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MONITOR DA IMPRENSA
NORMAN MAILER
Da letra ao desenho
Um dos mais controversos jornalistas no século 20, Norman Mailer anunciou, para susto geral, que quer ser cartunista. Na semana que vem, ele realiza seu sonho: o New York Observer concordou em publicar uma página inteira com cartUns de Mailer, incluindo alguns nUs. A colaboração com o jornal pode tornar-se regular.
Mailer ganhou um Pulitzer em 1980. Foi casado seis vezes; concorreu sem sucesso à prefeitura de Nova York. O jornalista causou tumulto no clero conservador, em 1997, com seu romance O Gospel de acordo com o Filho, no qual Jesus é o narrador.
"Publicaremos uma página e veremos como Mailer se sai", disse Peter Kaplan, editor-chefe do Observer, de acordo com matéria de Keith J. Kelly [The New York Post, 25/6/00]. "Seus cartuns estão em algum lugar entre Feiffer e Picasso", afirmou. "Há uma nuance obscura e um pouco mais intensa que em cartuns comuns", disse. "Parecem que foram feitos por um romancista."
ÉTICA & IMAGEM
Competição a todo custo
Americanos assistiram chocados às cenas de um vídeo amador flagrando jovens mulheres sendo sexualmente molestadas por um grupo de homens, que já havia violentado no mínimo 50 mulheres nas proximidades da região sul do Central Park, em Nova York. O fato deu-se em 11 de junho, dia da Parada Nacional Porto-Riquenha.
Todos os jornais e TVs transmitiram as imagens. A diferença mais evidente, para o bom observador, é a forma com que essas cenas foram dispostas ao público. Alguns veículos borraram os rostos das vítimas. No entanto, em cinco programas de TV e em um jornal (The New York Post), as mulheres eram facilmente indentificáveis, muitas das quais sem roupas durante o ataque.
Segundo matéria de Jayson Blair [The New York Times, 19/6/00], a maioria das empresas de mídia adotam política de limitação da identificação das vítimas de violência sexual porque crêem que, se as vítimas forem identificáveis, pode haver estigma envolvido; e porque as vítimas sentem-se recuadas se sabem que o crime será de conhecimento público. A cobertura desse incidente, porém, mostrou quão competitivas podem ser as organizações midiáticas e quão eticamente questionáveis as decisões de um veículo podem influenciar outros.
O fato movimentou grupos de direitos femininos. "Foi uma situação traumática, e há um estigma anexado a crimes sexuais", disse Nancy Millar, presidente da unidade em Nova York da Organização Nacional para Mulheres. "Publicar seus rostos só acrescenta insultos aos danos causados." Após reclamações, emissoras de TV retiraram as imagens do ar e o Post desculpou-se.
Levado a estúdios no dia seguinte ao ataque, o vídeo amador foi transmitido pelas emissoras WNBC, WABC, WCBS e WNYW. As duas primeiras foram pioneiras na transmissão, e não mostraram os rostos das vítimas. A WCBS e a WNYW, porém, divulgaram imagens nas quais a nudez foi escamoteada, mas muitos dos rostos foram expostos sem alterações.
Paula Madison, vice-presidente e diretora de mídia da WNBC, afirmou que a competição não pode guiar todas as decisões, caso contrário poderá "desgastar a confiança pública em relação à habilidade de informar de maneira compreensível e responsável".
A história não acabou aí. No dia 20 de junho, a WCBS, a WNYC a WPIX e a WWOR continuaram transmitindo a fita sem esconder os rostos das vítimas. Na manhã desse dia, produtores da New York 1, canal de notícias 24 horas da cidade, receberam o vídeo. Rapidamente levaram as imagens ao ar, mostrando closes dos rostos de duas mulheres. Minutos depois, um telespectador enviou e-mail à emissora, em que dizia: "Essas mulheres já foram publicamente humilhadas uma vez; por que humilhá-las de novo mostrando seus rostos na TV?"
O vídeo foi transmitido cerca de três vezes até que o vice-presidente sênior da New York 1, Steve Paulus, ordenou que se obscurecesse os rostos das mulheres. Paulus enviou uma nota à tarde afirmando a política da emissora contra identificação das vítimas. "O que outras estações de TV estão fazendo não nos interessa; não devíamos ter transmitido dessa forma", afirmou.
"Uma vez que as imagens foram emitidas várias vezes na TV, achamos que havia pouco a ganhar alternado-as", disse Xana Antunes, editora do New York Post. Antunes lembra que seu jornal foi cuidadoso ao não publicar nomes e endereços das vítimas. "Refletindo melhor, tomaremos medidas adicionais para proteger a identidade das vítimas", disse.
No dia 21, todas as emissoras retiraram as imagens inalteradas do ar. Susan Sullivan, diretora de mídia da WNYW, disse que, na onda da competição, seus produtores não pensaram em editar o vídeo protegendo a identidade das vítimas. "Assim que vi a fita rodando, entrei no circuito e começamos a obscurecer os rostos", afirmou.
VLADIMIR GUSINSKY
Cercado pelos sete lados
A maior companhia russa, Gazprom, iniciou no dia 21 de junho uma campanha contra Vladimir Gusinsky, proprietário do maior conglomerado midiático independente no país, O Media-Most. Segundo matéria de Sabrina Taversine [The New York Times, 22/6/00], a campanha deu-se uma semana após a saída de Gusinsky da prisão, sob acusação de desvio de verbas estatais [veja remissão abaixo]. Vladimir Putin, presidente da Rússia, pediu à Gazprom para manter-se firme em relação à Media-Most.
No dia 22 de junho, a Gazprom, maior companhia de gás natural do mundo, disse que a Media-Most tirou proveito de um empréstimo de 211 milhões de dólares do Credit Suisse First Boston, garantido pela Gazprom. O evento pode levar a empresa de Gusinsky a fortes pressões econômicas, à medida que a empresa de gás natural afirma que o empréstimo poderia ser quitado em março.
Livre da prisão após reclamações de jornalistas, políticos e executivos russos, Gusinsky novamente enfrenta o governo. A Gazprom, cujo acionista majoritário é o Estado, parece estar procurando o ponto fraco do magnata da mídia. "Queremos o dinheiro, acima de tudo", disse Alfred Kokh, diretor geral da Gazprom Media, assessoria de imprensa da empresa. "Ainda não recebemos o sinal, e não temos certeza se o queremos."
A Media-Most tem vulnerabilidades. É fortemente endividada com a Gazprom, a qual possui, hoje, 14% da companhia. Mas por ter pago o último empréstimo e porque é capaz de fornecer nova remessa, a Gazprom garante possuir 54% da empresa de Gusinsky, de acordo com Kokh. A Media-Most afirma que o valor não chega a 50%.
O conglomerado midiático está procurando investidores estrangeiros que possam ajudar a amenizar a pressão da Gazprom. A Media-Most afirma valer 2 bilhões de dólares, enquanto a Gazprom diz que o valor é bem inferior. "Essa é uma grande briga sobre o valor de suas empresas e sobre o quê Gusinsky está preparado para abrir mão", disse um executivo de mercado. "Se o preço que estipulou é realmente tão alto, então por que Gusinsky simplesmente não quita sua dívida?"
Em transmissão ao vivo pelas emissoras de TV no dia 20 de junho, o Vladimir Gusinsky afirmou que sua empresa não corre o risco de suas propriedades. A pressão da Gazprom, no entanto, encurrala as finanças da Media-Most e tornam mais remotas as chances de encontrar um investidor estrangeiro.
TECNOLOGIA
O contexto do conteúdo
A Associated Press está lançando um projeto de incluir mapas em noticiários de TV, jornais ou sítios noticiosos. Não se trata de mapas comuns. Com um novo programa, MapShop, poderá desenhar-se mapas com dados demográficos, linhas de falhas sísmicas, número e localização de terremotos em cada falha e até localização de cada árvore e arbusto nas vizinhanças.
O MapShop, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa de Sistemas Ambientais (ESRI), é um programa feito para permitir aos jornalistas a criação de mapas sofisticados e ricos em informações em poucos minutos. De acordo com matéria de Dylan Loeb McClain [The New York Times, 26/6/00], pode ser difícil convencer jornalistas a usar o programa. Alguns são céticos em relação a seus conteúdos avançados e afirmam que o preço é muito alto.
Jack Dangermond, presidente da Redlands, companhia que vende o programa, disse que o MapShop põe muito poder nas mãos dos jornalistas. Segundo ele, ocorre a combinação de muitos dados de centenas de organizações confiáveis de todo o mundo a um software sofisticado de mapeamento, para criar uma "representação geográfica que provê contexto para o tradicional conteúdo".
A Associated Press cobrará uma taxa baseada em escala variável. Jornalistas de algumas companhias de grande imprensa dizem ter sido notificados de que as taxas anuais podem chegar a 50 mil dólares.
Alguns designers que viram a demonstração do MapShop em março ficaram impressionados. "Achei o potencial maravilhoso", disse Laura Sommerville, editora gráfica do Trenton Times. "O programa faz coisas impossíveis de serem feitas agora." Outros não ficaram tão entusiasmados. "Fiquei impressionado com a tecnologia, mas não posso usá-lo", afirmou Pak Nagasing, editor gráfico do Journal News. "É muito caro."
Houve, também, preocupações quanto à qualidade dos dados. Bill Marsh, diretor de design do Philadelphia Inquirer, disse que não saber a fonte dos dados e se são confiávies e compatíveis mutuamente , pode ser um grande problema. "Não há como conferir", afirmou.
Em declaração sobre o MapShop, o ESRI disse que "manterá os dados mais precisos disponíveis, atualizando informações assim que for liberado às organizações que comprarem o programa".
ESPORTE & POLÍTICA
Disputa pelo horário nobre
Na batalha norte-americana entre republicanos e democratas, um dos campeões é o futebol americano. A ABC News anunciou em 20 de junho que não deixará de transmitir dois jogos de futebol americano, marcados na noite de abertura da convenção nacional dos partidos Republicano e Democrático.
Segundo matéria de Peter Marks [The New York Times, 21/6/00], a emissora não abandonará completamente a política no horário nobre. De acordo com David Westin, presidente da ABC News, nos dias 31 de julho e 14 de agosto, quando se darão as convenções republicana e democrata, respectivamente, a emissora transmitirá metade dos jogos. No dia 31, 49ers enfrenta New England Patriots, e no dia 14, St. Louis joga contra Tennessee Titans.
Westin disse que a emissora planeja uma hora de cobertura na segunda e na terceira noites, e duas horas na noite final de ambas as convenções o que, segundo a ABC, é uma cobertura pouco menor que a feita pela emissora há quatro anos, quando não houve intromissão do esporte. Mesmo assim, a ABC News proverá maior cobertura em horário nobre que suas concorrentes, CBS News e NBC News.
Políticos interessados em manter forte presença no horário nobre das TVs ficaram desapontados com o anúncio da ABC News. "Em quê se tornaram emissoras de TV em termos de compromisso?", questiona Paul Taylor, diretor executivo da Aliança para Campanhas Melhores, que monitora a cobertura política de emissoras.
Westin disse que a ABC News convidou o vice-presidente Al Gore e George W. Bush para um debate de uma hora após as convenções, sem moderador. Segundo ele, a reação inicial de ambas as partes foi positiva. A ABC também pretendia produzir uma biografia de cada um, mas não se pôde garantir o programa porque a emissora poderia ser obrigada a dedicar o mesmo tempo também a outros candidatos.
MÍDIA & ENTRETENIMENTO
Vivendi + Canal Plus + Seagram
O grupo francês Vivendi e seu canal de TV Plus maior rede de TV paga da Europa , adquiriram no dia 20 de junho o grupo canadense Seagram, que atua na área de bebidas e entretenimento e é proprietária da Polygram, da Universal e de parques temáticos. O acordo, aprovado por representantes das três empresas em 19/6, combina os grandes negócios de entretenimento da Seagram com uma rede de telecomunicações e internet com que esperam concorrer com a Time Warner/AOL. "Juntos teremos uma enorme base para as mais populares e prósperas redes e tecnologias", disse Jean-Marie Messier, presidente da Vivendi, que chefiará a companhia Vivendi Universal, segundo maior conglomerado de mídia e entretenimento do mundo. Edgar Bronfman, presidente da Seagram, será o vice-presidente da nova empresa.
De acordo com matéria de Robin Sidel [Reuters, 20/6/00], os executivos fecharam negócio em Paris e o valor estimado é de 55 bilhões de dólares. Cinqüenta e nove por cento da megaempresa pertencerá à Vivendi, cabendo à Seagram 29% e ao canal Plus, 12%. A família Bronfman, proprietária da Seagram, controlará 8% do capital da Vivendi Universal.
Com matriz em Paris, a Vivendi Universal terá sedes em Nova York e Toronto, mas só inicia suas operações no final do ano, após aprovação da assembléia de acionistas. Messier planeja distribuir o extenso conteúdo de entretenimento da Seagram para o novo portal de internet da Vivendi, o Vizzavi.
Executivos sublinharam que a união é essencial para prover acesso à internet a clientes por outras vias, além de computador pessoal. "A nova era da internet não é mais a internet como a conhecemos", disse Bronfman, a respeito de novas formas de acesso a internet.
O acordo marca o fim da dinastia da família Bronfman, que reina na empresa desde 1928. Edgar Bronfman assumirá a chefia das operações de internet e entretenimento na nova companhia. Endividada em 7 bilhões de dólares, a Seagram passou sua dívida a Vivendi, mas 6 bilhões deverão ser eliminados desse total por causa do "espírito para negócios" da Seagram.
Reação do mercado
Bronfman e Messier mostraram preocupação com a reação do mercado, o qual, segundo eles, espera um declínio. "Temos que tornar a história crível e compreensível aos investidores", disse Bronfman.
Em 9 meses de discussão, concluiu-se que a Seagram é o alvo de aquisição ideal, porque não é grande o suficiente para competir por si só. Rob Lyon, presidente da Institucional Capital, possui 4,6 bihões de dólares em ações da Seagram. "Dentro de 2 ou 3 meses vocês verão como estará a Vivendi Universal", disse. "A empresa, que mistura propriedades de mídia, deverá ter crescimento mais rápido do que a Disney, a News Corp. e a Viacom."
Analistas atribuem o declínio do valor das ações à pressão arbitrária. "Vimos essa transição como uma fuga da Seagram à medida que a arremessa para o topo da pirâmide midiática, provendo uma mistura de business mais robusta", disse Jill Krutick, analista da Salomon Smith Barney. Investidores europeus, no entanto, estão preocupados com o impacto do acordo, duvidando da habilidade de Messier de conduzir, de Paris, uma companhia global.
VOCÊ DECIDE
Jornalistas à mercê do público
Se antes jornalistas sabiam o efeito positivo ou negativo de determinada matéria que publicaram pelos comentários de amigos e de alguns leitores, agora, com a popularidade das notícias online, jornalistas são submetidos a um enervante plebiscito digital todos os dias.
Qualquer veículo que tenha website ou seja, praticamente todos , pode medir o número exato de visitas a cada matéria. As conseqüências de tal exatidão eletrônica estão apenas começando a aparecer.
No começo do mês, a Salon.com retirou 13 postos de seu sítio, um sinal de naufrágio do mercado pontocom. David Talbot, fundador da Salon, não deu muita importância às demissões.
De acordo com matéria de Howard Kurtz [The Washington Post, 24/6/00], entre os cargos eliminados estavam o de jornalista de mídia e de editor das seções de livros e viagens, todos marcados por números que não despertavam o interesse de anúncios.
Não se pode culpar a Salon. Se sua sobrevivência está por um fio, faz mais sentido liqüidar as seções com menor número de leitores. No entanto, se um jornal fosse editado de acordo com a popularidade de cada assunto, notícias internacionais estariam fadadas à extinção, assim como reportagens sobre o governo. E as fofocas definitivamente estariam nas primeiras páginas. Vale lembrar que um dos departamentos sobreviventes da Salon é chamado simplesmente "Sexo".
O dar-o-que-o-leitor-quer oblitera a noção de que editores deveria escolher o material importante e interessante injetando um pouco de fibra em uma dieta rica em gordura. O que a nova era deixa escapar com essa postura é a leitura de textos que geralmente não chamam atenção de determinado leitor, mas que este, sem querer, pega-se lendo-os e torna-se interessado pelo assunto.
De acordo com o Pew Research Center, um número grande de americanos a maioria jovens está trocando o noticiário da TV pela notícia online. Por meio de algum tipo de alquimia pontocom, encontram mais credibilidade na CNN.com que na CNN da TV.
Jornalistas encontram-se, assim, submersos em questões de fundo. Deve um jornalista meramente se submeter ao que as pessoas dizem querer? Ou deve correr alguns riscos e esperar que um número suficiente de leitores o seguirão?
Com seu acervo de escolhas e vozes, a internet é um ótimo recurso, mas pode-se estar sucumbindo a uma mentalidade que dilacera o discurso público em pedaços minúsculos. Deveria ser uma vergonha o fato de ter-se tecnologia para abraçar o mundo e encontrar a maior parte das pessoas isoladas em suas ilhas digitais.

Putin contra a mídia Fabiano Golgo
Caça às bruxas à moda soviética
A prisão de Vladimir Gusinsky
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