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BALANÇO & SACOLEJO – I
O ano e a hora da verdade
Alberto Dines
Os Gulivers internacionais esborracharam-se e em Liliput todos estão atolados. Mas ainda não se ouviu a sirene de alarme. Ou o mea culpa formal. Há tempo, o processo não começou em 1° de janeiro nem acabará em 31 de dezembro de 2003. O importante é consignar que nesta hora de balanços, quem tem um pingo de auto-estima sentiu o sacolejo.
A autocrítica pode ser supérflua quando, em volta, o senso crítico está calibrado. O encadeamento de situações-limite produziu algo parecido com uma sucessão de casualidades. A falha, porém, é causal, sistêmica. Estamos envolvidos numa seqüência obrigatoriamente (ou imanentemente) reveladora.
Perda de substância
2003 foi o ano da crítica da mídia. A avaliação seria positiva se esta conseguisse alçar-se a um patamar diferente, acima dos condicionantes da própria mídia ou dos mediadores. As rotativas não pararam, as câmeras estão mais ligadas do que nunca, mas além das seis perguntinhas de Kipling há uma enorme interrogação ao lado ou dentro de cada manchete.
Um diagnóstico já pode ser esboçado: a mídia informativa – ou a imprensa – vive o seu maior impasse em três séculos de existência (tomando por base o início dos periódicos no século 17).
Crise de identidade, existencial, porque confronta a sua própria razão de ser e a maioria das funções articuladas ao longo de sua evolução. As mais elementares: informar sobre as mudanças em curso através de notícias (relatos ou relações, como se dizia antigamente) e formar algum tipo de conhecimento.
No momento em que este processo de esclarecimento é submetido e confunde-se com um processo econômico e um processo político (não necessariamente com a mesma origem), cria-se uma deformação funcional, orgânica. O resultado é a desinformação estrutural.
Como desinformação entenda-se não apenas as conseqüências da industrialização da atividade jornalística, decorrente da submissão às necessidades de um novo ator – o mercado –, mas também a desqualificação da matéria circulante nos canais de comunicação por interesses político-partidários.
Importante enfatizar que esta degradação manifesta-se através da pressão de dois grupos de corporações opostas: as empresariais e as ideológicas. As pressões para diminuir custos, estabelecer parâmetros de produtividade e aumentar as margens de lucro em empresas que absorvem fabulosos investimentos confrontam e acabam por subverter o princípio básico de uma atividade eminentemente cultural: a busca da excelência, seja nos quadros como no conteúdo.
Já as contrapressões manifestam-se através da produção incessante de simplificações e reduções de caráter político, filosófico ou religioso. O resultado é a perda geral de substância e uma sucessão interminável de unanimidades alimentadas pelas frivolidades ou, quando não, por perigosos preconceitos.
Mãe das mediocridades
A veiculação jornalística pode ter melhorado nos seus aspectos exteriores, formais ou na prestação de serviços, mas retrocedeu na sua capacidade de enriquecer as audiências com a matéria-prima necessária para não iludir-se.
Raros foram os grandes acontecimentos nacionais e internacionais que não produziram enormes buracos de credibilidade. Da eufórica cobertura da posse de Lula e seu primeiro ano de governo à engajada cobertura da guerra no Iraque temos a mídia comportando-se de maneira igualmente ligeira, acrítica, incapaz de produzir nuances e questionamentos.
Incapaz, sobretudo, de estabelecer referências. A não ser quando oferece indignação.
O leitor-ouvinte-telespectador agarra-se aos seus veículos para saber o que há de novo hoje mas também para entender o que aconteceu ontem. E como esta necessidade é satisfeita apenas no que tange à trepidação das novidades, seu discernimento tende a anular-se. Torna-se presa fácil de fábulas, fantasias, especulações ou conspirações simplesmente porque vive dopado pelo sensacionalismo.
As hipóteses de que Lady Di estivesse grávida quando morreu ou de que Saddam Hussein tenha sido drogado na hora da captura deverão subsistir por alguns anos porque a mídia informativa tornou-se cúmplice da mídia-entretenimento. Na parceria somem os fatos e triunfam os factóides. Tablóide já foi designação de um formato de jornal, agora é um gênero jornalístico consagrado, multimídia.
O nivelamento por baixo que ora manifesta-se na imprensa mundial dá-se não apenas por mimetismo, modismo ou comodismo, mas porque estão em vigor em todos os quadrantes, segmentos e meios as mesmas convenções, soluções e metas. Se em emergências anteriores o sistema midiático tinha condições de compensar falhas e disfunções setoriais, agora, convertido num monolito, não consegue encontrar saídas singulares.
Isto interessa mais aos governos do que aos governados. A prova é a internet, que há uma década despontava como dado novo, diferenciado, e hoje atravessa as mesmas aperturas das mídias tradicionais porque agregou-se a elas.
A TV por assinatura já se defrontou e, no futuro, a TV digital fatalmente deverá encarar idêntico problema – excesso de informação. Mesmo dispondo de uma ferramenta de seleção como é o controle remoto – e, talvez por causa dele, o telespectador (assim como o internauta) foi subitamente alçado à condição de editor, encarregado de escolher, classificar e hierarquizar a gigantesca massa de dados continuamente despejadas em cima dele. Não é disso que gosta, não foi para isso que investiu em novas tecnologias e, por isso, interrompe o zapping quando se depara com as "abobrinhas", as "cascatas" e, no caso da internet, com as calúnias anônimas.
Significa que a solução não é tecnológica. Pode ser mercadológica, sociológica mas é sobretudo profissional: não há disposição ou ousadia para criar alternativas. A não ser quando sustentadas por interesses ou motivações políticas. A situação é dialética em toda a linha: a saturação produzida pelos veículos de massa reclama novas opções mas, ao mesmo, sufoca seu aparecimento. A inércia é a mãe das mediocridades.
O processo informativo-cultural como um todo, apesar da sua dimensão e poder, não está devidamente capilarizado. Estão abertos os grandes dutos e entupidos aqueles que poderiam gerar diversidade, ocupar vazios, criar opções.
A imprensa vê tudo mas ainda não se enxerga. Esta é a sua hora da verdade mas prefere desfolhar o calendário. À espera das bolhas. (Continua)
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