20/01/2004

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SARRAFADA N° 2
Governo bate e Geni não reclama

Alberto Dines

A nova investida do governo contra a imprensa – a segunda no mês – tem circunstâncias que a tornam ainda mais grave:

** Foi vocalizada pelo ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, ao que consta um político racional, negociador hábil, pouco inclinado a explosões emocionais e que, pela soma de poderes e atributos pessoais, é quase um primeiro-ministro.

** Foi ele o primeiro a manifestar publicamente – antes mesmo da posse do presidente Lula da Silva – a idéia de que a imprensa era assunto de interesse nacional.

** A partir dessa manifestação, considerada como sinal verde, o empresariado da mídia brasileira animou-se a apresentar um pleito formal junto ao BNDES para uma linha de crédito privilegiada.

** O ataque, desta vez, foi desfechado também contra o Ministério Público, que estaria mancomunado com a imprensa para a divulgação de suas investigações. Acontece que as entidades que representam o MP (a Conamp e a ANPR) pronta e briosamente contestaram as acusações do ministro José Dirceu (O Globo, segunda, 19/01, pág. 3). O mesmo, no entanto, não fizeram as entidades que representam a imprensa. Enfiaram o rabo entre as pernas. Protestaram isoladamente jornalistas políticos (Dora Kramer, Estado de S.Paulo e Jornal do Brasil, segunda, 19/1) mas os jornais, enquanto instituições, calaram-se. Controlam o direito de resposta mas não sentiram-se obrigados a exercê-lo democraticamente. Exceções feitas ao mesmo Estadão e ao Globo que, quatro dias depois da investida do ministro (terça, 20/1) manifestaram-se em editoriais.

** No mesmo dia da bordoada do ministro José Dirceu (sexta-feira, 16/1, jornais do dia seguinte) o presidente do BNDES Carlos Lessa, geralmente bem-humorado, esqueceu a bonomia carioca e abriu o saco de maldades contra a imprensa gozando-a pelas 34 vezes em que foi "demitido" das suas funções. Registre-se que Carlos Lessa, pelo cargo que ocupa, dará a palavra final no pleito da mídia para uma linha de crédito especial.

Estes são os dados da equação.

As avaliações:

** A manifestação do ministro José Dirceu ocorreu durante uma cerimônia de desagravo ao amigo e companheiro deputado Luiz Eduardo Greenhalgh (PT-SP), cujo nome apareceu no noticiário associado a torturas que teriam sido praticadas contra um dos supostos assassinos do prefeito Celso Daniel. Apenas um jornal, a Folha, veiculou a denúncia aparentemente vazada pelos membros do MP que acompanham o caso. Nenhum outro grande jornal deu seqüência à informação. Justifica-se a reação diante da irresponsabilidade da denúncia.

** Mas o governo que tanto se queixa das generalizações dos meios de comunicação fez exatamente a mesma coisa: generalizou – apesar de o ministro referir-se a "setores da imprensa". Estendeu a uma instituição – a Imprensa – a falha cometida por uma das suas partes. Ficou com medo da Folha ou preferiu bater na Geni, conjunto abstrato e desfibrado de outras folhas?

** Enquanto isso, esta mesma imprensa – teoricamente ágil e atenta ao interesse público, por isso merecedora de uma atenção especial do governo – entregou-se à modorra de verão: não reagiu. Não deu tempo? Jornal não sai todos os dias? Na sexta-feira não se preparam os editoriais de sábado, domingo e segunda? Se o assunto pode ser adiado por quatro ou cinco dias, qual a razão da azáfama e do apregoado compromisso com a atualidade?

** O conluio Ministério Público-Imprensa ou Quarto Poder-Sexto Poder, se existe de fato, foi criado no tempo em que o PT era oposição e imperava um sistemático vale-tudo para enfraquecer o governo. O vazamento de informações sigilosas converteu-se em prática comum porque eram imediatamente transformados em candentes discursos na Câmara e no Senado pelas infatigáveis lideranças da oposição.

** O surpreendente mau-humor de Carlos Lessa não foi obra do acaso. Gozou pesadamente a imprensa em seguida à gabolice do governador Roberto Requião, ao afirmar perante os repórteres que viera à capital federal para preservar o presidente do BNDES do troca-troca ministerial. Se uma figura da categoria moral e profissional de Carlos Lessa precisa de uma proteção deste tipo fazem sentido os 34 rumores veiculados a respeito de uma eventual substituição.

A grande verdade é que o governo está em clima de campanha eleitoral e a imprensa não está. Neste descompasso há espaço para todos os mal-entendidos. E nele embute-se aquele ABC do Jornalismo enunciado pelo presidente Lula da Silva na solenidade de fim de ano: "Notícia é aquilo que nós não queremos que seja publicado, o resto é publicidade".

Em campanha, candidatos, só gostam de elogios. Se a imprensa erra é na falta de malícia para perceber que esta foi a pior hora para pleitear qualquer coisa de um governo em permanente estado de mobilização eleitoral.

Leia também

Entre Aspas[Folha de S.Paulo e Dora Kramer]

A notícia e o coração de mãe – A.D.

O governo sabe por que apanha – Luiz Weis


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