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RBS vs. PT-RS
O ovo da serpente

Gilmar Antonio Crestani (*)

Ganhou repercussão na imprensa nacional declaração do presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs), Renan Proença, de que estava em curso a "cubanização do RS". Esta declaração nasce no bojo das reiteradas inserções do mesmo jaez patrocinadas pelos veículos da RBS.

O fenômeno não é novo na sociedade gaúcha. Nos anos 30, um romance histórico "Farrapo: memórias de um cavalo", de Félix Contreiras Rodrigues, publicado sob o pseudômino Piá do Sul, fez muito sucesso. Tanto que, 30 anos depois, acabou sendo incluído na Coleção Província nº 13, da Editora Globo. A introdução da edição de 1935 mistifica, torce e distorce para dizer: "no Rio Grande, o crime é geralmente singular e comum, não político e coletivo", passando batido pelas revoluções de 1893, 1923, 1924, 1926, 1930 e 1932. Sendo que a de 1893 ficou conhecida como a Revolução da Degola. O raciocínio fechava com uma pérola ainda hoje cultivada em boa parcela "pensante" da província: "a liberdade, que o coração adoça e colora, contém venenos que só a razão destila e evita. E, enquanto for empregada como única base de governança, os homens vacilarão por falta de fulcro político realmente sólido. Eis porque todas as democracias vivem cambaleando e resvalando para o abismo comunista." Raciocínio desculpável, já que se tratava das memórias de um cavalo, em que pese todo o legado de autores como Esopo e La Fontaine no trabalho com animais.

Bem mais recente, mas centrado no anticomunismo gaúcho, a Universidade de Passo Fundo publicou o "O diabo é vermelho". A autora, Carla Simone Rodeghero, estuda o "imaginário anticomunista e a Igreja Católica no Rio Grande do Sul - 1945-1964". Ali estão as explicações de um fenômeno tipicamente gaúcho: a polarização maniqueísta, com a demonização da esquerda. Quando a razão falece, é no grito, na mistificação que o "perfeito idiota neoliberal" transita, como diria Luis Nassif.

"Perigo vermelho"

Na dá para perder de vista a história da RBS. Como ela explicaria que durante todo o período da ditadura, nunca tenha sido impedida de circular? Aliás, a história da RBS se confunde e se funde com a da ditadura. É o típico caso que confirma o ditado de que o uso do cachimbo entorta a boca. Também não consta que a RBS tenha sido condenada durante a ditadura por notícias falsas.

Em contrapartida, após as Diretas Já, Zero Hora censurou Luis Fernando Verissimo por ter chamado Collor de ponto de interrogação bem penteado. Na véspera do segundo turno das eleições de 1998, Zero Hora foi recolhida por determinação judicial.

A RBS não aprendeu a conviver com a democracia. É por isso que seus capitães do mato são clientes da Justiça, sempre como réus. Corrijo: a RBS propôs ação contra o Sindicato dos Jornalistas por a terem criticado no jornal Versão dos Jornalistas. Nesse caso ela não atua como ré...

É justo reconhecer que o comportamento da RBS atende a um público. Existe consumidor para essa prática. Ou seria mera coincidência o julgamento do STJ, em sessão da semana passada, de processo contra o gaúcho Siegfried Ellwanger, sócio- diretor da Revisão Editora, por apologia ao nazismo? Público existe, e as provas abundam.

Contra o perigo "vermelho" não basta a democracia, pois pode "resvalar para o abismo". Mas em que consiste o perigo vermelho que a RBS vem manchetando desde 1988, quando o PT ganhou pela primeira vez a eleição para a prefeitura de Porto Alegre? A defesa dos instrumentos públicos de atuação na sociedade, como os serviços estratégicos de educação, segurança, energia e telecomunicações. A manutenção do Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul) e a criação de uma universidade estadual gratuita são sinônimos de cubanização. Afinal, são serviços que a iniciativa privada poderia muito bem dar conta. Mas há que se registrar que as duas maiores universidades particulares gaúchas, a PUC e a Ulbra, vêm recebendo conceito inferior ao das públicas. Fosse sério o Provão, o MEC já teria fechado, por exemplo, o curso de Direito da Ulbra.

Sabem por que não fecha? Depois das companhias telefônicas, a Ulbra (Universidade Luterana do Brasil) é a maior anunciante nos veículos da RBS, que são tantos.

O átomo e o preconceito

A declaração do presidente FIERGS coincide com vários fatos:

** Criação da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), gratuita;

** Anúncio da maior safra de grãos de verão da história do Rio Grande do Sul (18,3 milhões de toneladas);

** Aumento das exportações gaúchas, que vêm crescendo acima da média nacional;

** O RS fatura a imprevidência federal no tocante ao apagão, já que o dever de casa foi executado a tempo;

** No mesmo dia em que explodia a violência na Bahia, o governo gaúcho anunciava uma proposta de aumento de 25% para o magistério e 222% no risco de vida para policiais. O caso é emblemático, pois a RBS, o PMDB e a Fiergs trataram a ida da Ford à Bahia como traição do PT aos gaúchos;

** Surgimento do jornal O Sul, concorrendo com a RBS;

Como disse Einstein, "é mais fácil quebrar o átomo que um preconceito". O ovo do preconceito estava sendo chocado sob as asas da RBS. Aqui mesmo, neste Observatório, já tive oportunidade de alertar para esse novo fenômeno chamado macartismo gaudério. O fato de o secretário de Segurança Pública, José Paulo Bisol, pedir, em cerimônia na cidade de Pelotas, mais ternura da Brigada Militar no trato do cidadão mereceu páginas de ironia na Zero Hora da RBS. Afinal, como diz a manchete de domingo, 15/7, são 9.997 fugitivos da Justiça espraiados pelo RS.

O susto do empresário

A linha de raciocínio desenvolvida pelos veículos da RBS, talvez não com essa intenção, seria a preferência de um Massacre do Carandiru no nosso Presídio Central à ternura sugerida pelo Bisol. E nesta preferência entram mais dois personagens que, coincidentemente, na data do julgamento do capitão Guimarães pelo massacre dos 111, preferiram se cercar de dois delegados investigados pela relação com o jogo do bicho, para denunciarem o governo do estado: Luis Milman e Jair Kriscke.

É nessa circunstância que, mesmo não sendo filiado a qualquer partido, sem procuração para defender quem quer que seja, não quero vestir a carapuça do vizinho de que fala Bertold Brecht, e silenciar diante do que está acontecendo. Amanhã poderá ser comigo e, aí, os vizinhos já terão ido.

Não gostaria de acreditar que é a informação gratuita que o estado está oferecendo que assusta o empresário. Quero acreditar que, de fato, é a possibilidade do "apagón" cubano que o assusta. Afinal, como pode servir de exemplo uma ilha bloqueada pelos EUA e que tem apagão? Renan Proença não fez nenhuma declaração a respeito da compra de votos para a reeleição. E, assim como a RBS, entende por democracia a vitória deles. Qualquer proposta pode ganhar uma eleição, desde que essa proposta coincida com a deles.

Culpa e ganha-pão

Direito é bom senso, declarou o juiz-presidente do Conselho de Qualidade do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, com sede em Porto Alegre. Aí está. O Poder Judiciário, considerado o mais conservador dos poderes, não só busca a qualidade, mas reconhece que só há justiça onde há bom senso. O bom senso praticado pela RBS no quesito informação e do presidente da Fiergs em termos de democracia se coadunam mais com a Lei de Gerson: levar vantagem em tudo.

O Estado mínimo deste só se compara com o método espartano, que deixavam as crianças mais fracas morrer de inanição, ou as jogavam de um precipício, para não disputarem o pão escasso. Não é por menos que o Ipea identificou no RS o mais o baixo índice de atuação empresarial na área de responsabilidade social. Num caso desses, RBS e Fiergs adotam o método Armando Falcão: nada a declarar.

Alguns jornalistas, à boca pequena, comentam que não têm alternativa à linha empresarial da RBS. Neste caso poderíamos dizer, como falam de Regina Borges – aquela que ajudou Arruda e ACM a violarem o painel do Senado –, que o ganha-pão exime a culpa?

(*) Funcionário público federal

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