânea dos dois lados da guerra. Em inglês é fácil: a partícula "as" (conjunção, preposição ou pronome relativo) dá a noção de simultaneidade e comparação – extremamente curta, ajeita-se facilmente num título. Razão pela qual na semana passada, abundava o "as" nos principais jornais de língua inglesa descrevendo ações políticas e militares paralelas. Isso equilibra a cobertura evitando que o fato privilegiado no título possa influir no contexto da matéria. Além de não cultivarmos o sadio hábito dos títulos de dupla-ação, ou ação-e-reação, nossa conjunção "enquanto" é longa e toma um precioso número de caracteres.

*** A guerra do Afeganistão trouxe, além da ausência da cobertura in loco, outro dado novo: a saturação do leitor com informações complementares. As análises não substituem os fatos. Um correspondente no terreno, desde que devidamente preparado e maduro, dispensa as interpretações, mesmo quando assinadas por especialistas. As edições da Folha de S.Paulo e do Estado de S.Paulo no domingo (7/4) mostram a claramente a diferença. O Estadão, dispondo de mais espaço, afogou o leitor com valioso material complementar; a Folha, com um enviado especial devidamente sazonado e equilibrado, trouxe o leitor mais perto dos acontecimentos. A um custo econômico certamente menor.

*** A cobertura do atual conflito no Oriente trouxe outra novidade: a intensa atuação dos media watchers (ou vigilantes da mídia) dos dois lados. Isso ocorreu de forma mais visível na cobertura em língua inglesa, a mais acessível e universal. Cada lado, devidamente amparado por especialistas em comunicação, analisou o trabalho da mídia à sua maneira e de acordo com as suas convicções. A internet foi o veículo dessas avaliações. Uma comparação dessas analises poderá fornecer futuramente interessantes avaliações sobre o relativismo das interpretações.

*** A esta altura (8/4/2002) pode-se constatar o equilíbrio da cobertura do conflito na grande imprensa brasileira. Aos colunistas ficou a tarefa de comentar e opinar. Nota-se um visível esforço em atender às patrulhas dos leitores dos dois lados oferecendo um relato abrangente. Longe de constituir um estorvo, confere, além da credibilidade, maior interesse.

Para um estudo aprofundado sobre o trabalho dos correspondentes de guerra a partir da Criméia, veja-se The First Casualty, de Phillip Knightley (Nova York, 1975), traduzido no Brasil com o título A primeira vítima.

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