MÁRIO COVAS
Folha de S. Paulo

"Mário Covas", Editorial, copyright Folha de S. Paulo, 7/03/01

"Nestes tempos de profunda e tantas vezes justificada desconfiança em relação aos políticos, Mário Covas destacou-se como uma das mais notáveis exceções. Ao longo de uma carreira que se estendeu por quatro décadas, marcada pelos valores da coerência doutrinária e da lisura administrativa, o governador de São Paulo soube restituir à política o seu caráter de missão pública.

É cedo para que se forme um juízo histórico em relação às suas duas passagens por cargos executivos, primeiro como prefeito nomeado da cidade de São Paulo e depois como governador eleito e reeleito do Estado. O que está fora de controvérsia é que se conduziu com senso de equilíbrio, sobriedade e espírito democrático no exercício dessas funções. Se não lega, como governador, uma obra administrativa de impacto, conseguiu sanear as depauperadas finanças do Estado, combalidas por gestões irresponsáveis.

Mário Covas teve papel relevante na resistência à marcha do país para o arbítrio, caracterizado pelo Ato Institucional nº 5, de 1968, que lhe cassou o mandato de deputado federal e suspendeu seus direitos políticos. De volta à atividade pública, dez anos depois, deu contribuição decisiva à organização do MDB/PMDB, procurando assegurar ao partido o perfil de centro-esquerda que ele manteve até se descaracterizar.

Fez-se então um dos fundadores do PSDB, sempre empenhado na proposta de erigir uma agremiação que não fosse social-democrata apenas no nome. Atuou como ponto de apoio para muitos que viam no governo Fernando Henrique Cardoso uma atitude concessiva demais em relação às pressões do mercado e certo pendor para o fundamentalismo monetarista.

Referência ética reconhecida por adversários à direita e à esquerda, Covas sai de cena num momento em que a moralidade pública ocupa o centro das atenções e em que são cobrados os compromissos de seu partido com o enfrentamento da chamada dívida social. Que seu exemplo, mais do que reverenciado, possa frutificar entre os políticos com verdadeira vocação pública."



Ivan Angelo

"A tevê faz seu papel ao mostrar a diferença", copyright Jornal da Tarde, 8/03/01

"Quando morre um homem como Mário Covas, o que a mídia pode fazer de mais importante, para o grande público, é marcar a diferença entre ele e os que levam o povo a associar os políticos a alguma safadeza. Covas fez política sem ter sido tortuoso, melífluo, intrigante, escorregadio, áulico, aproveitador, sorrateiro, dissimulado, corrupto. Essa diferença as redes de televisão souberam ressaltar, por meio de depoimentos de jornalistas, professores, cientistas políticos, intelectuais, empresários, personalidades, populares e, curiosamente, de políticos. Todos destacaram as qualidades morais de Covas. Um exemplo que poucos políticos procuram seguir.

De um modo geral, as emissoras fizeram um serviço de conteúdo correto.

Tecnicamente, como acontece em toda cobertura de evento imprevisto, houve falhas das equipes de televisão no dia da morte. Nada importantes. Os esforços para realizar bem o trabalho, a emoção sem piguices e a avaliação exata da perda nacional sobrepuseram-se a eventuais falhas desde as primeiras horas da manhã de terça-feira. A Globo, que entra mais cedo no jornalismo, abriu o dia com a agilidade de sempre, nos telejornais local e nacional: noticiário de qualidade, boa pesquisa, bom perfil do morto. A Record, ainda com problemas de entrosamento no Fala Brasil, deu bom noticiário e repercussões nacionais. A Band também, que não se esqueceu do lado do humor de Covas, nas brigas com Paulo Maluf. A Globo manteve-se atenta ao longo da manhã, com Chico Pinheiro interrompendo a programação infantil e ancorando a cobertura. A Band ficou na cobertura praticamente o dia inteiro, com entrevistas e pesquisas, mas exagerou na repetição exaustiva do mesmo material de arquivo, ou seja, as brigas com Maluf, a história da borboleta, o choro. Foi excelente, porque sóbria, a cobertura do canal pago Globo News, durante todo o dia.

Nos noticiários da noite de terça e da manhã de quarta-feira, até o momento do sepultamento, as emissoras de tradição jornalística nivelaram-se. A Band, como sempre, manteve por mais tempo o assunto na tela, mas, no fundamental, nenhuma tinha muita coisa mais do que a outra, e o tom era o mesmo. A mensagem correta que passaram também era a mesma: perdemos um político exemplar e insubstituível no quadro atual.

Tem graça?

Informa-se que volta a Escolinha do Professor Raimundo. Todo dia, de segunda a sexta, no fim da tarde. E dizem que voltam os personagens Canabrava, de Tom Cavalcante, e Dona Cacilda, de Claudia Jimenez. Cacilda! Incapaz de ir para a frente, o humor da tevê vai para trás.

Comissões

Publicitários organizam-se para lutar contra projetos que visam a restringir a propaganda de alguns produtos na televisão. Entre eles, bebidas alcoólicas, ‘terapias’ alternativas, alguns pós-vitaminados, pílulas e alimentos aditivados. Sabemos o que são: vitaminados inúteis que induzem crédulas mulheres a combater celulites, aparelhinhos ‘maravilhosos’ que ‘fazem’ corpos perfeitos etc. As drogas alcoólicas fazem tanto mal quanto outras, chamadas pesadas, e deveriam sofrer igual restrição na indução ao consumo. Há, é verdade, projetos ridiculamente moralizadores, como aquele que tenta restringir a propaganda de calcinhas e sutiãs na televisão. Mas muitos, a maioria, visam a proteger os ingênuos contra os enganadores.

Publicitários que pretendem impedir a aprovação desses projetos, chamando-os de ‘censura’, estão mais de olho nas comissões e participações pela veiculação do que no interesse do público."



Clóvis Rossi

"Carta ao Mário", copyright Folha de S. Paulo, 7/03/01

"Meu caro governador, parece que está todo o mundo lamentando a sua morte. Eu, se fosse você, poria um pé atrás, não em relação aos mortais comuns, mas em relação aos políticos, essa estranha raça a que você pertenceu com orgulho.

Claro que muita gente sentiu uma tremenda dor no peito durante toda a sua agonia. A família, em primeiro lugar, inclusive porque o ‘covismo’ começava em casa. Já é um elogio, coisa que não costumo fazer. Nem sempre os familiares dos políticos admiram tão sinceramente o chefe.

Ousaria até dizer que a maioria dos políticos festeja a sua partida. O Lula disse, ao visitá-lo, que o ‘bom caratismo’ com que você fazia política, se servisse de exemplo, mudaria a política brasileira (‘bom caratismo’ não é vernacular, mas é eloquente. A propósito: acho que o Lula foi, sim, sincero, porque já ouvi dele elogios a você sem que houvesse por perto câmaras e gravadores ).

Aí é que está: tem pouca gente realmente disposta a fazer política com ‘bom caratismo’. Política, para você, era uma coisa até lúdica. Nada mais divertido do que subir num palanque, pegar um microfone e botar a boca no mundo, não é mesmo?

Ou encostar o umbigo no balcão do boteco e jogar conversa fora com eleitores, mesmo do adversário. Para você, campanha eleitoral era também (ou até principalmente) um esporte. Ganhar ou perder era circunstancial, não uma questão de vida e morte.

Melhor ainda: ganhar não era uma maneira de ter mais poder, ou de manter o poder, ou de enriquecer. Para você, era a maneira de tentar fazer a coisa certa. Se fez ou não, se fez muito ou se fez pouco, é parte da condição humana. A intenção sempre era a melhor possível, o que até os adversários reconhecem.

De quantos outros políticos dá para dizer o mesmo hoje em dia? Não, não precisa responder. Entendo o seu silêncio. Pena que seja para sempre."



Janio de Freitas

"Duas palavras", copyright Folha de S. Paulo, 7/03/01

"Mário Covas teve a justa certeza de que fazia o melhor como governador (o que não quer dizer que fosse ou se achasse perfeito). Mas não lhe faltou, também, a consciência agressiva de que isso não lhe era reconhecido. Quando começou os enfrentamentos com quem o desacatava nas ruas, era o seu inconformismo que extravasava, na força de uma angústia desesperada e já incapaz de se conter no sentimento de opressão que a gerava: assumia formas físicas.

Ao cruzar o umbral a caminho do fim prematuro, iniciou-se o ritual brasileiro das louvações que, negadas aos vivos, cercam os moribundos e os mortos, e dizem menos destes que da sinceridade ou da hipocrisia dos louvadores, todos tão amigos, tão companheiros, tão sentidos pela perda irreparável.

A vida foi injusta com Mário Covas. Sua destinação lógica e natural estava acima da altura a que os fatos lhe permitiram chegar. Foi um dos raros casos de parlamentar cuja cassação, na prática, durou mais de dez anos -e não por ter defendido, como andam publicando, um dos discursinhos mais bobamente juvenis já feitos na Câmara, mas por liderar a recusa do Congresso a ajoelhar-se aos militares. No seu empenho, com Franco Montoro, para constituir um partido digno dessa condição, sob a doutrina autêntica da social-democracia, encontrou mais deslealdades do que o sonho poderia suportar. E nem se reavive o sofrimento, com Lila, pela perda de uma filha.

Mário Covas faltará como consciência crítica da política brasileira. Mário Covas faltará como governador. Mas Mário Covas fará falta, sobretudo, como pessoa -caráter, destemor, firmeza, generosidade, solidariedade. Em duas palavras: grandeza humana."



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