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APURAÇÃO
Questão de método

 

Luiz Egypto

Experiente repórter da Folha de S.Paulo, com passagens marcantes pela Veja e TV Bandeirantes, assinou no domingo (31/10/99) reportagem de três páginas do jornalão paulista, com direito a chamada de capa acima da dobra.

"Propina acelera quitação de precatório do DNER" bradava a segunda manchete, em ordem de importância, daquela capa. Em três páginas no miolo do primeiro caderno (1-12, 1-13 e 1-14), os títulos principais: "Esquema frauda R$ 27,8 mi no DNER", "Lobistas cobram até 25% de propina" e "Padilha nega envolvimento com liberação".

Tratava-se de exemplar investigação jornalística, que rendeu suíte nos dias subseqüentes, acerca de um daqueles esquemas tipicamente brasilienses: candidatos ao recebimento de precatórios do DNER, agastados com o prazo de espera a que estavam sujeitos, escorregavam uma "graxa" para escritórios de lobistas de bom trânsito nos gabinetes do Ministério dos Transportes e, milagre! Em vez de aguardar no seu lugar na fila pelo pagamento legal, efetuado na ordem cronológica de autorização dos precatórios, o felizardo pretendente via seu dinheirinho depositado em conta com uma antecedência inviável se se sujeitasse aos trâmites normais.

O que está em questão não é a qualidade da apuração, mas o modo como foi feita. A repórter nem sempre se identificou como jornalista; e, nos diálogos que manteve (e gravou) com lobistas e funcionários do Ministério dos Transportes, muitas vezes fez-se passar por parte interessada no recebimento de uma determinada bufunfa a que teria direito. Agiu corretamente? Na humilde opinião deste escriba, não teria maneira mais prática e eficiente de apurar sua reportagem e desvendar essa história nada edificante. Foi a campo com as armas que dispunha e levantou informações suficientemente consistentes para escancarar um esquema imoral e ilegal de favorecimentos vários. Prestou um serviço relevante e balançou o prestígio do ministro Eliseu Padilha – peça importante na campanha pela reeleição presidencial do ano passado e herdeiro de uma máquina administrativa – a dos Transportes – na qual, em passado recente, pontificavam personagens de reputação, digamos... bom, deixa pra lá.

Nem todos os observadores da mídia pensam assim. E, no frigir dos ovos, a opinião expressa no parágrafo acima importa pouco. De todo modo, e por estarmos na rubrica Jornal de Debates, fica o convite a uma discussão que, se não é nova, é ainda atual: pode (ou deve) o jornalista esconder sua condição profissional para apurar matérias cujas fontes, de outra forma, não lhe abririam as informações necessárias para a construção de uma história envolvendo, por exemplo, utilização suspeita de dinheiro público?

Mande-nos seu comentário.

 

MÍDIA & MERCADO

Fusões, aquisições e democracia (*)

Guilherme Canela de Souza Godoi (**)

Em 1789, Luis XVI convocou uma reunião geral dos "Estados Maiores", em Versalhes. O Primeiro Poder era constituído de trezentos nobres. O Segundo poder, de trezentos prelados da Igreja. O Terceiro Poder, de seiscentos cidadãos. Alguns anos mais tarde, após a Revolução Francesa, Edmundo Burke olhou para o andar superior onde estava localizada a tribuna de imprensa dos Cidadãos, e disse: "Lá está sentado o Quarto Poder, e seus membros são os mais importantes de todos aqui dentro.[Jeffrey Archer, O Quarto Poder, p. 7]

I – Introdução

Considerada ou não o quarto poder, é inegável que a mídia é um ator central no mundo contemporâneo – como, aliás, o tem sido há bastante tempo. Tal qual o mundo em que ela está inserida, a mídia também vai se transformando ao longo dos anos. Duas tendências centrais do atual panorama mundial são também intrínsecas àquilo que vem ocorrendo no campo da mídia: mudança e complexidade. Por essas e outras, é um desafio e uma necessidade para os observadores da mídia o acompanhamento incansável deste ator mutante e complexo.

Uma das mudanças pela qual passa o setor de comunicações atualmente, talvez a mais $ignificativa, constitui-se no processo de fusões, aquisições, joint ventures, associações e outras variantes para designar o fenômeno de namoro e às vezes casamento dos grandes conglomerados de mídia. As discussões que serão propostas a seguir trarão um pouco mais de claridade a esse debate que já vem sendo travado no Brasil há algum tempo, inclusive por esse Observatório [veja remissão abaixo], mas que diante da divulgada paixão repentina entre os grupos Folha e Globo precisa, urgentemente, ser intensificado.

Antes de passarmos a questão específica das fusões fazem-se necessários alguns comentários sobre os conceitos abordados por esse artigo e pela pesquisa maior da qual ele é fruto.

O objetivo central da pesquisa submetida ao PIBIC/UnB/CNPq é estabelecer as relações entre três temas centrais da sociedade contemporânea: Comunicações, Globalização e Democracia. É importante sublinhar que o que se deseja não é uma análise em separado de cada tema – até mesmo pela impossibilidade de tal feito, visto que esses assuntos possuem campos de abordagem incalculáveis, bem como as mais extensas bibliografias existentes –; mas, sim, o ponto de interseção (para utilizar uma linguagem matemática) entre os mesmos. Para tanto é importante que se tenha claro como cada um desses conceitos está sendo aqui definido:

  • Comunicações – "usa-se o plural comunicações para que a palavra não se reduza à significação de ‘comunicação social’[...], nem à de ‘comunicação de massa’ [...], nem ainda se reduza à significação de ‘linguagem’ [...]. O que se pretende é abarcar esses diferentes significados e ir além deles para expressar o sentido integrador da convergência contemporânea entre telecomunicações, comunicação de massa e informática" [conforme definido por LIMA (1995), p. 4].
  • Globalização – não há um consenso sobre o que seja globalização, por isso mesmo não existe uma única definição desse processo. Além do mais, esse é um processo multifacetado que envolve uma série de características. Para efeito deste trabalho, definimos globalização levando-se em conta três aspectos do processo: a) Tecnológico (o surgimento de novas tecnologias, bem como a integração do espaço mundial em virtude desse fato); b) Econômico, especialmente no que diz respeito à formação de grandes conglomerados transnacionais que acabam por atravessar fronteiras nacionais e assumir uma importância tão grande ou maior do que a dos Estados nacionais; c) Cultural-político, principalmente em suas conexões com a influência na identidade das sociedades e na mudança do local da política (enfocando as conseqüências para a democracia) [como sugerido por IANNI (1997), pp. 17-27 e ORTIZ (1997), pp. 274-275]. Tendo-se isso em mente cabe aqui expressar algumas definições de globalização que representam como o conceito é aqui utilizado:

[...] um complexo de processos e forças de mudança, que, por conveniência,pode ser sintetizado sob o termo "globalização". Como argumenta Anthony McGrew (1992), a "globalização" se refere àqueles processos, atuantes numa escala global , que atravessam fronteiras nacionais, integrando e conectando comunidades e organizações em novas combinações de espaço-tempo, tornando o mundo, em realidade e em experiência, mais interconectado. A globalização implica um movimento de distanciamento da idéia sociológica clássica de "sociedade como um sistema bem delimitado e sua substituição por uma perspectiva que se encontra na forma como a vida social está ordenada ao longo do tempo e do espaço" (Giddens, 1990, p.64). Essas novas características temporais e espaciais, que resultam na compressão de distâncias e de escalas temporais, estão entre os aspectos mais importantes da globalização a ter efeito sobre as identidades culturais. [HALL (1998), pp. 67-68]

A globalização "financeira" se traduziu em mudanças, tanto operacionais como institucionais. Houve três transformações: a revolução telemática criou o mercado 24 horas; surgiram novos atores, como os fundos mútuos de investimento e os fundos de pensão; criaram-se novos instrumentos, como a securitização e os derivativos. No plano institucional, o FMI, que nascera em 1944, com 44 membros, tem hoje 181. No comércio, a globalização assumiu várias formas: o surgimento de blocos regionais, como a União Européia, o Nafta e o Mercosul; a explosão das multinacionais [grifo meu]; o conceito de "fábrica global" como gerentes e trabalhadores de um país, tecnologia ou financiamento de outros, para vendas a terceiros.[CAMPOS (1998), p. 294]

  • Democracia – como já foi exposto, talvez seja sobre o conceito de democracia que se tenha produzido (e se continua produzindo) a mais vasta literatura. Não é objetivo deste trabalho utilizar um conceito único e fechado do tema; mas, sim, a partir de algumas idéias de democracia, aferir qual é o impacto da nova configuração das comunicações advinda do processo de globalização em algumas das características que a definem. Aceitemos, então, apenas para termos um parâmetro, o que diz Touraine sobre a questão:

A definição de democracia como a livre escolha, em intervalos regulares, dos governantes pelos governados ilustra claramente o mecanismo institucional sem o qual ela não existe. [...] A democracia existe realmente quando a distância que separa o Estado da vida privada é reconhecida e garantida por instituições políticas e pela lei. Ela não se reduz a procedimentos porque representa um conjunto de mediações entre a unidade do Estado e a multiplicidade dos atores sociais [grifo meu]. É preciso que sejam garantidos os direitos fundamentais dos indivíduos; é preciso também que estes se sintam cidadãos e participem da construção da vida coletiva. Portanto, é preciso que os dois mundos – o Estado e a sociedade civil – que devem permanecer separados, fiquem também ligados um ao outro pela representatividade dos dirigentes políticos. Essas três dimensões da democracia – respeito pelos direitos fundamentais, cidadania e representatividade dos dirigentes – complementam-se; aliás, é sua interdependência que constitui a democracia. [TOURAINE (1996), pp. 42-43].

A hipótese básica com a qual se trabalhou é a seguinte: com o processo de globalização, as características de pluralidade de meios de informação (comunicações de massa, telecomunicações e informática), bem como do advento de gigantescos conglomerados transnacionais, não levaram a uma igual diversidade e pluralidade na propriedade daqueles meios. Ao contrário, esses acabaram por se concentrar sob o poder de pouquíssimos conglomerados [ver Lima (1998b)], o que provoca um efeito maléfico sobre o processo democrático. [Para uma idéia preliminar daquilo que se está pretendendo abordar aqui, vale exemplificar esses "grandes conglomerados" com o caso da Microsoft. Segundo a Folha de S.Paulo de 17/07/99 (Dinheiro, p. 12), a Microsoft, "a maior fabricante de softwares no mundo, se tornou ontem a primeira companhia a superar US$ 500 bilhões em valores de mercado na história. Ao final do pregão na Bolsa de Nova York, o valor da Microsoft no mercado chegou a US$ 507,5 bilhões. Esse montante é superior ao PIB (Produto Interno Bruto) de todos os países da América Latina, com exceção o do Brasil, de US$ 700 bilhões."]

Nos primeiros meses da pesquisa foi importante acompanhar alguns acontecimentos centrais para a definição do processo de concentração da propriedade. Entre eles, destacam-se a privatização do sistema Telebrás, a concessão das empresas-espelho, o andamento das concessões de TVs a cabo, o processo mundial de fusões, a convergência tecnológica e a legislação no setor.

 

II – Comunicações, Globalização e Democracia

Tendo-se em mente a hipótese inicial aqui apresentada, poderemos verificar, pelo quadro abaixo, que a tendência do mercado midiático global é a do aparecimento cada vez mais intenso de grandes corporações de mídia, após processos gigantescos de fusões, os quais são corroborados pela lógica neoliberal-desregulamentadora da globalização e pela "necessidade" de sobrevivência num capitalismo concorrencial avassalador [sobre as posições do discurso neoliberal diante do surgimento dos novos conglomerados de empresas ver LIMA&MOTTER (1996)]. Isso se faz ainda mais presente no mercado de comunicações, onde os investimentos passaram a ser da ordem de dezenas de bilhões de dólares especialmente após a corrida pela convergência das diversas tecnologias do setor.

Empresas

Data da Fusão

Valor em Bilhões de Dólares

MCIWorldCom/Sprint

10/99

129

SBS Communications/Ameritech

05/98

72

Bell Atlantic/GTE

07/98

71

AT&T/TCI

06/98

70

Vodafone/Airtouch

01/99

66

AT&T/MediaOne

04/99

63

MCIWorldCom

10/97

43

Quest/West

06/99

40,5

Viacom/CBS

09/99

35

Olivetti/Telecom Italia

05/99

33

Bell Atlantic/Nynex

04/96

31

TOTAL

-

653,5

 

Portanto, é uma conseqüência do mundo globalizado e da lógica a ele subjacente o surgimento destes novos conglomerados de mídia (ou de comunicações). Nas palavras de Thompson:

A globalização da comunicação tem sido também um processo estruturado e desigual que beneficiou mais a uns do que a outros, e que incluiu mais rapidamente algumas partes do mundo nas redes de comunicação global do que a outras. [...] A globalização da comunicação no século XX é um processo dirigido principalmente por atividades de conglomerados de comunicação em grande escala. As origens destes conglomerados remontam à transformação da imprensa no século XIX, [...]. A mudança na base econômica dos jornais, precipitada pela introdução de novos métodos de produção, colocou em movimento um processo a longo prazo de acumulação e concentração nas indústrias da mídia. Ao longo do século XX, este processo assumiu cada vez mais um caráter transnacional. Conglomerados de comunicação expandiram suas operações para outras regiões fora de seus países originais; e parte dos interesses financeiros e industriais, dentro de explícitas políticas globais de expansão e diversificação, foi canalizado para a aquisição substancial de ações nos setores de informação e de comunicação. Através de fusões, compras ou outras formas de crescimento corporativo, os grandes conglomerados assumiram uma presença sempre maior na arena global do comércio de informação e comunicação.[THOMPSON (1998), pp. 143-144]

Veja-se que pluralidade de empresas (em quaisquer áreas e mais fortemente na área de comunicações) sempre foi uma das qualidades mais exaltadas pela democracia liberal capitalista em contraposição aos monopólios estatais dos países totalitários comunistas, nos quais a mídia era um instrumento de opressão do Estado. No entanto, caminhamos para um futuro no qual, em escala global, não teremos mais do que dez megaempresas controlando todo o setor de comunicações [ver LIMA&MOTTER (1996), p. 14]. O que terá ocorrido com a democracia liberal? O jornalista Clóvis Rossi, em entrevista ao autor, fez comentários nesse sentido:

[...] o problema, do ponto de vista democrático, é bem mais complexo do que a mera fusão e incorporações no âmbito das empresas de comunicações. O problema é geral. Cada vez diminui o número de organizações em cada setor da economia, com o que vai se reduzindo o que, a meu ver, é a grande virtude (talvez única) do capitalismo: a concorrência. Se o processo de concentração de propriedade continuar no ritmo em que vem vindo ultimamente, talvez se possa fazer a esse novo capitalismo concentrador a mesma crítica que os capitalistas fizeram sempre ao comunismo, qual seja a de que o fato de haver um único proprietário dos meios de produção (o Estado) era intrinsecamente contrário à democracia. Essa observação genérica vale, creio, para o setor de comunicações, embora ao menos no Brasil ainda não haja uma concentração tão enorme, exceto, talvez, na TV. Não há um jornal hegemônico, não há uma rádio hegemônica, não há um provedor hegemônico. Enfim, há espaços, portanto, para o exercício democrático. [Para a entrevista completa ver GODOI (1999), p. 108].

Essa oligopolização do setor de comunicações, na esteira da globalização, pode ser constatada a todo momento. Não foi diferente com a privatização da Telebrás, ainda que não o pareça à primeira vista. A revista CartaCapital (19/08/98, nº 80, pp. 60-64), logo após a privatização, com base num estudo da consultoria LAFIS, registrou que "os mecanismos formais de controle não impediram que as três unidades estrategicamente mais importantes da antiga Telebrás ficassem com um único grupo: a Aliança Panamericana, nome dado à união entre a norte-americana MCI, a espanhola Telefónica e a Portugal Telecom, anunciada em março de 1998".

Um outro ponto deste processo é a questão da convergência tecnológica. Os conglomerados de comunicações estão a caminho de passar por um mesmo cabo: a voz da telefonia, os som e imagem da televisão, os dados da Internet. Além de estarem, por uma lógica economicamente sábia, diversificando suas atividades para os setores de música, cinema, produção [ver McCHESNEY (1999), "Media firms have great incentive to merge, acquire, and globalize. It is when the effects of sheer size, conglomeration, and globalization are combined that a sense of the profit potential emerges. When Disney produces a film, for example, it can also guarantee the film showings on pay cable television and commercial network television, it can produce and sell soundtracks based on the film, it can create spin-off television series, it can produce related amusement park rides, CD-roms, books, comics, and merchandise to be sold in Disney retail stores. Moreover, Disney can promote the film and related material incessantly across all its media properties."]. A seguir acrescento um quadro [adaptado de LIMA (1998b), pp. 50-51] que procura mostrar a convergência das comunicações entre os conglomerados nacionais de mídia.

 

EXPANSÃO DE SETE GRUPOS DE MASS MEDIA NO BRASIL

[Adaptado de LIMA (1998b), pp. 50-51]

1. Grupo O Estado de S.Paulo

Empresa

Áreas de atuação

Sócios

BCP e BSE

Banda B de telefonia celular

Bell South, Banco Safra, Splice e Bell South Latin America

 

2. Grupo Folha de S.Paulo

Universo On Line

Conteúdo e acesso à Internet

Grupo Abril, Morgan Stanley

Sem nome definido

Jornal de conteúdo econômico

Globo

 

3. Organizações Globo

Sistema Net

TV por assinatura

Microsoft, Multicanal e RBS

Multicanal

TV a cabo

Antônio Dias Leite e Garantia Participação e

Investimento

SKY

TV por assinatura via satélite

News Corp. ( do empresário Rupert Murdoch), MCI e Televisa

Victori Comunicações

Comunicação de dados

Bradesco, Stet, Victori Internacional

Teletrim

Paging

Bradesco, Stet, Victori Internacional

Class

Lançamento e exploração de serviço de satélite

Victori, Matra

Vicunha (Maxitel)

Banda B de telefonia celular

Vicunha, Bradesco e Stet

Virtua

Serviço de Internet Via Cabo

Inserido no sistema Net

Sem nome definido

Jornal de conteúdo econômico

Folha

 

4. Grupo Jornal do Brasil

TV Cidade

TV por assinatura

SBT e Bandeirantes

Globalstar do Brasil

Telefonia móvel via satélite

Loral e Dasa

 

5. Grupo RBS

Sistema Net

TV por assinatura

Globo e Multicanal

Sky

TV por assinatura

Globo, News Corp., Televisa

CRT

Operadora de telecomunicações

Telefónica de Espanha

Telebrasil Sul

Telesp Fixa

Telefónica de Espanha, Portugal Telecom e Iberdrola

Via Móvel 1

Trunking

International Wireless Communications

ZAZ

Produção de conteúdo e acesso à Internet

Telefónica

 

6. Grupo Abril

Sistema TVA

TV por Assinatura

Chase Manhattan, Canbras (Bell Canada), Tv Filme, Hearst Corporation, Capital Cities/ABC, Falcon International Comunications

Link Express

Internet Via Cabo

Tv Filme

Universo On Line

Provedor de acesso à Internet

Grupo Folha, Morgan Stanley

Ajato (ou @jato, como é a propaganda)

Serviço de Internet Via Cabo

Integrado ao Sistema Tva

 

7. Grupo Sílvio Santos (SBT)

SBT Online (SOL)

Provedor de acesso à Internet

-

Tv Cidade

Operadora de Tv à Cabo

Band, JB, 1 empresa EUA

 

No bojo desta concentração sem precedentes da propriedade está cravada a questão democrática. Se há uma concordância em que a mídia influi no processo democrático, somos levados a concluir que uma menor quantidade de atores (empresas de mass media), decorrente da concentração da propriedade, levará a sérias conseqüências para a democracia. No entanto, antes de finalizar as observações sobre a questão democrática, introduzo aqui um exemplo (estereotipado, é bem verdade) do poder dos empresários de mídia no cenário político nacional. O exemplo está contido no seguinte trecho de uma entrevista do ex-ministro Maílson da Nóbrega à revista Playboy (edição de março de 1999):

PLAYBOY: Mas, voltando na história, que traz tantas dicas para o presente, como o senhor se tornou ministro da Fazenda?

MAILSON: Em dezembro de 1987 eu era o secretário-geral do Ministério da Fazenda e o ministro era o Luiz Carlos Bresser Pereira. Um belo dia ele se demitiu e o presidente José Sarney me convidou para assumir interinamente. Ele me disse: "Vai tocando enquanto decido o que fazer". Como eu estava dentro da máquina, comecei atuando como se fosse o ministro. Tinha um grande problema com os exportadores, por exemplo. O governo queria acabar com a isenção do imposto de renda na exportação. Os exportadores reclamaram. Fiz uma bruta reunião em Brasília com todos os interessados e chegamos a uma solução. A negociação foi um grande sucesso e naquela noite fui convidado pelo [jornalista] Paulo Henrique Amorim para fazer um pingue-pongue ao vivo no Jornal da Globo. A entrevista repercutiu pra burro. No outro dia o presidente me ligou dizendo que tinha gostado muito. Daí começaram as especulações de que eu seria efetivado. Uns dias depois, o presidente me convidou para ir ao Curupu, uma ilha no Maranhão onde ele tem uma residência de praia. Fui num avião da FAB e, quando cheguei a São Luís, estava uma festa. Os jornais e as TVs tinham lá seus enviados especiais porque todo mundo especulava que ali ia surgir o convite. Conversei umas 6 horas com o presidente. Ele me convidou, mas disse que nada poderia ser anunciado ainda porque precisava aparar algumas arestas.

PLAYBOY: Disse quais eram?

MAILSON: Não, mas a aresta era o [presidente das Organizações Globo] Roberto Marinho, que tinha outro candidato para o cargo, o Camilo Calazans [um quadro da área econômica com a mesma origem de Mailson, o Banco do Brasil].

PLAYBOY: Quem lhe contou?

MAILSON: Eu deduzi. Naquele dia, de volta a Brasília, fui ver os noticiários e não tinha saído nada no Jornal Nacional. Nada. E eu tinha visto a equipe da Globo em São Luís. Falei com o repórter. Aí fiquei com a pulga atrás da orelha. Conversei com algumas pessoas e todas me disseram que só podia ser porque Roberto Marinho estava trabalhando por outro nome.

PLAYBOY: O senhor reagiu, se articulou?

MAILSON: Sinceramente, não. O presidente tinha dito que o problema era dele. Continuei tocando. No dia 5 de janeiro [de 1988], o presidente me ligou perguntando: "O senhor teria algum problema em trocar umas idéias com o Roberto Marinho?" Respondi: "De jeito nenhum, sou um admirador dele, até gostaria de ter essa oportunidade".

PLAYBOY: Nunca tinha conversado com ele até essa data?

MAILSON: Não. A Globo tinha um escritório, em Brasília, no Setor Comercial Sul. Fui lá e fiquei mais de 2 horas com o doutor Roberto Marinho. Ele me perguntou sobre tudo, parecia que eu estava sendo sabatinado. Terminada a conversa, falou: "Gostei muito, estou impressionado". De volta ao Ministério, entro no gabinete e aparece a secretária: "Parabéns, o senhor é o ministro da Fazenda". Perguntei: "Como assim?" E ela: "Deu no plantão da Globo" [o Plantão do Jornal Nacional].

PLAYBOY: Quanto tempo o senhor levou da sede da Globo para o Ministério?

MAILSON: Uns dez minutos. Ou seja, em dez minutos o Roberto Marinho ligou para o presidente, estou supondo, porque o presidente nunca me contou nada. Imagino que conversaram e o presidente deve ter dito que então eu seria o ministro. E aí valeu o instinto jornalístico do Roberto Marinho e ele tocou no plantão.

PLAYBOY: O senhor ainda não tinha a confirmação do próprio presidente?

MAILSON: Logo tocou o telefone e era o presidente me chamando ao Planalto. Cheguei lá e ele já estava com o ato de nomeação pronto. Assinou na minha frente. Daí foi tudo divulgado. Naquele dia fui dormir com aquela sensação: "Meu Deus do céu, como?" Pode soar um pouco piegas, mas parecia um negócio de conto de fadas, considerando minha origem, a trajetória, tudo. Fui dormir entre tenso e alegre.

Assim, a questão democrática relacionada com uma mídia ainda mais poderosa devido à concentração, envolve muito mais do que o cerceamento da pluralidade de informação, do direito do consumidor, do jogo político, do padrão cultural, da tradição. Ou seja, são multifacetadas as influências de uma mídia concentrada no cenário democrático, assim como a própria democracia envolve muitos ângulos de apreciação. Fecho esses comentários com as observações sobre mídia, democracia e mercado de Touraine e McChesney:

A passagem do indivíduo consumidor para o indivíduo sujeito não se opera pela simples reflexão ou pela difusão de idéias, mas apenas pela democracia, pelo debate institucional aberto e pelo espaço dado à palavra, em particular, à palavra dos grupos mais desfavorecidos, porque os detentores do poder e do dinheiro exprimem-se mais eficazmente através dos mecanismos econômicos, administrativos ou midiáticos que estão sob seu controle do que sob a forma do discurso ou protesto. [...] Assim se explica a ligação estreita entre democracia e liberdade de associação e de expressão que permite às demandas pessoas chegarem à vida pública e às decisões políticas. Se a mídia, em vez de fazer parte do mundo da multidão, portanto, do espaço público, vier abandoná-lo para se tornar, antes de tudo, empresa econômica cuja política é comandada pelo dinheiro ou pela defesa dos interesses do Estado, a democracia ficará privada de voz. [TOURAINE (1996), p. 206.].

In my view, private control over media and communication is not a neutral or necessarily a benevolent proposition. The commercial basis of U.S. media makes depoliticization, apathy and selfishness rational choices for the citizenry, and it permits the business and commercial interests to have inordinate influence over media content. In short, the nature of the U.S. media system undermines self-government. Accordingly, for those committed to democracy, it is imperative to reform the media system. The first task for changing the media system is to put control of the media on the political agenda – exactly where it belongs in a democratic society. To assist in that process, I intend to sketch out ownership and subsidy patterns of the commercial media system and to argue that these present a direct threat to the ability of the United States to have a viable democratic media culture [McCHESNEY (1999)].

III – Conclusões

Procurou-se fazer um amplo levantamento de dados com o objetivo central de compreender como continua se configurando a propriedade no setor de comunicações no Brasil e no mundo. Nesse sentido, a percepção até o momento é a de que a propriedade está ficando cada vez mais concentrada e, portanto, menos democrática. E essa concentração abrange as mais diversas áreas do setor de comunicações.

Quem critica quem nessas condições? Como fica o consumidor? Como fica o discurso daqueles que acreditavam que o avanço tecnológico (diversificação dos meios) permitiria uma maior democratização da propriedade? Infelizmente, as respostas a essas perguntas são as mais negativas possíveis.

Veja-se que no caso Globo-Folha, o silêncio notado por este Observatório em sua última edição [veja remissão abaixo] não parece ser ilógico diante da situação apresentada neste artigo, isto é, todos os outros grandes órgãos de imprensa ou televisão deste país também possuem algum tipo de associação semelhante – ou até mesmo mais intensa – àquela anunciada pelos grupos supramencionados. Novamente, colocamos a questão: quem critica quem?

E mais: é também $ignificativo o caso da fusão entre a MCI e a Sprint para o cenário brasileiro. Poderemos verificar como a agência reguladora Anatel se comportará diante desse gigante. Desvincular-se-á a MCI da Embratel ou da Intelig? Pagará ela seus débitos com a Receita Federal? É interessante ressaltar, para verificar o poder sem proporções dessas empresas, a intervenção do próprio presidente dos Estados Unidos, a pedido da MCI, na recente discussão por ocasião da multa aplicada pelo fisco brasileiro [ver matéria publicada no caderno de economia de O Estado de S.Paulo em 25/10/99].

Espera-se, entretanto, que pesquisas semelhantes a essa contribuam para que as atuais tendências no campo das comunicações não se transformem em algo como o pesadelo orwelliano do Grande Irmão, no qual só há uma teletela.

Encerro com as palavras de Sartori sobre a influência dos meios de comunicação na democracia:

Como para ter uma democracia precisamos, em certa medida, de um governo do povo, vamos perguntar imediatamente: em que momento vemo-nos diante de um "povo governante", do demos no ato ou papel de governar? A resposta é: nas eleições. [...] Dizemos, para rematar, que as eleições devem ser livres. É verdade, mas não é o bastante, pois, num sentido básico, a opinião também deve ser livre. Eleições livres sem direito à opinião nada significam. Dizemos que o povo deve ser soberano. Mas uma soberania vazia que nada tem a dizer, sem opiniões próprias, é mero ratificador, um soberano de nada. [...] Nas democracias de hoje, são os meios de comunicação de massa que desempenham o papel mais amplo e mais central na formação da opinião pública. [...] Resumindo tudo numa única frase, diríamos que o mundo é – para o público em geral – a mensagem dos meios de comunicação. [SARTORI (1994), pp. 123,124 e133]

(*) O presente artigo é fruto de um plano de trabalho que vem sendo desenvolvido dentro do programa PIBIC/UnB/CNPq, cujo título é "As Comunicações no Processo de Globalização & Os Rumos da Democracia". Um versão ampliada deste artigo foi apresentada no V Congresso Internacional de Estudantes de Relações Internacionais do Cone Sul.

(**) Graduando em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília, pesquisador do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (CEAM) da Universidade de Brasília.

Referências Bibliográficas

CAMPOS, Roberto – Na virada do milênio. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998

GODOI, Guilherme Canela de Souza – As comunicações no processo de globalização e os rumos da democracia. Relatório final apresentado ao PIBIC/UnB/CNPq. Brasília: agosto de 1999.

HALL, Stuart – "Globalização, compreensão tempo-espaço e a identidade. Em direção ao pós-moderno global?", in: A identidade cultural na pós-modernidade. Trad. Tomaz Tadeu da Silva e Guacira Lopes Louro. 2ª Ed. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. pp. 67-76

IANNI, Octavio – "A política mudou de lugar", in: DOWBOR, Ladislau; Octavio Ianni e Paulo-Edgar A. Resende (orgs.) – Desafios da Globalização. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. pp. 17-27.

LIMA, Venício A. de – Comunicações, tecnologia e globalização. Projeto Individual de pesquisa submetido ao CNPq, julho, 1995

LIMA, Venício A. de e Paulino Motter – "Novas tecnologias de comunicações, neoliberalismo e democracia", in: Comunicação & Política – v. III, n. 1, Nova série, janeiro-abril 1996. Rio de Janeiro: Centro brasileiro de Estudos Latino-Americanos, CEBELA. pp. 12-19.

LIMA, Venício A. de – "Globalização e políticas públicas no Brasil; a privatização das comunicações entre 1995 e 1998" – in: Revista Brasileira de Política Internacional, ano 41, nº 2, 1998a. Brasília: Instituto Brasileiro de Relações Internacionais. pp. 118-138.

LIMA, Venício A. de – "Globalização e política de comunicações no Brasil: novos e velhos atores", in: Contato: revista brasileira de comunicação, arte e educação, ano 1, n. 1, out./dez., 1998b. Brasília: Senado Federal, Gabinete do Senador Artur da Távola. pp. 45-61.

McCHESNEY, Robert W. – "Corporate Media Versus Democracy", in: Revista Eletrônica Ciberlegenda <http://server.uff.br/mestcii/chesney.htm>. 1999.

ORTIZ, Renato – "Mundialização, cultura e política", in: DOWBOR, Ladislau; Octavio Ianni e Paulo-Edgar A. Resende (orgs.). – Desafios da Globalização. Petrópolis, RJ: Vozes, 1997. pp. 270-275.

SARTORI, Giovanni – "Democracia governada e democracia governante", in: A teoria da democracia revisitada. V. 1. São Paulo: Editora Ática, 1994. pp. 123-180

THOMPSON, John B. Ideologia e Cultura moderna: teoria social crítica na era dos meios de comunicação de massa. Petrópolis, RJ: Vozes, 1995.

THOMPSON, John B. A Mídia e a modernidade: uma teoria social da mídia. Petrópolis, RJ: Vozes, 1998.

TOURAINE, Alan – O que é a democracia? Trad. Guilherme João de Freitas Teixeira. Petrópolis: Vozes, 1996.

 

DUAS LEITURAS
O traço oculto da charge

Spacca

Dentro da limusine, um sujeito truculento de terno e gravata, o empresário e seu segurança fundidos num só personagem feio e arrogante. Celular e charuto completam o tipo. Fora, um garotinho esfomeado pede uma moeda, outro vende chicletes ou algo assim. O vidro da porta começa a baixar e o baixinho fica animado. O empresário põe a mão para fora e esmaga o garoto com o polegar.

Só depois li o título da charge: "Pelo Fim da Miséria!".

A charge é do Angeli, publicada na Folha de S.Paulo (29/10/99). Os ícones, porém, são os mesmos presentes em trabalhos de diversos cartunistas. Como deve acontecer sempre em uma charge eficiente, o significado é claríssimo. Ou melhor: o impacto é tão forte e a comunicação é tão rápida que as possíveis contradições passam batido.

Significação nefanda

Vejamos. O empresário em sua limusine e o garotinho esmolando ou vendendo chiclete. Eu disse "empresário" automaticamente, mas poderia ser um político. Esta designação, "empresário", no Brasil, não nos traz à mente apenas o proprietário de uma empresa qualquer (como eu, que tenho uma EPP – empresa de pequeno porte – e emprego uma secretária), mas uma big empresa, um negócio realmente poderoso. E esses empresários assim poderosos, além de viverem cercados de seguranças, mordomos e mordormias, ainda deitam e rolam nos negócios públicos, financiam eleições e recebem favores, e eis que o empresário e o político se fundem no engravatado da limusine. Enfim, "empresário" tem, no imaginário, uma significação nefanda: personifica a injustiça social.

E o garotinho esmolando ou vendendo chiclete, dá no mesmo – porque quando a gente diz que não quer o chiclete ele sempre acaba pedindo um trocado. Ele é bem baixinho, de olhos esbugalhados, para indicar que se trata de uma criança bem pequena, e também subnutrida, o retrato mesmo da miséria. O tamanho minúsculo dele fica bem evidente pela altura da limusine, que joga lá pra cima o (vá lá) empresário, encastelado nos seus domínios, arrogante e poderoso.

O desenho do garotinho, apesar do esforço de representar uma realidade feia e triste – o cartum é expressionista como os quadros de Munch – acaba sendo "bonitinho", carismático. Os olhos grandes são um truque para despertar compaixão, como podemos comprovar no olhar pidão de qualquer cachorrinho novo, ou no ET, ou nos debilóides Teletubbies. O garotinho tem cara de filhote perdido e quer nos comover e conquistar.

Pólos da desigualdade

Já o empresário é todo amarrotado, enrugado, velho, feito com traços sujos (embora todo trabalho do Angeli apresente uma estética "marginal", agressiva, pós-underground). As qualidades morais, a injustiça de seu modo de vida estão plasmadas na sua aparência abjeta.

Vemos, então, representados no cartum, os dois pólos da desigualdade, a miséria e a elite. Nós, leitores, não somos nem tão pobres nem tão ricos. Mas, por empatia, nos identificamos com o pobre, pois odiamos a injustiça. Somos o garotinho quando nos deparamos, impotentes, com o poder dos Garotinhos e outros políticos. Mas também somos o empresário ou político quando nos percebemos impotentes perante a insolubilidade da miséria. Dessa forma, nos identificamos, alternadamente, com o garotinho e com o ricaço, e nossos sentimentos oscilam entre a revolta e a culpa (sendo a culpa um fardo muito indesejável, é natural que alimentemos a revolta para aliviar a culpa de sermos também injustos. O resultado é que a revolta sai fortalecida).

A charge política, dentre as diversas formas de humorismo gráfico, é aquela que se pretende mais relacionada à realidade, a qual deseja revelar e, se possível, transformar. É uma peça de propaganda, não no sentido publicitário, mas como é entendida em língua inglesa: um esforço de converter, de propagar uma ideologia.

Intenção moralizante

Mas afinal, é propaganda ou realidade? É propaganda, pois deseja influenciar a realidade, alterar convicções. Tornar o leitor consciente de uma determinada visão da realidade, a visão do cartunista. O chargista que declarar não ter esta pretensão não pensou o suficiente a respeito de seu próprio trabalho. Ele pode até duvidar de que pode (como muitos já pensamos), com uma charge, derrubar o governo; mas a intenção é, sem sombra de dúvida, moralizante. Se não deseja conscientemente mudar a cabeça de ninguém (pois o ideário dos anos 60 recomenda o "viva e deixe viver"), por outro lado está declarando a sua visão da realidade por meio de um instrumento gráfico poderoso em um jornal poderoso, demarcando a sua opinião de modo claríssimo.

Será que os chargistas fazemos isto só para chamar a atenção sobre nós mesmos? Também, mas sobretudo para nos posicionar eticamente a respeito da vida pública: "Eu penso assim" ou "Eu faço parte do grupo de pessoas que pensam assim" ou ainda "Eu não me engano com a conversa mole dos políticos". Vale dizer, a charge é anti-propaganda, é reação à propaganda política, e usa armas de sedução e síntese simbólica como qualquer propaganda.

A charge não é um retrato da realidade. Afirmo isto porque já me pareceu que fosse. Quando eu via as charges do Henfil no tempo do regime militar pensava: "Esta é a realidade que estão querendo esconder de mim". E é justamente esta a leitura de qualquer charge atual. A eficiência da propaganda repousa nesta capacidade vender uma imagem como realidade ou necessidade.

Esta charge em particular procura representar a desigualdade social. Não foi intenção do chargista, acredito, retratar uma situação comum no trânsito paulistano, mas sim usar esta imagem de pedinte vs. carro-de-bacana-com-vidro-fechado como símbolo da desigualdade.

Ora, ao lembrarmos que nós (que temos carro e vivemos em uma grande cidade) passamos por esta situação concreta todos os dias, então a charge está muito, mas muito longe da realidade. E o que é a realidade, esta que experimentamos do lado de dentro do vidro levantado?

Do lado de dentro, temos medo. Não somos milionários, não temos guarda-costas, e nós mesmos estamos pilotando o carro, levando o filho na escola ou voltando do supermercado.

Fauna biodiversificada

Do lado de fora, vemos garotas entediadas e com fantasias ridículas distribuindo panfletos; deficientes em cadeira de rodas, legítimos ou não, com a previsível bola de basquete no colo; vendedores ambulantes, uns engraçados e talentosos, outros anestesiados como zumbis, vendendo objetos por 900% o preço do atacadista; pedintes com atestado médico amarfanhado recitando uma ladainha decorada e automática; rapazes com faixas pedindo doação para o "Rafaelzinho", que precisa de um transplante de medula; mendigos que exigem um real para lambuzar o pára-brisa com um paninho roto e sujo; motoqueiros arrancando impunes o espelho retrovisor externo; filhinhos-de-papai com uma cara-de-pau incrível, pedindo dinheiro para os veteranos da universidade encherem a cara de cerveja; pedintes autênticos, velhinhos e velhinhas realmente incapacitados para qualquer tipo de ganha-pão, ao lado de outros esmoleiros robustos, mas visivelmente sem preparo cultural para o serviço mais rudimentar; e finalmente crianças, de todos os tamanhos e idades, invariavelmente acompanhados de longe por gente mais velha que vai ficar com a maior fatia da esmola.

A fauna dos semáfores é bem "biodiversificada". Temos que fazer a cada instante um penoso exercício de moral prática: este aqui merece? E aquele, será que está doente mesmo? Se não damos, levamos conosco o peso da decisão tomada, ou a casca um pouco mais dura pela indiferença.

Bem, falávamos de charge. Se a intenção é revelar, como aceitar uma cena de um sinal de trânsito como a representada, ainda que a título de alegoria, quando a nossa experiência concreta nos impõe uma realidade tão mais complexa e verdadeira?

A primeira leitura – indignação pela autoridade arrogante – é a desejada pelo chargista. A segunda – culpa porque não costumamos abrir o vidro – é percebida pelo chargista, mas duvido que corresponda à sua intenção, visto que "culpa" é um daqueles valores caretas que sua geração aboliu. Juntos, um sentimento alimentando o outro, culpa e revolta nos fazem aceitar uma imagem simpática do excluído, do injustiçado, e estamos prontos a apoiar sem julgamento crítico qualquer movimento a favor de causas populares, seja sincero e bem intencionado, seja suspeito e oportunista. A charge-propaganda abre uma brecha em nosso senso crítico, em vez de, como apregoam, desenvolvê-lo.

Suspeitas malvistas

Três dias antes desta charge, uma invasão muito bem coordenada de sem-teto ocupou diversos prédios públicos e um particular, em São Paulo. A notícia até que recebeu destaque, mas perdeu espaço nos jornais para a espetacular revolta na Febem, também em São Paulo. Ora, os participantes do movimento dos sem-teto chegaram aos locais em ônibus alugados! Quem pagou? Quem fiscaliza esse movimento? A quem interessa? Quem treinou, já que foi tão bem organizado, com senha e tudo? Este movimento popular "espontâneo" é suspeitíssimo. Mas não é bem visto levantar suspeitas sobre movimentos populares.

Afinal, se não ousamos nem abaixar o vidro da janela do carro, pelo menos temos a chance de, apoiando causas nobres à distância, torcer pelos mocinhos de foice na mão contra os bandidos de capacete e cassetete (tão populares e excluídos como os primeiros) e resolver nossos sentimentos de revolta e culpa social.

O policial que tortura é um monstro (é mesmo); já o sem-terra que torturou um fazendeiro no Paraná, há uns dois anos ou mais, é um desesperado fazendo justiça a seu modo.

Como o vidro levantado da limusine, a charge se coloca entre nós e a realidade que temos preguiça de ver. Um vidro fumê que, em vez de ocultar o passageiro, impede que ele veja a realidade lá fora com todas a sua nitidez.

A charge já não revela: oculta.

 

JORNAIS
Uma pauta para a Folha

 

Paulo Lotufo, de Boston

A Folha de S.Paulo iniciou uma série de reportagens sobre suposta malversação de recursos em pesquisas realizadas na Universidade de São Paulo. Primeiro, a denúncia do "desvio" de 1 mil reais em bolsa do Conselho Nacional de Pesquisa (CNPq), depois um caso confuso na Faculdade de Odontologia de Bauru e, por último, a manchete do domingo (24/10/99) sobre o Instituto de Física de São Carlos. O teor da maioria delas indica que não houve nenhuma grande investigação jornalística. Denúncias foram acolhidas e publicadas pelo jornal.

Os cruzadistas da moralidade, no entanto, desconhecem um fato simples. Em ciência, o único patrimônio do pesquisador é o de ser reconhecido pelos pares como honesto e competente nos seus experimentos e nas suas análises. A forma mais eficaz de controle é a própria comunidade científica, na qual incluem-se os jornalistas especializados em ciência dos grandes veículos de comunicação. Nos EUA, são freqüentes as perseguições originadas no Legislativo tentando mostrar fraudes ou prevaricações de cientistas, sempre originadas na direita republicana. A mais recente ficou conhecida como o "Caso Baltimore" e envolveu injustamente Teresa Imanichi-Kiri, bióloga brasileira radicada em Boston. Neste caso, a Folha de S.Paulo e parte da imprensa brasileira "comprou-e-vendeu" a versão do então McCarthy de plantão: negou-se a publicar a defesa completa da brasileira (cujo cunhado é renomado jornalista), mesmo depois que foi inocentada pelos torquemadas de ocasião e que a revista Scientific American a brindou com uma reportagem desagravo de duas páginas na parte nobre da publicação.

Outro fato que merece destaque foi o fato de a Folha ter iniciado essa linha de denúncias quando, no passado, membro do Conselho Editorial do jornal foi também (ao que tudo indica) injustamente acusado de contrabando ou coisa parecida com verbas de pesquisa do CNPq.

Talvez fosse interessante aos editores do jornal que mudem a mira dos seus canhões para um inimigo da sociedade, muito mais perigoso do que a professora da biologia que "desviou" mil reais. Trata-se da infiltração do tráfico de drogas no Executivo, no Legislativo e até no Judiciário – com sérios riscos de um desestabilização institucional, conforme relata o professor Ricardo Velez Rodriguez [Jornal da Tarde, 29/10/99, veja Aspas abaixo]. Afinal, onde está o risco para a cidadania: na USP ou no Judiciário de Mato Grosso? A resposta é óbvia. Mas com certeza é fácil abrigar e publicar denúncias de colegas, mesmo tendo alguma procedência. Difícil mesmo é é investigar bandido.

 

Quem leu um leu todos

 

Marco Aurélio Távora (*)

Ao conversar sobre jornalismo com meu pai, que viveu os dois períodos de ditadura, percebi uma ponta de saudosismo e um pouco de alegria ao narrar fatos que leu ou que viveu. Uma coisa puxa a outra, ouvi histórias sobre repórteres presos, mortos, "desaparecidos". Certo e inevitável, no fim da conversa meu pai disse que naquela época existia outro tipo de jornalismo. Indo mais longe, ao tempo de meus avós, lembro de ouvir falar de cadernos literários, críticas de arte, contos. Os jornais cruzaram as vidas de meus avós, de meus pais, e hoje caem em minhas mãos com cadernos de informática, encartes por idade, sexo e gosto diferentes – e pensamentos divergentes.

A necessidade de agradar a todos pouco agrada à maioria. Como continuação da TV, o jornal tenta imitar seu sucesso, mas fracassam.

Consumidores de notícia

Os jornais de hoje trazem informação, mas são pobres de identidade; continuam impressos em papel, mas são iguais a todos os outros jornais. Continuam sendo vendidos, comprados, e mudam na busca frenética de mais leitores ou anunciantes, mas estão deixando de ser jornal. Pensando bem, isso pouco importa, pois os leitores estão deixando de ser leitores. São só consumidores de notícias: um passar de olhos muito parecido com o que dávamos no ginásio lendo a contragosto um Machado de Assis –apenas início, meio e fim.

A maior diferença entre o jornal do tempo de meu pai e meu avó e o jornal de meu tempo é que hoje em dia um jornal não é mais gostoso de ler.

(*) Pesquisador da Biblioteca Nacional e estudante de Administração

 

CARTAS
Onde está a notícia?

Alguém sabe o porquê de nenhum jornal de grande circulação ter noticiado a chacina que dois sem-terra praticaram no Paraná, onde foram mortos um deputado e mais umas cinco pessoas, incluindo uma criança de 5 anos, durante o assalto a um mercado? Inclusive com a cumplicidade do líder de um acampamento que tentou esconder as armas, o produto do crime e os assassinos?

Essa imprensa brasileira é um mistério!!!

O único sobrevivente da chacina revelou que a criança foi morta com um tiro de cima para baixo, na cabeça, pois estava agarrada na perna do assassino pedindo para que não matasse sua mãe.

Um dos assassinos declarou à polícia que já havia sido assentado, mas negociou seu lote.

Eduardo Paiva, Rio de Janeiro

 

ASPAS
Ricardo Vélez Rodrígues

"Não me cansarei de repetir o que venho dizendo há vários anos: a Colômbia é o ‘efeito Orloff’ do Brasil. Ou seja: parafraseando conhecida propaganda, a Colômbia é hoje o Brasil de amanhã. Excesso de pessimismo? Certamente não, haja vista os acabrunhantes episódios que revelam a presença do crime organizado na guerra do pó que se trava em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo e na existência de governos paralelos a serviço da máfia em Estados como Mato Grosso do Sul, Acre e Piauí.

Os nossos irmãos colombianos sofrem hoje as desgraças da terceira etapa de decomposição da moral pública do Estado patrimonial: a guerra civil. Os passos que antecedem a essa terrível etapa são, em primeiro lugar, a difusão da corrupção na política e na administração pública e, em segundo lugar, a organização de máfias na cúpula do poder, em nível regional. Não há dúvida de que ultrapassamos a primeira etapa. Já durante o regime militar tornou-se praxe, no nosso país, a generosidade com o dinheiro público, para financiar trens da alegria e carnavais eleitoreiros que fizeram afundar os bancos estaduais. O atual déficit público, que constitui de longe o pior legado do patrimonialismo e nos assombra com o risco de fazer afundar de vez as conquistas alcançadas com o Plano Real, é efeito direto dessa criminosa generosidade com o orçamento, praticada hoje especialmente em nível estadual e municipal.

O Brasil acaba de entrar, infelizmente, na segunda etapa: a da consolidação de máfias na cúpula do poder regional. Isso foi o que aconteceu há 20 anos na Colômbia. Pablo Escobar e os demais capos tornaram-se fortes, mediante a cooptação de expressivas parcelas da liderança política e da classe empresarial, em importantes departamentos como Antioquia e Valle del Cauca, por exemplo. Lembro-me de que era in, em Medellín, ser fotografado em coquetéis e inaugurações ao lado do governador e de don Pablo, que já tinha sido eleito representante na Câmara (deputado federal), para garantir a conhecida imunidade/impunidade. A partir da consolidação dos capos na cúpula do poder regional, solidificaram-se os cartéis de Medellín e de Cali, que chegaram a faturar aproximadamente US$ 1,7 bilhão por ano, na década de 80. Tão grande era a força das máfias instaladas na cúpula do poder regional, que em 1989 ofereceram ao governo colombiano liqüidar a dívida externa, que chegava aos US$ 13 bilhões, caso o governo os deixasse trabalhar em paz. O Brasil dos Hildebrandos e demais personagens eleitos, nomeados ou togados do crime organizado em vários Estados, é a versão tupiniquim dos cartéis colombianos da droga, com toda a seqüela de cinismo, violência, corrupção e terrorismo que os acompanha.

A terceira etapa no processo de decomposição da moral pública é, como frisei atrás, a guerra civil. Por um perverso mecanismo de contaminação vertical e horizontal, a quebra dos valores ensejada pelo predomínio do dinheiro fácil na cúpula do poder espraia-se por todo o organismo social, de forma que as pessoas passam a agir à margem da lei, empolgadas pela convicção de que o crime compensa. O seqüestro, a extorsão, o assalto, o desvio sistemático do dinheiro público passam a ser praticados de forma corriqueira, destruindo os nexos de solidariedade social. O resultado é a paralisia do Estado nas suas várias instâncias (federal, estadual, municipal) e o fortalecimento das mais poderosas máfias, que passam a ditar a lei. Na Colômbia de hoje, submergida nos horrores da guerra civil, quem manda é o terrorista, travestido de guerrilheiro ou de paramilitar. Quem mora em cidades como Rio de Janeiro ou São Paulo, submetidas à guerra do pó, já conhece essa experiência na própria carne.

Se quisermos encontrar uma causa cultural para toda essa desgraça, com certeza a encontraremos aí: no Estado patrimonial e na sua cultura de privatização do poder para servir às patotas de amigos e apaniguados. Some-se a isso o poder avassalador do dinheiro proveniente do narcotráfico e teremos a mistura mortal que ameaça sufocar as sociedades na América Latina. A solução é dolorosa, mas inadiável: em primeiro lugar, o definitivo desmonte do patrimonialismo, mediante a reforma do Estado, a fim de controlar o gasto público e, em segundo lugar, o combate eficaz e generalizado contra o narcotráfico." (Ricardo Vélez Rodríguez é professor das Universidades Gama Filho e Federal de Juiz de Fora)

"A guerra do pó", copyright Jornal da Tarde, 27/10/99

 

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