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NOTAS SOBRE NOTÍCIAS
Notícias do Planalto
virou tititi de botequim
Alberto Dines
Três meses depois do espetacular lançamento de Notícias do Planalto – a imprensa e Fernando Collor, de Mario Sergio Conti, jornais e jornalistas mostram mais uma vez a velha incapacidade em perseverar. Cansaram. E a culpada não pode ser a modorra de verão. Está evidente que não havia disposição para aproveitar a magnífica oportunidade de manter o assunto aceso. Muito menos de convertê-lo numa espécie de CPI da Mídia, como propôs o Diretor de Redação da Folha de S.Paulo, Otavio Frias Filho [veja remissão abaixo].
A grande bulha virou bolha: tititi de botequim. Em matéria de desdobramentos só houve fôlego e ânimo para vendetas entre grupos, acerto de contas entre ex-parceiros agora figadais adversários, friforó de corriolas. Único trabalho investigativo foi o do jornalista Fernando de Barros Silva, no caderno Ilustrada da Folha (26/11/99), onde comprovou-se a culpa explícita do patronato nas dúbias relações com o poder collorido. O que não chega a ser novidade – os altos executivos das redações foram contratados para dar continuidade às regras do jogo [remissões abaixo].
Os principais vícios da mídia brasileira continuam encobertos. Parte deles pode ser consignada aos novos padrões de "jornalismo de mercado". Mas o grosso das disfunções continua instalado nos altos nichos do poder jornalístico e manifesta-se através do mandonismo, capangagem, tietagem e, em alguns casos, esquemas ideológicos. As exceções só confirmam as regras:
- Ainda funcionam as "listas negras". Em grandes veículos jornalísticos há listas de nomes que não podem ser mencionados. Mesmo quando são notícia. O ressentimento vigora em todos os escalões da cadeia de comando, porém é maior nas redações. Autores que reclamam, entrevistados que "criam caso" e desafetos que esperneiam condenam-se ao eterno ostracismo.
- Ainda impera a lei dos privilégios: aos amigos tudo. As contratações nas redações seguem um sistema de rodízio que vai levando os mesmos grupos aos diferentes veículos. A concentração da grande mídia em São Paulo agrava a situação.
- Ainda predomina o espírito tribal na fabricação de celebridades. O "circuito de sucesso" teve origem na Veja nos anos 80 e espraiou-se pela mídia por intermédio dos mesmos agentes. Converteu-se em modelo [veja O Circo da Notícia, nesta edição].
- Ainda não foram devidamente expostas e flagradas as conexões do senador Antonio Carlos Magalhães com a mídia. Caso paradigmático, exemplar, talvez único, precisa ser devassado. Não foi e não será – mexe com patrões e empregados. Gente fina e outra nem tanto. Reacionários e progressistas.
- Ainda não foi esmiuçada a relação do general Golbery do Couto e Silva, durante o governo Geisel, com um grupo de jornalistas que deram cobertura a todas as suas jogadas. Inclusive aquela que pretendia estraçalhar o MDB por meio da celebração de Lula como líder sindical livre da máquina do "Partidão" (PCB). A entourage jornalística de Golbery justificava-se e ainda se justifica explicando que estavam a serviço da abertura e da proteção de presos políticos. Estavam apenas a serviço do maquiavelismo de Golbery, ponto.
- Ainda não foi devidamente escancarada nossa história política recente (pré, durante e pós-regime militar). Historiadores não ousam confrontar a máquina montada pelos "donos da história" encastelados em postos-chave nas redações, capazes de destroçar qualquer trabalho mais ousado. A sangrenta disputa entre trotskistas e bolcheviques, que começou nos anos 30 e estendeu-se por 40 anos, é apenas um pedaço do que não interessa contar.
- Em matéria de promiscuidade com o poder econômico, continuam desafiando a curiosidade jornalística os casos Delfin-mídia carioca, Banespa-mídia paulista e Banco Nacional-mídia mineira-carioca-paulista.
O livro de Mario Sergio Conti está aí para ser refutado, condenado e continuado. De qualquer forma, vale a pena examinar o que foi publicado até o fim de dezembro de 1999 [veja abaixo].
ASPAS
Mino Carta
"(...) Um livro recém-lançado e as reações que provoca representam o perfeito exemplo de como a elite nativa pretende levar a vida e escrever sua história, sempre e sempre agindo em seu exclusivo benefício e assaltando a verdade factual. Aquela que, falseada ou omitida, soçobra para sempre como barco furado, conforme a lição de Hannah Arendt, autora de um memorável ensaio intitulado Entre o Passado e o Futuro.
O livro: Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti, jornalista, ex-diretor de Veja. As reações: de toda a mídia, fluviais e, freqüentemente, entusiásticas. A obra se arvora a pintar o retrato sem retoques das relações entre a mídia e Fernando Collor, desde a candidatura até a queda da Presidência. Conti fez cento e poucas entrevistas, e entre outras, falou com o abaixo-assinado. Nem por isso, fatos que me envolvem – e alguns nada têm a ver com o período collorido – são relatados de forma correta. Fica claro que o autor procurou outras fontes. Estabelecidas, porém, eventuais contradições, teria de me ouvir novamente, ou, então, publicar na íntegra as passagens conflitantes. Mas não é de se excluir que Conti esteja vivendo ainda o aprendizado do seu ofício. De todo modo, isso é o de menos, até porque no livro não me saio mal e a foto me favorece.
O ex-diretor de Veja conhece a fundo é, contudo, a arte de bajular patrões e favorecer os amigos, que pratica confiando na má memória dos leitores e na hipocrisia e servilismo de muitos entre seus colegas. Um resumo da ópera encenada por Conti conduz os desavisados à seguinte conclusão: quem fez Collor não foi a mídia e seus donos, e sim um punhado de jornalistas, manipulo exíguo, conquanto aguerrido na sua determinação de enganar o Brasil e, eventualmente, de encher os bolsos.
Profissionais levianos ou corruptos existem em todos os domínios e atividades, e Conti terá de provar que o são os vilões do livro. No mais, ele tapa os ouvidos à lição de Hannah Arendt, falseia ou omite a verdade factual. Quem esqueceu, consulte os arquivos: a mídia em bloco apoiou a candidatura Collor, a começar pela Globo e por Veja (inventora da expressão Caçador de Marajás), com as solitárias exceções de IstoÉ, à qual então prestavam seus serviços (digo com certo orgulho) Bob Fernandes, atual redator-chefe de CartaCapital, e o abaixo-assinado e, por algum tempo, da Folha de S. Paulo. Temiam-se Lula e Brizola, no início da campanha, e mais ainda o primeiro no segunto turno, e os donos do poder e da mídia viram em Collor o antídoto, o salvador da pátria, como o seria Fernando Henrique em 1994 e na reeleição. Finalmente eleito, o caçador de marajás continuou se movendo entre os aplausos dos órgãos de comunicação (Globo e a Veja, já dirigida por Mario Sergio Conti, na comissão de frente), contra a resistência de umas poucas vozes isoladas e da crítica consistente de IstoÉ. E a IstoÉ caberia trazer a evidência fatal da ligação entre a Casa da Dinda e PC Farias, que derrubou Collor. Sem a súbita, inesperada presença em cena do motorista Eriberto, o homem das Alagoas teria cumprido tranqüilamente o seu mandato, até porque seu principal acusador, o irmão Pedro, entrevistado pela Veja de Conti, abria os braços desconsolado ao confessar a falta de provas.
Leia, nas quatro páginas seguintes, as magistrais intervenções de Emiliano José e Paulo Henrique Amorim a respeito de Notícias do Planalto. Emiliano, professor de Jornalismo na Universidade da Bahia, em 1996 escreveu um livro sobre o mesmo período focalizado por Conti. Fez poucas entrevistas, mas freqüentou os arquivos para confrontar os comportamentos de Veja e IstoÉ. Respeitou a verdade factual ao ler e produzir as próprias revistas. Paulo Henrique fala do famoso debate final Collor-Lula, manipulado por ordem do dr. Roberto Marinho, segundo a versão conhecida até ontem, amavelmente reformulada a favor do dono da Globo em Notícias do Planalto.
O ex-diretor de Veja presta-se ao serviço de escrever a história para os seus patrões passados e futuros. Quem sabe o novo século comece bem para ele. Também se esmera para enaltecer sua patota em detrimento de outra. É uma guerra de bastidores que não dispensa golpes mafiosos. Quanto aos profissionais que apenas cogitaram dos interesses dos leitores, trata-se de minimizar o trabalho deles. Em compensação, Conti se empenha em maquiar as ambigüidades, as incoerências, as falsidades de sua Veja, e de lhe esconder o fracasso no lance final, embora (ou naturalmente?) premiado com o Esso de Jornalismo. Fosse um Pulitzer, caberia a IstoÉ. Mas o Pulitzer não é proporcionado por uma multinacional e não é conferido em acordos entre patotas.
Notícias do Planalto e as reações que provoca não são bom auspício para o futuro. Mostram que larga fatia dos comunicadores nativos e seus patrões querem é estacionar no passado."
"De Seattle ao Planalto", editorial, copyright CartaCapital nº 113, 22/12/99
Emiliano José
"É curioso como o assunto é recorrente. Sinal, quem sabe, de um certo mal-estar. Sinal de que a catarse ainda não foi feita, de que o espectro continua a povoar as mentes de alguns dos gatekeepers do período. O debate ganhou corpo novamente com o Notícias do Planalto, de Mario Sergio Conti, que leva o subtítulo A Imprensa e Fernando Collor. Desta relação tratei de modo relativamente exaustivo no livro Imprensa e Poder: ligações perigosas (São Paulo: Hucitec; Salvador; Eduíba, 1996) recebido com o mais estrepitoso e respeitoso silêncio, salvo as exceções do Correio Braziliense, da CartaCapital e do jornalista Juca Kfouri.
Se é para surfar, voltemos à onda. Collor, sabe-se, claro, não é produto apenas da mídia. Mas é também um produto dela. Não apenas da Rede Globo, este um conglomerado tão íntimo do poder político após 1964, que dispensa esforço maior de demonstração. Produto também do restante da imprensa brasileira, que se dedicou de forma disciplinada, determinada, a colaborar com ‘o caçador de marajás’ (a revista Veja que o diga), para que ele chegasse aonde chegou. Qualquer pretensão à inocência ou a uma atitude puramente jornalística pode soar como insulto à inteligência dos cidadãos comuns.
A imprensa no brasil, pós-64, primeiro, estabeleceu uma relação complacente com a ditadura. À altura do governo Geisel, faz um jogo combinado para produzir uma transição sem rupturas, que nos levou à singular situação atual: vários dos mesmos e consagrados nomes dos tempos dos militares circulam com desenvoltura e destaque não só na vida política como na mídia.
Após Sarney, procura um nome que satisfizesse seus propósitos políticos. É, estamos falando de projetos políticos dos grandes conglomerados empresariais da mídia. Antes mesmo que o poder político, stricto sensu, pensasse no neoliberalismo, a imprensa brasileira já se arvorava a defendê-lo. Cumprirá um papel essencial na montagem dessa pobre, mas avassaladora hegemonia neoliberal que permeia as nossas redações.
Collor era a salvação da lavoura. E a construção dele começou cedo. A revista Veja, sempre destacada pelo fato de ser a de maior circulação, foi vanguarda nessa construção e também no apoio ao governo dele. Disso, certamente, Conti não se esqueceu porque já era um dos mais importantes gatekeepers de Veja. Era preciso salvar o País de Lula e de Brizola. Essa era a questão-chave.
Nem os empresários da mídia acreditavam que Lula fosse implantar o socialismo, mas era bom divulgar que sim. E quem for à Veja, no momento decisivo, no segundo turno, verá o que ela fez para tentar evitar a vitória de Lula. Construiu um discurso terrorista, como se a guerra fria prosseguisse. Todas as pessoas que tivessem um pequeno patrimônio deveriam temer aquele operário na Presidência da República – isso não é um recurso semântico, está escrito mais ou menos assim em matéria de 29/1/1989.
Quando Collor assume, a imprensa brasileira comemora. Embarca no presidente-espetáculo, mas só o apóia porque concorda com seu projeto, com seu programa. Não concordasse, e logo seria rotulado de exótico. nem mesmo diante do draconiano plano econômico de Collor, que confiscou dinheiro de todos os que tivessem importâncias superiores a 50 mil cruzados novos nos bancos, a revista Veja vacilou no seu apoio ao presidente. A revista seguia rigorosamente partidária. O jornalismo no Brasil sempre teve lado.
Não fosse a decisão do irmão de expor as vísceras apodrecidas da família, e provavelmente a lua de mel teria continuado. Toma-se a Veja como exemplo de militância collorida, de ator empenhado na eleição e na manutenção do governo Collor, mas isso poderia ser entendido ao restante da imprensa, exceção feita à revista Isto É. Esta dedicou-se a revelar a rede de corrupção montada no Planalto, com reportagens consistentes, que revelaram praticamente tudo o que mais tarde se apurará a partir da entrevista de Pedro Collor. E o trabalho de Isto É mereceu sempre o mais respeitoso e estrepitoso silêncio por parte do restante da imprensa brasileira, como agora quando das matérias da revista Carta Capital em relação à cena brasileira recente. Esta é uma resposta que não é dada na discussão que se estabeleceu nos últimos dias. E não é propriamente um enigma difícil de elucidar.
Os que sentavam nas cadeiras de chefias importantes naquela conjuntura histórica não o faziam por acaso. Todos, sem exceção, sabiam quem era Collor e sabiam que estavam cumprindo determinações dos patrões. E não o faziam com pesar, nem com dificuldade. Tinham assimilado a ideologia do dono. É fácil identificar algumas ovelhas desgarradas, que aceitaram ou propuseram propinas. Duro é aceitar que o establishment das redações, os honoráveis da profissão fossem os executores fiéis da política dos patrões. Duro é concluir que apoiaram Collor desde o nascedouro e com ele ficaram até quando puderam.
O rompimento da imprensa com o presidente-espetáculo, para dizer de modo rápido, foi resultado mais de uma deterioração do próprio poder político, do bona-partismo deslocado de Collor, do que de uma deliberação da própria imprensa. E a queda dele, para ser verdadeiro, só se consumou no momento em que a revista Isto É, ela outra vez, colocou a CPI no ponto de não-retorno, quando fez a matéria de Eriberto França, provando as relações entre o Planalto e Paulo César Farias. Só ela teve a capacidade de deslocar a cobertura, de buscar entre fontes não-acreditadas o fato essencial. E isso também é rigorosamente silenciado em toda a discussão que povoou a imprensa nos últimos dias, que parece resumir-se à idéia de que, eliminando-se alguns maus elementos, o nosso jornalismo volta ao seu leito normal.
Há jornalistas que dizem não gostar de teoria. A esses peço desculpas pelo que vou dizer a seguir. A imprensa brasileira integra o poder, defende os interesses das classes dominantes porque faz parte delas e sempre cabe situar as exceções, entre as quais poderiam ser lembradas as revistas CartaCapital Caros Amigos e o Correio Braziliense, que abriga este texto. Integra o que Gramsci, volta e meia sacado como adereço ornamental de uma ou outra matéria, chamava de Estado, este visto não só como aparelho político, mas ampliado para as instancias de dominação ideológica, entre as quais está a imprensa.
Se isto tem um vasto alcance teórico em todo o Ocidente, tem muito mais no Brasil, e os exemplos recentes só nos ajudam, infelizmente. Será possível amanhã dizer, como se tem ouvido neste momento em relação a Collor, que não se sabia do significado do governo Fernando Henrique? Que isso só foi possível conhecer posteriori? No mínimo, no mínimo, a revista CartaCapital tem exposto o significado dessa administração. Collor, assim, pode ser visto como parte, apenas como parte, desse processo, desse escândalo que é a imprensa brasileira. Collor, por hiperbólico, excessivo, não pode aparecer contraditoriamente como o ente purificador dessa imprensa, e às vezes aparece. É como se a imprensa, tendo-o defenestrado (e esse papel é sempre superestimado), purgou os seus pecados.
A imprensa brasileira foi e continua a ser um elemento essencial na construção, agora muito mais acelerada, de um país que marginaliza a maioria da sua população, que retira direitos sociais, que privatiza tudo, que reduz tudo a mercado. Ela não cobre este país injusto. Ela constrói diariamente este Brasil. Não são apenas os crimes pontuais do jornalismo que devem ser discutidos. Mas este, o maior, o de ser construtor, e não apenas cúmplice, dessa sociedade crescentemente injusta e excludente. Para tristeza de quem acredita no potencial do jornalismo.
Se há uma missão a cumprir é a de repor a idéia revolucionária do jornalismo – a de ser verdadeiro, a de iluminar as zonas de sombra do poder, a de possibilitar a discussão das alternativas variadas para o País, a de admitir que sempre há mais de uma saída. Idéia da qual a imprensa brasileira está muito distante."
"Collor e a mídia brasileira", orginalmente publicado no Correio Braziliense em 05/12/99, reproduzido em CartaCapital nº 113 (22/12/99). Emiliano José é jornalista e autor, entre outros livors, de Lamarca, o Capitão da Guerrilha (na 14ª edição) e de Marighella, O Inimigo Número Um da Ditadura Militar (na segunda edição).
Paulo Henrique Amorim
"Conti errou na ida e na volta. Errou na volta, porque, na volta de Collor à Planície, a reportagem decisiva foi a da IstoÉ com o motorista Eriberto França – e isso não ficou claro no Notícias do Planalto.
Errou na ida, porque na ida de Collor ao poder, o episódio decisivo foi a edição do debate entre Collor e Lula, feita no Jornal Nacional. E Notícias descreve esse episódio de forma superficial, que atenua a responsabilidade de Roberto Marinho e de Alberico Souza Cruz, diretor dos jornais em rede a Globo.
Só isso explica O Globo de 27 de novembro [de 1999] dedicar ao livro três páginas no primeiro caderno. Como se sabe, O Globo não recebia um lançamento editorial com tanto entusiasmo desde a Epístola aos Romanos.
Sobre o episódio da volta, quando Conti dirigia a Veja, a revista concorrente de IstoÉ, o livro Imprensa e Poder: Ligações Perigosas, de Emiliano José, é mais completo do que Notícias.
Vou tratar da ida.
Então, dezembro de 1989, eu era editor de economia da Rede Globo. Na sexta- feira, dia 15, ao chegar à redação, percebi que uma tempestade se formava. Conversei com o Ronald Carvalho, editor de política. Com Wianey Pinheiro, responsável pela cobertura das eleições e também responsável pela edição do debate que o jornal Hoje, ao meio-dia, tinha exibido. Zanzei pela redação e ilhas de edição e soube:
- O dr. Roberto não gostou da edição de Hoje e mandou o Jornal Nacional dar tudo o que fosse bom para o Collor, e tudo o que fosse mau para o Lula.
- O Alberico mandou o Ronald editar como se fosse a luta em que o Mike Thyson destroçou o pobre coitado do Pinkle Thomas, dias antes transmitida pela Globo.
Isso, o que eu ouvi.
Agora, o que eu vi.
Vi por ali, como se fosse um dos nossos, o Daniel Tourinho, presidente do PRN, o partido do Collor.
Vi o Alberico na ilha. Não importa se ele disser que não editou.
Como todos os profissionais da Globo sabiam, o Alberico não tinha idéia do que fazer numa ilha de edição. Ele se sentia tão à vontade ali quanto no hall de entrada do Louvre.
Imediatamente após o Jornal Nacional, liguei para o Ronald e perguntei – não me lembro exatamente das palavras – ‘como é que você fez uma coisa dessas?’
Ele respondeu que decidiu exagerar, forçar a mão, para o espectador perceber que se tratava de uma manipulação.
Depois da publicação de Notícias, o Ronald me contou também que, logo após o Jornal Nacional, recebeu um telefonema do dr. Roberto para dizer que, daí para frente, era assim que queria a cobertura política.
Conti tem quatro explicações para o que aconteceu: 1. ‘O único critério objetivo’ para editar um debate de forma imparcial é dar aos dois candidatos o mesmo tempo (página 269). 2. O dr. Roberto determinou, muito antes, que a cobertura da campanha obedeceria à regra: todos os candidatos teriam o mesmo tempo. 3. O dr. Roberto não revogou essa ordem, ao determinar que a edição deveria ‘evidenciar que Collor vencera’ (página 270). 4. Os responsáveis pela indisciplina foram Alberico e Ronald (página 270). 5. A manipulação do debate não tem a menor importância, nem a cobertura parcial (‘o bom e o mau’), que a Globo fez toda a campanha. Pesquisas (páginas 273 e 274) demonstram que a decisão de votar em Collor independia do que a Globo fizesse. Collor encarnava ‘um Brasil... moderno. Como nas democracias da Europa Ocidental, o eleitor se expressara... com base no posicionamento (sic) ideológico...’ (página 274).
Vamos por partes.
Tempo em televisão não é critério para avaliar objetividade. Ao contrário. Dependendo de quem está na ilha de edição, dar mais tempo pode destruir um entrevistado. Quanto mais não é melhor.
Na linguagem da política, aliás, tempo não tem nenhuma relação com persuasão. O discurso de Linconl em Gettysburg pode ser lido em dois minutos e sete segundos.
O fato de a Globo distribuir o tempo com ‘critério objetivo’ levanta suspeitas, também em outra circunstância. Na cobertura da campanha Fernando Henrique vs. Lula, a Globo deu aos dois o mesmo tempo. Mas, e as inúmeras e redundantes entrevistas do ministro da Fazenda Rubens Ricupero sobre o Plano Real? Ricupero já disse desconfiar que as entrevistas se desenrolavam, na verdade, num palanque.
(Espera-se que essa questão fique esclarecida, um dia, quando sair o livro – título provisório – Laços de Ternura, que está sendo escrito por um jornalista nos Estados Unidos – cujo nome não posso revelar – sobre ‘ a imprensa e Fernando Henrique Cardoso’.)
Se fosse uma grave indisciplina desrespeitar a ordem de distribuir o tempo por igual, o Alberico não teria sido nomeado para o cargo do Armando meses depois.
Corre por baixo de toda a narrativa de Conti a justificativa de que Collor ganhou o debate: o próprio Lula achou isso.
Suspeita-se que Manga, aquele notável goleiro do Botafogo, também achasse que o Collor ganhou o debate. E daí? O papel de um jornal é reproduzir o que aconteceu não estava no Jornal Nacional. Se houve uma vitória no debate, não houve uma goleada. O que foi ao ar no Jornal Nacional é uma manipulação. A edição do Pinheiro e do Carlos Peixoto, a do Hoje, era uma edição que os profissionais da Globo subscreveriam. (Com duas ou três exceções, é claro...) Porque ela reproduzia o que aconteceu, em tamanho menor e é para isso, como os cartógrafos, que serve um editor.
Se o Lula tivesse ‘vencido’ o debate, o Jornal Nacional daria com uma divisão ‘criteriosa’ do tempo – a versão que mostrasse que Lula ganhou?
E a pesquisa? No Hoje e no Jornal Nacional, colada à edição do debate, havia uma pesquisa da Vox Populi (que trabalhava para o Collor, como ressalta Conti): por 44% a 32%, a opinião pública considerou que Collor venceu o debate. Se Lula tivesse ‘vencido’? O Jornal Nacional daria uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo?
Sobre o impacto da cobertura da Globo no eleitor. É bom lembrar que, segundo as pesquisas, Lula e Collor foram para o debate empatados.
A hipótese do livro – os três programas do partido foram mais importantes para a vitória de Collor do que a ajuda da Globo (página 274) – tem tanto valor científico quanto a proposição inversa. Na página 276, por exemplo, Boni diz: ‘Supor que o debate tenha influenciado a eleição é ridículo’.
Nos Estados Unidos, a literatura sobre o assunto é farta. Há quem diga que o célebre debate de John Kennedy e Richard Nixon – em que Nixon apareceu com a barba por fazer e a toda hora limpava o suor do rosto – não teve a menor importância. O eleitor já decidira votar em Kennedy. Tanto isso deve ser verdade que, dessa data em diante – foi o primeiro debate presidencial transmitido ao vivo, pela TV – todos os candidatos à Presidência, pelo mundo afora, vão aos debates na televisão de tamancos, barba por fazer e os cabelinhos do peito a sair pela camiseta em V.
O livro de Conti não mete a mão no câncer.
E é por isso que o título tem o sabor de tofu. Notícias do Planalto – o que diz sobre ‘a imprensa e Fernando Collor’?
Trabalhei no Jornal do Brasil com um profissional exemplar, José Silveira. Ele dizia que ‘matéria que não tem o que dizer não tem lead; e matéria que não tem lead não dá título’. O livro de Conti não deu título porque não tem lead. Não tem tese. Não dá murro. Não tem uma revelação estarrecedora.
Aquela edição foi a do debate do Collor. Poderia ter sido a do Quércia, porque, a certa altura, o candidato de Roberto Marinho era o Quércia. E, então, o Alberico vinha a São Paulo, toda semana, despachar com Carlos Rayel, homem do Quércia para a imprensa.
Quando Collor começou a subir, o Alberico ficou amigo pessoal do Collor e falava com ele todo dia, por telefone – mesmo depois de presidente. Como se diz amigo pessoal de Fernando Henrique. E se preparava para ficar amigo pessoal de Ciro Gomes quando caiu, de tão amigo se tornara de Sérgio Motta.
O importante não é o Alberico. O Alberico fazia os amigos que o dr. Roberto deixava. O Alberico administrava o varejo e abria portas que Roberto Marinho, sozinho, não abriria. (O livro não deixa claro que Collor detestava Roberto Marinho.)
O episódio do debate é o ponto culminante de uma política de manipulação d opinião pública, através do noticiário da maior rede de televisão comercial do mundo, fora dos Estados Unidos. Uma política que não começou com o Collor nbem acabou com ele. É uma pena que Conti não tenha conseguido daí extrair um título. Poderia ser O Bom e o Mau como a imprensa cobriu a campanha Collor vs. Lula. Já facilitava. Depois viriam O Bom e o Mau II, O Bom e o Mau III..."
"O bom e o mau", copyright CartaCapital nº 113 (22/12/99)
Paulo Moreira Leite
"Debruçado sobre as relações entre Fernando Collor e a imprensa, o livro ‘Notícias do Planalto’, de Mario Sergio Conti, recebeu o mesmo tratamento superficial e apressado oferecido ao personagem que o inspirou. Sem ler suas 719 páginas, muitos jornalistas resenharam o índice onomástico: pesquisaram nomes conhecidos e conferiram os trechos correspondentes. Não se fez uma leitura pausada e refletida, mas uma avaliação a partir de fragmentos.
Escrito pelo diretor de redação da ‘Veja’ na época do caso Collor, o livro é uma tristeza. Em episódios decisivos as testemunhas básicas não foram ouvidas nem se conferiram informações divergentes. O livro descreve cenas verdadeiras de forma incorreta, narra como verdadeiros fatos que são fictícios.
Como reconstituição histórica, ‘Notícias do Planalto’ é uma comédia surrealista. Como visão ética e política, uma catástrofe.
Mario Sergio desperdiçou a chance de fazer uma boa reportagem sobre um episódio marcante da vida do país porque deixou o livro se corromper por suas amizades, relações pessoais e pessoais-profissionais, mesquinharias, baixarias, recalques, pequenas e grandes vinganças. Embora não conte nenhuma história nova bem amarrada, de vez em quando ‘Notícias do Planalto’ apresenta uma novidade ou outra. Mas é parcial demais para servir como obra de referência. Como balanço final, é a prova de uma verdade há muito sabida no jornalismo: a amizade e a proximidade excessiva com os poderosos são o caminho mais comum e mais eficaz para a impostura e a falsidade, o erro e a arrogância.
O livro assume uma postura rastejante quando fala dos proprietários dos meios de comunicação, num servilismo que envergonha as relações trabalhistas depois da Lei Áurea. Um dos patrões é chamado de ‘impetuoso’ e ‘cauteloso’ ao mesmo tempo. Sobre outro, diz-se que seu sorriso ‘agrada às mulheres’. Verdade que esses empresários merecem elogios. Não só porque empregam pessoas esquisitas, como os jornalistas, mas porque se arriscam a fazer jornais e revistas -em vez de vender salchichas- num país onde a liberdade de expressão é uma planta precária. Mas o livro não precisava exagerar a ponto de ficar evidente a vontade de puxar o saco -ponto de partida para a renúncia a qualquer apuração honesta. Também não precisava esconder fatos desagradáveis e conhecidos. É injusto colocar Roberto Civita e Domingo Alzugaray, Octavio Frias e Roberto Marinho no mesmo patamar. Cada um tem seu talento, sua vocação, sua postura. Frias teve visão para examinar Collor com olhares críticos desde o início. Civita teve coragem para publicar a entrevista do irmão Pedro quando outros guardavam depoimento semelhante na gaveta.
Retrato escandaloso – Com a turma da Dinda, já do outro lado da fronteira da legalidade, a vontade de distribuir agrados é a mesma, ou até maior, em termos relativos, quando se considera a natureza intrínseca do objeto dos elogios. Cláudio Humberto, o porta-voz do bateu-levou, é elogiado porque não aproveitou uma excelente oportunidade para fazer uma chantagem contra um jornalista.
O retrato do tesoureiro PC Farias é escandaloso. Mario Sergio afirma que PC tinha ‘três características essenciais: o pendor pela aventura, a vontade de apostar e ganhar e uma autoconfiança irrefreável’. Outro traço era ‘sua confiabilidade: jamais deixou de honrar um compromisso’. Quanto aos negócios, sustenta que ‘era um capitalista nato, um empresário em ascensão numa região miserável’. É o fim do mundo. Já houve quem romantizasse o comunismo, quem preferisse o milagre da ditadura militar e até o caminho valorizado de Gustavo Franco. Mario Sergio romantiza a corrupção e o corrupto.
Entrevistado por Boris Casoy, ele defendeu a tese ambígua de que PC só arrancava dinheiro dos empresários porque tinha ‘muito charme’. Boris, que é amigo de Mario Sergio, gostou do livro, mas não perdeu o juízo e lembrou que PC ‘tinha a chave do cofre’.
Bondoso com os homens de dinheiro, mesmo quando se trata de criminosos, Mario Sergio permite-se uma postura mais distanciada quando fala dos jornalistas. Aquele grupo de repórteres que fez um trabalho pioneiro e já reconhecido recebe aplausos –sempre justos.
O livro também guarda palmas para um grupo de amigos do autor. São grandes jornalistas, felizmente. Pagando um tributo caro aos amigos dos amigos, no entanto, o livro abre espaço até para quem já fez estelionato com reportagens alheias. Como quem tem amigos também tem inimigos, um profissional como Ricardo Noblat, crítico duro e claro de Collor, degolado do ‘Jornal do Brasil’ logo após o segundo turno, nem sequer é mencionado.
Massa de perdigueiros – Outros jornalistas, mesmo os que tiveram um papel de relevo na cobertura, são tratados com desprezo, piadinhas, psicologia de botequim e comentários grosseiros. Há vários profissionais injustiçados: seu papel na cobertura foi reduzido, trabalhos de sua autoria acabaram atribuídos a outras pessoas. O livro ignora aquela massa de perdigueiros que cobriu o impeachment como uma epopéia coletiva, aliada ao baixo escalão da Polícia Federal, ao Ministério Público e aos sindicatos de bancários, tornando impossível uma virada do jogo a favor de Collor.
Mario Sergio cobriu o impeachment em sua cadeira de diretor de redação. Dependia dos repórteres para se manter informado sobre as denúncias e costumava exigir dos subordinados que revelassem de onde vinham suas histórias. Em confiança, eles abriam os nomes. Lendo o livro, descobriram que tomaram uma rasteira: o diretor abriu suas fontes. Dando a entender que o trabalho de apuração é tão fácil como forçar repórteres a revelar fontes na sala do chefe, Mario Sergio escreve, várias vezes, que o empresário fulano e o político sicrano ‘passaram’ tal notícia para o jornalista beltrano -como se estivesse falando de artigo que se encomenda pelo correio. ‘Notícias do Planalto’ contém erros nas grandes histórias e também nos casos pequenos. O melhor exemplo está no caso mais importante, que envolve a edição do debate entre Collor e Lula pela Globo no segundo turno da campanha.
Sempre se considerou que, em última análise, o empresário Roberto Marinho, dono da TV Globo, era o responsável pela edição do debate. Primeiro, porque Marinho é o dono da Globo, tem uma conhecida vocação de animal político e já se definira a favor de Collor. Segundo, porque os profissionais que fizeram o serviço foram premiados, assumindo a direção do jornalismo da emissora. Terceiro, porque o próprio Roberto Marinho assistiu a uma primeira versão do debate, que não evidenciava a supremacia de Collor, e determinou que o trabalho fosse refeito.
Mario Sergio, que costuma se apresentar como amigo de Roberto Marinho, tenta sustentar que tudo foi obra do segundo escalão da Globo e consome páginas e páginas para demonstrar isso. Não convence e, no fim, agarra-se a um formalismo: como o regulamento da emissora que obrigava a distribuição de tempo igual para os dois candidatos não havia sido revogado pela diretoria, ela não pode ser responsabilizada.
Depois que o livro foi publicado, o jornalista Fernando Barros e Silva, da Folha, resolveu conferir. Descobriu que Mario Sergio não fez a lição de casa. Não ouviu uma testemunha chave: o jornalista Ronald Carvalho, que editou o debate. Esse depoimento amarra uma história que desmente a grande tese do livro. Se durante o dia Roberto Marinho determinou que o serviço fosse refeito, à noite telefonou para dar os parabéns. Quem chegar à página 607 de ‘Notícias do Planalto’ poderá ler a narrativa de um caso menor: uma discussão na redação da ‘Veja’. É um trecho no qual Mario Sergio capricha na retórica realista: descreve ameaças, cobranças, pontos de interrogação e pontos de exclamação. A seguir, o livro de Mario Sergio descreve um diálogo de Mario Sergio com um editor que, em razão dessa discussão, pedira demissão.
O trecho termina com Mario Sergio contando que, graças a sua conversa, a demissão não se concretizou. O episódio não teria importância, em si, a não ser para demonstrar outro problema: a cena descrita acima é inteiramente falsa. Tudo: a briga, a discussão, o pedido de demissão, a pacificação. Mario Sergio Conti misturou situações e épocas diferentes. Não conferiu e publicou. Também acrescentou diálogos dramáticos –pura invenção.
Armário de esqueletos – Com uma leitura atenta do livro descobre-se que essa falta de rigor não é obra do acaso. Uma revelação de Mario Sergio, que não tem relação direta com o caso Collor, esclarece a natureza frouxa de seu método de trabalho. Na página 101, ele conta que um profissional da ‘Veja’, Elio Gaspari, é o verdadeiro autor daquela célebre frase de Joãozinho Trinta: ‘O povo gosta de luxo, quem gosta de miséria é intelectual’. Jornalistas podem e devem arrumar a declaração de um entrevistado, para torná-la mais clara e mesmo mais afiada. Podem até sugerir uma frase que ajude a desenvolver o raciocínio da pessoa. Mas não é disso que Mario Sergio está falando.
Para ele, a frase publicada pela ‘Veja’ continua sendo de Elio Gaspari, e não de Joãozinho. Mario Sergio está dizendo, sem empregar todas as letras, que a revista cometeu uma fraude. É a sua opinião. A postura, contudo, é sintomática: nenhum constrangimento. Para ele, tudo ficou ‘nos limites das normas jornalísticas, na medida em que ninguém era forçado a encampar uma declaração. O seu fim último era levar um fato novo ao leitor’. Com esse critério -ninguém é forçado a encampar uma declaração-, o livro define seu limite ético, uma forma de tolerância. O que ele chama de ‘fato novo’ não é fato nem é novo.
É uma espécie de licença para inventar -basta que fique tudo combinado com a fonte. A regra é o sonho das assessorias, que sempre quiseram apresentar seus clientes mais inteligentes, mais apresentáveis, mais bonitos. Elas gostam de mostrar o que inventam. Os jornalistas lutam para fazer o contrário: mostrar apenas o que acontece. Ao tocar na frase de Joãozinho, Mario Sergio abre um armário cheio de esqueletos. Em certa época os jornalistas da ‘Veja’ eram autorizados a criar frases e pedir autorização das fontes para publicá-las em seu nome. Algumas fontes, mais próximas, até autorizavam a publicação sem consulta -estavam certas de que jamais seriam prejudicadas com uma frase fora do tom e, ao mesmo tempo, poderiam ver seu nome divulgado. Vários profissionais da revista, inclusive o autor destas linhas, tem sua responsabilidade nesse comportamento. ‘Notícias do Planalto’ não só perde a chance de fazer uma boa discussão sobre o tema como insiste em dizer que é assim mesmo.
Jornalistas erram muito. Existe uma fórmula geral para evitar erros: conferir sempre, depois mais uma vez, uma terceira. Os jornalistas alegam que nem sempre têm tempo para esse trabalho. Mas quem conversa com eles percebe que quase nunca falta tempo. Falta humildade e sobra arrogância. O leitor que quiser saber de onde Mario Sergio tirou a versão para relatar determinado episódio ficará perdido. Com raríssimas exceções, o livro não informa suas fontes. Desde o século 19 se sabe que a diferença entre obra histórica e relato de memória são as fontes do pesquisador -documentos abertos à consulta, depoimentos arquivados, registros. Citar fontes não é implicância acadêmica, mas uma conquista dos historiadores. Graças a elas, tornou-se possível relatar fatos que a história oficial tentava ignorar. Os historiadores fazem o possível para apresentar as fontes de suas pesquisas como se deve: no pé da página, logo depois da citação. O leitor agradece. É por meio da fonte que se julga a veracidade de um relato. Quando há duas versões discordantes, a citação permite ao historiador explicar por que deu crédito a uma versão e não à outra. O leitor julga com sua consciência. A partir das notas de rodapé os profissionais do ramo fazem a crítica das fontes -que é o método pelo qual os historiadores estudam história. Em ‘Notícias do Planalto’ fica tudo escondido no fim do livro, onde há uma lista de obras consultadas e outra de fontes entrevistadas. Não dá para saber quem foi ouvido durante uma hora e quem falou durante um minuto, ao telefone. Não se sabe se Mario Sergio gravou as conversas ou tomou notas, distraído. Em geral o leitor nem sequer é avisado de que há mais de uma versão para um mesmo acontecimento. Também não é informado sobre qual fonte tem mais isenção e credibilidade para dar um depoimento.
O encoberto Um personagem misterioso de ‘Notícias do Planalto’ é o autor. Não é fácil saber o que Mario Sergio fez em horas difíceis. Critica com tanta desenvoltura a cobertura da campanha de 1989 que parece que era correspondente no Alasca. Era redator-chefe, braço direito do diretor de redação e mais bem colocado do que ninguém para fazer sugestões, apresentar críticas e comprar brigas. Preferiu o silêncio. Um mês e meio depois de publicar a entrevista de Pedro Collor, a ‘Veja’ jogou a toalha. Numa conjuntura em que os empresários temiam que as investigações da CPI chegassem a suas empresas e em que o Planalto pretendia acabar com a apuração de qualquer maneira, Mario Sergio publicou uma capa ideal para enterrar o caso: anunciava o fim da crise política, prevendo que Collor ficaria em seu cargo. Servindo de coveiro da CPI, deixou a redação atônita com a decisão, mas nunca explicou o que tinha acontecido. Eis um grande episódio para uma reportagem sobre o impeachment explicar: quem o convenceu a disparar uma bomba suicida? Sofreu alguma pressão, ameaça? Imaginava-se que fosse aproveitar o livro para esclarecer. Ele não gasta dez linhas no caso."
"Uma comédia surrealista", copyright Folha de S.Paulo, caderno Mais!, 26/11/99
Marcos Coimbra
"Fruto de uma primeira leitura das ‘Notícias do Planalto’, estas observações são de três níveis. Comecemos com uma nota pessoal: para quem, como eu, participou intensamente de vários dos fatos narrados no livro, é fácil ver que se trata de um muito bom ‘livro de reportagem’. De Euclides da Cunha a Truman Capote, essa é uma tradição literária nada pequena, que produziu obras de grande interesse e qualidade. O livro de Mario Sergio Conti cabe perfeitamente na estante ao lado delas.
‘Notícias do Planalto’ relata com fidedignidade e rigor a imensa maioria dos episódios que conheço e o faz com algo que a boa ‘literatura de reportagem’ possui: a capacidade de nos fazer (re)viver o que descreve. A segunda observação é que o livro de Mario Sergio Conti precisa ser, logo, seguido por outros. Como tudo o que é feito pela primeira vez, ele acaba sendo um mapa para o que ainda existe por fazer.
‘Notícias do Planalto’ é, com certeza, o primeiro esforço sério (pelo menos que eu conheça) de discutir o surgimento, o apogeu e a queda de Fernando Collor na política brasileira. É, também, uma discussão pioneira sobre como se estrutura e como funciona a (grande) imprensa no Brasil contemporâneo.
Opção autoral – É, pois, natural que ele precise ser complementado. Nossa proximidade com o período, a inevitável reserva com que as fontes consultadas trataram de alguns temas, a opção que o autor tinha que fazer -de se concentrar em determinados assuntos- explicam que restam fatos a descrever e episódios a interpretar. Será, no entanto, a partir do que foi começado e não, como antes, do nada. Em minha opinião, o mais importante do livro está em um terceiro aspecto: ‘Notícias do Planalto’ é uma muito necessária ruptura com um dos piores traços de nossa cultura política e cívica, o pacto de não falar sobre os ‘vícios’ e ‘problemas’ que cada um sabe que existem em sua própria atividade, profissão, corporação. Há tempo demais o Brasil vive sob o regime desses pactos de silêncio, frequentemente camuflados por expressões como ‘ética profissional’, ‘espírito de corpo’ e semelhantes. Sob o disfarce de bonitas palavras, o que ocorre, na imensa maioria das vezes, é, apenas, uma cúmplice convivência, que acaba por ser prejudicial a todos.
É claro que tais pactos de silêncio são tanto mais graves quanto de maior impacto público forem as mazelas sobre as quais se cala. Não haveria por que criticá-los, quando são privados ou de escasso interesse coletivo. Não é, porém, o que ocorre quando um funcionário público, de médio ou baixo escalão, vem a saber sobre a ‘caixinha’, a ‘conversa’, o ‘caminho’ para ‘resolver’ problemas em sua repartição, empresa ou ministério, e nada fala, nada faz, cruzando os braços e se omitindo. Não é o que ocorre quando, na alta administração, se aceita como inteiramente natural a mais promíscua convivência entre o que é público e o que é privado, encobrindo-a com diversos tipos de ‘silêncio’.
No Congresso, nas Assembléias Legislativas, nas Câmaras de Vereadores, então, o que mais se encontra são pactos de: não ouvir, não ver, não falar. Até, é claro, que estoure, vindo, de fora, algum escândalo, prontamente isolado e demarcado, com novos silêncios cúmplices.
Durante e após a recente CPI do Judiciário a força de pactos desse gênero se mostrou férrea. Primeiro, na tentativa de quase todas as esferas do Poder Judiciário de sustar a CPI; depois, de reduzir sua atuação; agora, de ridicularizar seus resultados. Enquanto funcionou, pelo menos uma grande pergunta ela suscitou: para onde olhavam, o que ouviam, o que fizeram advogados, magistrados e procuradores em São Paulo, quando, suas barbas, a obra do TRT se tornava um formidável monumento, tanto ao desvio de verbas, quanto à solidez do pacto de silêncio que acobertava a corrupção? É contra uma cultura política e cívica que tolera e até incentiva esses pactos que ‘Notícias do Planalto’ trava uma batalha corajosa. Faz isso sem alarde e sem bazófia, calçado em tal riqueza de fatos, detalhes, minúcias e confidências, que poucos conseguem resistir.
Mario Sergio Conti atinge, no coração, um dos pactos de silêncio mais fortes -aquele que a própria imprensa cria em torno de si- e, ao fazê-lo, nos convida a todos a romper os nossos. Esse convite tácito é mais eloquente por partir de alguém que, de pleno direito, pertence à elite do jornalismo. Não vem, portanto, do ciúme, da inveja ou da frustração daqueles que tentaram (e não conseguiram) pertencer a ela ou nela permanecer. Em minha área direta de atuação, a pesquisa de opinião, é bem-vindo esse incentivo à ruptura com pactos de silêncio como os apontados. Creio que seria benéfico para todos os envolvidos se as cartas fossem todas postas na mesa, com franqueza e clareza. Não é, certamente, atividade tão relevante como as mencionadas acima, mas tem seu impacto na vida coletiva.
Que saibamos aprender com o livro e o autor!"
"A ruptura do pacto do silêncio", copyright Folha de S.Paulo, caderno Mais!, 26/11/99
Teresa Cruvinel
"As discussões que vêm provocando sobre o papel da imprensa, nunca levadas a fundo no Brasil, provam a oportunidade e o mérito de ‘‘Notícias do Planalto – a imprensa e Fernando Collor’’, o livro do jornalista Mário Sérgio Conti. Cabe, porém, registrar um aspecto que não foi abordado: o obscurantismo representado pela perseguição e a discriminação de jornalistas neste período.
O foco de Conti, no que toca aos jornalistas e aos donos de empresas de comunicação, recai sobre os desvios no relacionamento com um candidato e depois com um governo, cuja ascensão e queda reconstitui. Há equívocos e omissões menos relevantes que não turvam o brilho do livro.
As experiências do período eram novas para a maioria dos que estavam nas redações, no comando ou na apuração, e mesmo para os mais jovens executivos e donos de empresas: a primeira eleição direta de um presidente em quase 30 anos e o primeiro processo de impeachment da História do país. O livro indulta uma falha apontada por Luiz Garcia em seu artigo ‘‘Os caçadores caçados’’, publicado no GLOBO de 27 de novembro passado, por ocasião do lançamento do livro. O jornalismo investigativo mostrou-se capaz de produzir as provas necessárias mas incorreu também em leviandades, registrando todo e qualquer tipo de denúncias que vinham da CPI e de outras fontes. Muitas não se sustentaram e não tiveram desdobramentos. Lição aprendida. O denuncismo deu lugar a um maior rigor na apuração de denúncias.
É verdade, como disse ainda Garcia, que ‘‘não foram poucos os que saíram chamuscados por chegarem perto demais da fogueira do poder’’. O livro traz alguns exemplos, mas passa de raspão sobre o outro lado da história: aquele foi um período quase tão obscurantista quanto o da censura. ‘‘Não me dou bem com a imprensa’’, é uma frase de Collor que aparece no livro. Um eufemismo. O conflito era a tônica na relação com a maioria dos jornalistas da planície, os que buscavam notícias na capital. Já, na campanha, os jornalistas foram classificados entre amigos, neutros e adversários. O atavismo alagoano não funcionaria na capital, mas prosseguiu depois da posse. Aos primeiros, dava-se furos e boas notícias. O segundo grupo merecia uma atenção vigilante. Aos últimos, informações eram negadas, portas eram fechadas. A descortesia era o de menos. Tentou-se indispô-los com superiores e ministros foram recomendados a não recebê-los. Secar fontes é tirar o oxigênio de um jornalista.
É verdade que um grupo de repórteres, por jovens ou despreparados, pecaram ao cantar um Lula-lá no dia da posse. Mas um erro não justifica outro. Foram marcados também os mais críticos, os distantes e até os que deram um conselho que não agradou. Um veterano colunista perdeu espaço, outros sobreviveram a pressões. Alguns perderam a ilusão com a profissão e mudaram de vida. Não cabe citar nomes nesta nota até para evitar omissões, mas o arsenal oral de exemplos é grande em Brasília. Alguém, com a mesma competência de Conti, há de escrever sobre estas práticas, para que não se repitam. Hoje, escreve-se o que agrada e o que desagrada ao Governo FH. Mas ninguém é classificado como amigo ou inimigo por isso.
O que definiu tal prática foi o lema ‘bateu, levou’, adotado pelo porta-voz de Collor, Cláudio Humberto, bom de ironia e sarcasmo. Toda notícia ou declaração desagradável teria resposta contundente. De Conti, ele recebe elogios no livro pelo bom relacionamento que tiveram. Foi substituído por Pedro Luís Rodrigues, diplomata e jornalista afável e isento. Mas a derrocada já começara e Etevaldo Dias ficou no cargo até os dias finais. (...)"
"Notícias da planície", copyright O Globo, 27/12/99
ANOS 2000
Uma polêmica milenar
Spacca
A Folha de S.Paulo entrou neste quase terceiro milênio publicando a bronca de uma leitora indignada com a matemática dos tempos: "É incrível como a mídia introduz na cabeça das pessoas que o terceiro milênio começa no ano 2000! (...) Mais uma invenção da mídia: um século de 99 anos e um milênio de 999 anos." Na parte que omiti, ela gentilmente nos ensina por que o terceiro milênio começa apenas no ano 2001, e penso que o faz muito bem.
Desta carta, o que me chamou a atenção foi a responsabilidade imputada ao arquivilão da nossa era, a Mídia. Poderosa ela é, não resta dúvida. Creio mesmo que a chave de seu poder repousa não tanto na manifestação evidente de sua força, quanto na sua invisibilidade.
Mas não endosso a idéia de que a mídia inventa e introduz qualquer coisa na cabeça da população, à sua revelia. Não. Este poder ela não tem.
O peso do senso comum
Mais ou menos como os vampiros, que, segundo a novela de Bram Stocker, não podem entrar na casa de alguém pela primeira vez a menos que sejam convidados, da mesma forma a mídia não penetra na mente das pessoas como alienígenas invasores de corpos. Não. A mídia, descendente da retórica dos antigos, sabe que o segredo de um bom orador é perceber os desejos da platéia, mostrar que concorda com ela em gênero e grau e, uma vez estabelecida a empatia, está apto a conduzi-la para onde bem entender. Qualquer marqueteiro ou publicitário assinaria embaixo disto.
O marketing, com a fofoca e a caricatura, aumenta mas não inventa. A idéia de que o milênio começa no ano 2000 faz parte do senso comum. Qualquer pessoa é capaz de perceber a mudança sensível dos quatro dígitos de uma só vez. Passamos a vida escrevendo 19... e de repente, começamos a preencher os cheques com o algarismo dois seguido de três zeros. É um pequeno choque estético e motor. A mão é obrigada a fazer outro desenho, os olhos também têm que se acostumar com essa data limpinha, cheia de vazios. Não importa que o mundo continue com os mesmos problemas, e que a diferença de 1999 para 2000 seja análoga à que existe entre 7 e 8, uma unidade apenas. Alguma coisa, ainda que seja apenas na escrita do tempo, mudou. E a mudança de 2000 para 2001 parecerá insignificante, e a comemoração do novo milênio, um repeteco.
Os marqueteiros e comunicadores em geral, meros amplificadores da vox populi, investiram, como sempre, no mais óbvio, no mais fácil de ser aceito pela multidão. Ainda que matematicamente errado.
A matemática e a ciência costumam ir contra o senso comum (acho que todo estudo sério também). Na mesma Folha, o astrólogo Quiroga também atribui à multidão o direito de começar os milênios como bem entender, num artigo que poderia ser uma resposta à nossa missivista: "Os puristas que me perdoem, mas o terceiro milênio não é uma questão técnica, é um fato cultural. Se a maioria decidir que o terceiro milênio começa hoje, então não há nada a ser feito"`.
E tanto é cultural, prossegue Quiroga, que o ano 2000 para os cristãos é 5760 para judeus, 1420 para muçulmanos, 2544 para budistas e assim por diante.
O astrólogo toma o partido da maioria, que é quem faz o espírito da época, e aconselha os puristas a deixarem os tecnicismos de lado. Afinal, "a falta do ano zero é um erro dos calendários".
Ops! Não é, não.
Suponha-se que a contagem do calendário cristão tivesse começado, exatamente, no instante do nascimento de Cristo (que segundo a arqueologia nasceu seis anos antes de si mesmo – é ou não é divino?). Assim, a data do nascimento não teria sido 25 de dezembro, é claro, mas 1º de janeiro... de que ano?
A solução do Vaticano
Vejamos. Um ano após o nascimento, completa-se o ano 1. E um ano antes do nascimento, contamos o ano 1 a.C. Logo, Cristo não teria nascido num "ano zero", mas num instante zero, inicial, um nada espremido entre os anos 1 a.C. e 1 d.C.. O Réveillon do ano "menos um".
Não há ano zero, uma vez que um ano não é um ponto abstrato na linha do tempo, mas o espaço que vai de um ponto a outro e que representa 12 meses. Ano zero seria um absurdo, um nada, um limbo. Mas se alguém tivesse determinado que houvesse um ano zero, teríamos que engolir. Por isso, o início do calendário no ano 1 não é um erro da Igreja Católica, como me disse o leitor de uma Veja recente. E o papa, o que tem a dizer, já que o calendário é dele?
Diante da força atual da voz do povo, amplificada pelos alto-falantes da mídia, nem ele ousa contestar de frente o espírito da época, e mede pelo ibope a fé demais ou a fé de menos (não foi o ibope que livrou Barrabás da cruz?). O Vaticano inventou uma fórmula sutil. O ano 2000, ano do Jubileu de N.S.J.C., é o "ano que introduz o terceiro milênio...", disse o vigário de Cristo aos fiéis da Praça S. Marcos. "Introduz" é um achado. Tanto pode significar que o ano 2000 nos coloca dentro do novo milênio, quanto, à maneira de S. João Batista, é apenas o que veio antes para anunciá-lo...
Fico com a sutileza romana. Assim posso conciliar, sem culpa, o tecnicismo da leitora brava, o multiculturalismo do astrólogo e o testemunho dos meus sentidos que garantem que, ao menos, o desenho do ano mudou.
IMPRENSA E SOCIEDADE
Cara de ressaca
Vera Silva (*)
Assim me parece o Brasil no início do ano 2000. Por todos os lados as pessoas reclamam: da febre amarela, da falta de aumento, da falta de ética, da falta de probidade, da falta de fiscalização, da falta de moradias, das enchentes, etc.
Como alguém que abusou da bebida sem pensar no dia seguinte, nós brasileiros acordamos com uma bruta ressaca por excesso de esquecimento. Uma enorme dor de cabeça, acompanhada de enjôo e aversão à luz.
O vício de considerar o exercício da cidadania como hábito de ressentidos é o que contribui para a dor de cabeça. Tão forte é o vício que até mesmo a imprensa come o prato das denúncias pelas beiradas, por isso não nos admiremos da intensidade da enxaqueca.
Explico: de tanto beber o deixa pra lá, afinal já passou mesmo, não é bom ser vingativo, nem ressentido, isto é coisa de gente que não sabe perdoar, que quer tudo ao pé da letra, gente legalista, formalista etc. acabamos por nos tornar dependentes do esquecimento. Começamos até a nos esquecer de lembrar que democracia e cidadania são unha e carne, uma não vive sem a outra. E a cada manhã bebemos de novo para curar os efeitos da ressaca, mas, cada dia a ressaca chega mais cedo e dura mais tempo...
Por estes dias, para demonstrar o que escrevo, tem-se dito que o governo federal é o grande culpado pelo retorno da febre amarela, mas não se diz claramente que ações ele deixou de executar e pouco se analisa a execução da despesa empenhada no orçamento de 1999 para a prevenção de doenças – se foi utilizada e como o foi. Pouco se discute que ações preventivas, para evitar o retorno de doenças já erradicadas competiam aos governos estaduais e municipais e que não foram executadas.
No caso do projeto sobre venda e porte de armas, mais um exemplo atual: uma verdadeira torre de Babel foi construída para confundir a opinião pública. Ouvem-se coisas do tipo a lei não vai pegar, porque o cidadão tem direito de se proteger do assaltante armado, uma vez que a polícia não o faz, e, também, por causa do contrabando que vai continuar a ser feito e, pior, os Estados Unidos vão retaliar a nossa economia, porque eles vão ter prejuízo com o fim das importações de armas pelo Brasil e, aí, teremos milhares de desempregados.
Não seria mais adequado lutar por um programa de segurança pública e pela autonomia política do país? Não seria mais adequado verificar se a reação armada da vítima é eficaz para evitar a violência? Não seria mais adequado discutir a prevenção do contrabando de armas? Seria mais adequado, sim, mas teríamos de enfrentar a dor de cabeça, ao invés de beber mais.
Mas, como dizia a minha avó, quando a cabeça não pensa, o corpo padece. Este é um dito popular que descreve apropriadamente a nossa forma de administrar e fiscalizar as coisas públicas. Quanta dor de cabeça seria evitada, se pelos menos a imprensa separasse alhos de bugalhos, ou, como diz a Bíblia, o joio do trigo!
Outro exemplo é o das enchentes e as mortes que elas provocam. Todos os anos, o mesmo ritual se repete, cheio de mortes, de perdas, de fome, de gente desabrigada, mas, tudo se acaba no carnaval, aí os problemas serão outros, e as enchentes voltarão a ser notícia apenas no ano que vem.
Alguém se lembra de informar às pessoas atingidas de que podem processar o Estado e exigir indenização? Alguém se lembra de informar como se faz isto e de como deveriam se organizar para iniciar o processo?
Ah, os enjôos. Pois é, quanto maior a resseca, maior será o enjôo. A gente não quer saber de comer nada. Tudo parece de mau gosto, mau cheiro, não é? Lendo as seções de leitores dos jornais e revistas é comum encontrar gente que está enjoada do tanto que se fala num assunto; até mesmo jornalistas e políticos engrossam este coro de reclamações.
Afinal, chega de falar em mortes, problemas, precatórios, chega de falar mal do governante de plantão, chega de falar em escândalo de obra de tribunal, chega de falar no mesmo crime, chega de falar pouco neste ou naquele assunto, quem me acusa é devedor do crime que eu apurei, e outras reclamações menos votadas.
Muita gente confundindo a comida com o mal-estar do estômago. O Freud chamava coisas deste tipo de projeção, se não me engano. O cara bebeu mais do que devia, mas diz que o enjôo é causado pela comida. Não há cidadania que resista a uma projeção deste tipo.
E a aversão à luz? Isto é o pior. Se a gente está de ressaca, só quer saber do escuro. A luz piora a dor-de-cabeça.
O problema é que no escuro todos os gatos são pardos. Basta lembrar de quanto democrata visto durante a escuridão da ditadura virou outra coisa às luzes da abertura. A imprensa, que tanto sofreu na escuridão, precisa nos ajudar a tirar os óculos escuros. Assim todos nós poderemos aprender a evitar a ressaca.
É necessário que cada denúncia seja didaticamente explicada: o que está errado, por que está errado, quem se beneficiou do erro, quem se prejudicou com o erro, quais são as penas que a lei determina para este tipo de erro, qual é o ritual básico da apuração e do julgamento etc etc. Num país que se acostumou a esquecer a cidadania e a falar em democracia de forma abstrata, não há muitos que conheçam os comportamentos básicos do exercício democrático, afinal não são ensinados na escola, nem na televisão.
Não se pode esquecer os erros. Cada vez que o fazemos, aumentamos o risco de voltar a cometê-los, não é mesmo? Por isso, penso que, por atingir milhões, a imprensa pode nos ajudar, servindo de meio para a aprendizagem da cidadania.
(*) Psicóloga

Folha recusou o oba-oba
Dinâmica da verdade vence malícia do Sistema
Cobertura da mídia à época do lançamento do livro
Anotações rápidas de uma leitura ligeira
A mídia sabia, sim
Quem manda na mídia?
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