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LEITURAS DA MÍDIA
Contra o fogo-fátuo do modismo
Afonso Caramano (*)
O exercício da crítica exige certo distanciamento do objeto (de estudo) para visualizá-lo em sua totalidade – exercício esse do pensamento –, chave necessária para a abordagem histórica dos acontecimentos. Analisar o momento histórico, no instante mesmo em que se vivenciam os fatos, é tarefa dificílima, que o digam historiadores e pensadores, supostamente mais bem preparados e aparelhados.
A mídia – em seu segmento jornalístico – assume muitas vezes essa tarefa de crítica e análise da realidade, sem no entanto mergulhar profundamente na apuração dos acontecimentos, confundindo o trabalho de abarcar todas as informações (como se isso bastasse) com o de averiguação crítica acurada. Navegando-se na superficialidade das notícias, recai-se no achismo, no adivinhismo.
Sintomático dessa situação é o que se tem produzido (seria esse o termo adequado?) como notícia no primeiro mês do governo Lula. Decerto que a poeira da posse começa a assentar e o governo apenas inicia os primeiros passos (também envolvido numa atmosfera de otimismo e esperança). É um período de adaptação – inclusive para a mídia que, quando não se acautela na espera dos acontecimentos, reproduz os lugares-comuns de sempre ou atira para qualquer lado.
Com raras exceções (sempre as raras exceções) se encontra alguma análise mais perspicaz ou um comentário pertinente. O que se vê em abundância são os preconceitos enrustidos, o jornalismo tendencioso, o comportamento ético enviesado ou o extremo das análises sob o paradigma conceitual da racionalidade de mercado. Conclui-se: não há alternativas ao modelo vigente – pertencemos a um mundo globalizado e temos de nos adaptar a ele. Se novas idéias e propostas são discutidas em fóruns mundiais, pouca coisa reverbera com intensidade, senão uma torta certeira ou o aspecto espetaculoso, utópico dos eventos. E olha que imprensa é serviço público (por excelência) – como diz o Observatório.
Vicissitudes e enganos
Aliás basta uma visita às páginas da edição nº 209 deste Observatório para constatar como se tem comportado a nossa imprensa. Avaliá-la é tarefa de todos – e o exercício crítico é indispensável para o entendimento de nossa realidade – devendo, portanto, estar acima de interesses privados (o que é muito difícil). Longe de adesismos ou de ressentimentos e rancores – o momento exige bom senso e pés no chão (além, é claro, de capacidade crítica).
Por enquanto o novo governo sinaliza novos caminhos – cumprindo no entanto as exigências da velha cartilha nos rumos da economia. Afinal, não podemos inspirar desconfiança ou indisposição no mercado. Somente o tempo – o tempo só – dirá de nossos acertos e erros.
A mídia – e a imprensa em particular – não está acima dos fatos e se acha atada a circunstâncias díspares que impedem seu exercício pleno. Deve, também, preparar-se, capacitar-se para fugir das vicissitudes e enganos, da avaliação superficial e fácil, do fogo-fátuo dos modismos e da inteligência afetada e arrogante.
(*) Funcionário público municipal em Jaú, SP
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