AGONIA DO TEXTO
O (des)prazer de ler
Cláudio Weber Abramo
No Brasil escreve-se cada vez pior, e a imprensa não é exceção. O meio jornalístico parece tomado por um esforço coletivo no sentido de empobrecer, trivializar e desvirtuar o uso da língua. Acontece que a imprensa tem função normativa: ela estabelece um modelo que tende a ser reproduzido pelo leitorado. Ao descuidar dessa responsabilidade, a imprensa desserve a coletividade.
A deterioração lingüística verificada na imprensa se origina de diferentes vertentes. O esforço de simplificação dos textos, estimulado pela mística do lead e alimentado pelo empobrecimento vocabular e semântico dos jornalistas, transforma cada matéria num exercício de busca da máxima trivialidade possível. Como as coisas mais interessantes que acontecem no mundo não são triviais, muito ao contrário, a imprensa vai se condenando a noticiar o desinteressante, o elementar, o básico, a manifestação emocional rasa, o fatinho que possa ser resumido numa frase fácil. A gargalhada, não o sorriso, o óbvio, não o sutil.
As fontes que têm agudeza na avaliação do comportamento da imprensa manipulam essa fragilidade lingüística em seu próprio proveito; quem descuida se arrisca a ver publicado o que não disse. A ironia, um recurso prosódico fundamental, praticamente desapareceu da boca das fontes, pois a regra é que seja tomada literalmente. Outro dia, o presidente do PFL, Jorge Bornhausen, "lançou" a candidatura do sr. Armínio Fraga à Presidência da República. Não faltou quem transformasse isso em notícia.
A busca pela expressão rasa no relato dos fatos tem o efeito perverso de embotar a capacidade do repórter de se aperceber de que nem tudo é fácil, simples, direto. Os fatos são transformados em agregados de subfatos elementares mais ou menos desconexos. A escolha de um vocabulário cada vez mais reduzido vai também eliminando de consideração as idéias que são menos simples. Elas são cada vez menos reconhecidas.
A edição não ajuda, pois se quatro repórteres cobrem diferentes aspectos ou fontes relacionadas a um mesmo assunto, a coisa sai publicada da forma como emerge do terminal de cada um: as matérias não se relacionam direito entre si, vagueiam de um lado para o outro sem rumo certo.
Isso sem falar na esqualidez do domínio da língua. Outro dia li, num jornalão: "uma mobilização popular cada vez mais esganiçada". Num site informativo, uma matéria sobre as Olimpíadas afirmava: "o holandês Pieter van den Hoogenband estipulou o melhor tempo da história".
Em especial na televisão, listas de coisas, eventos, exemplos, terminam invariavelmente com o advérbio "até": "Vejam que beleza. Nesta feira de eletrodomésticos podem se encontrar liquidificadores, geladeiras e até televisores".
A palavra "represália" desapareceu; só se usa "retaliação", por influência do inglês (a palavra existe em português, não é esse o ponto). O mesmo com "comemoração", a qual desaparece em favor de "celebração", pelo mesmo motivo. Sentença judiciais não são mais objeto de "recursos", mas de "apelações".
Seria possível prosseguir nessa toada por várias laudas. O jornalismo sugere cada vez mais que o repórter não deriva prazer no ato escrever. Como é que se espera que o leitor terá prazer em ler? Ou será que esse desiderato se tornou obsoleto?
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