Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

COMUNICAÇÃO
Jornalismo, globalismo e
a nova estrutura de poder

Heródoto Barbeiro (*)

 

O


entendimento das transformações contemporâneas dos meios de comunicação só é possível dentro das transformações econômicas e geopolíticas do final do século 20. E o fenômeno de maior destaque é a globalização. São transformações que não só atravessam as nações e as regiões, como conformam uma realidade geopolítica global. É uma realidade emergente mas já perfeitamente perceptível. É preciso entender que nesse ambiente pontificam as multinacionais que atuam em quase todos os setores, inclusive no da comunicação, e são as novas estruturas mundiais de poder.

Uma das faces da realidade política global é a formação e a atuação das corporações multinacionais de mídia. Elas não só agilizam a difusão se notícias no mundo, como elegem temas e assuntos e editam o material jornalístico que vai para o ar. Assim, assuntos que podem ser considerados irrelevantes em alguns países são divulgados nos quatro cantos do mundo e às vezes ganham importância após essa divulgação. E a mídia influencia decisivamente a opinião pública mundial, e não mais regiões ou países. O caso do enclave de Kosovo é um exemplo de divulgação de uma situação específica da ex-Iugoslávia que, se fosse deixado apenas para a imprensa brasileira, não teria o destaque e a importância que tem, nem a Otan estaria pressionando tanto a ponto de fazer uma retaliação militar. Recentemente, um vendaval na América Central matou milhares de pessoas e, no entanto, a mídia brasileira deu pouco destaque à tragédia. Notícias e imagens não faltaram, ainda assim quase nada foi divulgado. Talvez se a tragédia tivesse acontecido na Bélgica... A ação da mídia não quer dizer que o leitor, ouvinte, espectador, audiência ou público é inerme, passivo. Mas é preciso destacar que os meios de comunicação, informação e análise organizados na mídia e na indústria cultural agem com muita força e preponderância no modo pelo qual se formam as consciências pelo mundo afora.

David Held, no livro Democracy and the global order, diz que a sofisticação da tecnologia de persuasão, no último meio século, modificou as velhas regras de comunicação humana. À medida que a indústria de publicidade e relações públicas torna-se cada vez mais hábil em controlar a opinião pública, as posturas, as crenças e os sistemas de valores, foi se tornando um imperativo manter o segredo e levar a população a reprimir a consciência daquilo que os manipuladores estão tramando. Held diz que está na mão da mídia, ainda, a última direção do consumo, do divertimento, da política e da religião, com suas promessas de reduzir a ansiedade.

No Brasil contemporâneo, há inúmeros exemplos disso, importados ou não. A premiação do Oscar pode fazer voltar ao circuito cinematográfico O resgate do soldado Ryan, que saíra de cartaz e voltou por causa da grande importância que a mídia dá à premiação; assim como os espaços publicitários usados para recuperar um empreendimento comercial que, aparentemente, estaria esgotado. Outro exemplo é a Tiazinha, um fenômeno comportamental que se tornou comercial e tem seu sucesso garantido enquanto tiver espaço com seu personagem sadomasoquista na mídia.

Escala mundial

Há os exemplos internacionais que mostram que a mídia se transformou no intelecto orgânico de classes, grupos ou blocos de poder dominantes no mundo. E que atua decisivamente nos diversos segmentos sociais, sejam eles religiosos, sindicais ou políticos. Talvez só a competição entre mídias internacionais tenha impedido uma clara comparação do ditador iraquiano Saddam Hussein com Hitler ou Mefistófeles. Mas chegou-se bem perto disso.

A operação da mídia atual é em escala mundial. Annabelle Sterbeny Mohammad afirma no livro The global and the local international communications que a esfera da mídia faz tempo conta com suas corporações globais, as quais tendem a tornar-se crescentemente maiores e mais poderosas à medida que o século corre para o seu fim. E o Brasil não está fora disso. Não só com a internacionalização das empresas brasileiras, pela venda de ações no mercado mundial, como na possibilidade física de investimentos estrangeiros diretos. A questão que está sendo analisada pelo Congresso e tudo indica que terá parecer favorável. De outro lado, a participação efetiva já ocorre com inúmeros canais de TV via satélite, a cabo ou não, à disposição em qualquer ponto do território nacional. Já é possível, entre jornalistas, comparar as edições dos telejornais internacionais e brasileiros, tanto na TV aberta como na fechada. Entre as mídias globalizadas, o destaque é para a TV, cada vez mais instantânea, multilingual. Já há programas em português gravados e editados fora do Brasil – integrando de regiões, países e continentes, disponíveis em qualquer ponto do planeta. É curioso assistir a um repórter russo falando português para uma emissora americana que transmite para o Brasil.

Como em outros momentos da história da humanidade, a comunicação é um elemento básico de qualquer sociedade. A mídia torna essa comunicação possível, ajuda a sociedade a compreender as idéias políticas e culturais e contribui para formar a opinião pública e o consenso democrático. Ela, porém, por mais instantânea, capitular, interativa ou mundializada que seja, está distante do mítico "Big Brother" de George Orwell. A mídia não controla a opinião pública, antes divulga o jornalismo, que é o ato de contar a uma parte da sociedade o que a outra parte está fazendo. Contribui para formar a opinião pública, mas não tem o controle sobre ela. Nem que queira. Seus comunicadores, geralmente jornalistas e âncoras, são difusores de opinião, e não formadores de opinião. Não são doutrinadores nem condutores de povos. A mídia não lhes dá esse poder. Entretanto a facilidade de falar com as pessoas provoca um contraditório: a obrigação de respeitar princípios éticos em suas atividades.

A ética e a moral devem ser entendidas de acordo com seu tempo histórico e o arcabouço cultural de cada povo. Com a globalização das comunicações, há que se discutir o que é consensualmente ético e moral no mundo, uma vez que é impossível passar uma régua nas características de cada povo ou civilização. Como conciliar os feriados religiosos dos diversos povos, de diversas religiões do mundo? Como convencer a população de Formosa, que é budista, de que o feriado é no dia 25 de dezembro, e não 8 de abril, data do nascimento do Buda? As relações internacionais cada vez mais intensas impõem não só feriados como moda, comportamento, preocupações e assuntos de interesse.

A mídia também tem a ver com isso. Mas há questões que podem e estão sendo globalizadas – como o genocídio, o trabalho infantil, a fome, o analfabetismo, as drogas etc. Outros são deixados de lado porque não há consenso – como preferências políticas, religiosas, sexuais etc. Há que se exigir dessa mídia os mesmos comportamentos éticos que se exigem dos que falam através delas. É um caminho longo, uma vez que isso não está resolvido nem nacionalmente, quanto mais mundialmente. Mas a aceleração do processo histórico neste final de século é de tal ordem que as coisas vão mudar em uma velocidade maior do que muitos imaginam.

Difusão e conquista

A globalização da mídia destaca cada vez mais a cultura da imagem, ou da televisão. Alguém já disse que o que não aparece na televisão não existe, outros questionam se somos cidadãos ou espectadores... E isto vale para produtos e marcas de consumo, partidos políticos e religiões. Ninguém pensa mais em ganhar uma eleição sem a TV, alguns até atribuem vitórias e derrotas a ela. O globalismo está ressuscitando um velho ditado chinês, de que uma imagem vale por mil palavras. E a imagem é elemento integrador de informação, porque pode falar por si só. Veiculadas em escala mundial, imagens de acontecimentos sociais podem ser entendidas por pessoas espalhadas por todo o mundo, ainda que haja a barreira da língua. Não é preciso saber sérvio para entender que a Otan bombardeia Belgrado.

As multinacionais de comunicação são as que mais colaboram para o enfraquecimento dos Estados nacionais, nascidos na modernidade e consolidados na época contemporânea. São as que mais influenciam, pois seu business é a difusão de idéias, notícias e entretenimento. Reproduzem os objetivos e práticas das nações capitalistas desenvolvidas, ou centrais, e criam ou consolidam conceitos globais. Ao mesmo tempo em que contribuem para a formação de uma opinião pública globalizada, ganham dinheiro com isso. No dizer do sociólogo Otávio Ianni, a mídia forma e conforma ou influencia decisivamente mentes e corações de muitos, da grande maioria, em todo o mundo, compreendendo tribos, nações e nacionalidades ou continentes, ilhas e arquipélagos.

A sustentação econômica da mídia globalizada se dá cada vez mais pela publicidade. As verbas estatais, polpudas durante o período da Guerra Fria, quando o embate ideológico era mais visível, estão definhando. O embate hoje se dá pela difusão de produtos de consumo e conquista de mercados globais. A publicidade se confundiu com outras manifestações culturais, como religião e política. Ela suporta, e por isso influencia fortemente, a difusão e a interpretação de notícias no mundo globalizado.

(*) Jornalista da TV Cultura e do Sistema Globo/CBN de Rádio.

 

A crise da informação (*)

Fabio Lucas

 

Em termos resumidos, podemos afirmar que o capitalismo se apresenta, hoje, concentrado na produção orientada para a destruição, de um lado, e na produção de artigos de luxo, de outro, atendendo à minoria em detrimento da massa de consumidores estacionada no plano da subsistência. Conforme assinala Oscar Arias, ex-presidente da Costa Rica e Prêmio Novel da Paz, "desde o final da Guerra Fria muitos países industrializados reduziram seus orçamentos militares; assim sendo, os vendedores de armamentos buscaram novos clientes nos países em desenvolvimento. Em 1994, as transferências de armas para o mundo em desenvolvimento totalizaram 25,4 milhões de dólares. Os provedores de mais de 90% dessas armas foram os cinco membros provenientes do Conselho de Segurança: Estados Unidos, Rússia, China, França e Grã-Bretanha".

"Ironicamente", prossegue Arias, "os países encarregados de garantir a segurança do mundo pretendem assegurar sua própria prosperidade econômica mediante a venda de armamentos".

Nada mais ridícula, pois, que a disputa entre Brasil e Argentina para figurar naquele Conselho ao qual nada têm a oferecer.

Vê-se, portanto, a expansão exagerada do Departamento da Economia, de oferta de não-mercadorias: armas, intermediação financeira, cartórios etc., reduzindo a capacidade produtiva das nações. Nesse contexto, o papel da comunicação tem sido, preponderantemente, o de fomentar a indústria da notícia e de legitimar o poder do capitalismo cumulativo, ávido de riqueza, embora sem motivação teológica. Tanta prosperidade, tanto valor acumulado, para quê? Para quem?

O aparato da mídia eletrônica tem sido utilizado para exercer a tirania das consciências por meio da fabricação sucessiva de espetáculos, aglutinando multidões anônimas, despolitizadas, sob a hipnose de um hedonismo volátil. Efetua-se, hoje, nos grandes centros urbanos, o regresso ao tribalismo pré-alfabetizado, quando o simples ato de ouvir significava acreditar.

O caso da princesa Diana ilustra a técnica da manipulação. Em torno do evento lamentável, fez-se verdadeira montagem de um universo virtual, baseado no luxo e na riqueza. A imagem da infeliz princesa, construída para simbolizar o consumismo conspícuo, ganhou uma aura de elevação moral na medida em que conduzia uma falsa mensagem filantrópica. Por exemplo: ela postulava a abolição das minas, justamente no país que se distingue por ser o maior produtor mundial de minas, a Inglaterra. O poder que ela representava não exerceu qualquer efeito positivo sobre os fabricantes das minas, enquanto milhões de dólares circulavam na linha da publicidade, das vestes e da imagem da princesa.

Na passagem da era da imprensa (1500-1900), que formou o público, para a era da eletrônica (século 20), que gerou a massa, o que conta é a velocidade da informação. Os efeitos são conhecidos, quer no mundo dos negócios, quer no excesso de exposições dos qualificativos individuais. Paul Virilio se refere a uma "rápida derrocada da consolidação mnésica". Tudo parece parado, inclusive o tempo, em face da velocidade dos meios de comunicação.

Muniz Sodré, em O discurso da neobarbárie, sintetiza a visão da instabilidade das moedas fiduciárias no plano da economia internacional: "Essa financeirização veloz e instável da riqueza, que desterritorializa espaços e mercados nacionais em favor de espaço e mercado mundiais, sob o controle de empresas multinacionais, é a face verdadeira da presente globalização. É o avatar atual, como se percebe, da mesma operação civilizatória que, no século passado, entronizou o sistema da economia de mercado" (cf. Globalização, Mídia e Cultura Contemporânea, Rio de Janeiro, Letra Livre, 1997, pp. 122-123).

Na mesma publicação, Lorenzo Vilches, doutor em Ciências da Informação pela Universidade Autônoma de Barcelona, apresenta dúvidas quanto ao otimismo dos que rezam pela globalização, principalmente quanto à capacidade de as novas tecnologias se transformarem em fator de bem-estar ou de desenvolverem um sistema de autocontrole do capitalismo. Diz: "Esta dúvida fundamenta-se sobretudo no fato de que as tecnologias informáticas tendem a debilitar as demais tecnologias, porque sua função consiste principalmente no controle de todos os processos técnicos". Em nota ao pé da página, acrescenta: "Ainda que este poder esteja erguido sobre bases reais de risco, que representam, em certos casos, uma vingança das antigas tecnologias: uma falha do computador central por interrupção de fluido elétrico pode paralisar uma rede de bancos, o trânsito de uma cidade ou o tráfego aéreo em grande parte de um país" (Globalização Comunicativa e efeitos culturais, op. cit., pp. 85-86).

Qual o reverso da questão? Todo o instrumental da informática é conquista da capacidade humana. Para bem servir à humanidade, tem de trocar de dono, pois não deve estar a serviço do capitalismo devastador. Para coadjuvar uma sociedade justa, atrás de si devem renascer como entidades oraculares o humanismo e a democracia.

(*) Copyright Página Central <http://www.paginacentral.com.br>

 

A TV é paga,
a filosofia é vã

P. C. Barreto (*)

 

A nova onda entre as operadoras de TV a cabo no Brasil é a provisão de acesso à Internet em alta velocidade. Convergência digital, dizem. Daqui a pouco até pensaremos que todo este movimento para implantação de canais absurdamente rápidos "plugando" os baratinhos computadores domésticos à Grande Rede é apenas uma conseqüência do avanço da tecnologia.

A televisão brasileira costumava ser uma potência: uma indústria de sucesso ou o império do mal, pelo menos todos concordam que era alguma coisa. Era. A campeã de audiência, mais campeã do que nunca, reescrevia o verbete "novela" na enciclopédia de curiosidades terceiro-mundistas, exportava programas para China, Turquia e República Dominicana (já pensaram nos programas produzidos localmente por estes países?) e recolhia troféus e medalhas das academias estrangeiras. Se ao menos a oposição "abaixo a Rede Globo" soubesse a que ponto chegaríamos depois do fim da União Soviética, da chegada da Internet, da TV a cabo e da concorrência predatória dentro da TV "aberta"...

No entanto, ninguém duvidava de que o modelo de mídia eletrônica baseado na supremacia da TV "aberta" sob o domínio de uma só emissora estava com os dias contados. A TV a cabo teria um papel preponderante neste processo, se bem que a legislação foi muito camarada com a TV "aberta" ao dificultar (como ainda dificulta) a difusão da TV por assinatura. Porém, uma vez conquistado seu espaço, as emissoras por assinatura parecem estar impedidas por "forças ocultas" de produzir mais programas brasileiros. Ou seja, se esqueceram (?) do modelo que um dia levou a televisão brasileira à glória. Se a Internet no Brasil se "desenvolvesse" ao passinho de tartaruga da TV a cabo, seria um fracasso retumbante. E sem produzir nada, a saída tem sido partir para a Internet mesmo.

É a triangulação cucaracha: megacorporação dos Estados Unidos decide expandir seus domínios no Brasil, aproveita suas operações existentes na América espanhola e indica um punhado de executivos de língua mais ou menos parecida com a portuguesa para tocar os negócios, partindo do pressuposto de que, do Rio Grande para baixo, é tudo a mesma coisa. Toda multinacional americana já deve ter passado por essa fase, contando com a complacência devida a quem chega com uma mala de dólares e acredita mesmo que o Rio de Janeiro é a capital da Argentina. Mas nunca foi tido como "o" meio de fazer dinheiro fácil, como está sendo hoje na TV a cabo.

Apesar de seus progressos, a televisão por assinatura no Brasil ainda não conseguiu se livrar de seu pecado original: não gerar conteúdo. E pela atual lógica do business, não se livrará nunca. Enquanto não mais que 10% de nossos canais de TV paga geram programação local em quantidade e qualidade, a TV brasileira como indústria, um colosso, reduz gradualmente seu campo de ação ao telespectador que bota a mão no joelho, dá uma abaixadinha e acredita mesmo que vai acordar Sílvio Santos no domingo que vem...

O mais arrepiante é conferir os números e se dar conta de que a TV a cabo brasileira parou de crescer antes de realizar seu potencial. Em outras palavras, o setor da sociedade que devia ter cabo, já tem; quem não tem, não é para ter mesmo. Dos pacotes de programação, quase tudo vem direto das filiais for Latin America das redes mundiais (não confundir com a Internet), encasteladas nas torres de vidro de Miami. Até os profissionais brasileiros escalados para fazer uma programação mais palatável emigraram para os EUA. Os locutores das chamadas dos desenhos moram em Atlanta. Leila e Eliakim Araújo, na esperança de ainda serem vistos por seus compatriotas, se mandaram de mala e cuia para Miami – em geral, o sonho de vida e de consumo dos telespectadores.

Há algumas exceções destacadas, mas os programas brasileiros fazem falta. Talvez não do ponto de vista da lei, mas certamente do ponto de vista do bom senso. Uma vantagem da TV a cabo seria a facilidade de adaptação dos programas ao gosto do espectador. Por aqui, a assinatura de TV, uma nota preta, toma a forma de imposto sobre a programação de auto-afirmada "qualidade", um tributo feudal que é preciso pagar de qualquer jeito para assistir a um pacote "cucarachizado" (ao menos os brasileiros podiam estufar o peito e se gabar de sua produção local, enquanto muitos hermanitos gastavam seus horários nobres em Dallas, McGyver, Tartarugas Ninjas e – pasmem! – novelas brasileiras) como se fosse um fato consumado do business. As operadoras, é claro, não se autocriticam, jamais correlacionam o (a falta de) conteúdo à estagnação da base de assinantes. A TV a cabo brasileira não pode se tornar uma potência da noite para o dia, como a TV "aberta" também levou muitos anos. Mas já estamos perdendo muito tempo numa transição lenta, gradual e segura.

Depois de tantos anos esperando a TV a cabo, e daí que a programação seja fraquinha? A assinatura de televisão, de sonho de consumo, rebaixou-se a destino inelutável dos "eleitos", seu público-alvo, vendida alegremente pelos mesmos que solaparam a TV "aberta", transformaram-na em cemitério de talentos e reduziram as redes nacionais à programação unânime do nada sobre coisa nenhuma.

Quando a TV a cabo brasileira ainda era um projeto, discutia-se demagogicamente o melhor meio de espalhar o sistema num "país pobre" sem custar muito ao telespectador-assinante. Entre vender anúncios (como na TV "aberta"), distribuir pacotes reduzidos e buscar alternativas aos cabos subterrâneos, as operadoras nem precisaram escolher: adotaram tudo ao mesmo tempo. E a TV a cabo continua sendo distribuída para um "país rico", jamais tendo em vista o Brasil como um todo, atendendo preferencialmente a Estados Unidos, América espanhola e São Paulo. Exatamente nesta ordem.

Nem é mais TV a cabo propriamente dita: a grande onda são as miniparabólicas, que desoneram as operadoras da instalação de rede física e da responsabilidade de produção local (estas, sim, as duas características básicas da TV a cabo – não o empacotamento de seriados, desenhos e campeonatos de golfe por horas sem fim); no entanto, sem aliviar o bolso do assinante. Tudo, ressaltamos, dado como fato consumado, progresso, "modernidade". Porém, diz o bom senso que mesmo um negócio da China como este não terá fôlego para sempre.

Então, qual é "a" forma de agregar valor a uma TV a cabo que vegeta (conquistado todo mundo que se devia conquistar, a TV a cabo brasileira cresce vegetativamente) como um corpo estranho em habitat desconhecido? Diante dos resultados internacionais da Internet a cabo, bem modestos em relação aos anos e anos de testes, é de espantar a relativa pressa em implantar esta alternativa de conexão no Brasil. É razoável imaginar que seja preciso queimar etapas (como no caso da miniparabólica), mas não podemos deixar de levar em conta a esterilidade do cabo brasileiro "enquanto" televisão. Ainda é muito cedo para afirmar alguma coisa sobre a suspeitíssima ansiedade de buscar escapatórias do negócio-televisão (o que as TVs a cabo, supostamente, sabem fazer) em busca de alternativas, igualmente sob a bandeira-cobertor da "modernidade" como fato consumado. O pior é que a entrada das operadoras de cabo na provisão de Internet é um risco potencial aos negócios dos provedores atuais, levando junto para o Túmulo do Bit Desconhecido muitos provedores de conteúdo. E faturar sem conteúdo, a TV a cabo sabe. Definitivamente, a Internet "livre" é coisa do passado.

(*) Jornalista, analista de software na internet e coordenador da mailing list Diário da Tropa <http://members.xoom.com/pcbarreto/d-tropa.htm>

 

Novos mecanismos de
fiscalização da mídia

Jairo Faria Mendes (*)

 

Com o surgimento de novas tecnologias de comunicação e o aumento da velocidade de circulação da informação, é fundamental que sejam criados novos mecanismos de controle dos meios de comunicação.

A legislação relativa aos meios de comunicação é importante e precisa ser revista. Por ela podem ser resolvidas questões importantes, como impedir grandes impérios de comunicação, garantir direito de resposta, indenização justa e punição a crimes de imprensa. Atualmente, a legislação referente à mídia é letra morta, as normas definidas pela Constituição Federal não são cumpridas, a Lei de Imprensa não pune ninguém.

Mas, por melhor que seja a legislação da mídia, ela nunca será capaz de regular o processo mediático, que possui um dinamismo e uma complexidade que tornam impossível o controle por leis estáticas. Diante da importância crescente da mídia no processo político-social, não há como aceitar que ela se comporte como o "Grande Pai". A sociedade tem o direito a meios de comunicação mais democráticos e transparentes e, para isso, nada melhor do que abrir espaço neles mesmos para a crítica da mídia e para uma fiscalização feita por pessoas independentes dessas empresas.

O projeto do senador Pedro Simon (PMDB-RS), que prevê a obrigatoriedade da presença do ombudsman nas emissoras de rádio e televisão, é uma alternativa para uma real fiscalização da mídia. Os meios impressos também deveriam ser incluídos na proposta. Mas, infelizmente, sabemos que o projeto não será aprovado, o Congresso não ousaria contrariar os poderosos Cidadãos Kane.

A mídia deve continuar fazendo o que bem entende (defendendo seus interesses), apresentando-se como uma abnegada defensora dos interesses públicos. Deve continuar omitindo informações, fazendo campanhas contra seus inimigos, proclamando as "maravilhas" do neoliberalismo. E sem uma voz que possa questionar isso, cobrar postura mais transparente, denunciar mentiras.

O melhor remédio contra os processos manipuladores da mídia é a abertura à crítica externa. O público deve ter o direito de questionar e se manifestar sobre o que é divulgado nos meios de comunicação. Isso faria muita diferença, revelaria questões importantes, estimularia um olhar crítico, deixaria os veículos constrangidos ao cometer abusos.

Além disso, a adoção do ombudsman propiciaria uma forma de fiscalização da mídia mais eficiente e menos violenta do que legislações severas. Comenta-se que um dos motivos de inúmeros jornais dos Estados Unidos terem adotado o ombudsman foi o temor das pesadas indenizações fixadas pela Justiça americana. É melhor (e muito mais barato) abrir espaço à crítica do que sofrer fortes punições.

A presença do ombudsman na mídia é o oposto do censor. Em vez de coibir o processo da informação, seriam denunciadas as ações contra a liberdade de imprensa. A medida não seria suficiente para resolver todos os problemas do processo mediático, mas representaria um grande avanço. Principalmente se o ombudsman não for escolhidos pela direção da empresa. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) propõe que o Ministério Público seja o responsável pela escolha desse profissional. Também seria bom que ele tivesse um maior espaço para a crítica pública. Nos jornais, nas rádios e na televisões, ela poderia ser diária.

(*) Mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ

 

Haiman e as pragas do jornalismo

Isak Bejzman (*)

Apresento-lhes o americano Bob Haiman, graduado em 1958 pela Faculdade de Jornalismo e Comunicação da Universidade da Flórida. Depois de gramar durante 25 anos em todos os campos possíveis da profissão, foi nomeado em 1983 presidente e diretor-administrativo do Instituto Poynter. Aposentado em 1997 do Poynter, continua seu presidente emérito, editor residente emérito e curador sênior.

Integra o Fórum da Liberdade, no Centro de Estudos da Mídia, em Nova York, o Comitê Consultivo de Jornalismo da Fundação Knight, o Instituto Internacional de Imprensa, de Viena, a Associação Mundial de Jornais, de Paris, e a Associação Interamericana de Imprensa; é fundador do Conselho Consultivo Internacional do Instituto para o Avanço do Jornalismo, em Joanesburgo, África do Sul, e em 1988 foi nomeado alumnus ilustre da Universidade da Flórida.

Em 8 de julho de 1998, na convenção da Associação Americana das Escolas de Jornalismo e Comunicação de Massa, em Baltimore, Haiman foi agraciado com o prêmio Gerald M. Sass por serviços prestados ao jornalismo. Ainda que contrariado, teve que discursar. Intitulou sua charla "Ten plagues on the 4th estate... and how to stop them!" (As 10 pragas do 4º poder... e como pará-las!).

Aí vão algumas de suas recomendações:

  • "Atenção, todos os jornalistas: parem de usar fontes anônimas. Simplesmente parem.
  • Parem de se deixar influenciar pelos spin doctors (pessoas cujo trabalho é persuadir outros a considerarem uma situação, especialmente política, a favor da parte para a qual eles trabalham).
  • Parem de pegar as histórias de fontes anônimas de outros.
  • Parem com a especulação, com as conclusões infundadas, as fofocas e a boateira.
  • Escrevam e transmitam somente aquilo que vocês ou sua equipe podem verificar pessoalmente como factual.
  • Parem de ser tão celebridades, palhaços e capitalistas exaltados.
  • Parem de participar de entrevistas da TV que não têm nada a ver com notícia e tudo com aparecer.
  • Parem de aceitar convites para festas na Casa Branca ou na mansão do governador ou em todo lugar onde a comida sempre é boa, a bebida sempre é cara e tudo sempre é em off.
  • Parem de puxar o saco de todos os políticos e outros figurões que se supõe que vocês estejam cobrindo com uma forte e corajosa imparcialidade.
  • Parem de aceitar dinheiro para fazer palestras para grupos do comércio e da indústria que vocês poderão vir a cobrir um dia. Parem de aceitar viagens gratuitas e cruzeiros marítimos onde eles querem que vocês falem e se tornem íntimos dos outros passageiros que estão pagando milhares ou dezenas de milhares de dólares pelo que eles estão dando de graça para vocês e suas esposas."

Minha contribuição:

Caso 1 – Jornalismo científico

Uma repórter do caderno "Vida" do jornal Zero Hora (3/4/99), de Porto Alegre, produziu matéria sobre novos antiinflamatórios para combater osteoartrites e artrite reumatóide sem as possíveis reações colaterais causadas pelos analgésicos existentes no mercado. Para realizar seu trabalho, entrevistou o professor de Reumatologia da UFRGS e chefe do Serviço de Reumatologia do Hospital de Clinicas, João Carlos Brenol. Brenol vem estudando o produto há três anos, e o sal por ele utilizado nas pesquisas é produzido pelo laboratório Merck Sharp and Dohme, sob o nome de "rofexicebe". Mas faz propaganda, até com foto da embalagem, do produto similar que está sendo lançado no mercado brasileiro pelo laboratório Searle/Pfizer com o nome de "Celebra" ou "Celebrex".

Sob o ponto de vista científico, a ação farmacodinâmica das duas drogas é a mesma; acontece que a Searle/Pfizer convidou a repórter para o lançamento do Celebra, em Chicago.

Caso 2 – Jornalismo político

O jornal Correio do Povo faz chamada especial, em grande espaço, para anunciar que um jornalista de seus quadros vai cobrir a viagem do presidente da República ao exterior sob o patrocínio de entidades como Fiergs, Ciergs, Sesi, Senai e Iel. Enfim, um jornal é uma instituição privada.

(*) Medico psiquiatra e jornalista

 

Os miseráveis

Flávio R. Paranhos (*)

 

Assisti recentemente a um filme que me fez pensar em algo que, volta e meia, incomoda bastante. Refiro-me à mais nova versão de Les miserables. Os puristas que me desculpem, pois não li o livro (ainda) e, portanto, vou me basear no filme mesmo. Bem resumidamente, e pinçando apenas o que aqui interessa, o protagonista, Jean Valjean (Liam Neeson) sai de uma prisão onde ficou por 19 anos e recebe guarida em uma igreja. Trai a confiança do bom padre, partindo na calada da noite com a prataria. Logo no dia seguinte é apanhado e levado de volta à igreja por policiais e, para a surpresa de todos, o padre alega que tinha dado a prataria ao ex-presidiário. O gesto do padre marca Jean Valjean para sempre. Dez anos depois ele é um empresário de sucesso que enterrou o passado e chegou até a ser prefeito da pequena cidade em que mora.

Entretanto, um novo chefe de polícia (Geoffrey Rush) assume o cargo na vila e acontece de ser um dos carcereiros, velho conhecido, de Valjean, e logo o reconhece. Valjean, ao enterrar o próprio passado, não obedeceu à lei ao não se apresentar regularmente à delegacia de Paris, pois estava em liberdade condicional. A partir daqui assistimos à obsessão do chefe de polícia em prender o "fora-da-lei", a despeito de vários pontos favoráveis a ele, como, por exemplo, o fato de jamais ter praticado outro crime e ter se transformado em um cidadão exemplar, próspero e bondoso. Nada disso importa para o chefe de polícia, que leva as regras às últimas conseqüências.

Bom, e daí? Aonde quero chegar? O que isso tem a ver com a imprensa? É o seguinte: penso em vários casos de pessoas crucificadas pela dita-cuja, sem culpa ou não, com "muita" ou "pouca" culpa. Cito um exemplo grotesco (de "muita" e inequívoca culpa) para tornar mais clara a minha preocupação. O caso do médico (ortopedista, se não me engano) safado, que bolinava as pacientes.

Obviamente não me coloco ao lado deste profissional, nem por corporativismo. Como disse, trata-se de um exemplo grotesco, mas serve a meu propósito: ao crucificar o médico no Fantástico, programa de (sabe-se lá por quê) grande audiência, e mais algumas outras inserções em noticiários, a imprensa realizou o que denomino "punição além da conta". Ou, se preferirem, "punição sem chance de reabilitação". Afinal, convenhamos, quem irá se consultar com um médico desses? Ou, mesmo, quem irá fazer qualquer tipo de coisa (comprar um carro, por exemplo) com uma pessoa dessas? É a morte em vida. Que se dane sua família (parece que era casado e tinha duas filhas). A imprensa precisa enfiar na cabeça que NÃO é a Justiça. Claro que denunciar é saudável. Claro que manter-se vigilante (caso Naya, por exemplo) é saudabilíssimo. Mas não proceder a um linchamento sem possibilidades de retorno! Em inúmeros casos a imprensa age como um tribunal de guerra, ou seja, apresenta denúncia, condenação e execução da pena tudo de uma vez e em tempo relâmpago (não raramente de forma parcial). Enterra-se qualquer chance de reabilitação ao prisioneiro de guerra que, execrado publicamente, perde qualquer chance de se "arrepender".

É comum ouvirmos (lermos) a reclamação de jornalistas a respeito da empáfia de autoridades (juízes, por exemplo). Esquecem-se de que eles próprios, munidos de um certificado autoconferido de guardiões da verdade, são freqüentemente os mais inebriados com o poder que têm. E ai de quem os contrariar...

(*) Médico em Goiânia, doutor em Oftalmologia pela UFMG

 

EDUCAÇÃO E VIOLÊNCIA
Escolas, Paulo Renato
e a cobertura da Folha

Sheila Grecco (*)

 

Se é possível dizer que foi competente a cobertura da Folha de S.Paulo sobre o assassinato do estudante Élcio Clêmio de Souza, 18 anos, morto com 13 tiros numa escola pública de Guarulhos, na região metropolitana de São Paulo, o mesmo não se aplica às análises de Gilberto Dimenstein e às notícias da atuação do ministro Paulo Renato.

No caderno São Paulo (1º/5/99, pág. 4-3), há um retrospecto da explosão da violência nas escolas, notícias de explosão de bombas de fabricação caseira e dados sobre o número de mortos em instituições públicas de ensino da periferia de São Paulo. O jornal traz depoimentos lacônicos como o da secretária estadual da Educação, Rose Neubauer, que limitou-se a lamentar a morte do garoto e a jogar a responsabilidade na sociedade. "A escola é vítima de um problema maior que não pode resolver sozinha. É preciso que a sociedade se organize e que seja criada uma legislação mais rígida, que controle a venda de armas", disse a secretária.

Curiosamente, parece que os editorialistas da Folha compactuam com essa transposição de responsabilidades. Gilberto Dimenstein, que tem momentos de lucidez dizendo que a escola concentra raivas e frustrações sociais, tem outros de extremo simplismo: "A escola reforça a frustração quando faz o aluno se sentir incompetente, ‘burro’, obriga-o a humilhação da repetência, numa punição diária; a professora e o colega são apenas mais um adversário de sua existência, num círculo vicioso da marginalidade".

Errôneo pensar que o problema está na concentração de poderes por parte do professor, até porque este não concentra poder algum atualmente no Brasil. O educador virou mero joguete do governo. É, na visão dos alunos, um pobre coitado mal remunerado, que trabalha muito e só ouve desaforos. Nunca na história da educação brasileira houve uma política tão agressiva de desvalorização da imagem do professor. Este é obrigado a aprovar todos os alunos, mesmo que estes não apresentem quaisquer condições para tal. Há toda uma pressão, inclusive, da diretoria da escola para que o aluno seja aprovado a qualquer preço. O professor que porventura quiser manter esse aluno em recuperação deve preencher uma série infinita de fichas – explicando o porquê de seu ato – e ser interrogado pela papelada burocrática, como se a deficiência fosse de sua prática pedagógica. As aulas de recuperação, por sua vez, são uma farsa: basta o aluno estar presente, mesmo que escutando walkman ou jogando baralho, que o professor é coagido a aprová-lo. É certo que não se consegue respeito a partir das ameaças das avaliações, mas, por outro lado, esse sistema de avaliação contínua não funciona na rede pública do país. Com um salário de 2 reais por aula é mais vantajoso ser flanelinha do que educador.

Esse professor impositor de tarefas, que obriga a uma humilhação diária – conforme descreve Dimenstein –, só pode pertencer a algum modelo de escola européia. Basta visitar qualquer escola pública para verificar que o professor é humilhado, isto sim, pelos alunos, pela burocracia da escola e pela Nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

Deveria, sim, estar ao lado dessa reportagem da Folha de S.Paulo um belo destaque para a manifestação que estudantes da Unicamp fizeram em protesto à visita do ministro Paulo Renato na universidade (na mesma edição, pág. 6-3, no canto inferior direito da página). Isto é digno de nota, pois mostra a revolta dos estudantes para com o sucateamento maciço dos recursos das universidades públicas, o corte do corpo docente, das verbas de pesquisa em pós-graduação e assim por diante.

Ao abolir a repetência, ao negar programas de qualificação contínua aos professores e o mínimo de infra-estrutura e segurança para que o professor saia com vida da sala de aula; ao gastar verbas para a instituição do provão, que constata o óbvio e dá status de "universidade" a faculdades sem a menor experiência e qualidade em pesquisas, o ministro Paulo Renato só pode fazer parte da ilha utópica de Tomas Morus, na qual o presidente Fernando Henrique Cardoso, com seu discurso otimista estilo Lair Ribeiro, pensa que o Brasil se encontra.

(*) Jornalista, professora e pesquisadora da USP

 

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