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MONITOR DA IMPRENSA
NYTimes recusa
anúncios de cigarros
Alberto Dines

partir do sábado, 1º de maio, o jornalão americano deixou de publicar anúncios de cigarros. A decisão foi divulgada em 28 de abril como notícia na seção de Negócios. A porta-voz da empresa, Nancy Nielsen, declarou: "A decisão de aceitar um anúncio freqüentemente implica uma avaliação das mensagens e dos valores neles implícitos (...) Não desejamos expor nosso leitor a uma publicidade que pode ser perigosa para a sua saúde".
No lead da matéria informa-se que o NYTimes juntou-se ao pequeno grupo de jornais que recusa anúncios de cigarros. Mais adiante informa o nome dos principais integrantes deste grupo que já chega a uma dúzia: The Seattle Times e o prestigioso The Christian Science Monitor.
Na mesma matéria foi ouvido o porta-voz da Brown & Williamson, divisão da British American Tobacco Co., que classificou a decisão do NYTimes de "patética": "É irônico que um veículo que trombeteia a liberdade da imprensa tropece na liberdade de expressão comercial".
O publisher do jornal, Arthur O. Sulzberger Jr., contestou dizendo que não tem cabimento incluir a publicidade de cigarros na questão da liberdade de expressão: "A Primeira Emenda dá à imprensa o direito de publicar o que escolher. Ela não força a imprensa a publicar qualquer coisa, seja notícia ou anúncio. Continuamos a apoiar o direito de outras publicações veicularem anúncios que considerem apropriados para os seus públicos".
A nova política estabelecida pela empresa para o NYTimes considera perniciosa apenas a publicidade que promova o consumo de cigarros. Anúncios de festivais de música patrocinados por tabaqueiras serão aceitos. Anúncios de armas de fogo ou mesmo equipamentos de segurança também não são aceitos.
No ano passado, a receita de anúncios de cigarros no NYTimes representou menos de 1% do seu faturamento total. A decisão da empresa refere-se apenas ao principal jornal do grupo, não inclui os demais como o The Boston Globe.
Em meados de abril, o New York Times anunciou um lucro de quase 62 milhões de dólares no primeiro trimestre do ano – só no ítem publicidade a receita aumentou quase 4%. Significa que um jornalismo de qualidade e responsável não é incompatível com o lucro.
A imprensa brasileira, que costuma badalar os modismos americanos, manteve silêncio sobre a decisão do New York Times até as edições de 2/5/99.
Cobertura internacional
e o "paradoxo tostines"
Cristina Yumie Aoki Inoue e
Guilherme Canela de Souza Godoi (*)
A política externa é uma preocupação de muito pouca gente. A nossa imprensa não produz uma visão brasileira das questões internacionais. A maior parte do material publicado é a tradução do pensamento dos outros . Utiliza-se o noticiário de agências e jornais estrangeiros. (Ovídio de Mello, ex-embaixador brasileiro em Angola, em entrevista ao jornalista Elio Gaspari, Folha de S.Paulo, 18/04/99, caderno Mundo, pág. 20 )
A opinião expressa na epígrafe pelo ex-embaixador brasileiro não se configura em algo novo. Desde há muito tem-se uma percepção bastante generalizada de que a nossa mídia (especialmente os jornais impressos diários, as revistas semanais não especializadas, e os diferentes telejornais de nossas televisões abertas) informa quantitativamente e qualitativamente mal o leitor e/ou telespectador nacional acerca dos fatos externos às fronteiras do país e, igualmente, das relações verde-amarelas para com o exterior ( a chamada política externa brasileira). No entanto, poucos estudos sistemáticos têm sido produzidos na tentativa de corroborar essa percepção.
O presente artigo é fruto de dois semestres de pesquisas realizadas por alunos das turmas de Introdução ao Estudo das Relações Internacionais, disciplina ministrada pela professora Cristina Inoue do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, a partir de março de 1998. Os alunos do primeiro semestre de 1998 fizeram um acompanhamento – basicamente quantitativo, durante um mês, da cobertura dada pela mídia às questões internacionais; em seguida, os alunos do segundo semestre de 1998, além de continuarem o acompanhamento anteriormente iniciado, também realizaram uma série de entrevistas junto à população de Brasília, com o intuito de aferir como estavam os conhecimentos desta em relação a questões internacionais atuais (como Mercosul, Direitos Humanos, União Européia, Crise Financeira Internacional).
A informação parece sempre ter sido de grande importância estratégica para os diferentes povos. Guillermo Piernes assinalou em Comunicação e desintegração na América Latina ( Editora Universidade de Brasília, 1990. pág. 9) que "o Império Asteca, que mobilizou uma das máquinas bélicas mais competentes da História, foi derrotado por um aventureiro espanhol, de cabelos louros, chamado Hernán Cortés, que desembarcou no continente com algumas dúzias de homens com armaduras e uns poucos cavalos. Cortés, no entanto, tinha em suas mãos a principal arma na paz e na guerra: a Informação".Essa importância aumenta substancialmente num mundo de fronteiras porosas ou diluídas – como definido por muitos dos teóricos do fenômeno da globalização – especialmente em países intrinsecamente inseridos nessa nova configuração mundial, como é o caso do Brasil. Daí a relevância das relações internacionais e, conseqüentemente, do tratamento delegado pela mídia a essa questão.
O argumento central a ser desenvolvido a seguir é que a cobertura da mídia no que se refere às questões internacionais e/ou de política externa brasileira deixa a desejar, tanto nos aspectos quantitativos quanto qualitativos. Portanto, excetuando-se a pequena parcela da população privilegiada com acesso a internet, TV a cabo, jornais e revistas especializados, os outros 148 milhões de brasileiros são impossibilitados de ter um contato minimamente razoável com assuntos que lhes influenciam cotidianamente.
Embora os dados levantados sejam preliminares, essas primeiras constatações podem abrir caminhos para estudos e pesquisas mais aprofundados.
Foram objeto de pesquisa dos alunos do primeiro semestre de 1998 os seguintes jornais, revistas e telejornais: Folha de S.Paulo, O Estado de S.Paulo, Correio Braziliense, O Globo, Jornal do Brasil, Veja, IstoÉ, Jornal da Record e Jornal Nacional. Cada grupo de alunos realizou o acompanhamento sistemático do jornal ou telejornal escolhido, por um período de aproximadamente um mês. A título de ilustração, observe-se a seguir uma tabela que explicita a importância da cobertura internacional de alguns veículos de informação pesquisados dentro da cobertura total do veículo em questão:
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Veículo |
Quantidade Absoluta de Matérias Internacionais |
Porcentagem em Relação à Cobertura Total |
Cobertura Total: Nacional + Internacional |
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OESP |
125 páginas |
3,57% |
3507 páginas |
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Isto É |
198,2 páginas |
14,03% |
1412 páginas |
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JN |
1340 segundos |
3,23% |
41400 segundos |
Nota : A análise do Estado de S.Paulo realizou-se entre 19 de abril e 19 de maio de 1998. Não foram utilizados para fim da contagem total de matérias os cadernos de Esportes, os Suplementos Especiais (exceto aqueles referentes a questões internacionais) e os Classificados. A análise de IstoÉ realizou-se entre 4 de março e 27 de maio de 1998 e do Jornal Nacional entre 1º de maio a 1º de junho de 1998.
Os alunos do segundo semestre de 1998 foram divididos em dois conjuntos de cinco grupos. Um conjunto ficou encarregado de dar seqüência ao trabalho iniciado no semestre precedente, com a peculiaridade de auferir qual a incidência de grandes temas internacionais predeterminados (Meio Ambiente e Direitos Humanos, por exemplo), e não mais todos os temas, no jornal como um todo. O segundo conjunto de grupos ficou responsável por levantar dados acerca do conhecimento relativo das mais diversas classes de pessoas residentes no Distrito Federal (enfocando-se as diferenças de renda e escolaridade) frente aos temas internacionais. Os resultados do conjunto 1 vêm a corroborar aqueles obtidos no semestre passado, ou seja, a incidência da cobertura internacional em nossa mídia é baixa.
Os grupos do conjunto 2 realizaram 624 entrevistas na Universidade de Brasília, Congresso Nacional, Rodoviária e dois shopping centers de grande movimento do Distrito Federal acerca dos temas Direitos Humanos, Mercosul, Globalização e União Européia. Os entrevistados foram escolhidos a esmo, sem que a amostra tenha sido criteriosa e estatisticamente preparada, já que o objetivo central era coletar dados preliminares para constatações genéricas – base de motivação para pesquisas posteriores. Verificou-se, a partir dos dados levantados, que o conhecimento dos entrevistados em relação aos temas citados é, em geral, relativamente baixo. Esse nível de conhecimento cresce com o aumento dos níveis de escolaridade e de renda. Outra constatação foi que o nível de conhecimento é baixo mesmo tendo a imensa maioria dos entrevistados respondido que se informam com freqüência por meio de telejornais das televisões abertas e/ou jornais impressos de grande circulação. Há uma tendência de um maior índice de conhecimento entre aqueles que se informam via internet e TVs pagas. A título de exemplificação, vale dizer que muitos dos entrevistados não souberam identificar quais são os países constituintes do Mercosul; outros não souberam identificar o tratado que deu origem ao Mercosul (houve entrevistados que responderam Tratado de Tordesilhas); muitos não conseguiram responder questões básicas relativas aos Direitos Humanos (inclusive alguns entrevistados no Congresso Nacional).
A partir daí, pode-se traçar uma correlação com os dados levantados, quando da análise da incidência das questões internacionais na mídia nacional, podendo-se afirmar que a cobertura internacional de nossos veículos de informação não permite aos leitores e/ou telespectadores responder questões básicas acerca daqueles temas internacionais.
Uma das explicações correntes para que essa cobertura seja tão deficitária se encontra em alegações de que a população brasileira pouco se interessa pelas questões de política externa e questões internacionais em geral. Veja-se que essa suposta falta de interesse leva a conseqüências no meio político: como há uma percepção de que o povo (eleitorado) pouco se interessa pela política externa do país, nossos políticos também parecem não se interessar. "Política externa não dá voto." É notória a ausência ou o pouco peso dado às questões internacionais nas plataformas de candidatos a cargos eletivos – conforme constatado, por exemplo, em pesquisas realizadas durante eleições presidenciais no Brasil. Por outro lado, sabe-se que, em geral, a população de países de grandes dimensões, sem problemas fronteiriços, tende a ser mais voltada para questões "internas" (locais e nacionais), sendo que o "externo" acaba por não fazer parte da sua preocupação cotidiana. Ademais, no Brasil as relações exteriores têm sido tradicionalmente um domínio quase exclusivo da diplomacia. O Itamaraty possui um quadro altamente profissionalizado, que tem formulado e executado a política externa com grande autonomia – embora essa tendência venha mudando nos últimos anos, como resultado do processo de democratização e da realização das grandes conferências das ONU.
Essas constatações, em seu conjunto, permitiu-nos formular o "paradoxo tostines" na cobertura internacional da mídia brasileira: a mídia cobre insuficientemente as questões internacionais por que os leitores e/ou telespectadores demonstram pouco interesse acerca delas? Ou eles demonstram pouco interesse acerca daquelas questões porque a mídia as cobre insuficientemente?
E a política? Os políticos demonstram pouco engajamento nas questões de política externa por que o eleitorado (e a mídia) não se interessam por elas? Ou o eleitorado (e a mídia) não se interessam por elas por que o centro decisório do país pouco se engaja nessas questões?
Certamente isso tudo transformou-se num ciclo vicioso, o qual não possui apenas uma resposta clara e definitiva, mas sim uma composição dos fatores acima expostos. O trabalho realizado pelos alunos/as aponta, contudo, para a necessidade de uma cobertura internacional quantitativa e qualitativamente melhor por parte da mídia brasileira.
Claro está que o pequeno envolvimento da população brasileira com as relações internacionais ( seja pela não cobertura da mídia, seja pela apatia dos políticos diante da questão, ou por ambas as coisas) tem sérias implicações no exercício pleno da cidadania. Tome-se como exemplo os tratados internacionais. Muitos alteram substancialmente a vida de cada cidadão brasileiro: como o tratado que deu origem ao Mercosul, como os tratados bilaterais e multilaterais de comércio, como o que impede o uso de tecnologia nuclear para fins não pacíficos, entre outros. No entanto, esses tratados são quase que inteiramente discutidos nos bastidores do Itamaraty, por diplomatas competentes – é verdade – mas com pouca participação da sociedade civil para, depois, passarem por um sistema de ratificação quase que simbólico (e demorado) no Congresso Nacional. Além disso, começa-se a fortalecer a percepção de que a formulação e execução da política externa deve ser monitorada pelos/as cidadãos/ãs, levando-se em conta que "questões externas" também envolvem seus interesses e os compromissos internacionais do país podem afetar seu cotidiano. Por outro lado, é fato que existem hoje questões globais – como meio ambiente, desenvolvimento sustentável e direitos humanos – que são objetos das grandes conferências mundiais da atualidade e refletem as atuais preocupações do conjunto da humanidade.
Para os calouros de relações internacionais foi importante realizar um trabalho de pesquisa, que resultou numa percepção mais sistematizada sobre o nível de conhecimento, quanto às relações internacionais, que possuem os leigos (cidadãos e eleitores), cujos meios de informação principais são as mídias convencionais. Resultados desanimadores.
(*) Cristina Yumie Aoki Inoue é mestre em Relações Internacionais, doutoranda em Meio Ambiente e Desenvolvimento, membro do Núcleo de Estudos sobre Mídia e Política (NEMP) e professora do Departamento de Relações Internacionais da Universidade de Brasília; Guilherme Canela de Souza Godoi é graduando em Relações Internacionais na Universidade de Brasília e membro do NEMP.
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