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FORÇAS DESARMADAS
O exército de um homem só

Deonísio da Silva (*)

Certamente muitos outros intelectuais brasileiros, além dos poucos que se manifestaram sobre o tema, têm o que dizer a respeito da guerra no Oriente Médio. Ah, não é guerra, é crise? Poderíamos começar por esta questão: que nome dar ao conflito na língua portuguesa?

Com efeito, temos uma vasta e complexa experiência em designações de movimentos armados. Entre nós, quando as elites começam um conflito, ele é guerra ou revolução. Se o povo ousa enfrentá-las, daí tudo muda: é revolta, sebaça, motim, desordem, bagunça, quando não outras alcunhas que visam desqualificar os movimentos beligerantes, de que é exemplo a Balaiada, no Maranhão (1838-1841). Às vezes, povo e elite enlaçados se confundem também nas denominações. O movimento de 1964 ainda é Golpe para uns, e Revolução para outros. Até sobre a data da eclosão paira uma serena dúvida: foi 31 de março ou 1º de abril?

Pois a guerra no Oriente Médio parece que nunca termina. Estas últimas escaramuças, porém, trazem uma grande novidade: está ameaçando descambar para o ódio racial. O ovo da serpente volta a ser chocado com vistas a descascar os monstros de sempre. Como se viu, até de mente esclarecida de José Saramago saiu uma comparação infeliz e equivocada, cujo grande prejuízo é, sobretudo nos tempos que correm, a ação devastadora que faz antes de receber réplicas, discordâncias ou apenas ponderações. Afinal, não é a voz de qualquer um, é a voz de um Prêmio Nobel de Literatura. Não, por mais grave que seja a situação, que, aliás, piora dia a dia, não está ocorrendo nada semelhante ao Holocausto no Oriente Médio. As aparências enganam, como nos ensinou Elis Regina em famosa canção, tanto aos que amam como aos que odeiam, "porque o amor e o ódio se irmanam na fogueira das paixões / e os corações pegam fogo e depois...".

Mísseis-palavras

Vários são os intelectuais brasileiros que certamente têm o que dizer sobre os lamentáveis eventos do Oriente Médio. Por que a imprensa não os pauta? A guerra é travada não apenas nos campos de batalha, mas também com a arma poderosa que é a palavra. Certamente há professores de História em nossas universidades cuja especialidade seja o Oriente Médio. De História e de outras disciplinas de domínio conexo, capazes de esclarecer temas nebulosos e fazer descer sobre as dúvidas e as confusões habituais o "claro raio ordenador". Mas, por favor, depois das comprovadas denúncias de Elio Gaspari, não pautem a chefe do Departamento de História da USP! O Brasil conta com centenas de escritores reconhecidos como tais, não apenas autores de um ou outro livro, e por que não estão sendo ouvidos ou chamados a se manifestar?

À semelhança do belo título que Moacyr Scliar encontrou para um livro seu, Exército de Um Homem Só, o intelectual brasileiro, sobretudo o escritor, cujo destino é trabalhar isolado, deve lançar os seus mísseis-palavras, ainda que corra o risco de equivocar-se. Um equívoco, ainda que equívoco, é sempre melhor do que a omissão.

Falta em nossa mídia a presença das forças desarmadas do Exército de Um Homem Só.

(*) Escritor e professor da UFSCar; seu livro mais recente é o romance Os Guerreiros do Campo

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