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BNDES & GLOBO CABO
A mídia e o leite das tetas públicas

Alberto Dines

À primeira vista parece campanha moralizadora – veemente, coletiva, aparentemente sincera. Olhar mais atento, porém, revela que os protestos da grande, média e pequena mídia contra o aporte de novos recursos do BNDES na Globo Cabo não passa de disfarce para reclamar uma distribuição de favores mais ampla e generosa.

Prova disso é a história da incontrolável compulsão das empresas de comunicação para freqüentar os guichês oficiais. Não será preciso evocar os tempos de Campos Salles, no início do século 20, para concluir que nossa imprensa não consegue viver sem os estímulos do erário.

Durante a ditadura militar e, sobretudo, nos períodos em que Antônio Delfim Netto tinha cacife, grandes empresas do Rio e São Paulo foram estimuladas a contrair grandes empréstimos no exterior, através da Operação 63. Seduzidas por projetos mirabolantes, endividaram-se pesadamente em dólar. Algumas jamais conseguiram recuperar-se – embora o ex-ministro, às custas dos favores, tenha recuperado a sua imagem.

Ainda no mesmo período, temos o caso da montagem das duas redes nacionais de TV – SBT e Manchete – desprovidas das condições mínimas para garantir sua viabilização e, não obstante, materializadas a toque de caixa. O SBT sobreviveu e expandiu-se amparado nos antigos baús da felicidade. A Manchete, sustentada pelo Banco do Brasil, jamais foi molestada seriamente pelas demais empresas de comunicação simplesmente porque, ameaçando a Globo, precisava ter a sua sobrevida garantida.

Ao longo dos anos 80, os jornalões acusavam-se mutuamente de serem os "maiores devedores do INSS". Num passe de mágica, quando Sarney e ACM entregaram os destroços da Nova República, as monumentais dívidas evaporaram magicamente. Em plena hiperinflação, no emaranhado de planos de salvação nacional, um milagre empresarial padrão Enron.

Antes que a dupla Quércia e Fleury quebrasse o Banespa, em meados dos 90, o banco oficial paulista alimentou alguns projetos megalomaníacos na área de revistas. Ninguém chiou. Cada um tinha a sua boquinha particular e, na sombra, longe dos holofotes, podiam todos cuidar da vida com tranqüilidade.

O programa de privatização no setor de telecomunicações interrompeu todos os projetos de aleitamento nas tetas públicas. Todos, a palavra é esta, todos os grandes grupos jornalísticos brasileiros com um mínimo de solvência candidataram-se a abocanhar operadoras, lotes de concessões de telefonia, fixa e móvel. Não houve jornal, "chapa branca" ou "chapa preta", que não proclamasse sua adesão à modernidade e às leis do mercado. Todos perderam fábulas de dinheiro nessa louca aventura que comprometeu a atividade central de uma empresa jornalística – fazer jornalismo independente.

No mesmo período, o governo federal deixou que os sucessores da falecida TV Tupi obtivessem uma razoável indenização de cerca de 200 milhões de reais numa demanda que se arrastava havia uma década. Ninguém uivou, os lobos conviviam em paz e isso convinha a todos.

Em 28 de abril de 1999, a Folha de S.Paulo deu o primeiro estrilo quando denunciou as empresas de comunicação comprometidas com financiamento de empréstimos no exterior através do BNDES: Grupo Globo, Abril, RBS e Grupo Estado [clique aqui para ler a íntegra da matéria]

Logo em seguida, o Grupo Folha e o Grupo Globo selaram a paz às custas do sacrifício da Gazeta Mercantil e o lançamento do diário econômico Valor. Ninguém mais falou em BNDES, consciências subitamente sossegadas. Viveriam felizes para sempre, não fosse a mão do destino.

Às turras novamente, volta a Folha a encher-se de brios moralistas e aproveita a temporada eleitoral para denunciar a nova operação da Vênus Platinada com o BNDES como apoio político ao candidato do governo à sucessão presidencial. Inconfortável na situação de apoiante dos bandos de Maluf, ACM e Sarney, a Folha tenta jogar o sócio na mesma situação.

O mais grave desta lengalenga hipócrita é que ninguém, a palavra é esta, ninguém está contando toda a verdade. O noticiário apresentado nas páginas econômicas é parcial, dirigido, visivelmente suspeito. Os jornais desafetos, esquecidos dos seus compromissos de imparcialidade, não têm escrúpulos em manipular matérias sobre empresas que têm ações na Bolsa de Valores, num visível desrespeito ao leitor-investidor e às regras vigentes no mercado de capitais.

Se a situação é tão lamentável com apenas uma empresa de capital aberto (Globo Cabo), imaginem-se as dimensões e implicações do vale-tudo quando as ações das grandes empresas jornalísticas estiverem na Bolsa em decorrência das recentes mudanças no artigo 222 da Constituição.

Hoje é impossível acreditar no que diz um jornal sobre a situação econômica do rival. Dentro em breve, será muito pior: as cotações da Bolsa estarão inteiramente sujeitas aos humores, jogadas e egos dos donos da verdade.



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