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IMPRENSA EM QUESTÃO
NOTAS DE UM LEITOR Luiz Weis Entre sexta e domingo passados, o ministro da Casa Civil, José Dirceu, foi do nadir ao zênite na narrativa da reforma ministerial oferecida por uma parte da imprensa aos seus desservidos leitores. "Ao articulador Dirceu, o sabor da derrota", decretou o Estado de S.Paulo na sexta, bancando a versão de que o superministro perdeu poder com a criação, na Casa Civil, do chamado Ministério da Articulação Política, entregue ao deputado Aldo Rebelo, do PC do B, líder do governo na Câmara – o que levará a se concentrar na gerência da administração federal. No sábado, a ficha começou a cair. "Planalto cria 3 mil cargos, sob a guarda de Dirceu", informou o Estadão, inflacionando o número verdadeiro (2.797) e esvaziando a pensata da edição anterior, na notícia sobre a medida provisória que modifica a estrutura do governo e transfere do Planejamento para a Casa Civil a Secretaria de Gestão. No domingo, enfim, a apoteose. "Poderoso, fiel, ele é o braço armado de Lula", trombeteou o jornal na matéria que se segue a uma entrevista de página inteira com o poderoso, de apenas 14 perguntas (o que dá idéia da extensão média das respostas). Nela, sem ter sido verdadeiramente encostado à parede nem uma vez, o braço armado do presidente bate o martelo, como se lê no título "Agora vou reorganizar o governo, avisa Dirceu". A Folha não chegou a sepultar o ministro para ressuscitá-lo logo adiante, mas, na sexta, em materiola de pé de página, "Aldo não era o nome preferido de Dirceu", sustentou que ele "perdeu mais poder político do que desejava". Isso porque não teria conseguido emplacar o seu preferido para ministro da "Coordenação Política e Relações Federativas, nome mais provável da nova pasta", o deputado paraense Paulo Rocha, que lhe seria mais submisso do que Rebelo (com quem, faltou lembrar, Dirceu jogou em tabelinha durante todo o ano 1 da era Lula). E não emplacou porque, segundo o texto, "a escolha de Rebelo foi decisão de Lula, para deixar claro que Dirceu não será a eminência parada do novo ministro". E mais: "Incomoda Lula a imagem de superministro de Dirceu...". Pelo sim, pelo não, se lê na Folha de domingo que, a pedido de Lula, "Dirceu irá gerenciar execução orçamentária no pós-reforma", tarefa típica de superministro. Caso encerrado Desse sobe-desce livrou-se o leitor do Valor. Já na sexta, dia 23, o diário econômico deixou a concorrência no chão com o furo "Mudança ministerial dá a Dirceu parte das funções do Planejamento" (o que os outros jornais só contaram no sábado –como se viu no exemplo do Estado). Assinada pelos repórteres Claudia Safatle, Taciana Collet e Maria Lúcia Delgado, a valorosa reportagem antecipou que "a importante reforma na estrutura da máquina administrativa" foi "a lógica que orientou a divisão de tarefas entre o ministro da Casa Civil e o ontem confirmado ministro da Articulação Política...". Sorte de quem leu também, no mesmo dia, a coluna "Panorama Político" do Globo, assinada pelo interino Ilimar Franco. "O ministro José Dirceu, mesmo perdendo atribuições, sai fortalecido e será de fato uma espécie de primeiro-ministro", esclareceu o comentarista, já no lide – pondo no devido lugar, com 48 horas de antecedência, a ficção do esvaziamento dos poderes do além de chamar a atenção para o fato de que o governo Lula, a partir de agora, deixa de ser o PT mais um leque de partidos médios e pequenos, para se basear na aliança PT-PMDB. No sábado, o Globo encerrou o caso, com a matéria "Dirceu sai ainda mais poderoso da reforma", de Bernardo de la Peña, que cita o ministro Aldo Rebelo como um dos líderes parlamentares que o chefe da Casa Civil "conseguiu emplacar no primeiro escalão do governo". O nome correto O outro grande assunto midiático da reforma foi a demissão do ministro da Educação, Cristovam Buarque. Enquanto a imprensa em peso o incluía entre os decapitáveis, a Folha deu a demissão como fato consumado em manchete de primeira página, na sexta-feira, cravando também, no antetítulo, o nome de Tarso Genro, como seu sucessor. A manchete apressou a decapitação de Cristovam. Diante do que considerou "divulgação excessiva" (!) da decisão de afastar o ministro, que estava em Portugal para lançar um livro e dali seguiria para a Índia, Lula teve de acionar a guilhotina por controle remoto, naquele mesmo dia, em vez de fazê-lo, como a Folha noticiara, "na próxima semana". E assim toda a reforma que Lula passou meses cozinhando em fogo brando, foi fechada numa corrida contra o relógio, enquanto o Sucatão já aquecia os reatores para levá-lo ao outro lado do mundo. Já a imprensa foi levada à indignação, em manchetes, por Lula ter demitido Cristovam pelo telefone. Tudo bem que os seus amigos saíssem acusando o presidente de tê-los "humilhado" (título de página inteira no Estado de sábado) com o telefonema. Mas o próprio Cristovam, em Lisboa, observou para quem tivesse perguntado que "ainda não existe método telepático de comunicação". O problema não é o que Cristovam ouviu ao telefone, mas o que ouvira de viva voz no Planalto. Na terça-feira, três dias antes da defenestração, o secretário de Lula, Gilberto Carvalho, lhe disse, "em nome do presidente", que ele podia viajar sossegado pois não estava na linha de tiro – como Eliane Cantanhêde registrou na Folha de sábado, sob o título "Lulinha, paz e amor é coisa do passado". No dia seguinte às tranqüilizadoras palavras de Carvalho, porém, segundo relato de Kennedy Alencar e Raymundo Costa, da mesma Folha, Lula disse a vários interlocutores, entre eles o novo ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, que "a decisão de trocar o ministro da Educação era irreversível" porque "não agüentava mais ‘acadêmicos’ no governo". Campos, por intermédio de sua assessora de imprensa, desmentiu a matéria, em carta ao jornal, mas o repórter Alencar bancou a informação de que o futuro ministro "relatou em detalhes a colegas do Congresso as palavras do presidente tais quais registradas pela Folha". Perto disso tudo, o uso do DDI como meio de demissão é o que menos importa. P.S. O Globo foi o primeiro a dar o nome certo da pasta de Rebelo. Na sexta, quando todos ainda falavam em Ministério da Articulação Política (com alguns acrescentando "e de Assuntos Federativos"), o jornal escreveu "Secretaria de Coordenação Política e Assuntos Institucionais". Deus está nos detalhes.
Quem é quem O Estado transcreveu do Los Angeles Times, no sábado, um artigo de duas colunas sobre a campanha presidencial que está começando nos Estados Unidos, assinado por John Ellis. Ele é identificado no rodapé do texto como primo em primeiro grau do presidente Bush, sócio de uma empresa de capital de risco e colunista de um site. Quem baixou o artigo traduzido decerto não sabia que John Ellis, contratado pela Fox News para participar da cobertura da apuração da eleição presidencial de 2000, foi quem orientou a emissora a anunciar como garantida, logo às 2h16 da madrugada seguinte ao pleito, a vitória de Bush na Flórida. Em menos de 5 minutos, todas as redes americanas de TV repetiram a pseudo-informação, para renegá-la mais tarde. O falso furo da Fox, na realidade, fez parte de uma operação que envolveu naquela noite, em sucessivos telefonemas, Ellis, o governador Jeb, irmão de Bush, e o próprio candidato, como Ellis contaria tempos depois à revista New Yorker. A idéia era criar um fato consumado para, afinal de contas, facilitar o triunfo da fraude em curso na contagem dos votos no Estado. E a Fox sabia o que fazia quando contratou Ellis, que deixara de ser colunista do Boston Globe depois de admitir que a sua lealdade ao primo George W. "estava acima daquelas que pudesse ter em relação a qualquer outra pessoa". | ||