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MÁRIO COVAS
O Estado de S. Paulo
"Que o seu exemplo prospere", Editorial, copyright O Estado de S. Paulo, 7/03/01
"O Brasil tem políticos honestos, que não desviam dinheiro público em benefício próprio, de suas famílias ou dos apaniguados. Tem também políticos coerentes, que acreditam que os seus atos devem corresponder aos seus discursos, apesar do preço às vezes elevado a pagar por essa coerência. O Brasil tem ainda políticos sinceros, propensos por temperamento e formação a dizer o que pensam e avessos à prática seguida pela quase totalidade dos colegas de ofício, de usar as palavras para esconder os pensamentos. Se, isoladamente, essas características já são pouco usuais - para dizer o menos - no universo da política nacional, muitíssimo mais raro é encontrá-las reunidas numa mesma figura pública. Mário Covas era um desses casos raros - e essa incomum conjugação de honestidade, coerência e franqueza decerto foi o traço singular de sua trajetória, a marca indelével do político e administrador que o País acaba de perder.
Em recente artigo no Estado, o escritor cubano Carlos Alberto Montaner, a propósito da má conduta do então presidente americano Bill Clinton no ocaso de seu mandato, comentou que os governantes que passam à História nem sempre foram pessoas excepcionais nem necessariamente detentoras de uma bagagem intelectual excepcional. Tinham, em comum, porém, ‘uma visão moral e um compromisso pessoal autêntico com a missão empreendida’. A observação aplica-se como uma luva ao caso do ex-governador de São Paulo. Pois essa visão e a consciência do imperativo de tal compromisso - e não eventuais predicados de estadista - foram os alicerces sobre os quais Mário Covas construiu a sua biografia. Foram também temperados pela coragem e o desassombro, os fundamentos de seu peculiar perfil entre os protagonistas de maior expressão da política brasileira contemporânea.
Durante bom número de anos, este jornal divergiu das posições ideológicas de Covas, marcadas então por um forte vezo estatizante, e criticou com veemência o seu equivocado esforço, como senador da República - ao lado do correligionário e parceiro de idéias Fernando Henrique Cardoso -, para que a Constituição de 1988 viesse, afinal, a ser esse estorvo ao País que aí está.
Em momento algum, porém, deixamos de admirar a sua absoluta autenticidade e a franqueza às vezes chocante com que costumava defender os seus pontos de vista. De todo modo, a conhecida teimosia de Covas não lhe toldou a lucidez, nem lhe turvou o senso de realidade. Posto diante de uma situação concreta - na condição de herdeiro da massa falida a que o quercismo havia reduzido a administração pública paulista -, o Covas governador não hesitou em contrariar o Covas parlamentar de outros tempos, desencadeando um amplo e bem-sucedido processo de privatização dos setores elétrico e rodoviário estadual, além de demitir funcionários e extinguir cargos na casa das dezenas de milhares.
Essa metamorfose, ao lado da implantação, sem vacilações, de uma política de austeridade como possivelmente nunca antes se viu não apenas em São Paulo, mas em todo o Brasil, foi o que garantiu o saneamento financeiro do Estado e a formidável recuperação de sua capacidade de investimento - para não falar no restabelecimento da ética na máquina de governo. Não menos admirável do que a honestidade e a coerência com que o governador convertia em atos as suas novas convicções, sem receio de contrariar interesses enquistados no aparelho administrativo, foi a franqueza até rude, como de seu feitio, com1 que justificava essa sua política de escasso apelo ou compreensão popular.
Diante da dificuldade do grande público em se dar conta da revolução invisível em curso no Palácio dos Bandeirantes, Covas por pouco não foi reeleito. Mesmo porque, apesar da genuína satisfação pessoal que experimentava no contato com o povo, ele não se distinguia pelo brilho da retórica - o que não é demérito neste país onde, também no perene carnaval da política, o que mais brilha é apenas a lantejoula que, em geral, mal cobre a nudez moral -, mas pela substância de seu discurso sempre coerente com sua atuação. Seu proselitismo era exercido com atos, mais do que com palavras.
Esse padrão foi seguido à risca ao longo de sua enfermidade, até o último momento de lucidez. Hoje, com o reconhecimento público tanto de sua postura moral quanto de sua competência administrativa, ele seria o candidato natural das forças situacionistas à sucessão do presidente Fernando Henrique, com enormes possibilidades de vitória - se o destino não tivesse decidido o contrário. Que o seu exemplo prospere!"
Márcio Moreira Alves
"Adeus, amigo", copyright O Globo, 7/03/01
"Amigo é coisa para se guardar do lado esquerdo do peito, ensina Milton Nascimento. Mas não só. Amigo é aquele com quem se reparte o pão e, por isso, o chamamos de companheiro. É em quem depositamos tanta confiança que lhe confiamos a própria vida em caso de perigo. É com quem dividimos nossas confidências e com quem repartimos nossos sonhos. Amigo é tesouro raro e cada um de nós os tem muito poucos.
Acumulamos, na vida política, uma multidão de conhecidos, pessoas de quem sabemos o nome e pouco mais. Quando os conhecidos se cruzam, trocam um ‘oi,tudo bem?’ e seguem em frente, sem o menor interesse na resposta. Quando muito, nas relações entre os políticos e os repórteres, cria-se uma certa confiança, que permite ao político contar detalhes de negociações em andamento ou de conversas com terceiros na certeza de que suas palavras não serão deturpadas caso o repórter as publique. Essa relação de confiança é a base do exercício da profissão, de um e do outro.
Minha relação com Mário Covas era de amigo, não de mero conhecido. Portanto, não esperem que escreva sobre a sua morte com distanciamento e frieza. Escrevo hoje com o coração sangrando, por mim, que perco um companheiro de mais de 30 anos, e pelo Brasil, que perde o mais íntegro, corajoso e competente governante da sua geração.
As primeiras lutas que travamos juntos foram na Câmara, quando Mário era o líder do MDB, na oposição contra o regime militar, e eu, integrante do grupo de jovens deputados, eleitos pelo voto de opinião das grandes cidades. Os ministros militares da época, há meses decididos a eliminar o que restava de garantias democráticas, escolheram um pequeno discurso que pronunciei da tribuna como pretexto para fechar o Congresso e proclamar o AI-5. Antecedeu esse ato de força um processo que durou varias semanas, quando se discutiu se a Câmara deveria ou não permitir que eu fosse processado. Mário, que era engenheiro, estudou a matéria jurídica e, no dia da decisão, pronunciou a mais substanciosa defesa do meu mandato e da inviolabilidade da tribuna parlamentar. Essa posição firme custou-lhe dez anos de cassação dos direitos políticos.
Viemos a nos reencontrar quando voltei de 11 anos de exílio, depois da anistia. Mário e Lila me acolheram no apartamento ao lado do clube Pinheiros, que haviam conseguido comprar com os salários que Mário recebera ao longo de dez anos como diretor financeiro de duas empresas de engenharia. Começamos nesta época a discutir governabilidade e inovações na administração pública. Pouco depois fiz uma longa reportagem sobre a administração do município de Lages, em Santa Catarina, onde o prefeito Dirceu Carneiro implantara o primeiro orçamento participativo do Brasil, além de uma gestão preocupada com a conservação da natureza. Mário leu o livrinho e agora, em janeiro, quando Lila me chamou para fazer uma entrevista autobiográfica, que acabou não sendo possível, Mário me pediu:
- Gostaria que você examinasse o meu governo, que tem muitas inovações, e sobre ele escrevesse um livro como aquele de Lages.
Não escrevi o livro que queria, mas dei um mergulho em alguns setores do governo paulista e percebi que o esforço desenvolvido fora, realmente, impressionante. O maior deles, base de sustentação de tudo o mais, foi o ajuste fiscal, conseguido com imaginação e mão de ferro, pela parceria entre o governador e o secretário da Fazenda, Yoshiaki Nakano. Nakano é um economista modesto, mas de uma eficiência e uma inventividade raras de se encontrar no serviço público. Pegaram o estado com um déficit de 25% e, no terceiro ano, o conseguiram zerar, fazendo cortes dolorosos e aumentando a receita por meio da informatização da secretaria. Quando, há algumas semanas, Nakano pediu para ser substituído pelo seu subsecretário Fernando Dell'Aqua, as lágrimas marejaram os olhos de Mário Covas na despedida, um de seus últimos atos públicos antes de passar o governo a Geraldo Alckmin.
Mário reiniciou sua carreira política conseguindo uma votação recorde para deputado federal. Tornou-se depois senador e líder da frente comandada pelo PSDB na Constituinte. Em oposição a Fernando Collor, impediu que seu partido aceitasse ministérios, quando o presidente tentou dar um verniz de moralidade ao seu governo. Sua intolerância para com pilantras salvou a carreira política de Fernando Henrique. Se tivesse sido ministro de Collor não teria sido ministro de Itamar, logo, não concorreria à presidência da República.
Mário Covas muito se orgulhava das obras que conseguiu fazer. Dizia que São Paulo investe hoje mais que o governo federal e que queria inaugurar pessoalmente as obras. No entanto, acredito que será lembrado não pelo que realizou, mas pelos exemplos de integridade e coragem que deixa.
Adeus, amigo. Despeço-me com saudade e com uma imensa tristeza pelo vazio que sinto."
Folha de S. Paulo
"Estrangeiros avaliam impacto da morte", copyright Folha de S. Paulo, 8/03/01
"O jornal ‘The New York Times’ de ontem publicou um perfil do governador Mário Covas, morto anteontem. Segundo o ‘Times’, Covas ‘ganhou a reputação de administrador honesto e eficiente, em um Estado antes desafiado pela corrupção’.
O ‘Financial Times’, de Londres, publicou reportagem com o título ‘Cardoso sofre golpe com morte de aliado’. Para o jornal, o fim da ‘admirada luta de Covas contra o câncer’, somado às disputas na base governista, pode tornar ‘difícil para o presidente restaurar a ordem no governo nos últimos dois anos de mandato’.
‘Em um país onde os políticos tendem a esconder a seriedade de suas doenças’, diz o jornal, ‘a corajosa e honesta abordagem de Covas a seu câncer deu a ele a simpatia de todo o espectro político’.
O ‘Wall Street Journal’ publicou uma nota curta, informando que Covas morreu ‘na segunda metade de seu segundo mandato como governador do coração industrial do Brasil, que responde por cerca de 40% do produto interno bruto do país’.
Para o ‘Clarín’, de Buenos Aires, a morte ‘deixa um vazio na vida política do Brasil’. Ao jornal, o líder petista Luis Inácio Lula da Silva declarou: ‘se todo político brasileiro tivesse o carisma de Covas, a política não teria a quantidade de bandidos que tem’.
‘Comoção no Brasil: morte de Covas deixa Cardoso sem seu melhor aliado’, dizia o título da reportagem do também argentino ‘La Nación’. Segundo o jornal, ‘as manifestações populares de dor invadiram todo o país’. O jornal afirma que Covas ‘era respeitado por todas as facções políticas, tanto por sua anedótica teimosia quando por seu passado sabidamente honesto’.
Ele lembra que sempre que passava por uma sessão de quimioterapia pela manhã, o governador voltava a trabalhar normalmente já pela tarde. A reação de FHC à morte do amigo também foi registrada. ‘Algumas pessoas próximas a Cardoso disseram que pela primeira vez viram o chefe de Estado com lágrimas nos olhos.’
O título da reportagem publicada pelo jornal uruguaio ‘El País’ foi ‘Brasil de luto: morreu o ‘delfim’ de Cardoso’.
‘O fato de ter partilhado com Fernando Henrique as principais lutas políticas em que se envolveu não tirou a Covas a independência que sempre caracterizou a sua atuação política’, diz o jornal ‘Público’, de Portugal.
O também português ‘Diário de Notícias’ relata que Covas e FHC ‘eram aliados, embora Covas criticasse a a abertura da economia ao capital estrangeiro’.
Os jornais ‘St. Louis Post’, ‘Boston Globe’, ‘Salt Lake Tribune’, ‘Atlanta Journal-Constitution’, ‘Las Vegas Sun’, ‘The Intelligencer’ e ‘Chicago Sun-Sentinel’, dos EUA, publicaram um obituário produzido pela agência Associated Press."
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