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MEMÓRIA
A liberdade nas entrelinhas (*)
Carlos Castello Branco (1920-1993)
Homenagem aos 80 anos de nascimento do colunista Carlos Castello Branco, 54 anos de jornalismo, morto em 1º/6/1993.
(*) Afora a primeira nota, as demais têm copyright do caderno Idéias, do Jornal do Brasil, 24/6/2000
Castellinho, 80 (*)
Alberto Dines
Bem-vindos ao Observatório da Imprensa. Você sabe com certeza o que é uma coluna. É um pilar, vertical e firme, cuja função é sustentar uma estrutura. Os jornais e revistas também têm colunas e funcionam igualmente como sustentação. São as referências no meio do noticiário picado. No Brasil, ainda hoje, quando se fala em coluna, o leitor bem informado logo lembra da Coluna do Castello, que trouxe todos os dias durante 30 anos, na página 2 do Jornal do Brasil, a análise da movimentação política nacional.
Seu autor, Carlos Castello Branco, o Castellinho, completaria 80 anos no último domingo [25/6]. E para que você tenha uma idéia da importância da Coluna do Castello, saiba que hoje [terça, 27/6] a Câmara Federal dedicou-lhe uma sessão especial. Na semana passada foi o Senado da República. Não são muitos os jornalistas que já conseguiram esta unanimidade e essa veneração da parte dos políticos. Este Observatório pretende estabelecer a controvérsia em torno da imprensa mas também está comprometido com a indicação de paradigmas. Grande parte da existência da Coluna do Castello desenvolveu-se durante um período conturbado e violento. Foram os anos de chumbo. Mas Castello atravessou-os incólume, sem ferir, sem ferir-se. Porque Castello foi um homem sem ódios. Este é o modelo que precisa ser reavivado.
(*) Editorial do Observatório da Imprensa na TV, programa nº 108, 27/6/00
A.D.
"Jornalismo de autor"
"Foi diretor da sucursal no Distrito Federal. Comandava a equipe, escrevia matérias avulsas, mas não tinha um espaço fixo e regular. Austeridade em matéria de colunas e textos assinados era uma das marcas do JB desde o tempo da reforma do Odylo Costa, filho.
Havia a tradicional rubrica Coisas da Política escrita por Heráclio Salles mas sem a sua assinatura. O Informe JB, do Pedro Müller, era a única atração do primeiro caderno com autoria explícita. O jornal era notícia, reportagem. Hoje ocorre o contrário _ a informação trazida da rua pela equipe ocupa o vazio entre as colunas assinadas, nem sempre por jornalistas.
Em 1962 o JORNAL DO BRASIL comprou a aguerrida Tribuna da Imprensa de Carlos Lacerda (então governador da Guanabara) e logo depois a direção foi entregue à dupla Mário Faustino-Hermano Alves. Carlos Castello Branco foi por eles convidado a fazer uma seção de análise política, diária. A ´nova fase´ simplesmente não aconteceu. Entre outras razões porque a primeira edição saiu com 24 horas de atraso. Castello e Armando foram convidados a transferir as respectivas colunas para o JB.
Sentei com Castelinho (assim o chamávamos) para definir a página e o formato da nova seção. O encontro durou alguns minutos apenas (não era de muita conversa, falava pouco e baixo, quase um resmungo): se o noticiário político começava na página dois, seria lógico lá ancorar a nova coluna. Então, qual o nome? Castelo lembrou de um combativo jornalista americano, Max Lerner, cujos artigos eram distribuídos a dezenas de jornais sob a rubrica The Max Lerner Column.
Sapequei: "Coluna do Castello". Ele titubeou, assustado com a perspectiva de ver o seu nome em título. Acabou aceitando. Não por vaidade mas porque percebeu que ensaiava-se uma nova experiência, o jornalismo de autor.
Foi um sucesso a partir do primeiro dia. Castello encontrou imediatamente a entonação apropriada _ informação de bastidores combinada à análise personalizada, distanciamento crítico e malícia. Tudo isso num estilo enxuto e aliciante. O leitor saía da primeira página e, em seguida, mergulhava no emaranhado da política explicado por um escritor de talento.
Dois anos depois conheci o próprio Max Lerner. Contei-lhe que a sua fórmula havia inspirado um dos pilares do jornalismo político brasileiro. Ficou feliz mas respondeu: ´Não é pela fórmula, um jornalista vale pelo que escreve.´ [Alberto Dines foi editor-chefe do Jornal do Brasil entre 1962-1973]"
Aloizio Mercadante
"Independência, liberdade e elegância"
"Conheci o Castelinho, nas noites de Brasília, sempre com um copo na mão e uma boa conversa. Já era um grande nome da imprensa e seguramente teria um lugar destacado na história do jornalismo brasileiro. Ele praticou a idéia da independência, cultivou o orgulho de ser livre na elegância de seu texto. Suas origens denunciam uma tentativa de síntese do Brasil, veio do Piauí, estado mais pobre da federação, mas passou por Minas, estado que sempre articulou a problemática unidade deste continente.
Ele foi uma espécie de testemunho contra os perigos do dogmatismo, pois freqüentou diferentes esquemas de poder, mas nunca se deixou contaminar pelo sectarismo. Teve a honra de ser perseguido pelo que não era. Seguramente nunca teve convicções socialistas. Mesmo assim, foi preso e censurado pela ditadura. Certamente, porque sustentava o direito dos outros pensarem diferentemente. Neste sentido, Castello Branco foi um herdeiro legítimo do Iluminismo. A frase atribuída a Voltaire _ ´Não concordo com nenhuma de suas palavras, mas defendo até a morte seu direito de pronunciá-las´ _ poderia ser assumida por ele.
Castello Branco produzia informações com objetividade, postura difícil de ser sustentada num país habituado aos adjetivos e à ambigüidade. Sua coluna no JB sempre foi uma referência obrigatória dos que se envolveram com os destinos da nação em seu tempo. Devemos a ele o registro inequívoco de que a renúncia de Jânio Quadros teve um caráter golpista. É verdade que esta interpretação já tinha grande aceitação. Mas Castello Branco falou de uma perspectiva privilegiada já que, na ocasião, ocupava o cargo de secretário de Imprensa do Presidente.
Castello Branco teve também suas passagens de pitonisa, embora não gostasse de fazer previsões. Quando foi chamado por Jânio Quadros para compor sua equipe fez a seguinte observação: ´Algo em mim, no entanto, me arrastava de volta ao pressentimento, que comuniquei a Aparecido antes de irmos trabalhar em Palácio, de que estávamos convocados a participar de uma tragédia ao lado daquela figura tensa, inexplicada e patética de Jânio Quadros.´ Era o velho jornalista saindo do campo da análise e invadindo a área da premonição.
Mas a força de seu texto era a análise política fina, atenta, sutil. Talvez por isso, Emir Sader tenha visto alguma semelhança entre seu livro A renúncia de Jânio e o 18 Brumário de Luiz Bonaparte, escrito por um certo Marx, sob encomenda de um coronel dos exércitos de Abraham Lincoln, sobre um golpe de estado na França, do século 19.
No debate plural da democracia, Castelinho faz falta, muita falta. [Aloizio Mercadante foi candidato a vice-presidente da República com Lula em 1994. É deputado federal, professor licenciado de Economia na Unicamp e na PUC-SP e líder da bancada do PT]"
Antonio Carlos Magalhães
"Obra completa será editada este ano"
"O Senado Federal associa-se, neste ano em que Carlos Castello Branco festejaria o octogésimo aniversário, às homenagens que o Brasil presta, e deve prestar sempre, a esse brasileiro. Ele é, sem nenhum favor, entre nós, não apenas um dos maiores jornalistas políticos de seu tempo, mas de todos os tempos.
A essa qualificação, atribuída pelos próprios jornalistas, soma-se outra, de igual importância: a de romancista e contista consagrado também pelos críticos da obra desse polígrafo, que brilhou, portanto, em todos os planos das Letras, no idioma português de nosso país.
Leitor habitual do que ele produzia diariamente, fui admirador da limpidez, da correção e da pertinência de suas análises políticas, publicadas durante mais de 30 anos em vários jornais, mas, em especial, no JORNAL DO BRASIL.
Todo esse material, hoje de difícil acesso, é uma enciclopédia indispensável à compreensão da nossa política, dado o conteúdo e a unidade dos textos, escritos pela pena de um só mestre, em meio às trepidações do cotidiano do país, vividas, vistas ou enfrentadas pelos brasileiros.
Por tudo isso, graças à colaboração da viúva do jornalista, Elvia Lordello Castello Branco, e de alguns de seus amigos, o Senado reúne a obra esparsa de Castello, para editá-la ainda este ano. Desse modo, além da merecida homenagem ao jornalista, constrói-se um monumento à cultura nacional, que as atuais e futuras gerações de brasileiros haverão de reverenciar. A ele, os estudantes de comunicação e os profissionais de imprensa, bem como todos quantos quiserem ou precisarem saber mais da política no Brasil terão livre acesso e poderão consultar as páginas de um jornalismo descomprometido, que não envelhecerá nunca, por embasar-se na ética da profissão e ser modelo de objetividade e coragem, ante a realidade nua e crua dos nossos acontecimentos políticos.
Castello viveu, com intensidade e frieza, como observador privilegiado _ em razão de seus dotes pessoais e das relações que teve com valiosas fontes de informação _, os principais momentos da política nacional, ao longo de sua carreira. Quando apresentava aos leitores a versão de tais fatos e os interpretava, em seus artigos _ a Coluna do Castello _ ele o fazia, invariavelmente, com a imparcialidade a mais honesta, de quem tinha convicções profundas.
Sob esse aspecto, fundamental em termos de jornalismo, Castello timbrou pela coerência. Nas delicadas ocasiões de colapso da democracia, ele jamais coonestou a ação dos que se omitiram ou se excederam no trato dos interesses do Brasil e dos brasileiros, mantendo-se, pois, inflexivelmente fiel a seu ideário democrático.
Avesso a engajamentos que lhe pudessem turbar a percepção dos fatos jornalísticos, ele não hesitou, porém, num desses instantes críticos, em atender ao apoio dos colegas mais jovens, para candidatar-se à presidência do sindicato dos jornalistas em Brasília. E, com a respeitabilidade e o prestígio de seu nome, participou do processo de devolução dessa entidade aos anseios libertários dos profissionais de imprensa, contidos, à época, tanto pelo regime de exceção quanto pela autocensura induzida.
Nessa aventura sindical de três anos _ atestam os contemporâneos de sua presidência, à frente do órgão de representação dos jornalistas da capital do país _, ele agiu exemplarmente, dignificando, com altivez e independência, a profissão e a prática da democracia.
Perderam-se, desse tempo, as lições não-gravadas, informais, que ele dava, com ironia e mordacidade, nas reuniões de trabalho com os jornalistas mais jovens, mesmo em conversas sobre assuntos amenos do cotidiano. Eram _ conta-se _ pequenas jóias de jornalismo e de ensinamento político, das quais, apesar de não terem sobrado transcrições, muita coisa ficou na mente de seus ouvintes.
Felizmente, pelo menos o substrato dessa produção à moda socrática, sobre práticas e compromissos do jornalismo, redigido no estilo ático de Castelo, estará na obra que o Senado editará. Melhor homenagem à sua memória e à memória histórica do país seria impossível prestar. Tanto mais que neste ano, em que ele completaria o 80º aniversário, os brasileiros dão sinais inequívocos de tomar consciência de seus direitos e deveres, individuais e coletivos, essenciais ao exercício da cidadania e à consolidação da democracia. Esse, aliás, era um dos sonhos do jornalista Carlos Castello Branco: ver o Brasil eliminar, de vez, as injustiças que geram pobreza, discriminação social, corrupção e impunidade. [Antonio Carlos Magalhães é presidente do Senado]"
Fernando Henrique Cardoso
"Não sei precisamente quando conheci Castelinho. Recordo-me, com nitidez de que, no início dos anos 70, quando ele presidia o Sindicato dos Jornalistas do Distrito Federal, organizou uma mesa-redonda para discutir a democracia.
Eram anos difíceis. O que hoje pode parecer banal _ um debate _ e sobre um tema ´neutro´, a democracia, naquela época era um ato de coragem.
Recordo-me de que estavam presentes o senador Severo Gomes _ grande amigo de Castelinho _, acredito que também o senador Roberto Saturnino, e eu, entre outros. Castello, à sua maneira, ajudava a minar as bases do regime autoritário.
E foi assim o tempo todo. Amigo de todos, dos poderosos e da oposição, não faltava ao respeito e à verdade. Mas, à sua maneira, ia descrevendo, como repórter, o que acontecia, o que lhe transmitiam nas conversas os bares e, pouco a pouco, sem deixar de ser isento, ia ajudando a reconstruir a liberdade e a democracia.
Nunca fui dos seus mais próximos. Mas, sempre que tive a oportunidade de conversar com Castelinho, não hesitava. Muitas vezes, em casa do embaixador Rubens Barbosa, de vez em quando em sua própria casa, uma ou outra vez junto com o presidente Sarney, e muito mais raramente nos almoços que tinha aos sábados com seus amigos.
Certa vez, recordo-me, jantei com ele e com José Aparecido. Nas vésperas do meu aniversário, em 1955. Disse-lhes que seria candidato à Prefeitura de São Paulo, concorrendo com Jânio Quadros.
Castello foi colaborador e era ligado a Jânio. Isso não impediu que Castello escrevesse um livrinho admirável, publicado anos depois de sua morte, sobre o desfecho do governo Jânio. Nada mais ilustrativo para ver como um governo que não enfrentava crise alguma (social, econômica e mesmo política) se esboroou no tear das intrigas tão rotineiras nos círculos do poder.
Não obstante, Castello mantinha, como é natural para quem trabalhou tão próximo, um certo fascínio por Jânio. Ele se apiedou de mim: que ingenuidade disputar votos contra o rei dele. Aconselhou-me a não disputar a Prefeitura.
Não lhe dei ouvidos, disputei e não ganhei.
Mas o que importa é exemplificar como era Castello: implacavelmente objetivo, cordial, fraterno e íntegro. Na vida e das crônicas reportava o que via e como via. E que visão!
Hoje, sete anos depois de sua morte, quando faria 80 anos, continua vivo em nossa memória, deixa saudades mas _ e esse é o consolo _ continua mestre e tem bons discípulos na imprensa brasileira. [Fernando Henrique Cardoso é presidente da República]"
José Sarney
"Preciso como um anatomista da política"
"O Brasil pode se orgulhar da galeria de grandes jornalistas que teve, ao longo de sua história, alguns deles verdadeiros publicistas e homens de Estado. Mas, nenhum estudioso sério e competente poderá escrever a história da imprensa brasileira sem consultar a obra de Carlos Castello Branco, aquele que inaugurou, em estilo próprio e inconfundível, a arguta análise da vida política brasileira, dissecando o fato político e os conflitos de interesses de seus protagonistas, com a precisão e a frieza com que o anatomista disseca um cadáver.
Muitos dos jovens jornalistas que, hoje, chegam às nossas redações, talvez só tenham ouvido falar de seu nome, sem conhecer a importância de Castello na história contemporânea do Brasil. Foi ele quem, contornando as severas restrições do regime autoritário, desenvolveu antiga forma de jornalismo analítico desempenhada, antes, por poucos homens de letras e que exigia do leitor argúcia para apreender realidades encobertas pela névoa dos tempos difíceis que vivíamos. Ele dizia nas entrelinhas a verdade que o poder queria obscura.
Quando o Congresso esteve fechado, declarado em recesso, Carlos Castello Branco, afrontando a censura, não deixou passar um só dia sem falar do Congresso, anunciando a sua volta, enaltecendo o seu papel relevante entre as instituições liberais, e substituindo o silêncio da tribuna parlamentar pela inteligência e perspicácia de sua tribuna jornalística. O Poder Legislativo e a própria democracia têm uma dívida impagável para com esse piauiense discreto e duro.
Na verdade, ele foi o Congresso quando o Congresso já não o era.
Carlos Castello Branco inscreveu seu nome na constelação do grande jornalismo brasileiro, na qual despontam figuras tutelares, como seu conterrâneo Félix Pacheco, Alcindo Guanabara, Quintino Bocaiúva, Constâncio Alves, Carlos de Laet, Aníbal Freire, Assis Chateaubriand, Múcio Leão, Álvaro Lins, Austregésilo de Ataíde, Alceu Amoroso Lima, Barbosa Lima Sobrinho, José Eduardo de Macedo Soares, Carlos Lacerda, Otto Lara Resende e tantos outros.
Porém, o destino reservou para ele o cumprimento de uma missão singular e quase impossível _ a de manter viva a chama da crônica política quando a política havia sido extinta. Hannah Arendt, a admirável filósofa e cientista política alemã, adverte que ´política e liberdade são idênticas e sempre onde não existe essa espécie de liberdade, tampouco existe o espaço político no verdadeiro sentido´. O que significa que não há política sem liberdade.
Seu comportamento ético, sua firmeza de princípios, a retidão de sua conduta compõem a personalidade do grande escritor, que, para defender suas convicções democráticas provou a polpa amarga da prisão. Sua integridade moral é absoluta.
Na evolução do jornalismo brasileiro, reconheço aquilo que Pompeu de Souza, pai e mestre de tantos jornais e jornalistas, afirma que Castello herdou a pena com que José Eduardo de Macedo Soares, por quase meio século, debateu os problemas políticos nacionais. Este, por sua vez, havia sucedido a Alcindo Guanabara. Porque há toda uma genealogia do comentário político brasileiro, que vem de Evaristo da Veiga, Clemente Pereira, José Bonifácio, José do Patrocínio, Joaquim Serra, Quintino Bocaiúva, para resplandecer na pena do grande piauiense, que estaria completando 80 anos, se vivo fosse.
Ao lado do jornalista brilhante, dono da análise política na imprensa brasileira, no século 20, está o ficcionista consagrado dos Continhos brasileiros e do Arco do triunfo, que mereceram da crítica elogios e reconhecimento. O poeta Manuel Bandeira disse : ´Castello é, no consenso de todos os homens de imprensa do Brasil, o nosso melhor observador e cronista. No Arco do triunfo a trama do romance é desenhada com aquela firmeza de traço em que não há linha morta e até as personagens episódicas vivem intensamente. Castello, esse grande prosador, é também grande romancista.´
Jorge Amado não resistiu à prova de fogo da leitura do livro, aquilo que ele chama ´sua capacidade de arrastar o leitor´, e confessa: ´Arco do triunfo é um desses livros que a gente lê avidamente e, uma vez iniciada a leitura, não a interrompe. Ninguém, no entanto, após ler Arco do triunfo, pode honradamente discutir as qualidades de escritor e de romancista de Carlos Castello Branco.´
O livro aborda um tema político, a história de um homem que se degrada, na ambição do sucesso. Carlos Lacerda, que leu duas vezes a obra e escreveu sobre ela dois artigos críticos, vê no romance uma transposição de tipos, acha o livro cruel, mas reconhece que ´Carlos Castello Branco tem uma insistente vocação para a literatura de ficção´. Adolfo Casais Monteiro, o grande crítico português, estudando o romance, afirma que o livro foi ´feito por mão de mestre´.
O jornalismo é, muitas vezes, para o puro homem de letras, uma atividade paralela, que ele comparte com a poesia, o romance, o ensaio crítico, o teatro. Para Castello, o jornalismo foi a atividade dominante, que influenciou as demais. Daí o fantástico poder de comunicação de seu estilo inconfundível. O jornalismo, além de ser a atividade dominante, em seu caso, tem feição especial, a do jornalismo político, do qual ele é apontado, com justiça, como a sua expressão maior na história da moderna imprensa brasileira.
E o que é o jornalismo político? É o político que fez do jornalismo a sua tribuna. Em vez de se orientar no sentido da tribuna parlamentar, Castello buscou a tribuna do jornal e ali exerceu uma influência tão grande, que se pode dizer, sem lisonja nem perigo de erro, que foi um dos líderes do pensamento político do Brasil, naquele momento. A sua presença no JORNAL DO BRASIL, por mais de 30 anos, é mais do que um espelho da atualidade. É um processo de consciência da própria política nacional. Porque Castello não se limitou à condição de expositor dos acontecimentos: soube ser o pensador e o teorizador, com a capacidade de ver, de intuir e de concluir, coisa que nenhum outro conseguiu fazer, em nosso país.
Isso decorre de dois fatores importantes: de um lado, a imensa capacidade de apreensão; de outro lado, a extraordinária experiência que tinha dos homens e de ver os acontecimentos. Carlos Castello Branco trouxe da solidão dos campos do Piauí e das montanhas de Minas, onde se educou e iniciou sua grande trajetória de jornalista, o gosto de ouvir. A natureza como que o talhou para escutar. Tinha o ar de quem estava sempre atento ao que iria ouvir, mesmo quando interferia no diálogo. Ele agia de tal modo, nesses instantes, que o seu interlocutor costumava dizer-lhe mais do que pretendia.
Sócrates chegava à verdade pela maiêutica; Castello adotou um processo mais simples, ´hum-hum´, dito de passagem à boa maneira piauiense e maranhense, e que puxa pela palavra alheia com singular habilidade e eficácia. Em toda murmuração política, há fantasia e verdade. Já se disse que a política é uma mistura de realidade e sonho. Por vezes, a fantasia é mais verossímil, com todas as aparências de verdade, enquanto a verdade, muitas vezes, parece fantasia. Só uma coisa imita o inusitado e o imprevisível na política: a vida. Castello soube discernir uma e outra, como se ambas passassem por um exame de laboratório, capaz de detectar o fato real e o simples boato.
Falta lembrar outra faceta desse grande jornalista: o seu inexcedível faro para a notícia. O repórter que nele vivia era um dos motivos de seu justificado orgulho profissional. Na viagem que fiz à China, Castello viria a dar uma demonstração desse talento. Todos os assessores se retiraram quando fui conversar com Teng Xiao Ping, o poderoso presidente chinês. Ele agiu com tal habilidade que assistiu a toda a conversa, calado, como se fosse um assessor especial. Tinha a alma do repórter e uma memória prodigiosa, como Ernest Hemingway e Gabriel García Márquez.
Já se definiu a missão do jornalista, no plano do jornalismo opinativo, como o poder de transformar a opinião pessoal em opinião pública, por intermédio do jornal. Esse poder continua a existir no jornal impresso, a despeito da competição exercida por meios mais modernos de comunicação de massa, como o rádio e a televisão. Mas o jornal impresso é ainda o instrumento reflexivo por excelência.
Os meios da moderna tecnologia colocados a serviço do fazer jornal vieram ajudar a difusão da mais importante liberdade, asseguradora de todas as outras liberdades, que é a liberdade de imprensa. Quando esta entra em colapso, todas as outras liberdades desaparecem. O poder de questionar governos, políticas, atitudes e comportamentos _ básico nas democracias _ só se torna efetivo com imprensa livre.
Carlos Castello Branco foi uma referência. Marcou época. Tivemos o tempo do panfleto, da linguagem de fogo queimando reputações e pessoas, derrubando gigantes e poderosos. É o Thimandro, de Torres Homem, é um Thomas Payne com o seu temerário e audaz Common Sense. Tivemos o jornalismo doutrinário, a serviço de uma causa. Era a hora de Patrocínio, de Bocaiúva e Guanabara, de Macedo Soares e Lacerda. Castello desenvolveu o jornalismo de análise política com uma maestria inexcedível, entre nós.
A brilhante e hábil resistência de Carlos Castello Branco, inventando a política quando a conjuntura crítica a negava, nos faz lembrar Shakespeare, em Júlio César: ´Nem as torres de pedra, nem as muralhas de bronze forjado, nem as masmorras sem ar, nem fortes cadeias de ferro, podem sujeitar o valor do espírito! Mas, a vida quando se cansa dessas barreiras do mundo, nunca perde o poder de libertar-se a si mesma´. Castello foi esse espírito numa hora difícil da vida brasileira. [José Sarney é senador e ex-presidente da República]"
Luiz Orlando Carneiro
"Jornalista político por excelência"
"Amanhã [terça, 25/6], Carlos Castello Branco faria 80 anos. Lutou contra a morte, com a mesma tranqüilidade e destemor que marcaram seus 54 anos de jornalismo, até a manhã do dia 1º de junho de 1993. Tinha 72 anos, 44 de casamento com Élvia Lordello Castello Branco (a primeira mulher a ocupar o cargo de ministra do Tribunal de Contas da União), dois filhos vivos (Luciana e Pedro) e seis netos. A morte prematura de seu filho Rodrigo, em acidente de automóvel, foi o grande drama de sua vida. Embora membro da Academia Brasileira de Letras e da Academia Piauiense de Letras, não cultivava honrarias. Talvez por isto não tenha pensado em mandar inscrever no seu túmulo a frase de São Paulo, da segunda Epístola a Timóteo: ´Combati o bom combate´.
Unanimemente considerado o maior de todos os jornalistas políticos do país no século que vai se encerrando, Castellinho deu à crônica política, como disse alguém, ´um inequívoco status de história´. Sua prosa cotidiana (ou como romancista e contista) era ´feita de nervo e cristal´, segundo outro grande jornalista e escritor, Odylo Costa, filho. Sua oração matutina, antes de chegar cedinho à sua máquina da redação, era ler pelo menos uma página de Machado de Assis.
A Coluna do Castello, que o JORNAL DO BRASIL começou a publicar em 1963, foi leitura obrigatória de todos os que acompanhavam com atenção os assuntos políticos do país ou que deles eram protagonistas. Como registrou este jornal, quando de sua morte, a coluna ´chegou mesmo a substituir a vida política nacional, em momentos durante os quais as instituições estiveram sufocadas, no regime ditatorial pós-1964´. O próprio Castello, deixando de lado sua proverbial modéstia, chegou a dizer, referindo-se ao recesso do Congresso de dez meses imposto pelo AI-5: ´Naquele período, o Congresso só existiu na minha coluna´. Foi um período em que se tinha de ler com toda a atenção não só as linhas, mas também as entrelinhas da Coluna do Castello. As entrelinhas eram tão incômodas ao regime que Castello não escapou da prisão, tendo como companheiros de cela Otacílio Lopes e Sobral Pinto.
Carlos Castello Branco nasceu em Teresina, filho do desembargador Cristino Castello Branco, também escritor, que sustentava nove filhos ganhando um conto e 200 mil réis por mês. Estudou no Liceu Piauiense até os 16 anos, quando foi para Belo Horizonte, a fim de estudar Direito e seguir a carreira do pai. Bacharelou-se pela Universidade de Minas Gerais em 1943. Foi o ano do célebre ´Manifesto dos Mineiros´, documento político que teria grande impacto na decomposição do Estado Novo de Getúlio Vargas. Ainda como universitário, Castellinho havia ingressado no Estado de Minas, dos Diários Associados, de Assis Chateuabriand, do qual tornou-se subsecretário de redação, enfrentando, pela primeira vez, a censura. A da ditadura Vargas. Castello contou, em 1972, ao repórter Oswaldo Amorim: ´Quando o regime começou a apodrecer, veio uma ordem de Chateaubriand para expulsarmos o censor. A direção do jornal não queria se meter, e eu que fosse cuidar do caso. Tive o prazer de avisar ao homem que sua função havia terminado. Disse-lhe que se quisesse ler o jornal teria de comprá-lo na banca, no dia seguinte´.
Foi naquela época que Castello ligou-se à nova geração de escritores e intelectuais mineiros que brotou nas Alterosas: Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Hélio Pelegrino, Paulo Mendes Campos, Autran Dourado. O jornalista chegou a abrir um escritório de advocacia, enquanto ia escrevendo seus contos, mas acabou por entregar-se de corpo e alma ao jornalismo. Em 1944, foi ser secretário da Agência Meridional de Notícias, em Belo Horizonte.
Ligado à União Democrática Nacional (UDN), que levantava então a bandeira da completa redemocratização do país, Castello não chegou a filiar-se ao partido, mas veio para o Rio, no bojo daquele processo político, a convite de Carlos Lacerda, para trabalhar no Diário Carioca. Quando foi procurar Lacerda, este já havia deixado a direção do jornal. Conseguiu então o emprego de secretário de O Jornal, o ´órgão líder´ dos Diários Associados. Deixou a empresa em 1950, para ser redator político do Diário Carioca, que já iniciava um histórico processo de renovação da imprensa, sobretudo com relação à qualidade e objetividade do texto jornalístico. Em 1953, chefiou por algum tempo a redação da Tribuna da Imprensa, de propriedade de Carlos Lacerda. Foi a época em que a Tribuna era o símbolo da oposição ao segundo governo Vargas, que teve como ponto culminante o suicídio do presidente, em agosto de 1954. Castellinho já havia deixado o jornal em setembro do ano anterior, tendo voltado aos Diários Associados na condição de colunista político da revista O Cruzeiro, trabalhando ainda na Folha de S. Paulo, em A Noite e n'O Estado de São Paulo.
Com a eleição de Jânio Quadros para a Presidência da República, em outubro de 1960, Catello foi convidado por seu amigo José Aparecido de Oliveira, secretário particular do presidente, para ocupor o cargo de secretário de Imprensa do governo. Com a renúncia de Quadros, em agosto de 1961, voltou para O Cruzeiro, mas permaneceu em Brasília.
Em outubro do ano seguinte, M.F. do Nascimento Britto, que já era diretor do JORNAL DO BRASIL, e que havia comprado de Carlos Lacerda a Tribuna da Imprensa, convidou Castellinho para ser o colunista político do jornal. Mas em março de 1962, Nascimento Brito chamou-o para ser colunista exclusivo do JORNAL DO BRASIL, e para chefiar a Sucursal deste jornal em Brasília. A Coluna do Castello começou logo, antes de sua ida definitiva para Brasília, em julho daquele ano.
Castello definiu sua coluna como de conteúdo ´densamente informativo e ostensivamente formativo´. Como disse o senador Freitas Neto, ex-governador do Piauí, ao lembrar seu conterrâneo na sessão em sua memória, realizada pelo Senado, no último dia 14, ´embora a coluna fosse impessoal por opção e independente por conquista, era inevitável que traduzisse a visão crítica do autor´. Ainda de acordo com Freitas Neto, Castello ´vinculou-se sempre a uma postura liberal _ não um liberalismo ingênuo, mas um liberalismo associado à convicção da necessidade de uma evolução social distributivista´, sendo ´fatal que, com o endurecimento do regime pós-64 essa visão se traduzisse em textos contundentes´.
Os militares no poder, livro que é a coletânea das crônicas mais densas do período ditatorial, foi assim apreciado por Tristão de Athayde (Alceu Amoroso Lima), em 1977: ´A leitura fascinante dos comentários diários de Carlos Castello Branco, ao período inicial desses já longos 13 anos, nos fornece com o mais rigoroso realismo a visão histórica dessa apropriação gradativa do poder civil pelo poder militar, com todos os desdobramentos que esse deslocamento determinou´. Alceu sublinhou ainda que o livro não era apenas um ´sismógrafo diário´ do desenrolar dos acontecimentos políticos, mas de uma ´vigorosa e lúcida arma intelectual no sentido da promoção democrática das instituições´.
Além de Os militares no poder (três volumes), Castello escreveu Introdução à Revolução de 1964, agonia do poder civil (1975) e um dos capítulos de Os idos de março, depoimentos de jornalistas eminentes, entre os quais Alberto Dines, Antonio Callado, Araújo Netto, Cláudio de Mello e Souza, Pedro Gomes e Wilson Figueiredo. Guardou a sete chaves, para publicação depois da morte de Jânio Quadros, A renúncia de Jânio, que o Senado deve reeditar na sua ´Coleção Biblioteca Básica Brasileira´, que inclui entre outros poucos títulos, obras como Minha formação, de Joaquim Nabuco, e Os sertões, de Euclides da Cunha. Na ficção, destacou-se já com Continhos brasileiros (1952), afirmando-se com o romance Arco de triunfo (1959).
Como jornalista dedicado à causa da democracia e da liberdade de expressão, recebeu, em 1978, o Prêmio Maria Moors Cabot, da Universidade de Columbia. Já como jornalista consagrado e escritor ilustre, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, em 1982, na vaga deixada pelo também jornalista Raimundo Magalhães Junior."
L. O. C.
"O tempo da ditadura foi penoso para Castello", entrevista com Élvia Castello Branco
"Élvia Lordello Castello Branco detesta quando, em alguma homenagem a seu marido, alguém a chama de viúva. Para ela, Castellinho está vivo, não só em sua privilegiada memória, mas também na sua própria vida. Ministra aposentada do Tribunal de Contas da União, começou sua vida profissional como repórter de O Jornal, em 1948, quando conheceu o então secretário de redação, Carlos Castello Branco, apelidado pelos colegas de ´Dutrinha´ _ referência ao presidente da República, Eurico Gaspar Dutra. Nesta entrevista, a mulher de Castellinho fala de sua vida ao lado do homem e do jornalista político mais importante e influente que o Brasil já teve. A brevidade das perguntas é proposital. O que importa é o conteúdo do depoimento de quem, como poucas outras mulheres, pode ser enquadrada no dito de que ´por trás de um grande homem há sempre uma grande mulher´. Ou melhor, ao lado de um grande homem há sempre uma grande mulher.
O que e quem foi para você Carlos Castello Branco?
Élvia Lordello Castello Branco – Castello foi o único bem que recebi de mão beijada: sem procurar, sem cobiçar, sem lutar, sem sofrer. A conquista da família _ outra dádiva _ demorou só um pouco. Foi preciso que se adaptassem _ piauienses reservados que eram _ aos gestos estabanados e à beijoquice da baiana. Sua mãe me seduziu à primeira vista. Quando lhe fui apresentada, nela vi uma aura de humanidade, de bondade, de recôndita ternura. Pedi-lhe licença para chamá-la de mãe, mesmo que não me casasse com seu filho. Sempre chamei os pais de Castello e de mãe e pai. Tive alguns amores, algumas paixões, mas, não fora ele o maior amor de minha vida, não teríamos permanecido juntos quase 44 anos. Tinha e tenho por ele uma admiração sem limites. Quando, diante de algum fato significativo de minha vida profissional, ele me perguntava se eu estava orgulhosa, respondia sempre que meu orgulho era ser sua mulher. Ficava encabulado, baixava o olhar e mudava de assunto.
Como começou seu relacionamento afetivo com ele?
Élvia – Comecei a conhecer seu caráter ao tentar dissuadi-lo de nos casarmos. Comecei por dizer que que eu não era assim toda linda como ele pensava, e enumerei tudo o que achava feio no meu corpo. Fiz outra tentativa: não pense que vou lavar e passar roupa, arrumar casa, fazer comidinhas e docinhos, arrumar a roupa que você vai vestir no dia seguinte. Não dou para nada disso. ´E quem lhe disse que estou procurando uma empregada doméstica?´ – respondeu-me. ´Procuro uma companheira e esta é você´.
O que a atraía mais nele, que não era nenhum Clark Gable?
Élvia – Castello exercia um grande fascínio sobre mim. Sua personalidade desafiava meu entendimento. Ele era assim como uma escultura feita de um só bloco de mármore ou pedra, sem resvalo de cinzel. Ele era de fato assim: de uma inteireza absoluta. Não concebia uma moral pública e uma moral privada. A liberdade que nos concedia, a mim e aos nossos filhos, era a que desejava para o seu trabalho, para a imprensa, para o país.
Para quem não o conhecia de perto, Castello era uma pessoa muito fechada, com cara de poucos amigos. Como era ele na intimidade?
Élvia – Castello era muito espirituoso, irônico, cheio de verve. E também muito humilde. Ficava perplexo com as homenagens que recebia (´Por que isso, minha filha, o que é que eu fiz? Só faço o meu trabalho...´). Mas tinha também seus defeitos: era impaciente, não tolerava impontualidade e burrice, não dava bom dia, nem boa tarde. Raramente respondia às cartas dos amigos, dizendo que já lhe bastava escrever as colunas. Não gostava de falar de política com quem considerava ´amador´. Não chamava ninguém de excelência.
Como foi sua ligação de tantos anos com o JORNAL DO BRASIL?
Élvia – Ele sempre teve boas relações com seus patrões e companheiros de trabalho. Sua ligação com o JB foi muito profunda. A Condessa Pereira Carneiro e o Dr. Brito deram-lhe todo o apoio e ajuda material nas duas doenças graves que o atingiram. Nos anos ditos de chumbo, Castello e Dr. Brito sofreram muito. Castello vinha muito ao Rio conversar com ele. Quando sentiu que sua presença estava prejudicando muito o jornal, pediu demissão. Dr. Brito não só negava, como jamais censurava a coluna. Os dois foram sempre solidários. Sou muito grata ao Dr. Brito. Não sei o que poderia ter acontecido se o jornal tivesse lançado Castello às feras.
Como vocês dois atravessaram o difícil e penoso período das ditaduras militares?
Élvia – Foi muito penoso. Não sei como Castello conseguiu sobreviver às tensões e pressões dos tempos dos ´decretos secretos´ do ministro Alfredo Buzaid. Eu temia muito que viesse a ter um derrame cerebral. Em setembro de 1972, eu estava de viagem marcada para a Europa. Ia encontrar minha filha Luciana, que lá estava desde janeiro. Roberto Médici (filho do general-presidente Médici) _ que quis ser nosso amigo e o foi _ pediu-me para comer um arroz de auçá antes de minha partida. Convidei-o, junto com o Pompeu de Souza, grande amigo de Castello (ainda bem que existe a liberdade de espírito) para jantar sábado. Eu viajaria na quarta-feira. À certa altura, as gargalhadas gostosas do Pompeu foram interrompidas porque vieram à baila os ´decretos secretos´. Os ânimos se exaltaram. Propus que o assunto fosse abandonado e nos dedicássemos ao arroz d'auçá. E assim foi feito. Na quarta-feira, Castello levou-me ao aeroporto com o Sá Machado, grande diplomata português e nosso amigo querido. Na hora da despedida, Castello disse: ´Minha filha, se você souber que fui preso, não se preocupe. Sei que não serei torturado´. E não permitiu que eu adiasse a viagem, pelo transtorno que causaria a Luciana, procurando-me, sem me encontrar, em Roma. Na quinta-feira não consegui localizá-la nos pontos de encontros habituais dos hippies. Encontrei-a na sexta pela manhã. À noite, levei-a ao Trastevere, e chegamos ao hotel por volta das 4h da manhã. Encontrei um recado do embaixador do Brasil pedindo que lhe telefonasse a qualquer hora que chegasse. Disse-me, então, que o Castello tinha tido um acidente vascular. Deu-me o nome e o telefone do hospital, e adiantou que o JB já havia providenciado nossa volta para aquela manhã de sábado.
Como ocorreu o acidente vascular?
Élvia – Castello estava já no Pró-Cardíaco e Rodrigo, nosso filho mais velho, viera de São Paulo para estar com ele. Perguntei-lhe, com a ansiedade fácil de ser mesurada, se o acidente fora no cérebro ou no coração. Quando me disse que fora um infarto do miocárdio, alegrei-me. Rodrigo horrorizou-se, mas expliquei: ´Meu filho, infarto mata ou tem cura; derrame cerebral, quando não mata, inutiliza e humilha´. Faço aqui um parêntese para verberar o atendimento nos hospitais particulares ou conveniados no Brasil. Castello chegou ao Pró-Cardíaco entre 4h30 e 5 da manhã, sozinho, sofrendo dores terríveis, e implorando que o livrassem delas, ainda que pela morte. Pediram-lhe que fizesse uma caução de cinco mil, dinheiro da época. Bastaria assinar um cheque, mas Castello sabia que não dispunha da quantia. Esperou até o amanhecer para ligar para o José Luiz Magalhães Lins, pedindo-lhe socorro. Só quando veio o dinheiro começou o atendimento. Pobre Castello. Ao contrário do Brasil, perdi a conta das vezes que fui a Houston com Castello para tratamento de seu tumor cancerígeno, de 1986 a 1993. A coisa mais difícil era pagar a conta, o que poderia ser feito na volta ao Brasil, pois todas as despesas já haviam sido computadorizadas. E quando penso nisso tenho vontade de dizer todos os palavrões merecidos que sei, o que só não faço porque Castello detestava palavrões.
E como Castello reagiu ao infarto, tendo em vista a tensão então reinante no Brasil e da qual ele não poderia escapar?
Élvia – O infarto foi gravíssimo e a medicação tão forte que Castello não me reconheceu nos quatro ou cinco primeiros dias. Como suas veias não eram boas para continuadas injeções, fizeram-lhe um cateter e o conectaram por vários fios a um aparelho que gritava os seus batimentos cardíacos descontrolados. Na sua inconsciência, Castello pedia que o libertassem daqueles ´fios do SNI´. E terminava por arrancá-los, até que resolveram mudar o cateter para a perna. Por pouco os ´decretos secretos´ não o mataram.
Como ocorreu a primeira prisão de Castello?
Élvia – Castello e Otacílio Lopes foram os primeiros presos do AI-5 em Brasília. Comemorávamos o nosso 20º aniversário de casamento, que seria no dia 11 de dezembro. Meu aniversário é no dia 13. Fizemos então a festa no dia 12, que se prolongou até a madrugada do dia 13. Vieram amigos do Rio, de Belo Horizonte e Salvador. A festa acabou por volta das 3h da manhã. Foi quando o Evandro Carlos de Andrade, que morava no mesmo prédio que nós, telefonou: ´Charles, cuidado. Há muitos camburões em volta do prédio. Acho que vão prendê-lo´. Castello me falou: ´Então, filha, vou dormir um pouco´. Eu também fui. Não sei quanto tempo depois, nossa empregada Arlinda veio me chamar: ´Dona Élvia, vieram aqui uns homens dizendo que eram amigos do Seu Castello pedindo para entrar, mas como eu nunca vi amigos de vocês chegando aqui a essas horas, disse que os amigos de vocês costumavam sair, mas nunca entrar aqui de madrugada. Não abri a porta, mas eles voltaram e disseram que eram da polícia, que eu abrisse, ou então arrombavam a porta´. Avisei o Castello, que pediu para dormir mais um pouco. Fui receber os homens. Havia alguns na porta da frente, outros na dos fundos. ´Meu marido está dormindo _ eu disse. Querem um cafezinho enquanto ele acorda?´. Foram entrando pela sala, onde tínhamos alguns quadros, e viram meu sobrinho Sérgio, um jovem bonito e barbado, deitado num sofá da sala. ´Engraçado estes quadros todos _ disse um deles. O homem é pintor, ou o pintor é esse aí? Estou intrigado. Há tanto tempo no ramo e nunca ouvi o nome desse homem que me mandaram levar.´ Retruquei: ´É para o senhor ver que eles não têm razão.´ Castello afinal chegou, e lhe perguntaram: ´Por que o senhor não leva uma maleta?´ ´Maleta por quê?´ _ perguntou Castello. E eu: ´Para onde estão levando meu marido?´. ´Não podemos dizer, madame. Obrigado pela cafezinho...´.
E as outras detenções?
Élvia – Outras três ou quatro vezes foi levado, sempre às 5 ou 6h da manhã. Quando eu perguntava quem estava mandando prendê-lo, sempre diziam não poder informar. Mas uma vez disseram que havia sido o coronel Fulano (não me lembro mais do nome). Minutos depois, o telefone tocou; Queriam falar com o ´jornalista Castello Branco´. Perguntei quem era. Era o coronel Fulano. E eu: ´Coronel, o senhor não tem vergonha? Não se respeita? O Castello acabou de ser preso por ordem sua. Só peço uma coisa: quando quiserem prender meu marido mandem buscá-lo às 8 h, que é quando ele acorda.´
Qual foi o fato mais chocante para você quando das prisões do Castello?
Élvia – O Dr. Pedro Aleixo foi um grande amigo nosso. Vivia só em Brasília e, de quando em quando, ia jogar biriba na nossa casa. Silvinha e Fernando Lara Resende faziam parte do grupo. Um sábado à tarde, Castello pediu-me que tomasse o seu lugar num biriba na casa do deputado Teódulo de Albuquerque, com o Dr. Pedro e o advogado Carlos Osório. Estava cansado e tinha um jantar com lugares marcados, na embaixada americana, para um Rockfeller. Por volta das 16 horas, chamaram-me ao telefone na casa do Teódulo. Era o André Marques (da Sucursal do JB) comunicando que o Castello tinha sido levado para o DOPS. Voltei à mesa do jogo, não houve uma só pergunta. Às 19 horas o jogo acabou e o Dr. Pedro pediu-me que, se tivesse, lhe desse notícias de Castello. Fui para casa chorando, não pelo Castello, mas pela humilhação que o Dr. Pedro devia estar sentindo. Era o vice-presidente da República e nada podia fazer. Nem obter uma informação que fosse.
Como Castello suportou, espiritualmente, todas essas pressões e prisões arbitrárias?
Élvia – Castello viveu com paciência, dignidade e humildade todos os seus sofrimentos, como só um verdadeiro cristão pode fazê-lo. No entanto, dizia-se agnóstico. Perdemos três filhos: um no terceiro mês de gravidez, em 1950; uma menininha, nas vésperas do parto a termo, em 1962; e nosso filho Rodrigo, aos 25 anos e meio e uma bela carreira à frente. Tanto que a Siderbrás criou um prêmio com seu nome. Pensamos até que seria uma maneira de nos consolar. Mas não. O prêmio existiu até o último dia da empresa, e era disputadíssimo. Rodrigo se foi num acidente de carro, a caminho do aeroporto. Não bateu em poste ou em outro carro. Devia estar indo depressa. O carro capotou, porque uma roda se soltou. Expirou logo ao ser socorrido. Começaram a levantar a hipótese de acidente encomendado. Castello se recusou a pensar na hipótese: ´Filha, preciso manter minha alma e meu espírito limpos e livres para continuar a trabalhar com a isenção de sempre.
Você tinha ciúmes dele?
Élvia – Sempre tido e havido como um homem feio, era tímido, e tinha o charme que é próprio dos homens inteligentes, tímidos e feios. Era muito assediado por mulheres. Mas eu só me zangava quando elas ultrapassavam certos limites."
Marco Maciel
"Duas lembranças me acodem na evocação dos 80 anos de Castellinho: sua amena convivência como ser humano e o incomparável sentido ético como jornalista. Era o referencial da geração dos cronistas políticos da década de 60, dos quais restam poucos sobreviventes. Mais: além de sua vocação jornalística, descobria-se nele o escritor, que se revela pelo sentido estético dos grandes cronistas do fim do século passado. Isso ajuda a explicar o fato de Castellinho vir a ser acolhido na Academia Brasileira de Letras, como reconhecimento de sua perspicácia política e, igualmente, do vigor intelectual de sua coluna, de leitura obrigatória para todos nós.
Não conheço político da minha geração que dele não tenha colhido senão provas de serenidade e equilíbrio. Mesmo aqueles que, com mais veemência, criticou sempre foram capazes de admitir que exercia seu ofício com admirável isenção. Suas inclinações pessoais e preferências políticas podem ser reconhecidas pelos mais íntimos ou por aqueles com os quais mais de perto conviveu. É extraordinário e revelador que nunca transpareceram em seus textos. Nesse sentido, é um raro caso, se não único, de alguém que foi antes de mais nada fiel aos cânones da sua profissão, sem que nunca tenha renunciado às suas mais profundas convicções.
Democrata, a Coluna do Castello constituía a melhor prova de que as aspirações do povo pela liberdade terminariam triunfando sobre os interesses ocasionais. Seus textos claros, lúcidos e profundos, cultivados com o ornamento de sua inteligência, iluminaram sempre os caminhos da atividade política do Brasil durante mais de 40 anos. Das observações contidas em seus textos se poderá dizer o mesmo que expressou Baptista Pereira ao comentar O estadista do Império, de Nabuco de Araújo: ´seu olhar abrangia tudo num relance, revelando na análise a mesma lucidez que na síntese.´ Sua fidelidade às suas idéias, às convicções que nunca abandonou, são o melhor penhor de suas qualidades.
Ao celebrar os 80 anos de seu nascimento sentimos muito forte sua presença entre nós, cujas lições ainda nos são tão válidas. Por isso mesmo, ele não teve, como pensava Jorge Luís Borges dos intelectuais, ´o futuro como esquecimento´." [Marco Maciel é vice-presidente da República]"
Wilson Figueiredo
"O dom de decifrar tudo"
"Os fatos políticos estavam nas páginas dos jornais pela manhã, mas era a Coluna do Castello que oferecia as chaves para os leitores entendê-los em seus desdobramentos. Nos momentos difíceis da Constituição de 46 estava implícito o que veio a suceder no primeiro dos anos sessenta. Carlos Castello Branco apurou o dom de decifrar o que queriam dizer os homens públicos daquela época, e que, com o passar do tempo, parecem mais preparados que os atuais.
Castelinho, mais que um hábito, se tornou vício matinal na faixa da sociedade em que são tomadas as grandes decisões e se movem altos interesses. Era tão importante para os preocupados ler a Coluna do Castello em tempo de crise quanto se interessar pelas cotações da Bolsa e previsões meteorológicas nos fins de semana.
Desde que veio de Belo Horizonte para o Rio em 1945, jornalista feito (assim que caiu a censura à imprensa no começo do fim do Estado Novo), Castelinho começou a mostrar que não veio a este mundo senão para o que foi. Era jornalista, ponto: uma visão do mundo isenta (tanto quanto possível) de participação pessoal. O jornalismo brasileiro, na segunda metade do século, conseguiu separar, de um lado, os fatos e, de outro, a opinião do jornal. Jornalista informa, relata, noticia, não opina. Durante 30 anos, Castelinho conseguiu dar feição pessoal a fatos (às vezes nem isso) acomodando-os numa versão verossímil, por sua conta. Transgrediu limites dogmáticos no jornalismo sem profanar o respeito pela informação. Com ele, a objetividade fingia desconhecer a ordenação subjetiva em que costumam ser costurados os fatos.
Raramente enfático, mestre em despistar ou ocultar dados capazes de revelar a fonte, Castelinho trabalhava nas entrelinhas, onde a censura não se aventurava. Carlos Castello Branco teve papel importante depois que a mão pesada do AI.5 baixou sobre jornais, rádio e televisão. A Coluna não emitia recados políticos de terceiros mas diluía o significado oculto nos lugares comuns, repetidos dia e noite como sinais de vida ativa. Por trás da simulação de vida política permitida, Castello traduzia para os leitores o que não passava de blá-blá-blá.
Assim a Coluna se tornou ponto de referência diária dos jornais (rádio e televisão não tinham dialeto para furar a proibição) para os que vinham de antes de 64 _ e estavam reencontrando a intolerância que conheceram na versão do DIP, no Estado Novo _ e para os que se iniciavam no ciclo militar, numa vida política de inspiração juvenil.
Boa parte das colunas do Castello no período militar foi reunida em livros. Há muito ainda por organizar, editar e decifrar com alcance histórico. Os Continhos brasileiros (o primeiro livro) têm vida literária própria. Dos escritos políticos, porém, A Renúncia de Jânio, não tem semelhante nas 122 páginas que fazem história. Sofreu a depreciação que não decorreu do que conta mas do próprio fato em torno do qual Castelinho concatenou tudo que viu e reuniu numa versão completa. `` A notícia da renúncia não me emocionou. A intimidade com o poder político deu-me cedo a sensação de que o cálculo inspira geralmente as decisões, mesmo as mais nervosas´.
A Renúncia de Jânio foi escrita depois de consumadas as conseqüências e destinada à publicação depois de morto o último dos personagens. Seria tarde demais porque a renúncia não foi digerida politicamente. Castelinho passou para o papel logo depois tudo que viu de perto, com as limitações do lado de dentro. É nesse texto original que Carlos Castello Branco depõe na primeira pessoa do singular, antes de tudo como repórter atento.
A renúncia é apresentada na visão ampla dos sete meses do governo Jânio Quadros, pelo ângulo da disputa do poder oculto: Pedroso Horta e José Aparecido travam uma batalha ideológica, um apostando na direita tradicional e outro arriscando na esquerda. O presidente era o objeto da disputa e oscilava entre as duas tentações. O terceiro homem foi Carlos Lacerda, e daí por diante começou a crise propriamente dita. Era inevitável, porém, simpatia maior por José Aparecido _ confessou Castelinho _ ``que me levou para o governo menos talvez como assessor do presidente do que dele próprio``. ``O clima em que decorria o governo preparava-me interiormente para episódios decisivos e dramáticos. Jânio era, no governo, um homem tenso e dramático´.
Na Coluna, criada um ano depois na Tribuna da Imprensa (e que traria em seguida para o JB), Castelinho recua para a terceira pessoa, fica invisível como era do seu feitio. Ouvia mais do que falava: sabia ouvir e guardar de memória. Falava pouco e para dentro.
Nos 80 anos que completaria agora, A Renúncia de Jânio ainda não desperta interesse maior dos que a viveram de perto _ ou dos que deram acordo de si sob governos militares. Aos contemporâneos, porém, enfastia a cogitação meio obsessiva em torno das verdadeiras razões, tanto políticas quanto clínicas, depois de terem passado pelas conseqüências. Prevaleceu com o tempo a convicção geral de que a renúncia foi erro de cálculo por parte de Jânio.(`Não farei nada para voltar, mas considero minha volta inevitável´; `dentro de três meses, se tanto, ... o clamor para reimplantação do meu governo´). Outros ainda perfilham o diagnóstico de desequilíbrio emocional do personagem.
No centenário de Castelinho, em 2020, A Renúncia poderá ser de extrema utilidade, já isenta dos efeitos diretos e indiretos, para se entender o Brasil. Quando cessam as conseqüências, tudo passa a ser história. O autor e o livro podem esperar. Até lá. [Wilson Figueiredo é vice-presidente do Conselho Editorial do JB]"
O Brasil segundo Castello
A primeira Coluna do Castello, escrita em 1963, e excertos sobre os principais momentos do país em 30 anos
Coluna de 3 de janeiro de 1963
"O pão na Guerra, Pastas Civis e reforma difícil
Brasília – Kruel na Guerra, fator de equilíbrio – Nas escassas fontes de informação e nos limitados setores de repercussão política de Brasília, neste momento, recebe-se com reserva a notícia de que o Presidente da República decidiu indicar para o Ministério da guerra o General Osvino Alves. Tal escolha significaria uma opção considerada audaciosa num momento em que não se pode dar como totalmente vencida a crise política, pois, apesar do plebiscito e ao menos pelo prazo de 90 dias, a nomeação de Ministros estará condicionada à aprovação da Câmara. A menos que, com a escolha do General Osvino, o Sr. João Goulart se decida a ousar tudo, inclusive no que se refere à tese da revogação automática do Ato Adicional.
Quanto à questão militar, em si, o que se sabia de conversas de assessores do Presidente da República é que o Governo a considerava tranqüila, pois, tendo o apoio da ala do General Osvino, teria por outro lado, com a definição antiesquerdista do General Kruel, a segurança de que os grupos de oposição estariam pacificados na medida em que permanecesse na Pasta da Guerra o antigo Chefe de Polícia do Rio. Num raciocínio até certo ponto simplista, alegava-se que com Osvino e Kruel o Governo asseguraria senão o apoio pelo menos uma atitude passiva da totalidade do Exército.
Nessa mesma fonte, considerava-se que o único problema a ser resolvido, no setor militar, seria o da Marinha, havendo indícios de que o Presidente se decidiria a sacrificar o Almirante Susano, cuja aprovação pela Câmara, depois da crise das condecorações, se tornaria improvável.
O Ministério civil _ Quanto à distribuição das Pastas civis, a única decisão do Sr. João Goulart seria a de entregar quatro delas ao PSD e uma ao PSP. As demais seriam preenchidas ao sabor das suas conveniências e dos seus planos pessoais, inclusive com relação ao PTB.
O conjunto de Ministérios que o Presidente considera importante constitui-se das Pastas da Fazenda, Exterior, Indústria e Comércio e do Planejamento, e o novo Ministério sem Pasta, que pretenderia confiar a um coordenador com específicas qualidades de articulador político.
O Sr. Antônio Balbino é, notoriamente, o homem incumbido das sondagens e de certas composições que se fazem à revelia dos comandos partidários. Tendo-se apresentado sucessivamente como candidato a Primeiro-Ministro, a Ministro da Fazenda, a Ministro da Indústria e Comércio e, finalmente, a Ministro sem Pasta, parece claro que desempenha um papel difícil, qual seja o de despistar certos pretendentes a aspirantes e combater outros que não são do seu agrado ou que deixaram de ser do agrado do Presidente.
O nome do Sr. San Tiago Dantas, que parecia inicialmente assentado para a Fazenda, como que foi tragado nas démarches do Sr. Balbino, seja pelo esvaziamento da Pasta, no projeto de reforma administrativa, seja pela revelação de hostilidade que não se querem descobrir. No entanto, como estamos ainda em terreno fluido e como o Sr. João Goulart só a partir do dia 7 entrará pessoalmente nas démarches, todas as informações sobre escolha de Ministros, positivas ou negativas, devem ser encaradas com as devidas reservas.
Por enquanto, o único Ministro incontestado é o Sr. Celso Furtado, cujo raio de ação estará na dependência, todavia, da votação da lei que transfere para o seu Ministério o conjunto de serviços que lhe dará substância. Admite-se, inclusive que, caso se decida a obedecer ao ritual do Ato Adicional, o Presidente o indique para a Presidência do Conselho, o que lhe daria desde logo meios e instrumentos de efetivar seu controle de execução do Plano Trienal.
O Presidente João Goulart tem dado a entender que, à margem seus compromissos com os partidos políticos, pretende compor seu Ministério com homens moços, que tenham sua própria área de influência fora da política e que possam contribuir para a renovação dos quadros dirigentes. Poderão surgir, em conseqüência, dois ou três Ministros estranhos aos esquemas habituais.
Brito e a difícil reforma _ Dois únicos deputados quebram a solidão política da Capital. Amanhã, porém, os Srs. Almino Afonso e Oliveira Brito partirão também, deixando vazios o térreo e o 25º andar do Palácio do Congresso, onde formavam ilhas ou oásis, conforme a maneira de apreciá-los.
O Sr. Brito, que esteve elaborando projeto de emendas constitucionais, não se mostra muito animado com o resultado final da tarefa. Muito pelo contrário, pensa mesmo em não apresentar seu trabalho, pois acha que não é sua missão contribuir para a história das letras jurídicas mas fazer política. Descrê o ex-Ministro da Educação da exeqüibilidade de um entendimento indispensável à reforma em profundidade da Constituição. A UDN e certos setores do PSD insistirão em conciliar o inconciliável, isto é, em compor o parlamentarismo com o presidencialismo, à procura de um termo médio que não existe. No fundo, com um objetivo político: o de dar menos poderes ao Presidente João Goulart.
No entender do Sr. Oliveira Brito a reforma a fazer seria no sentido de assegurar não poderes pessoais, que já sobram ao Presidente, mas poderes de exercer adequadamente sua missão de liderança e comando, específica, no sistema presidencialista, do Presidente da República.
A Constituição de 1946, a seu ver, está superada pela realidade brasileira, elaborada que foi num momento em que não se poderiam prever com exatidão as transformações que se operariam no mundo em seguida à guerra. O direito de propriedade, diz, é nela configurado nos mesmos termos do Código de Napoleão.
No entanto, as dificuldades para modificá-la são tremendas. Ela assegura o exercício do poder pelas classes dominantes e oferece os instrumentos de ação aos grupos de pressão que influem no atual estado de coisas.
Enfim, prevê o Sr. Oliveira Brito que das dificuldades para a reforma constitucional e da persistência por algum tempo da vigência do Ato Adicional decorrerão problemas que poderão restaurar o clima de crises no País."
EXCERTOS
Comício da Central
"O presidente João Goulart, na mensagem que enviará hoje ao Congresso Nacional, pede a reforma da Constituição (...) São reformas que o Presidente pede ao Congresso para emancipar o país e possibilitar seu progresso, impedindo que se extreme a divisão dos brasileiros em dois grupos, o dos privilegiados e o dos deserdados (...) Assinala-se que o comício do Rio de Janeiro precedeu de 48 horas o envio da mensagem presidencial. No comício, o presidente pôs em praça pública todo o instrumental de pressão política de que dispõe para que deputados e senadores entendam com clareza a alternativa que se importa, caso não atendam ao seu apelo. (15/3/1964)"
Brizola e João Goulart
"O Sr. Leonel Brizola está praticamente ajustado com o Sr. João Goulart. O governo refletirá este ajustamento na sua recomposição, não só no escalão ministerial como nos postos de hierarquia inferior. O presidente da República, sem mencionar posto, voltou a falar na presença do Sr. Brizola no ministério, e o deputado carioca aceitou oficialmente a convocação para, como primeiro-vice-presidente do PTB, assumir a presidência efetiva do partido, na qual iniciará a campanha pelo plebiscito (...) O Sr. Brizola, sabe-se agora, no seu encontro de Brasília com o presidente da República, pôs à disposição dele todas as informações colhidas por sua organização, no que resultou um exame minucioso e objetivo de posições civis e militares dentro do governo. O Sr. Brizola apontou setores que devem ser imediatamente reajustados em benefício da segurança governamental, sobretudo no Rio Grande do Sul, ponto em que se demorou mais a análise conjunta da situação. (24/3/1964)"
Ministro de Jango
"`Meu Deus, como é dura a luta contra o imperialismo agonizante.' Com essas palavras, sussurradas ao ouvido de um dos oficiais que o acompanhavam, e segundo a versão triunfante dentro do governo, o almirante Paulo Mário penetrou no edifício do Ministério da Marinha para assumir o posto de ministro e comandante das Forças Navais (...) Na verdade, ele assumiu o poder na Marinha como chefe de uma comissão revolucionária, como delegado da confiança dos marinheiros e não como expressão da autoridade e da hierarquia.´ (29/3/1964)"
O Congresso e o golpe
"O manifesto do governador Magalhães Pinto, recebido com euforia pela oposição e com desafogo pelo PSD, ao qual se ofereceu um novo polo de poder, repercutiu ontem na Câmara dos Deputados como o episódio decisivo da mobilização de forças para conter o presidente João Goulart (...) Sabe-se que o governador Magalhães Pinto, antes de divulgar seu manifesto, guarneceu as fronteiras do estado (...) Com a relativa segurança dessas horas de crise, informa-se igualmente que o presidente João Goulart estaria em face de um ultimato dos comandos militares com referência à punição dos subalternos da Marinha prestigiados pelo governo (...) Muitos políticos não hesitavam em prever uma renúncia do presidente nas próximas horas, como recurso tático para desencadear uma resistência. (31/3/1964)"
"O Sr. João Goulart não renunciou, não se considera ainda vencido pela rebelião dos comandos militares e continua a manter a mobilização moral e material de Brasília, através de uma cadeia de rádios locais, para a resistência e a luta. (2/4/1964)"
"A Câmara dos Deputados consumou ontem à tarde o ato mais constrangedor que lhe coube praticar no decurso da Revolução: a convocação de suplentes para preencher as vagas abertas com a cassação de mandatos imposta pelo comando militar. Não faltou da parte dos deputados solidários com a Revolução a coragem de se afirmarem ostensivamente favoráveis à depuração, mas havia, na face de cada um deles, um ríctus de dúvida desfechado por algum desvão de consciência. (11/4/64)"
Cassação de JK
"No momento em que foi dada como iminente a suspensão dos direitos políticos do Sr. Juscelino Kubitschek, uma sensação de angústia se apoderou dos meios políticos, como se de repente enveredasse a Revolução pela porta estreita que leva ao monopólio de poder por um grupo com inspirações menos políticas que moralistas.´ (29/5/1964)"
Castelo Branco e Lacerda
"Eis algumas formas usadas pelo presidente Castelo Branco para se referir ao Sr. Carlos Lacerda: `Dr. Carlos', quando está de bom humor; `O mocinho da Guanabara', quando está irônico; `O procônsul', quando está irritado. (29/4/1965)"
Frente Ampla
"Embora não se possa dizer o grau de entendimento estabelecido entre o Sr. Carlos Lacerda e os correligionários, agentes ou emissários dos Srs. Juscelino Kubitschek e João Goulart, não resta mais dúvida aos meios políticos de que se sucederam e sucedem os encontros e as trocas de impressões entre o ex-governador e os próceres cassados pelo movimento de março de 64. (3/9/1966)"
"As duas coisas mais parecidas no momento, em matéria de confusão, são as diretrizes do governo Costa e Silva e a Frente Ampla do Sr. Carlos Lacerda. (14/2/1967)"
Morte de Castelo Branco
"Não concorda o Sr. Gustavo Capanema com a imagem do marechal Castelo Branco como um modelo para os seus sucessores: `A História _ disse _ só citará dois presidentes da República até hoje: Getúlio e Juscelino'. (15/3/1967)"
"O grupo militar radical, que não esteve feliz nos três anos do governo Castelo Branco, permanece insatisfeito nesses quase quatro meses de governo Costa e Silva. Muitos elementos desse grupo ingressaram na administração, mas sua presença não tem sido de molde a pacificar as aspirações dos seus companheiros.(...) É fácil entender esse sentimento de frustração: tanto quanto o governo do Marechal Castelo Branco, o governo do Marechal Costa e Silva não é radical. Ambos, no limite das interpretações possíveis no clima de imposição revolucionária, procuram um compromisso com a legalidade democrática e uma composição com a rotina administrativa.´ (2/7/1967)"
Passeata dos 100 mil
"Está certo o ministro Rondon Pacheco (chefe da Casa Civil): o presidente da República teve serenidade para decidir. Escolheu a negociação e a transigência em vez da escalada. O resultado foi o vibrante espetáculo de ontem no Rio de Janeiro, onde a massa foi às ruas e a polícia ausentou-se, evitando a repetição do diálogo sangrento de dias atrás. (27/6/1968)"
AI-5
"Ao Ato Institucional de ontem não deverá seguir-se nenhum outro ato institucional. Ele é completo e não deixou de fora, aparentemente, nada em matéria de previsão de poderes discricionários expressos (...) Ele cobre perfeitamente as previsões dos deputados mais íntimos do processo revolucionário, que antecipavam uma peça destinada a munir o governo dos instrumentos para tudo o que por timidez ou por compromisso democrático deixou de fazer, nos dias quentes da Revolução de março, o presidente Castelo Branco. O Congresso, posto em recesso por tempo indeterminado, está praticamente fechado e tudo indica que se cumprirão as profecias de um expurgo no Poder Judiciário. (14/12/1968)"
Liberdade de imprensa
"Para que uma coluna de comentários políticos exista e seja eficiente, faz-se necessária a conjugação de três fatores. O primeiro, é que exista um jornal desengajado das questões facciosas, independente, que se disponha a editá-la. O segundo, é que o jornalista que aceitou a tarefa preserve o ânimo isento, o equilíbrio e a liberdade de espírito indispensáveis a ver de cima e não de baixo os postos sob sua observação. O terceiro, finalmente, é que as condições gerais do país suportem a exposição franca dos fatos e o seu debate livre. (21/3/1971)"
Morte de Vladimir Herzog
"...todos concordam que devem ser presos os que infringem a lei e ninguém recusa ao Sr. Petrônio Portela o mínimo de consenso em torno da condenação da violência. Ao final, não se fica sabendo de que violência se trata, pois há um cuidado generalizado de não dar seguimento a propostas como a do Sr. Franco Montoro para uma apuração em conjunto de um episódio que, se deve ser apurado, é que esconde em si algo de obscuro. Referimo-nos, evidentemente, à morte de um jornalista em São Paulo, a propósito da qual o presidente do MDB advertiu a respeito das responsabilidades da autoridade policial para com o detido, sobretudo sua integridade física, resguardando o seu amplo direito de defesa. (30/10/1975)"
Figueiredo eleito
"A partir do dia 15, o presidente João Figueiredo está intimado a revelar qualidades de estadista, sob pena de ver o país mergulhar em dificuldades que vêm sendo universalmente previstas, inclusive nas próprias fileiras do governo. Haja vista a declaração do governador eleito da Bahia. Essas qualidades resumem-se no exercício da liderança, que requer energia, mas também humildade. Disse o Sr. Antônio Carlos Magalhães que é essencial que os políticos se unam para enfrentar os problemas da conjuntura. (10/3/1979)"
Posse de Figueiredo
"...esses 15 anos foram tumultuados por motivos diversos, entre eles freqüentes e duradouras supressões do Estado de Direito (...) Os marechais Castelo Branco e Costa e Silva asseguraram por algum tempo o exercício de liberdades públicas, mas ambos foram compelidos a suprimi-las em nome da continuidade revolucionária. O general Médici não teve oportunidade de consentir o debate político, mais preocupado com a manutenção da ordem material e muito entusiasmado com as taxas de desenvolvimento que, à sua época, eram correlacionadas com a paz imposta pela força. O general Geisel foi efetivamente o que mais lutou em favor da abertura política (...) Seria um erro, depois de 15 anos, esperar mais seis pela implantação do regime democrático. (16/3/1979)"
Campanha das diretas
"Embora ainda haja alguns comícios programados, a capacidade de mobilizar a opinião pública em favor da eleição direta chegou a seu ponto culminante no extraordinário comício do Rio de Janeiro. Toda a emoção desencadeada na cidade e no país não pareceu suficiente, no entanto, para afetar a decisão política de negar aprovação à emenda Dante de Oliveira, que morrerá no próximo dia 25, salvo acidente que emocione além do normal deputados e senadores. (12/4/1984)"
Morte de Tancredo
"Com a morte de Tancredo Neves, aos 75 anos, presidente eleito da República, encerra-se uma das mais longas, tempestuosas e truncadas carreiras políticas da nossa história contemporânea. Tendo alcançado todos os altos postos da República, no seu estado e no país, jamais lhe foi dado cumprir até o fim qualquer das missões que lhe foram atribuídas pelo voto popular ou pelo consenso político (...) Nenhum destino mais frustrante nem mais dramático em nossa história contemporânea. (22/4/1985)"
Impeachment de Collor
"Acabou-se o governo de Fernando Collor. O massacrante resultado da votação, ontem, na Câmara dos Deputados, e o entusiasmo que eclodiu no país de ponta a ponta tornaram irrelevantes quaisquer perspectivas de resistência. Hoje ainda o Senado deverá comunicar ao presidente da República seu afastamento, que deverá durar teoricamente enquanto se procede ao inquérito para apurar sua responsabilidade e o seu julgamento. (30/9/1992)"
Governo Itamar
"O presidente Itamar Franco atribui sua dificuldade de tomar decisões à circunstância de ter nascido sob o signo de câncer. Essa é uma explicação para os que acreditam em astrologia, mas é uma informação que não tranqüiliza o país. Antes pelo contrário, a ser verdadeira, essa seria uma dificuldade intransponível. O papel de um presidente da República parece ser, acima de tudo, tomar decisões, principalmente num país que vive em sistema de governo que nele concentra todo o poder. (26/3/1993)"
Plebiscito
"A Frente Parlamentarista está percebendo que as coisas vão mal para seu projeto. (...) Antecipou-se (o plebiscito) para montar na crise e a crise terminou por atropelar o parlamentarismo. (...) Se não houver um fato novo que altere o panorama atual o parlamentarismo terá de aguardar nova chance para tentar mudar a história política do país. (19/3/1993)"
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