26/08/2003 7/9

Envie para um amigo  Imprima esta página  Procure no arquivo

NOTAS DE UM LEITOR
A inside story ausente

Luiz Weis

Rola há meses uma briga de foice no governo Lula sobre a sua política para os transgênicos. Disso, o leitor em geral sabe que:

** a ministra do Meio Ambiente Marina Silva tem horror aos transgênicos e o ministro da Agricultura Roberto Rodrigues não vê hora de sua liberação;

** um grupo de representantes de nove ministérios chegou ao fim de suas discussões sobre o assunto sem fechar um acordo;

** em conseqüência, Lula dará a proverbial "palavra final" a respeito do projeto que ficou de mandar para o Congresso para ser votado em regime de urgência (45 dias);

** esse projeto era para seguir 30 dias depois da conversão em lei da medida provisória de 26 de março passado que legalizou a soja transgênica plantada clandestinamente, sobretudo no Rio Grande do Sul, com sementes contrabandeadas da Argentina.

O leitor do Estado de S.Paulo sabe mais. É típico do jornal quando tem posição vigorosa sobre um assunto atual (a favor dos transgênicos, contra o MST, por exemplo) cobri-lo obsessivamente.

Bom para o leitor, sempre que o noticiário seja confiável.

No caso dos transgênicos, o Estado deu um furo na quinta-feira (21/8), com a matéria da repórter Fabíola Salvador sobre a versão atual do projeto. "O texto, que ainda está em discussão na Casa Civil", informa a matéria, "libera o uso de produtos transgênicos, mas cria regras específicas mais severas para a sua aprovação e venda."

Para excitar o apetite

A grande notícia, a se confirmar, é que, por essas regras, perde poder decisório a CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança), tida pelos desafetos como pró-transgênicos, e entra em cena, sob o comando da Casa Civil do ministro José Dirceu, um SINBio (Sistema Nacional de Biossegurança de Organismos Geneticamente Modificados e Derivados), para executar a PNB (Política Nacional de Biossegurança), também sob controle da Casa Civil.

Quando se cobre o processo de decisões na administração pública pode-se fazer uma coisa ou duas: noticiar o que foi, está sendo ou provavelmente será decidido; contar a história por trás da decisão, como se chegou, ou se está chegando a ela, quem participou do processo em aliança com quem ou em oposição a quem, qual a influência das pressões e interesses externos devidamente identificados e por aí.

Quando o que está em jogo é algo ao mesmo tempo controvertido e importante, a alternativa mais trabalhosa é a certa, sem desdouro para quem cumpre direito anterior, a exemplo da reportagem citada.

Primeiro, obviamente, porque o leitor paga a mídia para saber como são feitas "as leis e as salsichas" – se possível a tempo, porque para depois existem os historiadores. Segundo, porque feita com o fogão ainda aceso, a matéria pode propiciar a participação da arquibancada. Terceiro, porque, como se chama aquela revista, seria uma matéria superinteressante.

No conflito palaciano sobre os transgênicos, as partes não se limitam a falar. Elas fazem coisas mais relevantes, envolvendo o arranjo, no tabuleiro, das peças sobre as quais têm controle. Puxam-se e estendem-se tapetes.

O leitor sairia ganhando se tomasse conhecimento do jogo de cadeiras na CTNBio, envolvendo os representantes dos diversos ministérios que a integram.

E já que o presidente dará a palavra final no caso, não basta antecipar qual será essa palavra – o que já não é pouco –, mas como foi que ele chegou a ela.

O próprio Lula disse recentemente que foi contrário aos transgênicos por motivos políticos (sem especificar) e que agora, "cientificamente", tinha dúvidas. Tradução: o presidente está mudando de posição.

A argamassa dessa mudança devia atiçar o apetite dos jornalistas, em especial dos que cobrem o pedaço.

Um tira-gosto. Segundo uma versão, no Dia dos Namorados, 12 de junho, o presidente recebeu um grupo de especialistas, na companhia do ministro José Dirceu. Depois de ouvi-los e sabatiná-los, teria comentado: "Finalmente, alguém me explicou que biotecnologia não é só Monsanto".

Alguém se anima a checar?

P.S. – Materiola de uma coluna na Folha (22/8, página B 8) informa: "Seis ministérios querem retirar poder da CTNBio". Faltou dizer quais são.

 

Da série "Ah, bom"

Do Estado de 21/8, página A 14: "Um grupo de cientistas da Universidade de Cambridge descobriu que a espécie de verme Xenoturbella, que em latim significa "platelminto pouco comum"…

 

Mande-nos seu comentário


Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe