|
CONFLITO NOS BÁLCÃS
Duas visões da guerra
Fabiano Golgo, de Belgrado

nvio dois textos sobre a guerra na Iugoslávia, de dois jornalistas bem diferentes: o primeiro é de Petar Lukovic, um jornalista iugoslavo independente, que ainda está em Belgrado sob o risco de ter o mesmo destino de outros jornalistas independentes na terra de Slobodan Milosevic. O outro é de Ivana Jesic, chefe de redação da TanJug, a agência de notícias iugoslava. Nada preciso comentar, os textos falam por si.
A propósito: jornalista independente lá significa que é de veículo independente, e não um free lance.
Morte à mídia
Petar Lukovic (*)
Belgrado – A Iugoslávia não está em guerra apenas contra Kosovo e os países aliados. Outra guerra simultânea foi lançada pelo presidente Slobodan Milosevic: contra a mídia. E essa ele já ganhou, pois a mídia fala agora uma só voz: a do presidente. A Lei Sérvia de Informação tem uma provisão especial que permite a imposição de altas multas a editores, jornalistas e publishers, tanto sérvios quanto albano-kosovares. Esse dispositivo era usado intensamente antes do início dos ataques, durante toda a administração do Sr. Milosevic, que levava à falência jornais, revistas e até rádios que se opusessem à sua política de paranóia e guerra. No dia em que a Otan começou os ataques, Milosevic aproveitou para deslanchar a Lei Marcial de Estado de Guerra. E assassinou a mídia independente (também assassinou Slavko Curuvija, da mídia independente).
Foram proibidos de circular os jornais diários de Belgrado Somborske Novine, Blic, Glas Javnosti e Danas. Em Kosovo, as vítimas foram o Kosova Sot, Rilindja e Gazeta Shqiptare. E o semanário Evropljanin, todos calados. Slavko Curuvija, editor-chefe do Dnevni Telegraf, morto a caminho de casa. A Rádio B92, que virou notícia em 1996, quando seguiu funcionando, através da Internet, depois que Milosevic lacrou suas portas por estar denunciando o saque feito pelo presidente nas eleições locais – nas quais seu afilhado perdeu –, voltou a ser fechada, em 2 de abril, voltando ao ar dois dias depois com staff do governo. É uma estação invadida. Seus funcionários vivem escondidos e com medo.
A Lei da Informação em si, mesmo sem o estado de guerra, já é um exemplo de que a Iugoslávia de Milosevic vive no passado. Qualquer cidadão pode pedir o fechamento de uma publicação ou veículo sem precisar apresentar qualquer tipo de evidência, apenas alegando que alguma reportagem lhe causou "dano espiritual", ou (e é exatamente esse o texto da lei) que "disseminou mentiras". Detalhe: não há necessidade de provar que é mentira. Isso não existe! Ou pelo menos não deveria existir, fôssemos um país, em vez de um feudo de loucos.
Um jornal foi fechado, no ano passado, por exemplo, por publicar a frase "Belgrado vive o pior momento cultural de nossa memória, com teatros sem peças, galerias sem quadros e cinemas sem filmes". O confisco dos bens pessoais dos editores e jornalistas é parte da lei. Como as multas começam nos 5 mil marcos alemães, enquanto os salários não passam de 150 marcos, muita gente perdeu o pouco que tinha, ainda mais que o valor deveria ser pago em 48 horas!
O resultado dessa lei, criada e aprovada por Milosevic e seu aliado do Partido Radical (o que é outra piada, pois todos os partidos daqui são radicais), foi o quase desaparecimento de reportagens sérias e a falência de muita gente. O primeiro a desaparecer, por não poder pagar suas multas, foi o único jornal verdadeiramente de oposição da Sérvia, o Nasa Borba. Já o Dnevni Telegraf e o Danas se registraram em Montenegro, onde a lei não funciona. Mas encareceram suas operações por causa da necessidade do transporte do material por eles produzido. Os jornais tinham que vir de avião pois, se ousassem tentar chegar pelas estradas, eram recolhidos assim que entrassem em território sérvio. Os motoristas que tentavam a façanha em dias de névoa, que impossibilitava o vôo, às vezes não apenas perdiam a carga mas, também, muito sangue…
Mídia obediente. Esse é o motto do governo. O pior nisso tudo não é o fato de um governante tentar calar a oposição. Isso é desejo, quando não prática comum a muitos déspotas no mundo inteiro. O pior é que boa parte da população sérvia apóia as medidas. Apenas uma minoria quer ouvir a verdade. A população quer viver sob falsas informações, que ressaltem o brilhante futuro que nos aguarda, assim que o Ocidente permitir ao povo exercer seu potencial e assim que o território bósnio voltar ao nosso espólio. A população cresceu sob as mentiras de Tito – as quais, devo dizer, eram muito menos absurdas que as de Milosevic – e não suportam verdades negativas. O problema de nosso povo é que a maioria acredita no uso da força para se atingir os "motivos maiores", como dizia o Marechal Josip Broz Tito.
Os mais jovens não têm vez, são obrigados a engolir manchetes de capa dos jornais oficiais exaltando o futuro sérvio, as proezas de Milosevic, a melhora de nossa economia (que economia?). Para parecer democrático, Milosevic permitiu, até o início da guerra, que o tablóide sensacionalista Blic passasse intacto. Jornal de boulevard, desses que vivem de manchetes escandalosas e sem fundamento, a publicação vivia escrevendo coisas maldosas sobre a família do presidente, prestando atenção na cor do cabelo de Marko, o filho drogado e corredor de carros, que costumava pintar suas madeixas reais de laranja, prata, até azul. Ou ao namorado da filha Marija, que passara alguns meses na cadeia por ter assassinado um amigo que lhe ousara vencer numa corrida de motos (dizem que as filhas sempre se apaixonam por homens que lembrem seu pai…). Com isso, Milosevic "provava" que admitia críticas. O que ele não dizia é que a população sérvia podia se divertir com o jornal, mas não o levava a sério. E que as difamações nunca atingiam a verdadeira família do presidente: a política dele. Agora, no vulto da guerra, na calada da noite, fechou também o Blic, sem declaração de motivos, como lhe é comum.
Antes de ser assassinado, o editor-chefe do Dnevni Telegraf, Slavko Curuvija, e dois de seus repórteres haviam sido condenados a cinco meses de prisão. A ação foi impetrada a pedido de Milovan Bojic, vice-presidente, pelo partido da Sra. Milosevic, o JUL. Em uma perfeita demonstração do como as coisas funcionam aqui, o promotor e o juiz também são membros do partido da Sra. Mira Markovic, a primeira-dama.
Outro caso merece menção: em 15 de março, antes de as bombas da Otan começarem a cair, uma bomba sérvia deu uma lição ao correspondente do diário Glas Javnosti, Sr. Dragan Alempijevic. À beira da guerra, Milosevic sabia que não haveria tempo para iniciar procedimentos contra o jornalista. Então, bomba nele.
Depois dizem que é a Otan quem está bombardeando os sérvios…
(*) Petar Lukovic é colunista do Feral Tribune e editor do XZ, revista cultural de Belgrado
Contexto local
Ivana Jesic (*)
Desde o início destes ataques contra a Iugoslávia recebo e-mails reclamando de falta de objetividade na cobertura dos fatos que aqui ocorrem. Se tivesse tempo de responder a essas reclamações de desavisados, geralmente americanos ou britânicos, que prestam atenção mais no jornalismo nosso do que nos estragos que estão fazendo... Se eu tivesse tempo, explicaria como funciona qualquer redação de qualquer veículo de comunicação de qualquer lugar do mundo. Primeiro, dos muitos fatos que ocorrem a cada dia, o editor tem que escolher o que é relevante. No nosso caso, é relevante o que estão fazendo com nosso país. Temos que selecionar os fatos sobre os quais temos evidências. O que a imprensa de vários países tem publicado são mentiras baseadas em mitos espalhados por albano-kosovares. Dizer que certas coisas estão acontecendo em Kosovo, sem que ninguém tenha uma foto sequer, ou uma declaração de gente independente, que não tem interesse em destruir nossa nação – como é o caso dos refugiados, que estão lá para dar a impressão de que não podem estar em suas casas. Ou eles fugiram por causa das bombas da Otan ou porque estão seguindo as orientações do Exército de Libertação do Kosovo (ELK), que foi declarado pela ONU e pela própria Otan como entidade de terroristas. Nós temos que noticiar o que podemos ver com nossos próprios olhos, que é a destruição criminosa de nossa terra, em desrespeito às leis internacionais.
Também a intromissão de poderes estrangeiros em nossos problemas internos. Os sérvios nunca foram defender os bascos ou os palestinos. Os americanos, pelo contrário, ajudam com dinheiro e armas a repressão de movimentos separatistas, que são contra as leis internacionais e o direito soberano dos países. A Agência TanJug lida com fatos colhidos com seriedade, como o enorme número de civis mortos pela Otan. E não estamos sendo injustos, pois noticiamos também os civis albano-kosovares que são assassinados pela Otan em sua ação ilegal contra a soberania iugoslava.
Isso é objetividade. Quem diz que o presidente Milosevic dita o que sai da TanJug não sabe o que fala. Muitos de nossos repórteres são membros de outros partidos, muitos não apóiam Milosevic. Mas temos responsabilidade com a notícia e com a ética jornalística. Temos que noticiar o que a Otan faz. Isso é visto como errado pelos que querem calar nossa mídia, a própria Otan, que quer ser a única a dizer alguma coisa. Eles têm medo das verdades que distribuímos ao mundo, minando os planos da Otan de não deixar ninguém ver a destruição da Iugoslávia pelas suas bombas criminosas ou o assassinato de inocentes civis.
A TanJug é objetiva, e isso põe em perigo a ação da Otan e a mídia anti-sérvia do mundo.
Lembram da Guerra do Golfo? Os americanos esconderam da sua própria mídia, que eles dizem ser livre, as verdades sobre as bombas com cabeça de urânio, as mortes de soldados britânicos e outras coisas. As únicas imagens que podiam ser mostradas eram as liberadas pelos aliados. Isso é censura, é manipulação. O presidente Milosevic ou quem quer que seja do governo veio alguma vez à TanJug dizer o que pode ou não ser divulgado? É tudo parte de decisões internas, baseado nos mesmos mandamentos de jornalismo aplicados em qualquer parte do mundo. É uma questão de ótica local.
(*) Chefe de redação da agência de notícias (estatal) iugoslava TanJug
COBERTURA
Imprensa esportiva e a
nossa língua portuguesa
Sheila Grecco (*)
Se as coberturas esportivas se pautam, em geral, por uma linguagem mais coloquial, menos telegráfica e denotativa do que nas demais editorias, não é menos verdade que deva deixar de lado os cuidados com a nossa língua portuguesa. Parece que alguns jornais têm se esquecido desse bom sendo. A Folha de S.Paulo nos deu recentemente um mau exemplo que deveria ter deixado de cabelos em pé os organizadores das regras de seu Manual de Redação. Vale a transcrição: "Justiça nega ‘alforria’ a Dida, e passe segue preso ao Cruzeiro". (Caderno Esporte, pág. 3-12, 13/5/99).
Terá passado ileso pelos olhos do leitor o uso do substantivo "alforria" em vez de "liberação de passe" ou "rompimento de contrato"? A troca não deveria ser apenas uma questão de estilo, mas de precisão. A brincadeira acabou tornando a manchete sentenciosa, preconceituosa e absurda. A reportagem informava que a Justiça do Trabalho teria negado o passe livre reivindicado pelo goleiro Dida em ação movida contra o clube Cruzeiro. Isto estaria impedindo o jogador de oficialmente trabalhar para outros times, ao ponto de o próprio admitir estar sendo tratado como "escravo" pelo clube. A brincadeira da fonte não justifica o mau gosto do repórter.
A Folha, então, se aproveitou da comparação feita pela fonte e levou-a ao extremo, colocando o termo "alforria" entre aspas, para dar uma imagem asséptica e remeter a um discurso indireto que, na verdade, não existe.
O problema não está na simples escolha de termos. Mas em toda a carga semântica que está por trás dele. Primeiramente, o jogador nada tem de relação escrava. Seu passe é de 3 milhões de dólares, atualmente vem treinando pelo Lugano, da Suíça, e recebeu propostas milionárias do Milan, da Itália.
Considerar tal condição de pop star, a qual é submetida a maioria dos jogadores de futebol de destaque no Brasil, como representante de uma relação servil ou mesmo escravocrata é um desrespeito aos negros e à própria história do país. História marcada pela violência contra uma raça que viveu uma contraditória condição de humano e de "coisa", tendo vontade própria e não podendo executá-la, tendo de executar as vontades do dono ao qual servia. Ter sido tratado como mercadoria não foi certamente a única violência perpetrada contra o negro.
Como deveria ser notório, a abolição da escravatura no Brasil em 1888 não virou a triste página de nossa história, tampouco constituiu um exemplo de democracia racial. O negro no Brasil é relegado à marginalidade, à periferia. Seu acesso à educação e aos postos-chaves no governo sempre é negado. O negro continua escravizado socialmente.
Se o preconceito se manifesta pela segregação explícita e por manifestações sutis, dizer que um jogador milionário não recebeu ainda sua carta de "alforria", além de ser um desrespeito à língua portuguesa e uma distorção dos fatos, é um desrespeito à própria história do país e à inteligência do leitor.
(*) Jornalista, historiadora, professora e pesquisadora da USP
Pensamento Único
Luigi Bonafé De Felice (*)
Primeira página de O Globo de 6/5/1999: "Depoimento de Mercadante frustra a CPI dos Bancos".
Primeira página do Jornal do Brasil de 6/5/1999: "Mercadante decepciona senadores".
O tal "Pensamento Único", explícito.
Frustrados e decepcionados ficamos nós, cidadãos, sabendo que bancos se beneficiaram de informações privilegiadas do Banco Central. Um pouco mais de discrição e imparcialidade, ao menos na primeira página!
(*) Estudante secundarista, 17 anos
JORNALEIROS
Bancas em pé de
guerra – a vitória
Isabela Nogueira
Depois de dois meses de briga, os jornaleiros paulistanos conseguiram sua primeira vitória. Eles assinaram com os grupos Folha e Estado um acordo que define novas comissões sobre os produtos agregados que acompanham o jornal (livros, fitas de vídeo, CDs e outros badulaques). Até então, nenhum acordo comercial entre os jornaleiros e as empresas proprietárias de jornais havia sido formalizado.
Por determinação dos grupos Folha e Estado, em 27/3/99 a comissão dos jornaleiros sobre os agregados – que desde 1957 era de 30% – passou para 20%. Os vendedores se uniram e optaram pela suspensão da venda desses produtos. Em retaliação, jornaleiros sofreram cortes no reparte de jornais que costumavam receber das empresas (ver remissões abaixo).
Depois de mais de 40 horas de reuniões, a categoria aprovou a proposta das empresas em 12/5/99. Os agregados que surgiram após 27/3/99 – data da decisão das empresas em reduzir a comissão – terão 25% de comissão. É o caso da coleção de fascículos Lição de Casa, do Estadão. De outra parte, a coleção Os Pensadores, da Folha de S.Paulo, terá 30% de comissão, já que foi lançada no início de março. A partir de 31 de março de 2000, a comissão dos jornaleiros sobre qualquer produto voltará a ser de 30%.
De acordo com o presidente do Sindicato dos Vendedores de Jornais e Revistas de São Paulo, Francisco Ranieri Netto, as empresas não suportaram o prejuízo e partiram para a negociação. "Eles estavam com os galpões cheios de produtos promocionais. O choque que tomaram foi do tamanho de um elefante", comparou. Ranieri afirmou que a negociação só foi possível porque os donos de bancas se uniram e deram ao movimento "ampla penetração". "Os jornaleiros estão de parabéns", elogia Ranieri.
Para o jornaleiro Eduardo dos Santos, com banca em Mogi das Cruzes, na região metropolitana de São Paulo, a vitória foi apenas "parcial". "Apesar desta ser a primeira vez que teremos um acordo assinado e registrado pelos órgãos de imprensa e pelo sindicato, tivemos que ceder um pouco", diz Santos. A diferença de 5% que o jornaleiro perdeu sobre os agregados será amenizada pelos relançamentos. Os números atrasados, quando relançados, darão ao jornaleiro 40% de comissão.
O jornaleiro Jefferson Repetto Lavor, dono da banca Jardim América, na capital paulista, concorda que os jornaleiros tiveram de ceder mas está otimista. "Mostramos que temos força. Isso impedirá que as revistas, por exemplo, tentem fazer os mesmos cortes que os jornais tentaram."

Bancas em pé de guerra
Bancas em pé de guerra – 2
|
|