09/09/2003 6/6

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PRIMEIRA LEITURA
Bernardo Kucinski

"Kucinski responde Primeira Leitura", 5/09/03

"Ao Diretor de Redação de Primeira Leitura

Reinaldo Azevedo

c. cópia p/ Luiz Carlos Mendonça de Barros;

Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo

Observatório da imprensa

Brasília, 01/09/2003

Prezados Senhores,

Lamento a má qualidade jornalística da matéria ‘Comissário do Povo’, que critica meu trabalho na Secom e editorializa a partir de informações erradas. Esperava mais seriedade dessa publicação, no seu início, tão promissora.

Vamos aos fatos. Já no começo deste ano, Luiz Carlos Mendonça de Barros criticou um texto sobre o tratamento dado pela mídia ao Fome Zero a mim atribuído pela Folha de São Paulo, e elaborou longamente sobre o meu comportamento. Ocorre que o texto não era meu e sim do Cláudio Cerri. Um texto, aliás, admirável, e que apenas continha uma única frase de tom talvez inadequado para uma publicação veiculada pelo governo. Mendonça de Barros poderia ter verificado tudo isso, se tivesse checado as informações. Atribuí o deslize à sua relativa inexperiência em jornalismo e na ocasião nem respondi. Foi um erro.

Desta vez, a revista dedica três páginas a um exercício de ‘character destruction’. Mais uma vez baseado em matéria publicada em outro veículo ‘O Correio Braziliense’ do dia 06 de julho passado, repleta de incorreções que Primeira Leitura não se deu ao trabalho de checar. Não é verdade que a repórter Vera Magalhães pediu-me uma entrevista e eu recusei. Minha agenda não registra nenhum telefonema seu. Pode ter havido uma ligação deliberadamente casual a meu celular, dessas atendidas no meio do trânsito, nada que possa ser entendido como um pedido formal de entrevistas. Mesmo porque nunca recusei entrevistas.

Os equívocos e distorções da matéria chupada pela Vera Magalhães, estão esclarecidos na carta anexa,que enviei ao Correio Braziliense no dia 9 de julho, e que o jornal nunca publicou. Os principais referem-se aos verbetes que descrevem formas de manipulação da informação, re-escritos pelo Correio de forma a me incriminar, quando não passam de definições encontradas em qualquer bom dicionário de comunicação.

Além de reproduzir os erros da matéria original, Primeira Leitura comete os seguintes erros adicionais de informação.

Não foi criada nenhuma estrutura semi-secreta na Secretaria de Comunicação de Governo. Nossos monitoramentos da mídia são distribuídos para mais de 300 assessorias do governo e um deles, o principal é disponibilizado no site do governo. É uma ferramenta normal de trabalho, que todas as grandes organizações possuem. O veiculo chamado ‘ Leitura da Mídia’, de fato fazia um acompanhamento crítico do processo de comunicação. Mas não tinha viés autoritário, tanto que muitas vezes criticava o próprio governo por tentar camuflar a informação ( em geral as de natureza econômica).O Leitura de Mídia era um momento diário de reflexão sobre o nosso fazer , muito apreciado, e que eu decidi interromper porque de fato não foi bem aceito pela nossa comunidade jornalística, pouco habituada á critica.

Não é verdade que o trabalho de monitoramento e análise já era comandando por mim na campanha eleitoral. No comitê de campanha funcionou um grupo independente de acompanhamento de mídia, formado por nove voluntários, pensado como o embrião da seção brasileira do Mídia Watch Global. Foi organizado pelo jornalista Carlos Tibúrcio. Os resultados foram apresentados no III Fórum Social Mundial numa sessão do Mídia Watch, com a presença do Roberto Sávio e Ignácio Ramonet. Vocês confundiram esse trabalho com minhas Cartas Ácidas, publicadas no site Agência Carta Maior, sem nenhuma ligação com a campanha, exceto é claro minhas ligações ideológicas e afetivas com Lula e o PT.

É particularmente falsa a assertiva de que eu descarto ‘a existência do erro não intencional’ em jornalismo. Estou anexado meu texto sobre um serviço de pronta resposta que tem como ponto forte justamente chamar a atenção das assessorias para fato de que o erro não intencional faz parte do jornalismo. O importante é corrigir o erro não intencional. Os verbetes, que vocês tanto criticam como exemplos do meu estalinismo, foram reunidos para ajudar as assessorias a responder erros de informação, como apoio ao serviço de pronta reposta. A idéia é capacitar assessores a qualificar erros em vez adjetivá-los, com o objetivo de elevar o nível do jornalismo e de nossas relações com a imprensa. O guia de pronta resposta teve tanto sucesso que recebi pedidos de copais de todos o país, inclusive de empresas privadas.

Senhores, a acusação de que eu sou estalinista é tão verdadeira quanto a feita em 1981, de que eu era um agente do Mossad. Sobrevivi àquela, vou sobreviver a mais esta. Tenho orgulho de ser, dentro do aparelho de informações do governo, um dos mais batalha pela transparência.

Atenciosamente,

Bernardo Kucinski

PS especial para o Mendonça de Barros: eu também cometo erros não intencionais. Um deles, foi usar como exemplo para um determinado verbete, uma acusação feita pelo Correio contra um funcionário público. Não foi uma escolha muito feliz. È que eu tenho profunda ojeriza ao denuncismo como gênero jornalístico que se distingue de denuncia jornalística legitima, por ser um processo de julgamento sumário que se dá no espaço midiático, sem a presunção da inocência e sem o contraditório. Foi um pouco o que vocês fizeram comigo nessa matéria infamante. Foi o que muitos jornalistas fizeram com você, Luiz Carlos, e seus amigos no tratamento das privatizações durante o governo FHC. Sobre isso, escrevi um mini-ensaio publicado em Observatório da Imprensa. Sugiro que você leia."

 

Reinaldo Azevedo responde

Caro leitores de Observatório da Imprensa,

A carta do professor Bernardo Kucinski, a que o senhores têm acesso, chegou-me no dia 1º de setembro, quando a edição do mês estava impressa, razão por que só será publicada na edição de outubro. No mesmo dia, enviei ao professor uma resposta, que segue abaixo reproduzida. Kucinski - me vejo tentado a cravar aqui um "como de costume" - não quis saber de qualquer forma de diálogo. Não apenas disse que eu perdia meu tempo ("gastava o meu latim") como pediu que o sr. Luiz Carlos Mendonça de Barros, publisher da revista e do site Primeira Leitura, o procurasse em Brasília. Para tanto, forneceu em seu e-mail, pressuroso, endereço e telefone. É um homem de método.

Entendi, é certo, o recado! O sr. Kucinski avalia que um debate qualificado sobre questões jornalísticas e sobre o que ele considera um procedimento incorreto desta revista só pode ser feito com o "dono", que é, afinal, segundo os seus valores, quem manda. Coube-me responder-lhe que, por delegação, é claro! - e até que ela exista -, ele terá de tratar comigo, se quiser, de quaisquer assuntos que digam respeito a Primeira Leitura. Lamento que antigos porta-vozes da liberdade de imprensa se comportem, sim, hoje em dia, como stalinistas comissários do povo, advogando um tipo de censura que, se não pode ser legal, busca ser exercida por meio de mecanismos de pressão e do clamor de setores organizados da sociedade. Esse era o verdadeiro tema da matéria que ele repudia..

Do que não é mera peroração no texto de Kucinski, que fique a resposta claríssima: a editora Vera Magalhães procurou, sim, o professor para ouvi-lo sobre a matéria que se fazia. A resposta, que veio de seu gabinete, é um primor da singeleza autoritária: "O professor Bernardo Kucinski considera o tema já respondido e superado". Ou seja, o professor Bernardo Kucinski optou por não responder na suposição de que, em não respondendo, não haveria matéria. Mais ainda: temos em mãos os "mandamentos" do que ele considera bom jornalismo. E eles servem de elementos a instruir o texto de Vera Magalhães, que considero impecável.

De resto, esta não é a primeira nem será a última vez em que certa patrulha vai tentar jogar Primeira Leitura na vala dos "inimigos do povo" porque revista e site não se assustam em afrontar supostos consensos. Mas que fique bem claro: nós temos inteira consciência de que nossa receita editorial e o caminho que escolhemos no jornalismo suscitam tal "vigilância". Espero que os leitores de Observatório da Impresa tenham claro que não estou reclamando de absolutamente nada!!! Eu seria o último, no debate ideológico, a sair, feito um Bambi assustado, a gritar: "Fogo, fogo na floresta!". Reitero: debates como este, eu quero é mais. Segue a carta que enviei ao professor por ocasião de seu texto:

*

"Infelizmente, a carta do Professor Kucinski chegou à redação neste 1º de setembro. A edição de Primeira Leitura já está na gráfica, rodando. A carta - acompanhada, certamente, de minha resposta (que não esta) - será publicada, na íntegra, na edição de outubro da revista.

De imediato, cumpre destacar que esta direção de redação tem integral confiança no trabalho da editora Vera Magalhães e que não assistiu o referido texto, em nenhum momento, o propósito de desqualificar o professor Kucinski ou qualquer outra autoridade ou personalidade ligadas ao governo Lula.

Primeira Leitura, gostem ou não (e muitos, de fato, não gostam...), no que respeita ao exercício da opinião e da análise, faz crítica política, lida com idéias. Nem o professor Kucincki nem qualquer outra pessoa, no governo ou fora dele, seriam capazes de apontar uma única vez em que a revista ou o site enveredaram pela desqualificação pessoal de quem quer que seja. Vidas, atuações e reputações privadas não nos interessam. O norte, insistimos, das duas publicações é o paradigma republicano - da "res publica".

Estamos, caro professor Kucinski, todos nós, num debate que é de idéias, de práticas de governança, não num campeonato de reputações. A revista, que o sr. diz ter sido, alguma vez, "promissora", não mudou a sua atuação nem seu conjunto de convicções. Tampouco mudou sua prática jornalística.

Talvez tendamos a chamar de "promissor", emprestando ao termo um caráter virtuoso, aquilo com o que concordamos. E talvez passemos a ver "desvio", "erro" e até "má-consciência" naquilo que, de saída, repudiamos. Se a imprensa não está livre dessa fragilidade, tampouco estão os professores, os homens de Estado, os analistas da mídia. Daí que o razoável, o seguro, para todos nós, dentro e fora do governo, dentro e fora da mídia, seja o embate justo de idéias. Sua leitura da reportagem sugere algo como má-fé ou incompetência, ou ambas as coisas. Não é um bom caminho. Até porque, sobre a sua atuação, jamais diríamos algo semelhante. Ao contrário até. O sr. é muito competente e tem método. E ousamos discordar desse método.

O sr. evoca, ademais, acusações passadas, em que teria sido chamado de agente da Mossad ou coisa parecida. Não sei quem disse tal bobagem, mas quem o fez certamente se deixa seduzir por teorias conspiratórias, abusando do oportunismo sempre à mão ou de usar o anti-sionismo como biombo do anti-semitismo ou a acusação de prática de anti-semitismo quando o crítico está pouco interessado em debater questões culturais, raciais ou congêneres. Oportunismos opostos e combinados, convenhamos.

Não! Primeira Leitura está, creio eu, muito longe desse lamaçal regressivo, reacionário, que pouco concorre para tornar mais transparente o debate republicano. Acusar uma prática de "stalinista" nada tem de preconceituoso em sua origem. Pode, sim, haver erro. Isso nós podemos, devemos e vamos debater. O sr., ao que entendo, repudia a prática stalinista que a revista lhe imputou. Mas tal qualificação está muito longe de se confundir com preconceito de origem. E qualquer associação nesse sentido, por mais remota ou lateral que seja, deve, sim, ser repudiada com energia.

Esta revista e seu site não lidam com conspirações. A propósito: todas as vezes em que vemos, lemos e ouvimos autoridades da República a reconhecer aspectos virtuosos na ação dos golpistas do passado, os conspiradores vitoriosos, nossa reação tem sido de repúdio e de espanto. Todos nós cremos, caro professor, que o sr. obedeça apenas aos imperativos de sua consciência e aos do governo ao qual o sr. serve. E o faz no exercício pleno de suas prerrogativas, cabendo a nós relatar e concordar ou discordar.

Por ocasião da publicação de sua carta, na edição de outubro da revista, teremos a chance de voltar a esse tema, quando, então, pretendo entrar no mérito de sua contestação. Por ora, expresso o claro reconhecimento de que, com efeito, o que há de divergência entre Primeira Leitura e a sua prática política se assenta num contencioso de natureza absolutamente racional, objetiva, técnica até. Eu ousaria mesmo dizer que parte dos instrumentos e dos conceitos com os quais trabalha esta Primeira Leitura foram solidamente desenvolvidos no curso de Jornalismo da Universidade de São Paulo, onde, há muito, brilham as lentes do professor Bernardo Kucinski.

Finalmente, quase como um "PS", ocorre-me agora lembrar a última vez em que estivemos juntos, num debate para o qual fomos ambos convidados -- em companhia ainda do professor André Singer, hoje porta-voz da Presidência, e do sr. Plínio de Arruda Sampaio. O encontro se deu em Santo André, ainda durante a campanha eleitoral. O sr. fez uma severa análise da grande mídia. Via nela preconceito antipetista. Apontei, para uma platéia que era constituída apenas de petistas, o contrário. Afirmei que a mídia nunca fora tão simpática ao partido como então. Referindo-se a mim ao retomar a palavra, o sr. não hesitou: "Queria contestar aqui o que disse o companheiro da direita, o Reinaldo Azevedo..." E seguiu com a sua fala.

Ora, acusar-me "de direita" porque divirjo da análise triunfante numa mesa composta de petistas e diante de uma platéia de petistas foi uma facilidade, certamente, que não contribuiu para dourar a sua tradição de bom argumentador, de bom e educado polemista. A platéia já era sua. Mas nem por isso considerei que o sr. estava querendo me expulsar do mundo dos vivos.

Conheço, desde sempre, a sua militância política e não ignorava a mesa em que decidira me meter. Não me ocorreu "denunciar" a sua prática a ninguém; tampouco sugerir que estava a ser vítima de um complô contra mim de uma maioria, ainda que circunstancial. Em verdade, cá (ou lá...) com os meus botões, até lhe fui grato: estou entre os que consideram que tal vocabulário deva ser recuperado num país que parece sentir especial prazer em matar o debate ideológico, que parece considerar que tal confronto se confunde com falta de delicadeza ou coisa de mau gosto. Ainda que o sr. possa recusar a companhia, diria que somos homens de mesma natureza, para os quais esse debate faz, sim, todo o sentido. Lembro-me, e certamente os demais presentes também se lembram, que até brinquei: "Quando vocês chegarem ao poder, espero que sejam tolerantes comigo".

Em suma, caro professor, creio que o país precisa recuperar parte da tolerância perdida. Inclusive tolerância para a crítica, na convicção, que me parece a virtuosa, de que atacar uma idéia, uma prática, uma opção, não corresponde a atacar uma pessoa. Um abraço especial ao professor Kucinki e outro a todos que recebem uma cópia deste e-mail, que, insisto, escrevo em atenção ao missivista. Não é a resposta, que pretendo dar por ocasião da publicação do e-mail na revista.

Reinaldo Azevedo é Diretor de Redação do site e da revista Primeira Leitura

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