CONFLITO DE INTERESSES
O enrosco do primão

Em 7 de novembro, o presidente eleito George W. Bush telefonou para seu primo John Ellis, chefe da comissão de decisão da Fox News. "Ellis, aqui é Bush", disse. "Lá vamos nós de novo... Parece apertado, né?" "Eu não me preocuparia com seus números anteriores", respondeu Ellis. "Seu pai também teve números iniciais ruins em 1988 e acabou ganhando por 7 pontos percentuais. Então, quem sabe?" "OK – afirmou Bush – ligue-me de volta quando puder."

Ellis escreveu sua primeira prestação de contas daquele dia memorável à revista Inside, que planejava publicá-la na segunda metade de dezembro, conforme artigo de Howard Kurtz [The Washington Post, 11/12/00]. A Inside ofereceu 15 mil dólares a Ellis pelo artigo.

O texto mostra quão envolvido estava o analista da Fox com ambos os primos, George W. e Jeb Bush, ao mesmo tempo em que trabalhava para uma das principais organizações noticiosas.

A emissora está investigando a conduta de Ellis, e Roger Ailes, presidente da Fox News, afirmou ter ficado furioso ao saber do artigo da Inside. As expectativas na Fox são de que Ellis será demitido.

Às 17:30h do dia seguinte às eleições, com as urnas ainda abertas sugerindo vitória de Gore, escreve Ellis, telefonou para Bush, no que seria a segunda conversa do dia. "Está realmente tão perto?", perguntou Bush. "Sim, está muito perto", respondeu Ellis. "Bom, o que você acha?", disse Bush. "Não tenho idéia", afirmou Ellis. "Bem, mantenha contato. Avise-me se souber de qualquer coisa boa". "Prometo que aviso", disse Ellis.

Às 1:50h do dia 9 de novembro, Ellis reabriu a linha de comunicação com Bush. Confiante de que Gore não poderia mais vencer na Flórida, perguntou o que o governador achava e acrescentou: "Acho que você conseguiu."




LIÇÕES DO VEXAME
Hora da auto-avaliação

Ao avaliar os resultados das eleições, as emissoras os mudaram. Essa é, segundo David Ignatius [The Washington Post, 10/12/00], a "terrível" verdade sobre a saga na Flórida. Os republicanos estão certos quando dizem que as emissoras erraram ao proclamar Gore vencedor da corrida presidencial; e os democratas também podem reclamar, pois, algumas horas depois, Bush foi declarado o novo presidente dos EUA.

Nunca se saberá o que teria acontecido se o processo tivesse continuado por conta própria, despercebido, em seu curso "natural". Nesse caso, os resultados das eleições teriam permanecido desconhecidos até que os votos fossem contados e talvez recontados – sem a desconfiança de trapaças. Mas a trajetória foi destruída pelo ato de observar. O "verdadeiro" lugar de Bush e Gore permanecerá para sempre incerto.

Eleições não são a única área em que a cobertura da mídia noticiosa modifica o que está sendo observado. Um exemplo mais perigoso é a cobertura de guerra. Desde a invasão do Líbano pelas forças armadas de Israel, em 1982, ficou clara que a habilidade da TV em gravar os horrores da guerra em tempo real mudar a natureza da própria guerra. Embora não se imagine um mundo sem a fiscalização constante da mídia, talvez o fiasco da Flórida tenha estimulado um radical auto-avaliação do jornalismo como atividade profissional, e do jornalista, como apurador responsável e editor fidedigno.

Claro que há formas obtusas de observação – e correr para anunciar ganhadores baseando-se em apuração de votos inacabada é um deslumbrante exemplo. Isso precisa ser reconsiderado agora.

No final, as eleições dos EUA foram uma lição civil de lei e democracia, mas uma lição pouco prazerosa, e grande parte da culpa é, de fato, da mídia noticiosa. A confusão na Flórida começou com os erros da imprensa.

É uma questão de proporção. Jornalistas norte-americanos devem admitir, humildemente, que o que está sendo reportado é mais importante do que o vale-tudo do furo a qualquer preço.



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