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CULTURA POPULAR, ARTE PARA O POVO
Mudanças na Esplanada podem
chegar aos segundos cadernos
Alberto Dines
Acontecimentos na Praça dos Três Poderes dificilmente interessam a este Observatório, a não ser os seus desdobramentos na mídia. Mas na Esplanada dos Ministérios há três endereços que normalmente devem gerar comentários: o Ministério das Comunicações, sobretudo no que diz respeito às concessões de radiodifusão; a Secretaria de Comunicação (Secom) e o Ministério da Cultura.
O Ministério das Comunicações requer atenção redobrada, especialmente porque ali se originaram os 291 pedidos concessões, permissões e licenças a radiodifusores aprovados pelo Senado nos últimos dois meses e meio (cf. O Estado de S.Paulo, 23/12/02, <http://www.estado.com.br/editorias/2002/12/23/ger012.html>). A Secom, órgão técnico de publicidade a ser ocupada por um técnico em organização, não promete grandes trepidações. O Ministério da Cultura já começou a ferver antes mesmo da posse do novo detentor da pasta.
A mídia faz parte da indústria cultural, na realidade é a expressão desta indústria. E a mídia impressa (sobretudo a diária) dá o tom e recebe o tom. É causa e efeito, fator indutor e instrumento refletor.
Nosso jornalismo cultural se não é o campeão das mazelas e disfunções está perto de arrebatar o título [veja abaixo remissões a artigos sobre o assunto publicados no OI]. Enquanto as coberturas política, econômica, esportiva, urbana e policial existem em graus diferentes de qualidade, a cultural é praticamente inexistente.
Adote-se esta ou aquela definição de cultura – as opções são inúmeras – e uma coisa é certa: o leitor vai ao segundo caderno do jornal preferido e, raramente, encontrará o que deseja (ou precisa). Digamos que os paradigmas sejam os suplementos literários semanais do desaparecido Correio da Manhã e do Estado de S.Paulo, ou o complemento diário tipo Caderno B do Jornal do Brasil.
O que aconteceu? O showbizz, o negócio cultural, invadiu todas as frestas e impôs-se através de poderosos apelos e exigências da indústria fonográfica e livreira. No âmbito dos jornalões sobrou apenas o caderno diário do Estadão ainda comprometido com as belas-letras e belas-artes (clássicas ou contemporâneas). O resto, adaptou-se às exigências do mercado de massas e aderiu em grande parte à cultura comerciável ou comercializada do showbizz.
Deixaram-se invadir pelas colunas mundanas, pelos releases impostos pelas assessorias, pelos cronistas que escrevem a respeito de qualquer coisa (inclusive sobre a falta de assunto), pelas dicas gastronômicas. Conscientemente abriram mão de uma das marcas do jornalismo cultural dos últimos 100 anos: o crítico abalizado e respeitado – de cinema, teatro, literatura, artes plásticas (inclusive arquitetura) e balé.
Hoje sabe-se que onde e quando existiu um bom crítico lá desenvolveu-se um padrão de exigência que beneficiou diretamente a qualidade do que foi produzido. Hoje, os resenhistas são improvisados e os colunistas multidisciplinares: escrevem sobre filmes, best sellers, eventos, televisão, celebridades – o que cair na rede. Não acrescentam, apenas divulgam. Resultado: o chamado caderno cultural deixou de ser referência, passou a ser vitrine dos interesses comerciais próximos à cultura.
Mais recentemente os dois jornalões paulistas foram ainda mais longe: adotaram a praxe de oferecer às grifes ditas sofisticadas, e a preço de banana, as capas dos cadernos nos dias úteis. Roubam precioso espaço à cobertura cultural, desmoralizam-se perante anunciantes e agências responsáveis (que sabem o tamanho do desconto) e marcam, a partir do teor da capa, o grau de mundanidade das páginas internas.
Evidência da submissão ao negócio "cultural": todos criaram um caderno suplementar nos fins de semana – aparentemente mais denso, dedicado a livros e idéias, menos mundano. O Jornal do Brasil desenvolveu o velho "Idéias", O Globo lançou o "Prosa e Verso", a Folha saiu-se com o "Mais!" e o Estadão completou o "Caderno 2" com o "Cultura" aos sábados e domingos. O leitor como sempre saiu prejudicado porque em lugar de informações diárias e contínuas, passou a dispor de indicações semanais, sempre limitadas pelo espaço ou quando não, pelas igrejinhas.
Saúde cultural
No segmento das revistas, o panorama é ainda pior: afinados no diapasão da mídia diária, os quatro semanários entregaram-se ao modelito dominante com uma nítida opção pelo descartável. A não ser quando uma editora resolve apostar num lançamento mais qualificado, o que só acontece quatro vezes por ano e com autores que recebem luz verde das direções. Como desapareceram os críticos, a ênfase e acolhida de determinados lançamentos são comandadas por fatores extra-texto.
Nosso jornalismo cultural é hoje acrítico – o que não impede que seja também enfezado, engajado, destrutivo. E inútil.
Neste panorama nada estimulante vamos ganhar de Natal um ministro umbilicalmente ligado ao show business: o famoso Gilberto Gil. Trata-se de um artista querido, popular, talentoso, premiado, internacionalmente respeitado como compositor, letrista e intérprete. Mas a sua presença à testa do processo cultural brasileiro – mesmo que não queira – dará um grande peso ao show business nos cadernos ditos culturais.
Como, aparentemente, foi autorizado a continuar sua carreira performática, mesmo que não queira cada show de S.Excia. será uma espécie de comício em favor de suas posições estéticas, estilísticas e conceituais, obrigatoriamente acompanhado pela mídia em detrimento das demais atividades das demais correntes.
Há um lado positivo que não pode deixar de ser consignado: a presença de Gilberto Gil no comando da Cultura permitirá que o governo, finalmente, acorde para as imensas possibilidades da nossa música popular e organize uma política de promoção e exportação capaz de trazer grandes dividendos. O que até agora foi feito por meio do esforço individual dos artistas ou de seus agentes poderá ser sistematizado e perenizado com grandes benefícios para a nossa imagem externa e a balança de pagamentos.
Além disso, a simples indicação de Gil poderá alavancar uma discussão até hoje insuficientemente aprofundada, quase escondida. Na Rússia, a partir de 1917 e principalmente depois de 1919, os dirigentes revolucionários perceberam que não poderiam cair na esparrela da "cultura popular". Seria reacionário e elitista. Preferiram a opção da "cultura para o povo", a socialização dos elevados padrões estéticos até então reservados aos privilegiados, a alta burguesia e a aristocracia.
Graças a isso, produziram-se extraordinários avanços no cinema, música, balé, teatro e artes gráficas que a débâcle da URSS não conseguiu reverter. Também a estatização dos fabulosos acervos pertencentes à nobreza czarista permitiu que qualquer operário, camponês ou estudante pudesse beneficiar-se de uma mensagem refinada até então reservada às elites.
Stalin, posteriormente, deu força ao "realismo socialista", espécie de estética popular facilmente digerível, porque ele próprio – ao contrário de Trotsky – era incapaz de grandes vôos no campo intelectual. Seu gosto e sua sensibilidade estavam condicionados pela caricatura do épico e pelos apelos superficiais de uma arte em duas dimensões e nenhum valor espiritual.
O que restou do "realismo socialista" é hoje kitsch, piada. Enquanto que a obra de Eisenstein, Prokofief, Shostakovich, Maiakovsky e Pasternak (para citar os mais conhecidos) além de irradiar-se através de todas as camadas da população russa atravessou fronteiras e incorporou-se definitivamente à cultura ocidental.
Gilberto Gil já declarou que não pretende transformar o ministério num produtor cultural, mas numa agência de fomento. Se for capaz de escapar das armadilhas populistas e levar sua proposta na direção certa poderá, além disso, reverter a banalização à qual a mídia se entregou com tanto gosto e, por intermédio dela, promover um avanço definitivo na saúde intelectual dos brasileiros.
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Seleção de links para artigos publicados neste Observatório sobre jornalismo cultural
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Cadernos culturais: território colonizado – Esdras do Nascimento
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O livro e as leituras da imprensa – Entrevista de Isabel Travancas a Luiz Egypto
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Peleja do monstro Macobeba com o caboclo Mitavaí – E.N.
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entre amigos [resenha de A miséria do jornalismo brasileiro]
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a página)
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A literatura das panelinhas – Silas Corrêa Leite
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Jornalismo Cultural e Propaganda – José Geraldo Couto
Ilusões perdidas – Nelson de Sá
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dirigida – Entrevista de Cacá
Diegues a Paulo Vasconcellos (rolar a página)
O jornalismo em debate – Entrevista de Caetano Veloso a Geneton Moraes Neto
Depois dos gritos – Caetano Veloso
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Compactos do programa Observatório na TV sobre jornalismo cultural
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Entrevista com o escritor Affonso Romano de Sant'anna – Programa nº 149
Cadernos literários – Bienal – Programa nº 153
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