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VEJA vs. MST
Incomodados com Veja?
Confiram o que aqui já se disse (*)

Alberto Dines

Não se justifica a onda em torno da matéria de capa sobre o MST ("A tática da baderna", edição 1648, 10/5). Aquele monte de aberrações jornalísticas não foi excepcional. Têm sido sistematicamente criticadas neste Observatório e por este Observador – o que lhe valeu no ano passado três retaliações com direito a foto e enxovalhamento pessoal.

** Veja sempre pegou pesado, sempre misturou opinião com informação, sempre enfiou declarações descontextualizadas na boca dos entrevistados. Sempre aberta a "plantações", durante 20 anos ACM deitava e bordava, depois abriu-se indiscriminadamente aos "grampos", enturmando-se com quem tinha um saquinho de lama para jogar no desafeto.

** Veja sempre simplificou e distorceu. E quanto mais leve e saborosa pretendia ser, mais desqualificada. Mesmo quando a favor.

* Veja sempre praticou vendetas. A revista tem uma lista negra, própria e implacável, "não-pessoas" e "não-entidades" condenadas à inexistência. Através deste index Madame Torquemada assume-se como dona da verdade e senhora dos destinos. Sempre incensou os amiguinhos, sempre condenou ao ostracismo os que não faziam parte da curriola.

* Veja sempre produziu megalomanias em estado puro, forjadas pelo simples ato de colocar na cadeira do diretor de Redação profissionais sem o estofo adequado. O chamado estilo Veja não caiu do céu, foi sendo consolidado ao longo dos últimos 20 anos. Mario Sergio Conti, em Notícias do Planalto conta muita coisa sobre o patriarca e a gênese deste estilo. Admite que o praticou – era a escola, todos deveriam adotá-la por convicção ou mimetismo.

A diferença agora é que Veja pegou numa instituição-darling. E todos chiaram. Acabou a impunidade. Veja (e os que pretendem imitá-la) passarão a receber troco.

O documento apócrifo contra Veja que circulou nas duas ultimas semanas pelo Outlook de milhares de brasileiros – multiplicado pelo "agit-prop" do MST – é o retorno de um bumerangue lançado pelo próprio semanário com sua matéria abjeta.

Eles se merecem.

(*) Veja ao final desta página um dossiê com tudo aqui publicado sobre Veja, entre janeiro de 1999 até a presente data. Para remissões até abril de 1996, clique em Edições Anteriores, na homepage deste sítio.

 

Veja: abaixo as fotomontagens!

A trucagem fotográfica da pág. 45 da matéria contra o MST é uma aberração ética. Falsificar a imagem de um cidadão colocando uma arma na sua mão é fraude. Crime. Insulto ao jornalismo.

Se as associações de classe fossem menos abúlicas já deveriam estar acionando o semanário pela publicação da perniciosa montagem. A categoria dos jornalistas (da palavra e das imagem) não pode deixar em branco o perigoso precedente.

Se a moda pega e com os recursos hoje disponíveis, breve teremos em nossos jornais e revistas a entronização da mentira. Editores, diagramadores, colunistas, fotógrafos e ilustradores devem reagir antes que seja tarde.

 

Veja: só 225 mensagens?!

Na edição seguinte (1649, 16 de maio, capa Sílvio Santos) a revista registrou que na semana anterior o MST dominou a correspondência: 225 mensagens foram recebidas comentando a matéria. Deve ter sido o dobro. Só este Observatório recebeu quase isso.

 

Briga de foice
Entrevista com José de Souza Martins

Luiz Egypto

O envio da primeira mensagem deu-se às 6h15 da quarta-feira, 10/5; e a partir de então, até a terça da semana seguinte, dia 16, foram dezenas de forwards e spams com o mesmo redundante propósito: fazer circular e divulgar como novidade o texto "A verdade sobre o ‘crime’ de Veja" – um artigo apócrifo com ares de making of da matéria de capa "A tática da baderna" (Veja nº 1648), que desanca o MST e cujo lead permite a suposição de que o autor anônimo é jornalista e funcionário da Editora Abril, que edita a revista.

O Observatório da Imprensa não publica textos sem assinatura. Nem ofensas gratuitas, nunca evocações à pedofilia ou ao nazi-fascismo, nas suas diversas variantes. Por ser apócrifo, não reproduzimos o texto sobre Veja – embora, nesta edição, seu conteúdo esteja comentado [veja abaixo artigo de Hamilton Octavio de Souza].

A matéria que deu origem ao texto anônimo, publicada com destaque e barulho, carrega nas tintas contra o MST. Usa e abusa dos juízos de valor e chega ao requinte de, num box, reproduzir uma montagem fotográfica na qual João Pedro Stedile, um dos líderes dos sem-terra, aparece de cara enfezada, como de outra feita aparecera numa capa da mesma Veja. Só que agora veio armado de pistola munida de silenciador, como um James Bond a serviço de sua majestade a revolução.

Sobre o jeito Veja de ser, leia comentários de Alberto Dines [acima, nesta rubrica]. Sobre os critérios de apuração da reportagem de capa que ocupa 8 páginas da revista, conheça o teor da entrevista abaixo. Nela, o professor José de Souza Martins(*), 61 anos, livre-docente em Sociologia pela Universidade de São Paulo, reconhecido estudioso e autor de livros, muitos, sobre a questão agrária no Brasil, contesta a utilização de excertos de um artigo seu na matéria de Veja. A revista menciona um texto do professor, divulgado em fevereiro passado, e qualifica o autor como "uma das maiores autoridades mundiais em sociologia agrária". O professor José Souza Martins é, de fato, carregado de títulos acadêmicos e de rica e respeitada produção científica [veja rodapé]. Depreende-se, pelo que vem a seguir, que ele dispensa o elogio do semanário da Abril, o maior do Brasil (se disser varonil ajoelho em milhos). Eis sua entrevista ao Observatório da Imprensa:

Na matéria de capa com título interno "Sem terra e sem lei", de Veja (10/5/00), o sr. comparece em 60 linhas, 23 centímetros de coluna, com declarações entre aspas. O sr. foi ouvido por Veja para a reportagem?

José de Souza Martins – Não fui procurado por Veja, não fui consultado sobre o uso do meu trabalho nem fui informado. Desde que sou professor na Universidade de São Paulo, há 35 anos, sempre fui procurado por órgãos da imprensa e nunca me neguei a opinar sobre questões de minha competência. Nesses anos todos, Veja me entrevistou várias vezes. É a primeira vez que me sinto desrespeitado, tendo meu trabalho usado para passar aos leitores a impressão de que eu teria escrito um texto contra o MST, o que não é verdade. Enviei uma carta à revista, da qual foi publicado apenas o parágrafo introdutório. Não foram publicados os dois parágrafos em que digo o que penso da ação do governo na questão agrária e da ação do MST.

Qual a origem das suas "aspas" que a revista publicou?

José de Souza Martins – A revista Veja selecionou frases descontextualizadas, contidas num estudo sociológico de 31 páginas com o título de "Reforma agrária, o impossível diálogo sobre a história possível", publicado em Tempo Social – Revista de Sociologia da USP no mês de fevereiro deste ano. Esse número da revista é dedicado a uma avaliação do governo de Fernando Henrique Cardoso e contém vários estudos de diferentes especialistas sobre diferentes temas. Antes de publicá-lo, para que pudessem se manifestar e corrigir eventuais erros de informação, enviei cópia ao João Pedro Stedile, que conheço e respeito há muitos anos; ao ministro Raul Jungmann, que também conheço e respeito; e à Comissão Pastoral da Terra, que assessorei durante 20 anos.

Como avalia o procedimento adotado por Veja para incluí-lo na matéria?

José de Souza Martins – Considero-o um desrespeito à minha pessoa e ao meu trabalho. Em conseqüência, tenho recebido mensagens de insulto até de ex-alunos, espantados com a "minha mudança". Esse é um comportamento cujos efeitos danosos dificilmente serão consertados ao longo de minha vida pessoal e profissional. Quem leu a matéria de Veja, especialmente quem não me conhece, dificilmente lerá o artigo original e dificilmente levará em conta o conjunto de minha obra e o meu próprio caráter.

O sr. tomou conhecimento do documento apócrifo "A verdade sobre o ‘crime’ de Veja", que circulou na internet logo após a publicação da matéria? O que lhe pareceram os procedimentos ali descritos?

José de Souza Martins – Recebi pelo menos uma dúzia de cópias desse documento, vindas de diferentes lugares do Brasil. Algumas pessoas as enviaram para insinuar que, portanto, os trechos de meu artigo publicados por Veja fazem parte de um ato de que eu teria sido cúmplice, no mínimo um cúmplice ingênuo. Convém dizer que a primeira cópia recebida me foi enviada pelo próprio MST, acompanhada da advertência de um assessor de que era melhor investigar a origem do documento. Se verdadeiros os lamentáveis procedimentos ali mencionados, apenas reforçam minha impressão de que o presidente está assediado por pessoas que não contribuem para que o governo dê visibilidade à importante política agrária que está desenvolvendo.

O sr. já experimentou situações semelhantes, de apropriação de textos seus, em outros veículos da mídia?

José de Souza Martins – Tem sido raro, mas às vezes acontece. Na semana anterior ao da publicação dessa edição de Veja, um articulista semanal do jornal O Estado de S.Paulo usou o mesmo artigo, sem citar, reproduzindo quase literalmente algumas linhas, porém fazendo um seccionamento com o objetivo de atacar e ironizar um estudo de Fernando Henrique Cardoso, que cito e o articulista não leu. Mandei ao autor uma mensagem, chamando a sua atenção para o erro de interpretação. Recebi uma resposta irada em que ele dizia que escreve e publica o que bem entender. É um jornalista de esquerda. Mandei uma pequena carta ao jornal, dando um esclarecimento sobre o erro, mas a carta não foi publicada.

O que dizer da cobertura que a mídia faz do MST e da questão da reforma agrária?

José de Souza Martins – A mídia está desinformada. A questão agrária é muito complicada e os jornalistas parecem não ter tempo nem paciência para entendê-la, fazer as perguntas corretas e formar corretamente a opinião pública. Na cobertura que faz das ações do MST tenta apenas trazê-lo para o espetáculo da informação, sem se preocupar com as óbvias contradições do movimento e com os graves problemas sociais que o motivam e as graves injustiças que lhe deram vida. A mídia também cobre mal importantes inovações na ação do governo, que institucionaliza um amplo programa de intervenção na questão agrária, para atenuar ou suprimir os erros e defeitos da Lei de Terras de 1850, responsável pelos problemas que estamos vivendo, e na ação do Estado.

Como avalia a intervenção do ministro Andréa Matarazzo para impedir e exibição da entrevista de João Pedro Stédile no programa Opinião Nacional, na rede pública de TV, na sexta-feira, 5 de maio?

José de Souza Martins – Eu diria que, com amigos assim, o governo não precisa de inimigos. O presidente Fernando Henrique Cardoso (fui aluno dele e trabalhei com ele na Universidade) é um homem íntegro, radicalmente avesso a toda censura e a toda repressão. O modelo de composição do governo, que resulta de um pacto político, no entanto, ao que parece lhe tem trazido muitos constrangimentos como esse, que são os constrangimentos de todos nós.

(*) Livros mais conhecidos do professor José de Souza Martins: Conde Matarazzo - o empresário e a empresa, 1967; A Imigração e a crise do Brasil agrário, 1973; Capitalismo e Tradicionalismo (Estudo sobre as contradições da sociedade agrária no Brasil), 1975; O Cativeiro da Terra, 1979; Expropriação e Violência (a questão política no campo), 1980; Os Camponeses e a política no Brasil (as lutas sociais no campo e seu lugar no processo político), 1981; A Militarização da questão agrária no Brasil (terra e poder: o problema da terra na crise política), 1984; A Reforma agrária e os limites da democracia na Nova República, 1986; O Massacre dos Inocentes, 1991 (organizador); Subúrbio (vida cotidiana e história no subúrbio da cidade de São Paulo: São Caetano, do fim do império ao fim da República Velha), 1992 (Prêmio Jabuti 1993 de Ciências Humanas); Henri Lefebvre e o retorno à dialética, 1996 (organizador); Vergonha e decoro na vida cotidiana da metrópole, 1999 (organizador)

 

O feitiço contra o feiticeiro

Hamilton Octavio de Souza
(*)

O bom jornalismo é feito com ética, seriedade e compromisso social. Obrigatoriamente utiliza informações precisas, verdadeiras, obtidas com pesquisa, observação do repórter e entrevistas com fontes qualificadas e fidedignas.

Na interpretação de um fato, especialmente social, a boa norma recomenda que todos os lados sejam ouvidos, de forma a contemplar visões e enfoques das diferentes posições na sociedade. O bom jornalismo não esconde a complexidade dos fatos nem os conflitos das posições.

As exceções são o artigo, o editorial e a crítica, materiais jornalísticos eminentemente opinativos e unilaterais; e a crônica e o conto, gêneros literários e ficcionais contendo ou não elementos da realidade e do cotidiano.

Todo estudante de Jornalismo sabe disso e todo profissional que atua no mercado, também. No entanto, nem sempre o jornalismo praticado pela chamada grande imprensa, aquela que tem abrangência nacional, segue essas regras tão básicas e tão importantes para a democracia.

Um caso típico de afronta ao bom jornalismo foi a edição da revista Veja (edição 1648, 10/5/00), cuja manchete da capa, "A tática da baderna", indicava uma reportagem sobre a luta do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra.

O material publicado não apenas falsificou informações, distorceu fatos, apresentou entrevistas desmentidas pelas fontes, como também utilizou montagem fotográfica, manipulada no computador, para prejudicar deliberadamente o MST e suas lideranças.

A "reportagem" da Veja estava fadada a ser mais uma dessas matérias que a grande imprensa publica diariamente sem qualquer padrão jornalístico, ética ou compromisso social, apenas para usar seu poder de influência a serviço das elites dominantes, dos ricos e dos poderosos.

Essa impunidade rotineira foi quebrada, no dia 10/5, pelo relato de um jornalista da própria Veja, transmitido via internet, contando detalhes dos bastidores de produção daquela "reportagem", com todas as manipulações grosseiras dos editores e dos donos da Abril.

Vigilância da sociedade

Em síntese, dizia como o secretário de Comunicação da Presidência da República, Andrea Matarazzo – o mesmo que praticou censura dias atrás contra a TVE – negociou com os editores da revista uma matéria de pau no MST; e como os jornalistas da cúpula da Veja se divertiram com as mentiras e distorções que arrumaram para a "reportagem".

O relato foi imediatamente repassado de computador a computador, de leitor a leitor, de pessoa a pessoa, de tal maneira que em poucos dias a reportagem sobre "o crime da Veja" já tinha superado a tiragem da revista, sem contar que as cópias xerografadas continuam circulando de mão em mão numa corrente de comunicação solidária.

A força da mensagem, apócrifa mas identificada como fiel e verdadeira, legitimada pela própria intuição que se tem de como as coisas realmente funcionam, obrigou a Veja, esta semana, a publicar nota chamando de falsa a versão que circulou pela internet.

Dificilmente a contestação dos Civita conseguirá anular a credibilidade daquele relato, que já está na sociedade como algo revelador da promiscuidade entre o governo FHC e os meios de comunicação, uma relação que afronta a ética e a democracia.

No caso da Veja, pelo menos, o feitiço acabou virando contra o feiticeiro. Mas é preciso que a sociedade mantenha vigilância sobre a imprensa e exija dos jornalistas – de jornais, revistas, rádio e televisão – mais respeito com o público e com o país.

(*) Jornalista e professor de Jornalismo na PUC-SP

 

STEDILE NA TV
Secretaria ressuscita fantasma

Gabriel Priolli
(*)

Depois de seis meses na apresentação do Opinião Brasil, da Rede Pública de Televisão, não foi exatamente lisonjeiro para mim, muito menos agradável, ver o programa envolvido num episódio tão extemporâneo e despropositado quanto foi o veto à exibição da entrevista com o líder do MST, João Pedro Stedile, pela TV Educativa do Rio de Janeiro e suas afiliadas. Único programa diário de debates em rede nacional ao vivo, único programa de discussão política no horário nobre, o Opinião Brasil merece, sem dúvida, atenção daquela imprensa que cobra qualidade da televisão. Mas acabou citado no noticiário e em numerosos comentários não por suas eventuais virtudes, e sim por um lamentável equívoco da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República.

Ao episódio em si tenho pouco a acrescentar. Os fatos se deram precisamente como foram narrados pela imprensa [veja remissões abaixo]. Observo, apenas, que João Pedro Stedile foi informado, antes de o programa começar, de que a TVE não transmitiria sua entrevista. Foi-lhe dito que havia "problemas técnicos", eufemismo clássico para situações de emergência. Homem inteligente, bom entendedor, não precisou matutar demais para perceber que os problemas tinham outra natureza. E, ainda assim, eximiu-se de fazer qualquer comentário a respeito, no ar, quando teve o microfone da TV Cultura de São Paulo à sua disposição por 30 minutos, e falou com toda a liberdade. Poderia ter acusado o veto no próprio momento em que o sofria. Mas não o fez, talvez à espera de maior clareza sobre os fatos, talvez por distração. Simplesmente não o fez.

Rede pública, não estatal

Isso posto, e tendo muitas vozes condenado o governo pelo recurso injustificado à censura, o que cabe discutir agora é o problema de fundo que o episódio revelou: a dificuldade de construção de uma Rede Pública de Televisão no país. Só para recordar, a RPTV foi criada em meados do ano passado, com a meta de integrar progressivamente as duas principais redes educativas do país: a capitaneada pela TV Cultura de São Paulo e a liderada pela TVE-Rio. A idéia era – e é – racionalizar recursos, reduzir custos e obter uma programação integrada, para ser veiculada simultaneamente em todo o país e, por isso mesmo, atrair o apoio cultural de investidores privados, indispensável em tempos de enxugamento do Estado e de cortes nas verbas públicas.

A rede foi implantada no final de setembro de 1999, com um total de seis horas diárias em comum – isto é, exibidas simultaneamente em emissoras educativas de todos os estados da federação. O Opinião Brasil, por sua vez, nasceu para ser o primeiro programa realizado em conjunto pela RPTV, integrando o maior número possível de emissoras. Fusão dos antigos Opinião Nacional, da Cultura, e Brasil Debate, da TVE, ganhou o formato de 30 minutos diários, às 21h, com a minha apresentação em São Paulo e as participações regulares de Ancelmo Góis e Vera Barroso, no Rio. Mônica Teixeira, que ancora o bloco regional do programa, voltado mais para São Paulo, também participa amiúde do bloco nacional. Normalmente, temos as duas capitais e mais Brasília no ar, mas já transmitimos também de Belo Horizonte, Salvador e Porto Alegre.

Não foi por acaso que a rede chamou-se "pública", e não "educativa". A intenção das emissoras componentes, em que pese sua vinculação aos governos federal ou estaduais, é justamente a de introduzir no Brasil o conceito de "televisão pública", ou seja, emissoras financiadas pelo Estado ou diretamente pela sociedade, e mesmo por empresas, mas não controladas por governos, partidos, grupos políticos, muito menos pelo mercado. Modelo semelhante ao da BBC inglesa, ou da PBS americana, e bastante diferente do modelo estatista, centralizador e autoritário das redes educativas, concebidas ainda ao tempo do regime militar. Quando foi proposto, não houve quem se opusesse ao conceito de TV pública. Mas os fatos vêm demonstrando que entre intenções e gestos há grandes distâncias nessa matéria.

Episódio ajudou

O veto perpetrado pela Secretaria de Comunicação Social não é muito diferente de outros vetos, praticados nas emissoras educativas estaduais, pelos governos de qualquer extração ideológica, esquerda incluída. Episódios como o de Stedile ainda acontecem, vez por outra, ou mesmo a toda hora, em diversos estados da Federação. Mais que censurar, há um desejo quase atávico de muitos governantes de controlar as estações, ditar os rumos de sua programação, partindo da idéia de que, se pagam a conta, têm o direito de escolher os pratos servidos ao público. É ainda muito difícil, portanto, "vender" aos governos a distinção entre estatal e público, e a idéia de que a informação estará mais preservada de pressões e distorções se estiver em mãos neutras. Mesmo o telespectador tem dificuldade em aceitar que emissora educativa não é, ou não deve ser, "a TV do governo".

A riqueza do projeto da RPTV está, justamente, em estimular o contato entre emissoras de história e vinculação política diversas, buscando na união a força para resistir às pressões governistas. Se triunfar, poderá dar ao país um sistema de televisão alternativo, distante tanto da banalidade e dos excessos da TV comercial quanto do oficialismo e da rigidez da TV educativa. É isso que está em jogo e interessa preservar. E, se é assim, o episódio StEdile acabou mais ajudando que atrapalhando. Não deverá se repetir no plano federal. Cumpre evitá-lo agora, também, nos estados.

(*) Jornalista e mediador do Opinião Brasil, diretor da TV PUC, São Paulo.

 

CARTAS
MST para Boris Casoy

Carta enviada pela direção do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra à direção da Rede Record, em São Paulo.

"São Paulo, 13 de maio de 2000

À Rede Record de Televisão

São Paulo – SP

Prezados senhores,

Nessa semana, João Pedro Stedile e Gilmar Mauro, membros do nosso Movimento, foram convidados a participar do programa Passando a Limpo, apresentado pelo jornalista Boris Casoy. Mesmo sabendo que a televisão Record estava nos proporcionando um importante canal de comunicação com a sociedade, decidimos recusar o convite.

Essa decisão se deveu, exclusivamente, ao tratamento dado pelo jornalista Boris Casoy aos movimentos sociais, à luta pela reforma agrária e, especialmente, ao MST.

O jornalista Boris Casoy, talvez ainda saudoso do regime militar, continua insistindo que os movimentos sociais devem ser tratados como caso de polícia. E, com seus comentários tendenciosos, busca unicamente desinformar a sociedade e submeter-se à versão oficial do Estado sobre os fatos, comprometendo inclusive uma boa imagem da emissora.

Em nossa última jornada de mobilizações, o jornalista Boris Casoy, ao invés de informar a sociedade sobre os fatos, os motivos e objetivos dos acontecimentos e ater-se às informações apuradas pela equipe de reportagem da televisão Record, preferiu dizer inverdades e fazer falsas acusações, como a de que os trabalhadores rurais são ladrões.

Esse tipo de jornalismo praticado por Boris Casoy é uma vergonha e deveria ser passado a limpo. Afinal, para construir a democracia em nosso país, precisamos de um jornalismo que preserve a verdade, como exigem a ética profissional e a sociedade.

Com a nossa decisão, de recusar o convite para participar do programa Passando a Limpo, além de criticar a postura do jornalista Boris Casoy, que deve desculpas a todos os trabalhadores rurais sem terra, queremos enaltecer o trabalho dos jornalistas que prezam a ética e credibilidade.

Em defesa dessa mesma ética que insistimos em preservar e da credibilidade que conquistamos na sociedade, não trocamos nossa dignidade por alguns minutos no ar.

Atenciosamente,

Egídio Brunetto e Marina Santos, p/ Direção Nacional do MST

 

ASPAS
Jornal do Brasil

"Maus passos", editorial, copyright Jornal do Brasil, 12/5/00

"À sombra da nova Lei de Imprensa e da Lei Mordaça, ambas tramitando no Congresso, o ato da Secretaria de Comunicação do Governo, censurando a transmissão pela TV Cultura da entrevista com o líder dos sem-terra, jogou mais lenha na fogueira de uma discussão que se alonga: a liberdade de imprensa. A discussão não é irrelevante. Pelo contrário, diz respeito a uma conquista fundamental da civilização - o acesso à informação, uma das bases da democracia.

A proibição de transmitir debate pela televisão soa como puxão de orelha nos jornalistas encarregados de entrevistar personagens da História moderna. De episódio em episódio a liberdade de informação sofre arranhões que não se justificam no contexto da democracia.

Já não eram pequenos os temores provocados pela tramitação da Lei Mordaça no Congresso. Dois projetos querem proibir que magistrados, membros do Ministério Público e delegados de polícia forneçam informações à imprensa a respeito de processos sob sua responsabilidade. Recentemente, trocou-se, no Senado, o relator da Lei Mordaça. O anterior, senador Romeu Tuma, manifestara-se contrário a novas restrições à liberdade de informação. O novo relator, senador José Jorge, mesmo alegando adotar posição de equilíbrio em face da matéria, embora tenha simpatia pela lei proposta, admite ouvir os que são contra para acolher algumas sugestões.

Mas como se está em ano eleitoral, ele próprio não acredita possível votar a matéria no primeiro semestre ou mesmo antes da eleição municipal de outubro. Sobre o assunto, o deputado José Genoíno diz que se o Senado aprová-la estará entrando em curso de colisão com a opinião pública, escandalizada com o alto nível de contaminação das instituições públicas pela corrupção. Para ele, não há sentido em aprovar a Lei Mordaça no clima de denúncia em que vive o Brasil.

De fato, imprensa não precisa de leis, e sim de liberdade. A legislação existente já protege os cidadãos contra eventuais abusos, não tendo sentido criar novas restrições à liberdade de informação. No caso brasileiro, todas as leis de imprensa aprovadas nos últimos 77 anos são reedições baratas da primeira delas, a Lei Gordo, que tomou o nome do senador paulista Adolfo Gordo que a apresentou em 1923, estabelecendo restrições à liberdade de imprensa. Depois dele, os políticos que não suportam a opinião alheia recorrem a leis de imprensa com intensidade que nos tempos atuais banalizou-as. Políticos querem inibir o jornalismo investigativo para se defender dos maus passos, sem pudor de recuar a tempos de ditadura.

Qualquer lei, qualquer ato censório, é, em princípio, inconstitucional, já que a Constituição, no artigo 220, dispõe que ‘nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social’.

Na era da Internet e da TV a cabo, com todo o volume de informação que os cidadãos recebem diariamente, é burrice imaginar que uma simples lei controlará a informação. Igualmente nenhum regime é tão fraco que possa ser abalado por simples entrevista."

 

Jornal da Ciência

"SBPC contra censura na TV Cultura", copyright Jornal da Ciência, 9/5/00

"Em nota assinada por sua presidente, Glaci Zancan, a SBPC condenou a atitude do ministro da Secretaria de Comunicação do Governo, Andrea Matarazzo, limitando a livre manifestação de idéias na rede pública de televisão quando a mesma vinha dando uma cobertura diversificada e ampla ao movimento social dos sem-terra’.

A nota, de 8 de maio, diz textualmente:

‘A diretoria da SBPC, comprometida com o aprimoramento da democracia no país, manifesta sua preocupação com a atitude do ministro da Secretaria de Comunicação do Governo, Andrea Matarazzo, limitando a livre manifestação de idéias na rede pública de televisão quando a mesma vinha dando uma cobertura diversificada e ampla ao movimento social dos sem-terra. Ao mesmo
tempo, se solidariza com a direção da TV Cultura pela atitude firma em não se submeter a pressões que limitam sua autonomia.’

A reação da SBPC e de outras entidades está relacionada com a tentativa do governo de determinar quem pode e quem não pode aparecer nos programas noticiosos da TV Cultura quando se trata do movimento dos sem-terra."

 

Alcino Leite Neto

"O colapso da televisão", copyright Folha de S. Paulo, 14/5/00

"[...]

Baderna autoritária

O ministro-chefe da Secretaria de Comunicação de Governo, Andrea Matarazzo, leva ares de homem civilizado e democrata, mas de fato ele não é. Foi truculenta sua atitude de censurar uma rede pública, ou de incitá-la à auto-censura, o que dá no mesmo, impedindo a TV Educativa do Rio de transmitir entrevista com João Pedro Stedile, dirigente do MST.

Sua explicação é mais que um rascunho de pensamento autoritário: ‘Um sujeito indiciado pela Polícia Federal não pode aparecer numa TV educativa’, afirmou à Folha.

Para ficar num aspecto elementar da questão, é útil lembrar que TVs educativas ou públicas não são propriedade do governo, mas da população, que as sustenta com os impostos. Elas devem, por isso, expressar o conjunto dos debates do país, e não apenas aqueles que Brasília deseja.

Foi de uma subserviência desonrosa, por seu lado, a reação do presidente da TV Educativa do Rio, Mauro Garcia, ao acatar, arremedar e justificar a decisão de suspender o programa: ‘A censura é abominável, uma figura que não pode ser reeditada. Não há qualquer possibilidade de se pregar isso. O que houve com Stedile não é censura, porque ele não representa a discussão democrática’.

É preciso desmontar a novilíngua do presidente Garcia e esclarecer que é da essência da democracia debater inclusive as questões que lhe são antagônicas."

 

ONTEM E HOJE
Bilac, um observador

Jacques Gruman

Dia desses garimpei num sebo do centro da cidade um livro surpreendente. Trata-se de Vossa Insolência, coletânea de crônicas de Olavo Bilac (que eu só conhecia como poeta parnasiano) publicadas basicamente pela Gazeta de Notícias no início do século. Vários textos conservam uma atualidade desconcertante. Reproduzo um deles, intitulado "Ética", que, com os descontos necessários, pode interessar ao Observatório da Imprensa.

 

Ética

Olavo Bilac
(*)

Parece que a polícia vai ser inteiramente reformada. Nós todos já andamos tão desconfiados desta história de reformas, que, quando uma delas é anunciada, ficamos logo com a pulga atrás da orelha. Mas, enfim, bem pode ser que desta vez a reforma seja boa... Em todo o caso, como a semana foi chocha, aproveitamos o domingo para conversar sobre cousas policiais. Aqui vai uma idéia que não é nova, que já tem sido muitas vezes aventada e discutida sem resultado prático.

Por que razão não aproveitam os poderes públicos esta reforma policial para, de uma vez por todas, regulamentar as relações da polícia com a imprensa? Expliquemo-nos. Um rapaz solteiro, amando uma rapariga também solteira, acha que o casamento é uma tolice, e, sem recorrer a ele, leva o seu amor às últimas complicações. A moça reconhece, então, que andou mal em prestar o ouvido incauto às harmonias da guitarra de Don Juan, e queixa-se à família. A família queixa-se à polícia. A polícia agarra o Don Juan por uma orelha, arrasta-o a uma pretoria, e obriga-o a reparar o mal que fez. Que mais quer, que mais pode querer a Moral Pública? Bom é o que bem acaba...

Mas não entende assim a imprensa. A imprensa, como se a solidez das instituições juradas e a paz do mundo dependessem desse banal incidente amoroso, corre sofregamente à polícia, cobre de garatujas febris o seu block-notes e, no dia seguinte, o Universo fica sabendo que o senhor fulano abusou da boa-fé da menina beltrana, e que só quando o delegado sicrano o ameaçou de fazê-lo ir esfregar com as costas o chão duro do cárcere, se decidiu a receber a sua vítima como esposa legítima à face de Deus e dos homens.

Vejamos agora as conseqüências desta estúpida indiscrição. Correm os anos. O sedutor habitua-se à sua nova posição de marido, tem filhos [ilegível] numa estação policial. Mas, um dia, um perverso qualquer, um inimigo covarde, para se vingar de qualquer cousa, para satisfazer qualquer mesquinho rancor, vai a uma biblioteca, exuma das páginas poeirentas do jornal a notícia com que a reportagem infamou o casal, e reedita-a. De maneira que, para encher um cantinho do vasto noticiário com uma nova que nenhum interesse pode ter para o público, a imprensa deixou, sobre o nome de um homem e sobre o nome de uma mulher, uma dupla nódoa indelével. Mas, às vezes, a indiscrição é ainda mais absurda e ainda mais perniciosa. Trata-se, às vezes, de escândalos de adultérios; e a polícia solicitamente fornece à imprensa a relação minuciosa do caso, e os nomes de todos os comprometidos no escândalo e toda a série de pormenores escabrosos.

Com que direito a imprensa e a polícia, coligadas, levantam os cortinados de um leito, para mostrar dentro dele, à multidão embasbacada, a gente que lá está ocupada em fazer cousas que pela sua alta e sagrada importância se querem bem escondidas? Já nada mais é respeitado pela fúria da reportagem. Que necessidade tem o público de saber se fulano de tal, cidadão livre da livre América, podendo ter, em amor como em política ou religião, as suas opiniões ou as suas preferências, prefere às mulheres claras as mulheres morenas ou às mulheres desimpedidas as mulheres cuja conquista é difícil ou arriscada? Parece que o caso deveria ser discutido e liquidado unicamente entre as partes nele interessadas, ou, quando muito, entre estas e a polícia, que é a zeladora da moral...

Parece que a gente, quando começa a sentir dentro do coração um começo de amor por uma senhora qualquer, deve a gente, antes de mais nada, dirigir-se às redações e contar o que sente aos redatores, e perguntar-lhes se acham ou não conveniente a continuação da aventura. Antes de obter a vênia da puríssima, da castíssima, da virginalíssima imprensa, nada se deve fazer! Antes de pensar na bengala do pai ou do marido da senhora amada, antes de consultar a própria consciência, os próprios sentimentos de honra e de dignidade, antes de pensar na dureza do banco dos réus e na aspereza das tarimbas do xadrez – deve a gente lembrar da pena do cronista X, e da pena do noticiarista Z!

Esses senhores são, de fato, os donos da nossa vida íntima. Dizem ao público o que comemos no almoço e ao jantar, a cor do cabelo da mulher que amamos, quantas bengaladas costumamos dar ao pelintra que nos corteja a consorte, o motivo por que nos casamos, a razão por que nos descasamos e se temos dissensões domésticas e se os nossos filhos nos respeitam, e se as nossas sogras fazem da vida um inferno...

E nem só em negócios amorosos a publicidade é nociva. Um menor, uma criança, um caixeirinho de venda, seduzido pela tentação do jogo do bicho, abre a gaveta do patrão, surrupia algumas notas de 10$ e gasta-as. O patrão queixa-se à polícia, a polícia prende o pequeno e a imprensa publica o nome desse pobre-diabo, dessa pobre criança que não soube o que fez, que pode arrepender-se, que se pode regenerar, que pode vir a ser um homem de bem – mas que fica com o nome eternamente manchado por essa maldade do noticiário!

Direis que o evitar esse horror é cousa que não compete à polícia, mas à própria imprensa. Pois sim! Se formos contar com ela... Direis, ainda, que a imprensa – essa alavanca do progresso, esse baluarte das liberdades públicas, esse etc. etc. etc. – deve sempre meter o seu sagrado, perspícuo, farejador e terrível nariz em todas as cousas da polícia para evitar que a Violência (com V grande, senhor revisor!) medre e floresça dentro da suja casa da rua do Lavradio. Ainda uma vez, pois sim! Assim como assim, a Violência há de medrar e florescer lá dentro... Não há jornal de Paris, de Londres, de Berlim, de Roma que faça o que fazem os jornais daqui, nesse particular.

Por que diabo de razão há de a gente imitar o que os jornais estrangeiros têm de mau, e não há de aprender o que eles têm de bom? Lá fora, os jornais não dão, senão excepcionalmente, notícias de estupros e raptos, de "dramas passionais", de adultérios; e quando não querem privar o público de seu acepipe predileto indicam o nome dos comprometidos por meio de simples, sóbrias, discretas e serenas iniciais...

Mas, Santo Deus! Por que insistir? O melhor é calar o bico e deixar correr o marfim...

(*) Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac (1865–1911), poeta de quem se disse que seu nome completo é um perfeito verso alexandrino. Este artigo foi publicado na edição de 28/1/1900 da Gazeta de Notícias

 

CPI DO NARCOTRÁFICO
Estranho sumiço

Chico Bruno
(*)

De repente o noticiário da CPI do Narcotráfico deixou de ser prioridade na grande imprensa nacional. Quais as razões? As visitas da CPI aos estados do Amapá, de Alagoas, do Ceará e da Bahia não tiveram a devida cobertura. Apesar dos fatos estarrecedores denunciados pelos depoentes e das provas extraídas de documentos e da quebra de sigilo fiscal e telefônico. Será que foram as pesquisas online, tão em moda, que determinaram o esfriamento do assunto em jornais, revistas e emissoras de TV?

Vamos dar exemplos do que foi apurado em três estados, para que os observadores possam fazer um juízo de valor do assunto.

No Amapá está comprovado que a lavagem do dinheiro do narcotráfico foi realizada com dinheiro público, através do Tribunal de Contas do Estado. A presidente, inclusive, foi afastada do cargo que ocupa há nove anos. O jornal do principal suspeito, que está foragido, o empresário Silvio Assis, foi apelidado de "narcomídia". Vale frisar que o empresário é íntimo da maioria das autoridades do estado.

Em Alagoas foram denunciados seis deputados estaduais, dois federais, um ex-governador, coronéis da PM, juízes e empresários. Na Bahia, dois desembargadores e o líder do governo na Assembléia estão arrolados pelo exercício de tráfico de influência na libertação de contraventores da lei.

Esses exemplos são fortes o bastante para que a grande imprensa tratasse o assunto com a devida importância, mas infelizmente não o fez. O que está acontecendo?

As correspondências de ACM e Jáder a FHC são mais importantes do que os fatos coletados pela CPI do Narcotráfico, ou é a proximidade de se chegar aos peixes mais graúdos que está intimidando a imprensa?

Alguma coisa aconteceu, para que a grande imprensa, de repente, tenha relegado a plano inferior o noticiário da CPI. É muito estranha essa atitude, mas queira Deus que não seja a proximidade da mídia com a lama do narcotráfico.

(*) Jornalista

 

LANCE! vs.PEPSI
Corinthians editado

Carlos Vasconcellos
(*)

Uma observação curiosa publicada na última edição da revista Placar e que levanta interessantes questões éticas e – por que não? – comerciais: o diário Lance! está manipulando fotografias dos jogos do Corinthians para retirar o patrocínio da Pepsi da camisa do time paulista. O motivo seria a não-inclusão do jornal no plano de mídia da Pepsi. Ao que parece, nem o Lance! nem a Pepsi responderam à reportagem de Placar. Achei a situação meio surreal e desconcertante. Lembra o enquadramento da TV Globo em alguns jogos da Seleção que antecederam a Copa de 94. Era um quadro meio fechado, para não deixar aparecer a publicidade estática do outro lado do campo.

Qual o limite para esse tipo de manipulação?

Ética à parte, acho que as camisas de times ficam muito mais bonitas sem publicidade, como a do Barcelona, que dispensa o recurso e busca outras fontes de renda – com sucesso, diga-se de passagem.

(*) Jornalista

 

PÉROLAS
Jornalismo na internet

Douglas Duarte

Expressionante! Dá uma certa tristeza ter que admitir que os americanos podem ter uma coisa que seja boa para eles e boa para nós, mas às vezes não dá para negar: enquanto o pessoal da Columbia Journalism University (que dá o Prêmio Pulitzer) anuncia a criação de um prêmio (de meia dúzia de categorias!) para jornalismo de internet, o jornal mais "tempo real" do Brasil, o "Último segundo", de Matinas Suziki, do iG, ladra, como o cãozinho que lhe serve de garoto-propaganda: "Monet é leiloado por cerca de US$ 21 mi nos EUA":

"Redação – A tradicional casa de leilões americana Christi’es (sic) vendeu, nesta segunda-feira, um quadro do expressionista (sic) francês Claude Monet por mais de US$ 20,9 milhões." E ainda completa: "A obra, que faz parte da série Nenúfares, foi concedida (sic) em 1906 no jardim de Giverny." Muito "exteressante"!!! Casa é Christi’es, Monet vira expressionista... E o quadro, foi "concedido" a quem?

Em outra edição já tinham dito que o cantor Beck "faz dódoi" ao cair de um palco em Londres... Acho que se o Prêmio Esso resolver seguir seu irmão americano vai se dar mal. Falta total de candidatos!

 

Sede de sangue

Carlos Vasconcellos

Página do caderno Cidade do Jornal do Brasil. Foto-legenda. Bela foto, péssima legenda. Um gigantesco cartaz de uma marca de cigarro despenca de um prédio e cai em cima de um ônibus no Centro do Rio. Segundo o jornal, "a sorte evitou que ninguém (sic) saísse ferido."

Azar do redator que alguns leitores atentos perceberam o erro.

 

CARTAS
Off em excesso

Estou muito intrigado com a edição nº 37 de Caros Amigos. Na capa, afirma que FHC tem um filho de 8 anos. Na matéria não apresenta provas para a afirmação da capa. Omite o nome do lobista, do repórter de IstoÉ, do jornalista da churrascaria, do jornalista do almoço na cantina, do deputado federal de oposição e do colunista muito importante da imprensa carioca. Através de e-mail, no dia 4 de abril perguntei a Sérgio de Souza quais as razões para as omissões. Até o momento não obtive a resposta.

Um dado curioso: a 2ª, a 3ª e a 4ª capas da referida edição foram compradas por três governos petistas: Santo André, Acre e Belém. Será coincidência ou a matéria de capa se relaciona com os anúncios? Afinal, não estamos acostumados a ver esses três governos anunciarem em revistas de circulação nacional. Os anúncios parecem ter sido veiculados para viabilizar a circulação da revista. Não enxergo uma razão técnica para os três anunciarem em Caros Amigos, e duvido muito que as agências responsáveis pelas contas tenham sugerido tal veiculação, que não atinge o público-alvo dos respectivos clientes.

Acho que Caros Amigos deveria esclarecer essas indagações.

Chico Bruno

 

Tempo de engenho

Voltamos então aos tempos de engenho, onde o senhor tinha seus bastardos com as escravas e reconhecia com seus filhos apenas os da esposa. O fato de FHC ter um filho é problema dele. O fato de ele deixar uma criança sem nome (já enfrentaram esta situação numa escola?) diz respeito ao seu caráter e é problema nosso, sim.

A diferença no caso de Lula é brutal. Este pode levar à filha à televisão. FHC pode?

Ademais, no governo Itamar Franco estamparam em primeira página, como crime, ele estar ao lado de uma moça sem calcinha no Carnaval.

O fato é relevante e foram usados pesos bem diferentes.

Enani Porto

 

Mais que esperança

Acompanho o trabalho de Alberto Dines apaixonadamente e faço questão de somar meu nome à longa lista daqueles que insistem em acreditar que o verdadeiro jornalismo jamais será apenas uma esperança. Sua luta é nossa.

Alexandre Salles

 

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