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ASPAS
CAETANO VELOSO
Jean-Yves de Neufville
"Pau na imprensa em favor da crítica e da ‘boa música’?", copyright Valor Econômico, 13/12/00
"Nesta segunda-feira foi distribuído para a imprensa ‘Noites do Norte’, o novo CD de Caetano Veloso, lançado pela Universal. Em vez do kit promocional que costuma ser distribuído e da eventual entrevista individual, os jornalistas foram orientados a consultar o site www.caetanoveloso.com.br, criado para a ocasião, que traz um texto sobre o disco, uma extensa (e polêmica) entrevista, músicas e fotos.
Também chega às lojas o DVD ‘Un Caballero de Fina Estampa’, gravado no show homônimo em que o compositor mescla repertório latino cantado em espanhol (‘Vuelvo Al Sur’, ‘La Barca’) com canções brasileiras - ‘Lábios Que Beijei’ (J. Cascata/Leonel Azevedo) e ‘Canção de Amor’ (Chocolate/ Elano de Paula).
Na entrevista, Caetano anuncia que recorreu à internet para ‘subverter o esquema tradicional de lançamento de discos’, fazendo com que todos tenham acesso ao mesmo tempo a essas informações. Seu objetivo é driblar um problema que, segundo ele, ‘desmerece a própria imprensa’. ‘Vejo sair nas primeiras páginas dos segundos cadernos, no mesmo dia, matérias parecidas: uma entrevista matada, uma crítica pequenininha, escrita sem tempo, em conseqüência de uma combinação feita entre os jornais e as assessorias de imprensa’, diz.
Caetano diz que detectou um processo de ‘enfraquecimento da instância crítica, em que os jornalistas se comportam como artistas ultracomerciais’. Segundo ele, enquanto os jornalistas ‘escrevem mal’, cantores como Sandy e Junior, Ivete Sangalo e outros estão ‘afinados’. ‘O que estou dizendo é que essas pessoas são superiores àquelas outras no que elas fazem’. Caetano ataca o que considera ser a ‘vulgarização do aspecto comercial do jornal’, o qual cultivaria uma ‘agressividade forçada’ para ficar polêmico, ou seja, para se tornar a estrela do acontecimento.
Caetano afirma estar convencido de que ‘a música comercial é de melhor qualidade que a imprensa comercial’, acusando os detratores dos gêneros pagode, axé e sertanejo de terem preconceito contra a inclusão de gente humilde no mercado consumidor, o que identifica como um ‘pavor da classe dominante de que a superação da escravidão, como foi preconizada por Joaquim Nabuco, se realize’.
Pois é a obra do escritor pernambucano Joaquim Nabuco (1849-1910), abolicionista militante e uma das maiores figuras humanas e políticas do segundo reinado, que fornece a substância e o título ao CD, inteiramente voltado para a questão da escravidão e, sobretudo, para as seqüelas por ela deixadas na sociedade brasileira.. Em ‘Noites do Norte’, Caetano se inspirou no livro ‘Minha Formação’ (1900), a principal obra literária de Nabuco. A ponto de compor uma música sobre um texto em prosa do escritor. Com isso, produziu seu disco mais engajado desde ‘Tropicália 2’ e não surpreende que tenha escolhido o estilo ‘pé na porta’ para promovê-lo, o que pede comentários.
Primeiro, o cantor escorrega na tentação generalizante ao colocar todos os veículos no mesmo saco, caindo assim no mesmo erro que pretende denunciar, cultivando um outro preconceito. Segundo, ele elogia artistas ditos comerciais em função de sua qualidade de execução e interpretação, mas, não se arrisca a defender aqueles gêneros musicais em si, porque sabe muito bem que são subgêneros de uma arte que ele mesmo tanto contribui para apurar e elevar.
Será mesmo preconceito não gostar de ‘country’ brasileiro americanizado, de pagode ou de axé? Não poderia ser uma simples questão de gosto? Por que o jornalista musical haveria de enaltecê-los? Por serem brasileiros? E quando o jornalista que dedica sua existência à música busca se pautar em função de uma certa exigência artística?
Desafio Caetano a escrever uma matéria de 60 linhas sobre os méritos musicais do novo disco de Sandy e Junior ou da Ivete Sangalo, sem recorrer às habituais digressões que o show bizz sabe tão bem plantar. Ele irá descobrir muito depressa que aqueles trabalhos dizem respeito a comportamento, e muito pouco à música, numa proporção de 80% para 20%.
Sem desmerecer a qualidade de seu trabalho, esses artistas simplesmente não gravam discos que possam ser discutidos seriamente nas páginas de um segundo caderno que pretende levar uma informação musical mais substancial aos seus leitores. Além disso, muitos deles, voltados para o entretenimento de massa, buscam na imprensa legitimação e ‘respeitabilidade’ cultural a todo custo.
Por fim, Caetano compara alhos com bugalhos, misturando coisas distintas para tecer suas considerações (o ofício do músico com o do jornalista), o que é pura retórica sofista. Sugestão: que tal reler Platão e Aristóteles e pôr música em algum de seus textos?"
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"O ritmo dos afro-brasileiros em novo CD de Caetano", copyright Valor Econômico, 13/12/00
"O que era metáfora no álbum precedente, ‘Livro’ (1997), em que Caetano Veloso relacionava arte literária com arte musical, acabou se tornando forma concreta de criação do CD ‘Noites do Norte’.
Recém-lançado, o disco empresta seu título de um texto do escritor pernambucano Joaquim Nabuco. A reflexão que o autor faz sobre a questão da escravidão no Brasil fornece a substância e o tema da maioria das 12 músicas que compõem ‘Noites do Norte’.
Se o novo CD de Caetano Veloso não traz nenhum pagode, nem música sertaneja, nem axé music, ele brinda o ouvinte com um destilado sofisticado de ritmos afro-brasileiros.
Nele, há um verdadeiro diálogo entre os sons mais primitivos (do terreiro) e outros mais sofisticados - desde o samba-canção até a bossa nova.
Ao ouvir o CD pela primeira vez, o que mais chama a atenção é a parte percussiva para composições como ‘Zera a Reza’ - em que a bateria, em primeiro plano, ganha um peso incomum sobre a música -, ‘13 de Maio’, onde os arranjos de percussão são de seu filho Moreno Veloso.
Igual impressão se tem ao ouvir a percussão de ‘Zumbi’, ótima versão do clássico de Jorge Ben Jor, ou, ainda, com a audição dos arranjos à Olodum de ‘Cobra Coral’.
O ouvinte reencontra as transgressões que costumam fazer parte dos discos de Caetano e que se expressam, agora, por meio da agressividade das intervenções das guitarras elétricas - como no rock cortante ‘Rock'n'Raul’, homenagem ao ‘Maluco Beleza’ Raul Seixas (1945-1989).
Até mesmo uma balada singela como ‘Ia’, que em outros tempos teria recebido arranjos mais convencionais, ganhou ‘riffs’ cortantes de guitarra elétrica.
Aqui e lá, o disco traz intervenções inesperadas, de efeitos ou de instrumentos, que podem até destoar dos ambientes sonoros em que são inseridos e acabam conferindo uma violência raramente ouvida nas músicas de Caetano Veloso.
Rico em melodias e perpassado de letras reflexivas, de tônica realista, o disco desvenda aos poucos suas gemas. Como, por exemplo, a bela ‘Cantiga de Boi’, em contraste total com ‘Rock'n'Raul’, além das incursões eruditas da faixa-título e de ‘Michelangelo Antonioni’, reverência ao cineasta italiano. A única concessão à tradição é ‘Meu Rio’, uma versão carioca e modernizada de ‘Sampa’.
Um dos últimos discos importantes desse século que acaba, ‘Noites do Norte’ é um álbum que pode ser chamado de ‘cabeça’. Ele é repleto de sutilezas. Agrada e incomoda ao mesmo tempo. É, com certeza, um Caetano de ótima safra."
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