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DANIEL PEARL (1963-2002)
Repórter decapitado,
imprensa brutalizada

Alberto Dines

Não deve ter sido o "adiantado da hora", a concorrência de outros grandes assuntos ou uma velada simpatia pela causa do terrorismo. Alguma coisa aconteceu nos corações e nas mentes dos jornalistas brasileiros que travou sua capacidade de reagir diante de um dos mais bárbaros atentados jamais cometido contra um homem de imprensa e, portanto, contra a própria imprensa.

O resultado deste travamento – ou emasculação – foi uma cobertura burocrática, convencional, desalmada. Na sexta-feria, 22/2, pela manhã, os ingleses The Guardian e The Independent


WALL STREET JOURNAL
destacavam, horrorizados, a degola do repórter seqüestrado e sua posterior decapitação.

Aqui, nestas amenas plagas, onde trabalhamos com uma vantagem de três horas sobre as redações inglesas, nossos jornalões foram álgidos. Os paulistanos deram chamadas de uma coluna nos confins da primeira página em linguagem gélida (Folha: "Jornalista feito refém morreu, afirmam EUA"; Estadão: "EUA confirmam morte de repórter seqüestrado"). Já os jornalões cariocas sequer conseguiram enfiar a informação nas suas edições nacionais. A sensibilidade do jornalismo carioca foi salva pelo Jornal do Brasil no dia seguinte, sábado, com uma chamada no alto da primeira página usando as palavras apropriadas: "Jornalista americano foi degolado".

Na sexta à noite, dezoito horas depois das primeiras informações e, agora, com farto material disponível, nossos telejornais utilizaram a mesma frieza: o Jornal Nacional comoveu-se durante 1 minuto e 19 segundos, o Jornal da Record omitiu-se e o Jornal da Globo alongou-se por 2 minutos, quase o mesmo da edição das 22 horas na Globonews.

Nos jornais de sábado, domingo e segunda nenhum editorial. Isto significa que os donos da verdade não se sensibilizaram com a agressão sofrida pela instituição da qual pretendem fazer parte. O mesmo deu-se no âmbito dos opinionistas: embora profissionais como a vítima, não se importaram, não foi com eles. Honrosa exceção a do Ouvidor da Folha, embora seja sua obrigação incomodar-se com o que se passa na mídia.

Os semanários, ultimamente tão frívolos, não ficaram insensíveis. Mas à altura em que circularam, o clima horror já se desvanecera. Ficou o registro, apenas.

É possível aventar uma dúzia de hipóteses para explicar esse comportamento distanciado, quase indiferente, de jornalistas diante de uma violência destas proporções:

** a tragédia ocorreu no plano individual;

** foi acidente de trabalho, a vida continua;

** a operação jornalística desumanizou-se de tal forma que já não há espaço nem tempo para horror e indignação;

** o mal banalizou-se, nada surpreende;

** o viés ideológico antiamericano, o preconceito antijudaico e/ou a simpatia pela causa dos assassinos abafaram qualquer sentimento de solidariedade para com a vítima;

** complacência a-crítica.

Este é um caso de estudo que deveria ser desenvolvido em nossos centros acadêmicos. Com dez entrevistas no máximo pode-se obter uma razoável radiografia da nossa anima jornalística.


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