ASPAS
ENTREVISTA / CAETANO VELOSO
Geneton Moraes Neto
"O jornalismo em debate", copyright Globo.com (www.globo.com/caetanoveloso), 11/12/00
Entrevista de Caetano Veloso a Geneton Moraes Neto a propósito do lançamento do CD Noites do Norte,
O que incomoda você na postura da imprensa diante de lançamentos de discos e livros? Por que é que você resolveu neste disco primeiro falar através da internet para todo mundo?
Caetano Veloso
– ‘Faz algum tempo que me sinto um pouco mal quando vejo nos jornais os lançamentos de discos, livros, peças de teatro, filmes. Vejo sair na primeira página dos segundos cadernos, no mesmo dia, matérias parecidas: uma entrevista matada, uma crítica pequenininha, escrita sem tempo, em conseqüência de uma combinação feita entre os jornais e as assessorias de imprensa. Acho que o jornal perde e o produto perde. Porque o produto - um disco, um livro, um filme - vira uma notícia que é disputada pelos jornais. Parece que um vai furar o outro.
Mas penso, na apreciação de um livro, não seria cabível pensar que um jornal possa ‘furar’ o outro. Ou alguém tem algo a dizer de interessante sobre aquele livro - e o fará quando estiver preparado, para que o jornal seja o melhor possível - ou então reduz-se tudo a uma notícia que será disputada entre os jornais. O que acontece hoje é que se uma notícia sobre um lançamento qualquer sair antes em um jornal, o outro não publica nada sobre o assunto. É um problema que desmerece a imprensa - e os produtos também, porque eles terminam mal apreciados criticamente. Os críticos não têm tempo de ouvir. Recebem um CD com um press release, no mesmo dia todos entrevistam o artista e saem rapidamente para as redações.
Então, tive uma vontade louca de procurar um meio de driblar isso. Mas é muito difícil. Eu estou aqui fazendo de uma maneira que me parece que pode mexer com esse quadro. Se a gente conseguir mexer e mudar...
As pessoas escrevem a crítica como e quando quiserem. Não faço entrevista com elas agora. A que estou fazendo agora com você pode ser lida - ou vista - na Internet por todo mundo, ao mesmo tempo, jornalistas e não-jornalistas. Quem tiver acesso à Internet verá. Pode até conferir o que os jornais publicarem.
O que digo aqui pode também estimular entrevistas particulares sobre determinados assuntos. Ou sobre um detalhe que não foi falado. O jornalista pode dizer assim: ‘Quero ‘aporrinhar’ Caetano sobre um detalhe de que ele não falou’. A gente faz, então, a entrevista. Se ninguém quiser fazer, tudo bem: não se faz, contanto que se mude a prática. Eu realmente acho que é saudável e necessário mudar. Os jornalistas também estão precisando! Nós estamos! Não pode um jornal sair parecendo que é o release dos lançamentos. Para as assessorias e para quem oferece o produto - artistas, companhias de cinema, editoras, gravadoras - é como se o jornal fosse um release, como se a página do jornal fosse um veículo de lançamento.’
Mas você acha que pode quebrar esse vício através da internet?
C.V.
– ‘É uma maneira de tentar quebrar. Pelo menos a entrevista sairá para todo mundo. Pode ser que haja um ritmo diferente. A gente vê que, na própria imprensa, há esforço nesse sentido. Eu li, na revista Bravo, um artigo de Sérgio Augusto que diz exatamente o que estou dizendo aqui. Além desse artigo de Sérgio Augusto, há jornalistas que vão fundo num assunto que ninguém escolheu, numa data que não foi determinada por nenhum acordo com assessorias. A gente vê que há uma certa reação. Mas esse negócio de sair na primeira página de todos o lançamento de um filme é pobre, porque não se privilegia a apreciação.’
Ensaístas conservadores, como o inglês Paul Johnson, que escreveu um livro para dizer que a Arte Moderna é uma porcaria, dizem que a grande praga desse final de século é o relativismo cultural: tudo é válido, nada é ruim. Você não corre risco de estimular esse relativismo cultural ao criticar os críticos da predominância da chamada música comercial no mercado?
C.V.
– ‘Eu olho com desconfiança esses conservadores. Mas não gosto desse negócio de vale tudo não. Por falar o que falo, compreendo que há um risco de parecer que dou força ao que eles chamam de ‘relativismo cultural’. Mas, na crítica que estou fazendo aos jornalistas, não me sinto de maneira nenhuma dando força ao relativismo cultural. Pelo contrário! Porque acho que o que vem acontecendo é um enfraquecimento da instância crítica.
Os jornalistas se comportam como artistas ultra-comerciais. Mas se dão o direito de criticar artistas que são, sob o ponto de vista profissional, muito mais responsáveis que eles! Os jornalistas se dão o direito de descartar a existência desses artistas como se eles, os artistas, fossem comerciais e os jornalistas não o fossem. O que se vê, aí, é um relativismo inaceitável, uma confusão de valores que não posso aceitar! Sou muito mais exigente!
O sujeito que critica não sabe redigir bem. Mas Daniela Mercury canta afinado, ensaia bem os números; Ivete Sangalo arrebenta cantando; Sandy é uma cantora perfeita, sob o ponto de vista técnico. Eu peço, pelo menos, que o sujeito que escreve na Folha ou o outro que escreve no Globo redijam a frase corretamente. É o mínimo! Como Sandy é afinada, que ele saiba pelo menos escrever. Mas não! Ele é uma estrela da agressão e da opinião moderna. Só gosta de grupos de língua inglesa. Para ele, nada do que é brasileiro pode prestar jamais! Isso já é um princípio simplório demais. Fazem personagens assim mas não apresentam sequer um produto comparável ao que Sandy e Júnior apresentam. Chitãozinho e Xororó cantam afinado, ensaiam bem os shows. Os artigos são mal escritos! Você vai ler: está errado o português! A idéia é primária, o português está errado e ele vai falar mal da Sandy? Vai falar mal de Ivete Sangalo? Não dá! É muito abaixo da Ivete Sangalo, como quem apresenta um produto que vou consumir.
Sou, então, muito mais exigente. Não há relativismo possível aí! O que estou dizendo é que essas pessoas são superiores àquelas outras, naquilo que fazem! De fato, são! Posso mostrar a você que, numa gravação da Sandy, a afinação é 100%! Eu levo você ao show da Sandy. Digo assim: você não vai ver aqui um buraco, porque ela entra no tempo certo, ela tem intensidade de voz certa em relação aos instrumentos, as harmonias estão certas. A afinação é em nível de Elis Regina! Mas posso pegar o texto de muitos jornalistas e dizer: venha cá, o que é que este parágrafo quer dizer? É tudo errado, mal escrito.
Então, não existe nada de relativista nisso. Nada! Ao contrário: é possível mostrar claramente que o que estou dizendo é pertinente, porque há valores universais que podem ser reconhecidos ali. Há redações bem realizadas e há cantos afinados. Há cantos desafinados, você pode até medir a afinação em aparelhos. Não há nada de relativismo. Há, sim, valores absolutos, universais. Uma nota afinada é uma nota afinada! Isso é o momento meu menos relativista: eu estou me atendo a valores reconhecíveis e indiscutíveis.’
Você diria que a competição exacerbada entre os jornais vem prejudicando a cobertura cultural?
C.V.
– ‘Eu acho que prejudica a cobertura cultural, empobrece a prática do jornalismo e compromete a própria qualidade dos cadernos ditos culturais. Não que não haja coisas boas e interessantes! Mas existe uma coisa que acho mais grave, porque é um sintoma de um grande comercialismo dos jornais e de uma vulgarização do aspecto comercial do jornal: é a transformação de jornalistas - que assinam o nome - em personagens que procuram caricaturar-se para ver se se tornam figuras populares. Nesta área do jornalismo cultural, dá-se muita ênfase a uma suposta agressividade dos apreciadores. É uma agressividade forçada, para que o jornal fique polêmico ou seja a estrela do acontecimento.
Sinceramente, não posso aceitar que as mesmas pessoas que agem por uma motivação comercial reclamem contra o comercialismo da axé music ou da música sertaneja ou do pagode! Tenho vontade de rir quando vejo esse tipo de jornal e esse tipo de jornalismo querendo torcer o nariz para a axé music ou para duplas sertanejas. Digo: comparada com o que vejo nesses veículos, Daniela Mercury é São Francisco de Assis! Há nos blocos de axé a responsabilidade de apresentar um produto respeitável. Também há, nas duplas caipiras e nos grupos de pagode, a responsabilidade de apresentar um produto de alta qualidade, dentro daquilo a que se propõem - com exigência, com trabalho, com profissionalismo, com respeito por quem vai consumir. Não vejo nada disso na produção desses jornalistas que torcem o nariz para música axé, pagode e sertaneja.
Eu li na revista Veja um artigo que citava números para dizer que considerava auspiciosa a queda na vendagem da axé music e do pagode. A verdade é que o mercado fonográfico brasileiro estava caindo em geral, mas essa revista se dava ao direito de festejar dizendo ‘é bom, porque nós vamos nos livrar de ouvir esse lixo’. Mas a revista era um lixo - e essa música é que é bem feita, por gente honesta. Para mim, não dá! Dizem: ‘É corporativismo de Caetano Veloso; não se pode falar nada contra a música popular...’ Mas não é assim não. Não sou corporativista! Quando gente de música erra, eu digo e tenho dito com a maior clareza, às vezes com grande agressividade!
Já houve coisas que desaprovei abertamente. No meu livro Verdade Tropical há críticas nítidas ao trabalho de colegas. E exponho os atritos. Agora mesmo tive uma discordância com Marcelo D2 - do Planet Hemp - por causa de uma atitude pública que ele teve. Adorei a apresentação do Planet Hemp na festa da MTV, achei que foi o melhor número da noite. Marcelo D2 disse no jornal que não gosta da minha música. Disse-me também pessoalmente que não gosta da minha música, o que acho bom, porque se o fato de ele não gostar contribui para ele ser como ele é, então ótimo. É bom que as pessoas não gostem de algumas coisas para que possam ser mais intensamente o que elas são. Mas ele agiu mal comigo de uma maneira imperdoável que não tem nada a ver com o fato de ele gostar da minha música ou não.
Uma das melhores coisas que vi ultimamente foi o show da Nação Zumbi. Fui ver sozinho em Santa Teresa. Achei maravilhoso; achei a banda a melhor coisa do mundo. Mas, outro dia, ouvi que não gostam do meu som. Eu disse: se é para fazer aquilo, então acho bom que não gostem do meu som. Porque, para mim, aquilo que a Nação Zumbi faz é tudo o que há de bom. Talvez seja a melhor banda do Brasil atualmente!’
Você diz que a imprensa reclama da qualidade da chamada música comercial, mas a imprensa deve se lembrar de que também ela segue as leis do comércio. Você quer convocar a imprensa a fazer uma comparação entre a qualidade do produto oferecido pelos jornalistas e a música? É esse o desafio que você quer fazer?
C.V.
– ‘Você falou exatamente o que eu podia ter falado em poucas palavras. Eu, pessoalmente, estou convencido de que a música comercial é de melhor qualidade do que a imprensa comercial brasileira. Gostaria que os jornalistas atentassem para isso.’
Você já reclamou de que as críticas que se fazem à axé music e aos pagodeiros escondem, na verdade, um preconceito contra a inclusão de gente humilde no mercado consumidor. O motivo é esse?
C.V.
– ‘É o motivo principal escondido atrás de tudo. O comentário que li na Veja celebrando o fato de o mercado ter caído é um modo de dizer: ‘A inclusão no mercado dessa gentalha que passou a consumir discos e a eleger esse ou aquele tipo de música é um negócio que o Brasil nunca teve, mas é passageiro, vai acabar, graças a Deus está passando e vamos ficar nós aqui, com uma revista bacaninha, com uma gente de alto nível...’. Acontece que não é assim. Isso daí é pavor de que a superação da escravidão - que Joaquim Nabuco preconizava - se realize.’
Você diz que o Brasil tem uma tendência para o apartheid tanto social tanto cultural. Quais são as manifestações concretas desse apartheid na música, no terreno musical, do gosto musical?
C.V.
– ‘O Brasil tem uma tendência para manter um grupo pequeno que termina funcionando como uma elite. Mas é apenas uma elite dos que se salvaram da miséria. Isso é que é a elite, na verdade. Quando você conhece um brasileiro de sua classe social, você fala dez minutos e logo descobre que ele conhece quatro ou cinco pessoas com quem você tem algum tipo de relacionamento ou é parente. É pequeno o grupo de pessoas que está fora da grande massa miserável. Isso é que considero ser verdadeiramente um apartheid. Não gosto de quem diz ou quem tenta dizer que a segregação racial no Brasil é pior do que a que havia na África do Sul - onde existia um apartheid oficial pior do que a segregação racial que o sul dos Estados Unidos conheceu. Discordo. Não acho que seja pior. Penso mais como Joaquim Nabuco. Um pouco além de Joaquim Nabuco quanto a este problema.
Não gosto da tendência de chamar uma área da criação de música popular no Brasil de ‘MPB’, e considerá-la como se fosse a parte elevada de algo que, na maioria, é ‘vulgar e ruim’. Isso é um erro total! Eu me sinto violentamente agredido por isso.
Quer dizer que eu sou MPB e Raulzito e os Racionais MCs não são? Ao mesmo tempo, eu, oficialmente, estaria junto com Chico Buarque, Chico César, Gilberto Gil, Milton Nascimento. Mas aí a Daniela Mercury não é - ou agora já quase é. Já o Chiclete com Banana não é. A turma que é ‘MPB’ necessariamente estaria num nível superior de produção musical. Não acho! Não acho mesmo. As duas coisas estão erradas. O que se pode chamar de MPB é só uma coisa: a música popular que é feita no Brasil pelos brasileiros.’
Você já citou o caderno Folhateen - da Folha de S. Paulo - como um dos lugares onde se publicam críticas a você com certa freqüência. Um dos colunistas, Álvaro Pereira Júnior, diz que aqui no Brasil qualquer compositor que queira fazer sucesso tem de estender o tapete vermelho para Caetano Veloso. É esse o tipo de crítica que irrita você?
C.V.
– ‘Não propriamente. Porque, a Folhateen acho que é um pouco brincadeira. Mas é uma brincadeira que tem um problema: o do comercialismo. Aquilo ali é feito para criar um tipo de público, um tipo de platéia de que eles são os palhaços, os bem desenhados. É o negócio de Paulo Francis. O sujeito escreve dizendo tudo o que pensa, não respeita fulano, eles falam tudo, ‘sei de tudo’, ‘estou por dentro’, ‘sei onde as cobras dormem’, ‘não tenho medo de dizer isto e aquilo’. É aquele personagem da imprensa.
Mas Paulo Francis era um grande jornalista, um homem muito culto, muito inteligente, escrevia rápido. Fez uma grande carreira de vedete. O grande confronto que houve entre mim e Paulo Francis - e ele me agrediu violentamente - aconteceu porque, mais cedo ou mais tarde, teria de haver um choque: sou uma vedete, um cantor popular famoso, um personagem público do entretenimento com uma capacidade de articular idéias e uma vocação crítica muito desenvolvida que apareceu no meu trabalho e nas minhas entrevistas. Já ele era um crítico e um jornalista muito articulado e que tinha um talento de vedete. Era um mau romancista, o que deve ter lhe causado amargura, porque ele queria ser um homem de alta cultura.
Os meninos da Folhateen - os mais novos - pegaram justamente a última fase do Paulo Francis, a mais reacionária, ligada a tudo o que fosse de direita. Todos os aspectos da direita ele enaltecia. Mas esse pessoal me superestima. É preciso que se reitere que sou o máximo para que seja pesado eles dizerem que sou uma porcaria. O que eles querem é que se intensifique o retrato que eles fazem de si mesmos, como grandes figuras, como Paulo Francisinhos.’"
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