Imprima esta página    

BYE-BYE, TORDESILHAS
Monopólio reforçado, cartel rompido

Os tiranossauros nunca se amam

Alberto Dines

A notícia da compra do Diário Popular pelas Organizações Globo foi divulgada no início da noite da sexta-feira (6/4) quando os jornais de sábado e domingo já estavam praticamente fechados. Notícia dada sem comemorações, curta e grossa. Depois de 24 horas de despistamento e contra-informações a operação foi, enfim, confirmada. Sem grandes detalhes, de forma quase envergonhada, deixando um rastro de suspeições [veja Aspas a respeito]. E, no entanto, a notícia é tão ou até mais surpreendente do que o anúncio da parceria Globo-Folha, feito em setembro de 1999, para o lançamento de um jornal concorrente da Gazeta Mercantil.

A parceria entre veículos tão desafetos, quase inimigos, materializou-se no projeto Valor Econômico – que breve (em 2 de maio) completa seu primeiro aniversário com resultados empresariais nada brilhantes.

A aproximação entre as empresas de Roberto Marinho e Octávio Frias de Oliveira resultou no seguinte:

** As Organizações Globo neutralizaram um de seus mais ferrenhos críticos (a Folha de S.Paulo). E o quase monopólio cooptou a única voz que o fiscalizava com alguma persistência.

** A aproximação das duas poderosas empresas com o objetivo precípuo de ocupar o nicho do jornalismo de economia & negócios condenava à morte ou ao ostracismo a Gazeta Mercantil, naquele momento em sérias dificuldades.

** A associação entre dois poderosos jornais no principal eixo jornalístico e econômico do país significava um tácito Tratado de Tordesilhas: um ficava com o Rio (O Globo) e o outro (a Folha) com São Paulo. Dividia-se o mercado brasileiro entre dois gigantes e condenavam-se os demais diários à irrelevância e/ou marginalidade.

** Considerando a outra empresa do Grupo Folha (o provedor UOL), a força de venda de O Globo, a promessa de Época, a hegemonia da Rede Globo e as ramificações nacionais por intermédio de afiliadas que também editam importantes jornais regionais, considerando tudo isso estávamos assistindo ao nascimento do Cartel Brasileiro de Mídia, contra o qual este Observatório manifestou-se com tanta insistência.

** Em diversas ocasiões esse Cartel mostrou capacidade de esmagar qualquer resistência, sobretudo quando se tratava de interesses e jogadas da Rede Globo. A Folha batia palmas, as demais redes de TV enfiam o rabo entre as pernas, O Estado de S.Paulo insinuava uma tíbia resistência e o Jornal do Brasil um pouco menos do que isso. A Editora Abril, com a sua Veja, por razões empresariais e pessoais acabava engrossando o Cartel [veja remissões abaixo].

Quando ficou claro que o Grupo Globo negociava com o ex-governador Orestes Quércia a compra do Diário Popular (de São Paulo), a Folha rapidamente entendeu-se com o Estadão: avisaram aos Marinho que não admitiriam que o poder de fogo da TV Globo fosse posto a serviço do relançamento do Diário Popular com tabela de preços subfaturadas.

Foi o que se chama em linguagem militar de "salva de advertência". Os globais não se assustaram, foram em frente e forçaram Quércia a fechar o negócio.

A prova de que houve uma grave fissura na parceria Marinho-Frias está na matéria onde a Folha anuncia a compra do Diário Popular (sábado, 7/4, pág. A 5). Os ânimos encresparam-se e disso a própria notícia dá prova, quando reconhece que o repórter não conseguiu falar com altos executivos de uma empresa até então quase co-irmã. Mesuras, salamaleques e rapapés eram a praxe entre os presidentes e vice-presidentes das duas empresas. Agora estranham-se.

Ora viva, Laudate Dominus, Louvemos o Senhor ! Embora o monopólio global tenha crescido perigosamente, o Cartel Brasileiro de Mídia foi estancado. Talvez definitivamente. É tática a aproximação Folha-Estadão. Mas pode ser estratégico o realinhamento de forças dentro da mídia brasileira. Ao disparar um petardo da recém-inaugurada emissora BandNews contra a Globonews, na primeira edição da sua nova fase, o Jornal do Brasil mostra que não vai ficar de fora [veja Próximo Texto].

Algo se mexe no recanto dos dinossauros. Ou dos tiranosauros.


Leia também

A chocante parceria Globo-Folha – Alberto Dines

Globofolha e o pacto de silêncio – A.D.

Dossiê Glolha, Globolha ou simplesmente Rolha – A.D.

Valor, primeiras avaliações – A.D.



Volta ao índice

Imprensa em Questão – próximo texto



Mande-nos seu comentário



Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores | Modo de Usar
Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você