DE OLHO NO RODÍZIO



Depois de uma primeira carta transformada em artigo no número 26 do O.I. (ver "Sociedade não debateu", abaixo), José Paulo de Andrade nos remeteu outra mensagem, em que, após exaltar o modo como seu texto foi tratado, permitindo o desdobramento da discussão, propõe um roteiro para a análise do rodízio. Abaixo, esta nova mensagem e a resposta.

Uma pauta para o debate

José Paulo de Andrade



"Reagi a um rótulo negativo que alcançou o veículo rádio como um todo, que foi o título do artigo do Elder Faria Braga, "Rádios tendenciosas" e, com menor ofensa, o seu, "Cidadania Castigada". (....) Gostaria de acrescentar que a cobertura da imprensa em parte foi prejudicada pela pouca informação gerada tanto pelo Executivo como pelo Legislativo. A peça de justificação do projeto, enviada pelo governador, é um primor de desinformação, não contém sequer um dado técnico. Que houve bobagens, não há dúvida, como as reportagens de um entrevistado só, pessoas que 'tanto-faz-como-fez' ou, como saiu na primeira página de "O Estado de S.Paulo" de 24 de junho, um 'empresário' que decidiu usar o metrô, em companhia de seu suposto motorista (empresário que, por coincidência, é irmão da assessora de imprensa do governador).

A discussão para ser objetiva tem de se centrar em alguns pontos cardeais:

1) O rodízio é necessário para reduzir os índices de poluição?

2) Justifica-se impor sacrifício a parte da população durante período tão longo (em 98, de maio a setembro)?

3) Quais os investimentos que a Cetesb faz no restante do ano para combater as fontes poluidoras, não só as originárias de veículos automotores?

4) Que papel devem exercer as Câmaras Municipais dos municípios abrangidos pela restrição de circulação?

5) O que deve mudar na Assembléia Legislativa para que a região metropolitana não seja obrigada a engolir decisão de metade de deputados do interior, sem nenhum vínculo e satisfação a dar aos eleitores da área, preocupados em dizer "amém" ao Governo?

6) A tal consulta popular sacada à última hora pelo secretário, que critérios vai ter para não ser distorcida? (....) Por último, não consideremos o proprietário de automóvel como um bandido. O mérito do rodízio - e não a cobertura da imprensa - é que tem estado em discussão para as pessoas que têm acesso ao OBSERVATÓRIO. E se justifica, é a parte mais forte.

Quanto à cidadania, que teria sido castigada, Mauro, não se esqueça de que o rádio tem sido responsável, em grande parte, pela popularização dos mecanismos de defesa do consumidor. Esta é uma tecla na qual venho batendo em meus quase 25 anos à frente do programa 'O Pulo do Gato'. Quando começou, em abril de 73, as pessoas diziam que tinham procurado o INPS para atendimento médico, porque 'era de graça'. Hoje elas sabem que nada é de graça e quem paga são elas. Não subestimemos a importância do veículo como propagador dessa conscientização. Quanto aos 'direitos humanos' (não os legítimos), veja a que caos levaram a Segurança Pública. O que acontece hoje é reflexo da desmoralização a que alguns governantes submeteram a Polícia."

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Além do jardim da retórica oficial

M.M.



Rádio, meio de comunicação sensacional que trabalha com a preciosa palavra falada e é até hoje - Internet à parte - o único que permite alguma interação. Rádio, é em nome de tua importância que se pede mais e melhor.

Rádio brasileiro, primo pobre dos meios de comunicação, o que recebe a menor fração das verbas publicitárias, tem infra-estrutura de jornalismo mais precária, paga os salários mais baixos. Por isso no rádio se improvisa tanto e se opina tanto.

Quanto ao rodízio: não é preciso, mas repito - sou a favor. A questão, neste OBSERVATÓRIO, é a cobertura tendenciosa. Causa indignação ler-se manchete assim: "No 3° dia do rodízio, qualidade do ar piora" (O Estado de S.Paulo, 26/6/97). E três dias depois, no mesmo jornal: "População de SP quer rodízio o ano inteiro".

A maior parte dos jornalistas não consegue libertar-se da retórica governamental. José Paulo de Andrade não é exceção. Considera o rodízio um sacrifício desnecessário para o combate à poluição. Ora, o combate à poluição foi a motivação do governo. Nós, o povo, podemos nos apropriar dos benefícios da medida em outra dimensão, a do trânsito, ou seja, a das funções vitais da cidade, muito mais dramática do que a da poluição.

No exercício de seu papel social, o jornalista é como um representante auto-instituído do povo. Cingir-se ao discurso oficial, não. No território da cidadania, colocar-se no lugar do homem do povo e no lugar do governante. E pensar com sua própria cabeça.

Na minha cabeça e na vida de minhas retinas fatigadas tem o seguinte: nunca me esquecerei do trânsito ameno de julho de 1997, com rodízio e férias escolares. A vida que poderia ter sido.

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Displicência e erro

Alceu Nader



Os dois maiores jornais de São Paulo continuam a tratar o rodízio na Grande São Paulo com disciplicência e preguiça. Salvo as inserções do início da campanha, em 23 de junho passado, quando predominaram, como de costume, as historietas banais de socialites diante do rodízio, apenas O Estado de S. Paulo continuou dando diariamente, em primeira página, quais finais de placas estavam proibidos de circular no dia.

Como ato falho da pouca importância que vem sendo dada ao rodízio, a Folha de S. Paulo, de 31 de julho, uma quinta-feira, acrescentou seu cadinho na confusão criada pelo que se convencionou chamar de "rodízio do rodízio", ou seja, a mudança das datas de proibição de circulação dos veículos, segundo o número final da placa, que vinha sendo cumprida.

Na edição deste dia, a Folha trouxe um quadro, dizendo que os automóveis com finais de placa 9 e 0 estavam proibidos de circular naquele dia, quando o correto seria finais de placa 7 e 8.

A confusão gerou uma reportagem interna com o mea culpa "Folha comete erro sobre rodízio; placas 9 e 0 não podem circular hoje", trazendo, de quebra, como que para justificar a confusão que criara, uma reportagem de apoio com o secretário estadual de Meio Ambiente, "admitindo" que a adoção do rodízio do rodízio tornara-se um novo "complicador".

O rodízio do rodízio, explica o secretário, foi implantado para não sacrificar apenas os proprietários de veículos com finais de placas 1 e 2 (segundas-feiras, pelo rodízio original) e 9 e 0 (sextas-feiras, pelo rodízio original), que se sentiram prejudicados por não poder viajar nem chegar de viagem nesses dias.

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