JORNAL DE DEBATES

TURMA DA MÔNICA
Vá ler seus quadrinhos, pombas

Cláudio Weber Abramo (*)

Mais uma vez, demonstra-se que, quanto mais encapsulada uma subcultura e quanto menos relevante é o assunto em torno do qual ela gira, mais vocais se tornam seus integrantes quando alguém se refere a seu tema predileto.

Por motivos possivelmente sócio-psicológicos que não estou disposto a investigar, mais ou menos a cada dois anos aventuro-me a escrever sobre alguma coisa irrelevante, como cinema nacional, corridas de Fórmula 1 e outros. Por que escrevo? Não é, decerto, porque o cachorro mordeu a mulher, mas porque a mulher mordeu o cachorro. Quer dizer, escrevo – alguns poderão aduzir que masoquisticamente – para exprimir opinião contrária à da corrente.

O curioso é que essas são as únicas ocasiões em que alguma coisa que escrevo causa alguma repercussão. Antes que os mais açodados concluam que isso demonstraria a irrelevância do que escrevo, informo que, embora o que eu escrevo possa perfeitamente ser irrelevante, observo a mesma relação de proporcionalidade inversa em outros escrevinhadores.

Em ocasiões passadas, a relação entre manifestações indignadas e expressões de concordância girou em torno de 3 para 2: para cada 3 xingamentos, 2 apoios.

Este caso dos quadrinhos e cartuns produziu um resultado diferente: com exceção do que escreveu Spacca neste espaço, só recebi xingamentos. O tom geral foi: "ô meu, cê num entende nada de quadrinhos".

Pois é. Só quem "entende de quadrinhos", ao que parece uma classe cujos porta-vozes formam exclusivamente entre aqueles que não se incomodam com o grosso e com o feio, pode emitir opiniões sobre quadrinhos. O que eles dizem é o seguinte: o leitor de jornal e os pais da criança que lê gibi precisam consumir todo aquele lixo sem tugir nem mugir, porque assim desejam aqueles que "entendem de quadrinhos".

Não, dirão eles, não é bem assim. O consumidor pode exercer seu "poder de mercado" e deixar de comprar o jornal ou gibi. Perfeito. Deixar de comprar, é permitido. Reclamar, não.

Isso, na verdade, revela um dos motivos pelos quais brasileiro costuma ser tão subserviente. Um certo anúncio é uma ofensa? Mas o que você sabe de publicidade? Música axé é uma droga? Como assim? Quando foi que você estudou baianuros? Caetano Veloso é um chatonildo, Dorival Caimmy faz dormir? Quais são suas credenciais para dizer isso?

A questão é que a encapsulação dos assuntos vai muito mais longe nas mentes das pessoas. Assim: quem é você, leitor eventual, para julgar se um ato administrativo da prefeitura é lesivo ou não ao interesse público? Você não entende nada de administração pública! Quem é você para opinar sobre a privatização das telefônicas, das hidrelétricas, do ar que você respira? Quem é você para sequer pensar sobre os critérios de fixação de taxas de juros, de câmbio, sobre portarias ministeriais a respeito do mercado financeiro, sobre tarifas públicas, sobre qualquer coisa? Vá ler seus quadrinhos e não encha, pombas!

(*) Secretário-geral da ONG Transparência Brasil <http://www.transparencia.org.br>; e-mail <cwabramo@uol.com.br>

 

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