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ASPAS
VEXAME AMERICANO
Megan Garvey e Bob Drogin
"TVs perdidas em mais uma noite de sufoco", copyright O Globo/Los Angeles Times, 14/12/00
"Quando chegou o momento da decisão, aquele que o país havia esperado durante longas horas - desde a tarde de segunda-feira - as principais redes de TV americanas ficaram perplexas e não puderam divulgar o veredicto da Suprema Corte dos EUA. Simplesmente não conseguiam entender o que o texto dizia.
Repórteres de TV enfrentavam o frio da noite em frente à sede da corte. A tensão os consumia enquanto esperavam que colegas descessem os degraus do prédio com o texto do veredicto nas mãos. Quando isto aconteceu, fizeram algo que quase nunca se vê na televisão: folhearam freneticamente as páginas do documento diante das câmeras.
- Vocês podem entender o que diz? - perguntou Judy Woodruff, âncora da CNN.
ABC, CBS e NBC interromperam a programação para cobrir a divulgação do veredicto, às 22h de terça-feira (1h de ontem no Brasil). Canais de TV a cabo ficaram paralisados durante minutos.
Na CNN, o apresentador Larry King acabara de anunciar: ‘Nenhuma decisão da Suprema Corte esta noite e tempestade de gelo amanhã’. Mas foi interrompido pelo âncora Bernard Shaw, que avisou: ‘A decisão está a caminho’. O canal MSNBC mostrou um repórter solitário em frente à sede da corte esperando um colega, que desceu as escadas com o texto nas mãos, mas sem qualquer explicação.
De várias maneiras, o momento simbolizou os 35 dias de agitação e angústia que se seguiram à noite da eleição, quando as redes de TV fizeram prematuros anúncios de vitória. De início, disseram que o vencedor era Al Gore e, nas primeiras horas da manhã, que a Presidência era de George W. Bush.
Durante toda a terça-feira, locutores disseram a telespectadores que a decisão da Suprema Corte seria quase que certamente a palavra final, a última etapa da confusa eleição. Finalmente eles tinham a decisão, em 65 páginas. Mas o que significava? O país finalmente tinha um presidente? Ninguém parecia saber.
De início, havia consenso entre confusos jornalistas e especialistas de que uma recontagem de votos na Flórida seria possível, com o caso voltando à Suprema Corte do estado. Mas, mesmo compartilhando da mesma análise apressada, alguns dos mais bem remunerados comentaristas de TV do país advertiram que precisariam ler o documento inteiro para estarem certos do que ele dizia.
Num certo momento, Dan Rather, âncora da CBS News, considerou a decisão estupidificante (sic). Aparentemente incapaz de entendê-la, ele leu um telegrama da agência de notícias Reuters que procurava explicar como o veredicto favorecia Bush.
Rather não parecia, entretanto, convencido e advertiu os telespectadores de que era cedo demais para considerar uma vitória do governador do Texas. Mais tarde, solenemente, ele leu um segundo telegrama da Reuters confirmando que os especialistas estavam confusos.
Em Tallahassee, capital da Flórida, Barry Richard, advogado de Bush, desistiu de assistir à TV e saiu à caça do texto do veredicto no site da CNN.
- Depois de ficar trocando de canal, ouvindo a leitura que os repórteres faziam do documento, desisti e procurei descobrir por mim mesmo - disse ele, ainda tentando entender o texto, em casa, horas depois de sua divulgação.
No MSNBC, o analista Dan Abrams procurou não se mostrar perturbado, tentando dar sentido ao complicado veredicto, cujo texto, divido em seis partes, incluía um comentário de um juiz favorável à decisão e dois de juízes contrários à decisão, aprovada por cinco votos contra quatro.
Na CNN, a âncora Judy Woodruff discutia com o repórter Charles Bierbauer. Enquanto Bierbauer se mantinha na escada da sede da corte, ela permanecia no estúdio e cada um deles lia em voz alta trechos do texto da decisão, ambos tentando decifrar o quebra-cabeça legal. Até que desistiram e a TV cortou a cena para mostrar o correspondente de Tallahassee. Mas ele não oferecia qualquer esclarecimento.
- Nenhum de nós está certo sobre o que está acontecendo - admitiu."
Terra
"Imprensa americana critica confusão na Corte Suprema", copyright Terra (www.terra.com.br), 13/12/00
"A imprensa americana, que esta quarta-feira publica em primeira página a decisão da Corte Suprema federal que abre o caminho a uma vitória do republicano George W. Bush nas eleições presidenciais, destaca também a divisão dos juízes e a confusão da sentença. Muitos editoriais criticam duramente os nove magistrados do alto tribunal, cuja divisão na hora de emitir a sentença ‘minou a credibilidade’ da Corte, segundo o jornal USA Today.
‘Esta decisão confusa pode alterar de forma grave a reputação da Corte nos anos futuros’, afirmou o matutino Wall Street Journal, que por outro lado qualifica o texto da máxima instância judicial americana como ‘medíocre’ e como um ‘golpe mortal’ para o democrata Al Gore. Para The New York Times, ‘a decisão (da Corte Suprema) de rejeitar uma nova contagem (de votos) na Flórida se toma a um custo considerável para a confiança do público e a tradição de eleições justas’ nos Estados Unidos.
Esta eleição ‘permanecerá na memória como uma eleição decidida por uma Corte Suprema conservadora a favor de um candidato conservador enquanto as cédulas que poderiam ter dado um resultado diferente não foram contadas na Flórida’, diz o jornal. ‘Se a Corte Suprema procurou dar um final digno e convincente a esta eleição fracassou’, fustigou o USA Today. A decisão, contida em um texto de 13 páginas e publicada às 22H00 locais (02H00 Brasília), após 14 horas de deliberações, criou uma confusão espetacular nas escadarias da Corte Suprema.
Todos os jornais publicam fotos de repórteres dos grandes canais de televisão perplexos diante do texto dos juízes: ‘Correspondentes, apresentadores estrelas, experts e representantes de partidos se esforçavam para compreender o que os juízes tentavam lhes dizer’, assinala o The Washington Post. ‘A decisão extraordinariamente complicada da Corte levou a uma confusão generalizada minutos depois de sua publicação’, acrescentou o The New York Times. O Chicago Tribune destaca ‘o sabor amargo’ desta eleição ao mesmo tempo que reconhece ‘a incrível paciência do público’.
A parte difícil começa agora’ para George W. Bush que, se for finalmente eleito, deverá demonstrar uma considerável habilidade para governar, diz o USA Today. Para o Sun de Baltimore, a sentença da Corte Suprema federal não deixa ‘solução legal realista’ para Al Gore, e a vitória de Bush estará marcada ‘por um asterisco que o incluirá no reduzido clube de homens que ganharam a Presidência sem ganhar o voto popular’, assinala o Chicago Tribune. O governador do Texas, que terça-feira jogou tênis para matar o tempo, e quebrou sua raquete segundo uma foto publicada pelo The Washington Post, deverá ‘encontrar palavras de calma para uma nação que deu 300.000 votos a mais ao seu adversário’, escreveu o The New York Times."
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