7/7

Envie para um amigo  Imprima esta página  Procure no arquivo

MÍDIA GAÚCHA
O estuprado que aprenda a lição

Gilmar Antonio Crestani (*)

Nestes dias em que golpes são explicados com eufemismos, é sempre confortável buscar nos registros mais remotos alguma luz para clarear perguntas atuais ainda não respondidas pelos nossos coronéis eletrônicos. Os fins justificam os meios?

Como bom repórter, o "pai da História", Heródoto (484 - 425 a.C.), viajou pelo entorno do Mediterrâneo, da África à Europa, visitando povos com os quais os gregos mantinham algum tipo de relação. Com as informações colhidas nestas viagens escreveu o primeiro livro de História. A globalização engendrada por Alexandre Magno (356-323 a.C.), hoje entendida como helenização, ainda não dera seu principal fruto, a Biblioteca de Alexandria, organizada por um de seus generais, Ptolomeu I (305-283 a.C.). Pois é, já não se fazem generais e globalizações como antigamente!

Heródoto acabou registrando fatos ilustrativos das relações internacionais de seu tempo. Sem contar com o auxílio de bibliotecas ou internet, recorreu aos mitos para tentar explicar as desavenças entre gregos e persas. Atribui ao rapto de quatro mulheres, Io, Europa, Medéia e Helena, a origem do que a história didaticamente sintetiza em Guerras Médicas, ou Grego-Pérsicas. A primeira, a princesa Io, filha de Inaco, maioral de Argos, teria sido raptada pelos fenícios, e conduzida ao Egito. Pretendendo quitar o débito, os gregos foram a Tiro, na Fenícia, e raptaram Europa. Alguns mitólogos atribuem este feito à safadeza de Zeus, que teria se transformado em Touro para seduzir a donzela. Uma vez resolvida a primeira parte, o chefe dos deuses foge a nado, com a moça no lombo, em direção a Creta. Depois os gregos voltaram à carga, literalmente, raptando Medéia, filha do rei da Cólquida. Quase entornando o caldo, mas ainda não foi desta vez a gota d'água. (Gota d'Água foi a peça que Chico Buarque escreveu inspirado na Medéia do tragediógrafo grego Eurípides (485-406 aC).

A última das quatro, Helena, é a mais famosa das raptadas graças ao esmero de Homero. Heródoto não tece juízo de valor a respeito de tais episódios, mas, a crer nos estudiosos atuais, a questão de fundo teria estado envolta nos mistérios do comércio e suas conexões. Io, por exemplo, foi raptada enquanto estava "comprando objetos de sua preferência". Europa, contudo, teria servido apenas para satisfazer a libido de Zeus, o Touro que hoje faz parte do zodíaco. "Ultimados os negócios que ali os levaram, arrebataram Medéia", escreveu o historiador. A última, Helena, diz a lenda que foi seduzida pelas riquezas de Páris, mas que não partira em sua companhia de mãos abanando, já que Menelau também era rei. E a Guerra de Tróia não passaria de uma disputa por um ponto comercial estratégico.

Sedução ou estupro

Na Antigüidade, os fatos estavam relacionados ao que acontecia a determinadas pessoas, mormente relacionadas a uma família proeminente. As quatro figuras femininas acima, por exemplo, tinham ascendência real. O registro de tais fatos sobreviveu por ser emblemático, síntese de um espectro maior.

As figuras femininas atuais são conceitos, também raptados de seu sentido denotativo.

A mídia seqüestrou a verdade para fazer dela instrumento de seus interesses e, como resgate, nos oferece a manipulação. Se o exemplo venezuelano é o mais gritante, o que acontece por estes pagos não é menos verdadeiro. O conceito de liberdade e de democracia também foram extorquidos do dicionário para fazer sentido às suas pretensões econômicas.

No Sul, os mesmos coronéis eletrônicos que descobriram o problema da segurança pública após a derrota de seu apaniguado usam do banditismo para melhorar alguns pontos do Ibope, sem se importar com o risco que as vítimas possam correr, conforme registrado na edição passada. Não contentes, dão asas à imaginação a macartistas entrincheirados na Fiergs, prontos a golpear quem não reze pela mesma cartilha. Arvoram-se em defensores da liberdade, mas apóiam golpistas.

No ímpeto de ajudar o governo federal, já que o empréstimo do BNDES à Globocabo ainda não saiu, o jornal local da RBS sai-se com esta manchete: "Impostos consomem 32% da renda de porto-alegrense." O sentido fica mais claro no corpo da matéria, ao afirmar que os impostos invisíveis pesam mais no bolso da classe média do que os descontos do Imposto de Renda (IR). Não fosse o fato de o assunto coincidir com o prazo de encerramento da declaração do ajuste anual, de interesse do Fazenda Federal, resta ainda o gentílico "porto-alegrense" para mostrar que os impostos castigam somente a classe média que vive na capital gaúcha. É também a mesma empresa que ataca o MST em seus editoriais, acusando-o de atentar contra a propriedade privada e o direito de ir e vir, mas se fecha em copas quando deputados de sua base invadem a prefeitura porto-alegrense.

Esta invasão levou o comentarista político José Barrionuevo a ver no episódio apenas "deputados muito descontraídos", como se estivessem em um piquenique. Se os empresários e latifundiários do estado reagem às vistorias do Incra, impedindo o exercício de uma atribuição legal, saca argumentos de que os fins justificam os meios. Aliás, usaram o mesmo argumento para justificar o rapto da democracia e a implantação da ditadura na Venezuela. Não importava se Hugo Chávez havia sido eleito ou não, relevante mesmo era eliminar o populismo pernicioso.

Não foram somente a revista Veja e a Rede Globo que ficaram mal na foto com a torcida escancarada pelos golpistas venezuelanos protegidos pela "democracia" ianque. A RBS vinha conquistando corações e mentes, pois noticiava que a "república bolivariana" estava em estado terminal por culpa das manifestações populares. Mas o retorno de Chávez pegou-a de calças na mão, e, sem constrangimento, liberou o retorno da conjunção adversativa "mas" que havia raptado após os ataques terroristas de 11 de setembro. Tudo bem, ele fora eleito, "mas" deveria aprender a não ser populista. Para merecer permanecer no cargo para o qual fora eleito deveria implementar mudanças, "mas" devia evitar uma caça às bruxas. O estuprado deveria aprender com o estupro, remendando a velha lição malufista.

Na sexta-feira em que Pedro Carmona se investira de poderes para fechar o Congresso e a Suprema Corte, o jornal Zero Hora aproveitou para publicar uma foto de Chávez com Lula, tecendo ironias sobre um eventual governo Lula. Que tipo de jornalismo é este?

A relação da RBS com ditaduras, para terminar com Heródoto, faz lembrar o tirano grego, Pisístrato, cuja esposa o acusou de "ter com ela apenas contatos contra a natureza".

(*) Funcionário público

Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe