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MONITOR DA IMPRENSA

 

MÍDIA BÁLTICA

A (lenta) construção

de uma identidade
 
 

Fabiano Golgo

Depois da queda do Muro de Berlim, uma das maiores preocupações da mídia dos países do antigo bloco comunista passou a ser a crise de identidade causada pelos anos de submissão forçada aos ideais e modus vivendi dos soviéticos (leia-se russos). Enquanto para os ucranianos ou biélorrussos foi fácil se adaptar a uma cultura que tinha traços comuns aos seus, graças a proximidade étnica, para os húngaros ou romenos ou mesmos os eslavos (mas ocidentais) tchecos, a experiência foi traumatizante. Da Estônia à Bulgária e inclusive na independente Iugoslávia, aulas de russo eram parte do currículo escolar. Esportes tradicionalmente praticados pelos russos, como a ginástica olímpica e o hóquei, entraram para o cotidiano dos estados-marionete anexados depois do fim da Segunda Guerra.

A região dos países bálticos sofreu uma crise de identidade ainda mais acentuada por causa da costumeira identificação de seus três países sob um mesmo denominador comum (bálticos). Com línguas completamente diferentes, estônios, látvios e lituânios foram jogados no mesmo saco e tratados em bloco. Por isso, mesmo antes de conquistarem o status de países independentes (durante a febre de liberdade dos anos de glasnost ) os jornais e revistas da Estônia, da Látvia e, em menor grau, da Lituânia passaram a publicar inúmeros artigos, crônicas, análises pseudo-antropológicas ou mesmo contos e lendas que exaltassem e/ou provassem as características locais em contraposição as russo-soviéticas.

Língua local

Stálin despopulou a Látvia, mandando centenas de milhares de seus habitantes para a Sibéria ou para covas coletivas. Não havia critério de seleção das vítimas, apenas um número previsto para deixar, pelo menos na capital Riga, menos látvios que os russos para lá mandados (também pela força). Quando, em 1991, a Látvia ganhou reconhecimento de Moscou pela sua independencia, a população de sua capital era de 53% de étnicos russos, contra 34% de látvios, mais os ciganos e outros grupos pequenos. Imediatamente os jornais (estatais até então e ainda por mais ou menos um ano) deixaram de publicar em língua russa. O passo seguinte foi a criação de uma lei que exigia o domínio da língua látvia para quem quisesse trabalhar. Isso efetivamente tirou o emprego de muita gente e eliminou o staff russo das redaçoes. Uma polícia especial a polícia da língua, como foi chamada passou a fazer blitz nas lojas e empresas que lidam com o público e aplicar testes de conversação e escrita do idioma látvio aos funcionários. Quem não passasse tinha que ser demitido. A única estação de TV costumava produzir, para o horário nobre, programas no estilo do Aqui Agora , onde câmeras chacoalhantes e repórteres ofegantes seguiam os cavaleiros da língua látvia em sua cruzada contra os russófonos.

O presidente Guntis Ulmanis (pressionado pela União Européia, a qual a Látvia aspira integrar) tentou suavizar a lei, permitindo que o processo de destituição do emprego dos monoglotas da língua errada passasse por três fases: primeiramente uma multa e um prazo de quatro meses para que aprendessem o básico que permitisse uma interatividade mínima com o público, depois um novo prazo para que pudessem escrever na língua local (cujos caracteres são diferentes) e mais adiante a participação de um teste mais amplo que provasse conhecimentos de gramática. A mídia caiu em cima. Os três jornais diários de Riga, mais nove revistas de circulação nacional, mesmo uma de culinária e artesanato, publicaram extensos ataques ao presidente e sua falta de sensibilidade. É claro que aos olhos estrangeiros, europeus e americanos em especial, essa mentalidade da mídia e seu público sinalizavam xenofobia e nacionalismo. Mas para os látvios é um misto de acerto de contas com seus opressores e o senso comum de que um país deve ter funcionários e serviços sob a língua local.

Parcos recursos

É preciso lembrar que esses russos para lá enviados assumiam as posições de liderança no país, eram os representantes do poder central soviético, tiveram privilégios e agiram como uma classe superior, nunca se misturando com os látvios e, daí, o motivo pelo qual pouco sabem sobre o idioma local.

A lei da língua, no entanto, fazia par com uma outra relativa a cidadania. Com o novo status de país independente, os látvios passaram a se desfazer dos odiados passaportes vermelhos dos anos soviéticos e de suas carteiras de identidade em alfabeto cirílico. Fizeram isso por meio de um recadastramento que eliminava os que não pudessem se expressar no idioma látvio. Mas o problema é que dezenas de milhares dos atingidos nunca haviam sequer visitado a Rússia de seus pais: adotaram a língua de sua família, apesar de nativos do país. Ou seja: segundo a lei não tinham pátria, pois Moscou não manifestava intenções de aceitá-los como imigrantes. Somente com a entrada em cena da excêntrica figura da nova presidente Vaira Vike-Freiberga, uma lingüista, folclorista e psicóloga que passara sua vida adulta no Canadá, a lei foi remodelada e não atinge os que tiverem nascido em território nacional. Mas exige que aprendam a língua caso queiram lidar profissionalmente com o público.

Mesmo assim a mídia não descansou, atacando a presidente por estar em desacordo com os anseios nacionais e mais preocupada com a União Européia do que com os seus conterrâneos. A resposta dela virou manchete em todos os jornais, como que orquestrados entre si: "Uma mãe não deixa os filhos nadarem onde há tubarões apenas porque eles assim o querem". Apenas um semanário não explorou a frase.

O único jornal em língua russa que surgiu tem grandes dificuldades de conseguir anúncios ou mesmo bancas que o vendam. E só sai de dois em dois dias. A senhora Vike-Freiberga segue lutando contra o Seima (parlamento) para suavizar ainda mais a lei.

O telejornalismo da VTV, a principal emissora, é fraco e pratica a cartilha americana dos 10 minutos de noticiário sério, com os restantes 20 minutos preenchidos por celebridades, conselhos médicos, animaizinhos exóticos e crianças perdidas. Já a emissora estatal parece estar lendo os releases dos políticos, apesar de fazê-lo com todos os lados, e tem mirrados recursos para apresentar alguma matéria mais atraente. Uma terceira emissora está quase falida e se limita a colocar no ar as imagens de agências internacionais. Eles têm duas câmeras e um único furgão de reportagem externa. Os jornais impressos são fininhos e vivem de factóides. Apenas um sai nos finais de semana e um outro tem cores. Os infográficos são a novidade que tomou conta de dois deles, recentemente. Parece que depois de um workshop promovido pelo USA Today , em julho deste ano.

A voz do mercado

Na Lituânia a situação é mais amena. Não há problemas sérios quanto a população russa, pois o povo se miscigenou mais amplamente, e há um número considerável de descendentes de poloneses, alemães e biélorrusos para contrabalançar. O número de jornais diários muda quase mensalmente, pois várias empresas que alcançaram algum sucesso dentro do novo esquema neoliberal tentam lançar o seu. O resultado são bancas inundadas por títulos desconhecidos mas atraentes para os olhos de uma população, nos tempos comunistas, tinha que engolir apenas dois e ambos com a mesma bobajada acerca dos "avanços" da economia lituânia. Como era muito barato, acabava estocado no banheiro para os dias em que o papel higienico importado da Rússia faltava nas prateleiras das lojas de mantimentos.

A publicidade atual se dilui entre vários títulos e prejudica a possibilidade de um empreendimento sério, que tenha condições de sustentar bons repórteres ou aprofundar nas matérias. Em geral são jornais de opinião e seus donos contratam gente de boa retórica para passarem adiante as ideologias dos que lhes pagam o salário. Há apenas um em formato standard, e mesmo assim magrinho, os outros sendo tablóides. A proliferação dos veículos popularescos, cheios de cores e fotos de gente famosa, mais as tradicionais "notícias" sobre extraterrestres e receitas milagrosas de rejuvenescimento, é sustentada por anúncios made in USA de cremes fantásticos contra a celulite e aquelas dietas com fotos de antes e depois.

Uma emissora de TV comercial tentou causar impacto oferecendo um jornalismo combativo, revelando casos de corrupção e analisando criticamente todos os lados da esfera política. Mas tão logo percebeu os altos índices de audiência do seriado Dallas e da novela mexicana Esmeralda , diminuiu pela metade a duração do telejornal de uma hora e abrandou o texto lido pelo casal de apresentadores (casados na vida real, a la Bonner-Bernardes e Leila-Eliakim). E eles sorriem mesmo quando noticiam o terremoto em Formosa...

Sem censura

Já a Estônia tem uma história mais positiva a contar. País que tem laços raciais e lingüísticos com a vizinha Finlândia, também passou por um intenso processo de exorcismo das coisas russas e de reafirmação nacional. Hoje, a mídia procura ressaltar, quase que diariamente, as diferenças com os primos mais ricos os finlandeses. Os estônios falam uma língua praticamente idêntica à deles, são também geralmente loiros, altos e de olhos azuis, mas garantem que bebem menos. Pelo menos essa é uma preocupação estampada em revistas sérias e programas de TV, que mostram os turistas de fim de semana, vindos da Finlândia, caídos pelas esquinas de Tallin. Ignoram o detalhe de que esses jovens que fogem de Helsinki nos feriados agem assim exatamente pela distância segura de sua mais sisuda sociedade. Os estônios são extremamente liberais e os jornais não sofrem qualquer tipo de censura ou pressão superior, governamental ou mesmo dos interesses comerciais. São um povo que tem surpreendido a União Européia, que discute seriamente admiti-los já na primeira leva de novos membros, junto com as cotadas Polônia, República Tcheca e Hungria. Isso porque nunca foram registrados abusos contra a imprensa, a economia vai bem, o comportamento dos nativos é mais civilizado que o da França e Alemanha (segundo as diretrizes do comissariado de direitos humanos da ONU) e eles sequer estão lá tão preocupados em fazer parte do clube.

Livros em toda parte

Mas a identidade cultural segue sendo definida, especialmente porque há o estigma de primo pobre dos finlandeses. As emissoras de TV mostram sua quota de seriados americanos (quase entregues de presente por produtoras preocupadas com a falta de interesse das estações em comprar-lhes os enlatados), mas preenchem seu tempo no ar com documentários da BBC e do canal franco-germânico ArTe, programas ecológicos, de viagem e muita notícia. O nível das reportagens é excelente e os jornalistas vão a fundo nas matérias, inclusive oferecendo cometários opinativos durante a exposição dos fatos, como cronistas em vez de compiladores de dados. Há mais jornais em formato standard do que tablóides e o inédito (para os bálticos e maior parte do antigo bloco) sistema de assinaturas. Uma pesquisa apontou que a maior parte da população adota um título e permanece fiel a ele, interagindo através de cartas e e-mails, em amplos cadernos de leitores. É uma população indiscutivelmente acima da média em termos de conhecimentos gerais. Não há estônio sem imensas prateleiras recheadas de livros em suas casas. Não é incomum que as paredes das sala, corredores, quartos e eu já vi até cozinhas e banheiros sejam tomados por estantes de livros. Talvez o longo inverno anual explique, bem como a personalidade reservada, mas pacífica e calma dos estônios. Muitas vezes uma notícia descoberta por um jornalista só sai semanas mais tarde, apenas depois de cuidadosa investigação, em ritmo calmo "para evitar equívocos", como me garantiu o editor do diário Tallin Hoje .

 Os mercados dos países bálticos ainda estão em construção e a falta de vontade política na Látvia e na Lituânia tem atrasado consideravelmente o desabrochar de uma economia que estimule anunciantes com maior poder econômico e, assim, aumente o leque de opções de fontes de informação. Além disso, há a intromissão evangelizadora das várias instituições e fundações americanas que pretendem "ensinar" os que estiveram separados pela Cortina de Ferro por décadas a praticarem o jornalismo insípido e de dados/números da escola do Tio Sam. O resultado é a proliferação de publicações de fácil leitura e preocupadas com as idas e vindas dos famosos. É a burocratização das redações cuja língua, querem os professores da América do Norte, deve ser a do mercado.

BANCA EXAMINADORA

Reforma do Estadão

Ou a teoria, na prática, é outra coisa
 
 

Nilson Lage (*)

O texto que se segue comenta a dissertação de mestrado da jornalista Liriam Sponholz, "O Estado de S. Paulo (1942-1972), uma contribuição à história das técnicas jornalísticas", aprovada no Curso de Pós-graduação em História, Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal do Paraná. As observações foram feitas na banca de avaliação da dissertação, da qual participei, em Curitiba, em 22 de setembro de 1999. (N. L. )

O referencial teórico

A análise do tema técnicas jornalísticas, nessa dissertação, é feita com base em um único referencial teórico, a Escola de Frankfurt, e, nessa escola, a partir de um texto seminal, Dialética do iluminismo , de Adorno e Horkheimer. Esse texto subsidia outros textos citados, como os de Cremilda Medina (Notícia, um produto à venda cuja falta notei na bibliografia) e Ciro Marcondes Filho (Imprensa e capitalismo ).

 Uma observação inicial é que essa linha, não sendo a única, não é talvez a melhor para esse estudo. A Escola de Frankfurt, partindo de Marx, substituiu progressivamente o conceito de classe operária, sujeito da História, por outro conceito, o de massa, que existe desde o Império Romano e designa populações totalmente manipuláveis e sujeitas ao discurso do poder.

Assim, os autores de Frankfurt assumem a teoria da agulha de injeção, segundo a qual os meios de comunicação inoculam um veneno contra o qual as vítimas não têm qualquer defesa. Paralelamente, estabelecem uma hierarquia de qualidade com base no princípio de que os produtos industriais em cultura são sempre inferiores a obras ditas eruditas, produzidas em condições artesanais.

 Frankfurt é uma escola pessimista, apocalíptica. No caso do texto de Adorno-Horkheimer, isso se explica também pelo contexto: as circunstâncias trágicas de uma Alemanha que vivia o fracasso da República de Weimar, a ascensão do nazismo e o peso das amargas representações da sociedade contemporânea na arte expressionista.

 Alguns textos de Frankfurt destaco aqui os de Habermas são exemplares brilhantes de uma tradição que, na filosofia alemã, reporta-se a Kant, carregada de um idealismo essencialista que pouco tem, realmente, com Marx.

No entanto, algumas análises que decorrem dessa linha teórica podem ser questionadas com base nos fatos. Entre elas a tese de que a notícia é o produto que o jornal põe à venda coisa de que Cremilda Medina estava tão convencida que colocou no título de seu livro. Isso simplesmente não se encaixa com a economia de um jornal como O Estado de S.Paulo.

Em primeiro lugar, a tiragem a venda de exemplares que resultaria da atração da notícia não é tão importante quanto parece. O preço de banca não cobre os custos de produção de um jornal desse porte. Veículos populares, eventualmente com tiragens gigantescas uma revista como Amiga , por exemplo , são pouco programados pelas agências de publicidade; tornam-se pouco lucrativos, portanto, razão pela qual O Dia , do Rio de Janeiro, mudou há alguns anos sua linha editorial. Jornais que se associam a políticas contrárias aos interesses do grande capital como a ltima Hora de Samuel Weiner tendem também a ser mal programados.

Como jornais vivem principalmente de anúncios, a questão central é credibilidade, que implica prestígio ou aceitação da elite, tanto a cultural quanto a econômica. É a partir do patamar de credibilidade que a tiragem passa a ser considerada. E credibilidade em jornalismo se conquista com a oferta de serviços confiáveis de informação pública.

 A credibilidade é também central nas decisões financeiras e das instâncias de poder das quais dependem as empresas jornalísticas. Jornais são clientes constantes de bancos, já que operam uma indústria pesada, com grandes investimentos em pessoal, matéria-prima (papel) e em equipamentos que sofrem rápida superação tecnológica. Em toda parte, mas especialmente no caso brasileiro, favores obtidos do Estado não apenas anúncios, mas concessões e privilégios de toda ordem fazem parte do ganho, confessado ou não, dessas organizações. Isso é evidente, por exemplo, no caso da participação das principais firmas do ramo na recente privatização do sistema Telebrás. Jornais são instituições a que se atribui peso político.

 Ora, a credibilidade entendida como aceitação e prestígio social é fator absolutamente desconsiderado nas análises fundadas no modelo de Frankfurt, com sua visão esquemática do capitalismo. E provavelmente esse caráter esquemático é o que terá mais contribuído para a rápida difusão e aceitação do modelo frankfurtiano.

 No contexto da Escola de Frankfurt que despreza a existência na indústria cultural de textos informativos, atribuindo a toda mensagem função conativa, de convencimento resta ainda estabelecer por que a forma centrada no lead seria embalagem mais adequada ao consumo da notícia do que qualquer outra. E, se isso ocorresse, qual o sentido de técnica similar não ser adotada por outros discursos propagandísticos. Ou por que a retórica (dos discursos políticos, por exemplo) inclui procedimentos e estratégias suprimidos na técnica de escrever notícias.

O modelo americano

As técnicas editoriais do jornalismo moderno fixaram-se nos Estados Unidos no final do século 19 e, principalmente, no início do século 20, coincidindo com a instituição do ensino superior de Jornalismo. Foram, no entanto, adotadas universalmente com um mínimo de adaptação a culturas regionais, de modo que não se pode falar, hoje, em um modelo americano: jornais escrevem-se mais ou menos da mesma maneira seja na Finlândia ou na China.

Na década de 50, as técnicas de redação já estavam internacionalizadas e há muitos anos chegavam ao Brasil no texto das agências internacionais não apenas as americanas. Desde a Segunda Guerra Mundial e, depois, nos primeiros embates da Guerra Fria, ocupavam as primeiras páginas dos jornais, em particular do Estadão . Havia nítida diferença de estilo entre a cobertura noticiosa internacional, de um lado, e a cobertura local e nacional, de outro.

 No caso específico do Diário Carioca , a reforma editorial, conduzida por Danton Jobim e Pompeu de Souza na década de 50, consistiu não apenas da introdução da técnica do lead , mas também de uma série de inovações que correspondiam à modernização do idioma escrito. O Diário incorporou formas de escrever escolhas léxicas e gramaticais difundidas a partir da Semana de Arte Moderna de 1922 por autores que objetivavam aproximar o texto literário da fala brasileira. Por exemplo: dizer que alguém mora "na rua X" e não "à rua X", limitar o tratamento cerimonioso, eliminar do texto palavras em desuso (como edil ou alcaide ) e formas gramaticais em extinção no idioma, como as mesóclises, os realizar-se-á , os far-se-ia ou os da-me-lo-iam .

 O lead do Diário Carioca lembra mais o texto dos jornais ingleses do que o dos jornais americanos, particularmente porque os períodos são mais longos do que na imprensa dos Estados Unidos. Houve certamente transposição para o ritmo do idioma português do princípio formulado por Laswell a resposta às perguntas quem fez, o que fez, onde, quando, como e por que/para que.

Imitação do modelo americano se encontra, na década de 50, no noticiário da Tribuna da Imprensa , de Carlos Lacerda embora esse jornal tenha se notabilizado mais pelos artigos do proprietário do que propriamente pela informação jornalística. E se firmará com a reforma da imprensa paulista, que só vai ocorrer em larga escala na década de 70. O manual de redação da Folha de S. Paulo , com sua ênfase em frases extremamente curtas e "uma proposição por período", é exemplo de imitação servil de padrões alguns já superados da imprensa dos Estados Unidos, que se manifesta, por exemplo, na substituição do genitivo português "de tantos anos" pelo atributivo inglês, que decorre da expressão "years old ".

 A história da modernização técnica editorial da imprensa brasileira não foi ainda contada. Alguns fatos são relevantes. Um deles, que Danton Jobim era catedrático de Técnicas de Redação do Curso de Jornalismo da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade do Brasil, e Pompeu de Souza seu assistente. Outro que, já numa série de artigos publicados sem assinatura em agosto de 1945, sob o título "Cartas a um foca", o Diário Carioca expunha a técnica do lead e defendia sua adoção. Um terceiro, que a modernização do texto no Diário antecedeu a publicação das primeiras traduções de manuais técnicos americanos no Brasil, o de Frazer Bond e o de John Hohenberg.

Industrialização e técnica jornalística

Há, sem dúvida, relação entre o processo econômico vivido pelo Brasil a partir do nacionalismo desenvolvimentista de Vargas e a adoção, aqui, das modernas técnicas jornalísticas, que se difundiam pelo mundo. No entanto, a importação de técnicas é sempre questão complexa. Por exemplo: a imprensa de vários países africanos recebeu-as como parte do acervo cultural da metrópole e, portanto, lá, essa relação não pode ser sustentada.

 No caso brasileiro, é interessante observar que a modernização do texto ocorreu não em um grande jornal, ou em um jornal articulado com a modernidade econômica, mas no Diário Carioca , jornal pequeno, essencialmente político e com pouquíssimos anúncios, pertencente a um empreiteiro de obras públicas, Horário de Carvalho Júnior, que o utilizava principalmente como alavanca para seus negócios em áreas governamentais. Nada mais arcaico, portanto.

 O próprio Jornal do Brasil , que herdou a redação do Diário e somou às técnicas editoriais diagramação inovadora, não poderia jamais ser apontado como protótipo de modernidade. Era um jornal de anúncios classificados, pertencente a um comerciante do setor de importação, com perfil católico e certo reacionarismo histórico, desde que foi fundado como órgão monarquista no segundo ano da República, em 1891.

 As teses frankfurtianas e de autores como Medina e Marcondes Filho conduzem a dissertação a algumas conclusões inadequadas. Por exemplo, a de que a linguagem jornalística é a mais coloquial possível. Não. Ela poderia ser bem mais coloquial, se não fosse o compromisso do jornalismo com as instâncias sociais que sustentam a linguagem formal. Assim, a linguagem jornalística básica se situa na intercessão dos conjuntos léxicos e gramaticais formais e coloquiais ela é tão coloquial quanto se permite formalmente.

 Outra questão duvidosa é a colocação da reforma editorial iniciada no Diário e da reforma gráfica promovida pelo Jornal do Brasil no mesmo contexto, o da influência americana. Na verdade, a diagramação introduzida no Jornal do Brasil antecipou-se à reformulação gráfica da maioria dos jornais dos Estados Unidos. Ela é obra de um artista, o escultor construtivista mineiro Amílcar de Castro, personagem do mercado internacional de arte. Sua inspiração vem de Mondrian via teóricos de design , partindo da divisão do retângulo em massas cinzentas retangulares. O Jornal do Brasil abrigou, na época, um grupo de intelectuais (Reinaldo Jardim e Ferreira Gullar, entre outros) voltado para a estética concretista (por exemplo, na poesia) e veiculou suas idéias em um suplemento dominical que, curiosamente, circulava aos sábados.

 A reforma gráfica do JB incorpora algumas novidades tecnológicas da época, como as fotografias com câmaras de disparadores rápidos e filmes de alta sensibilidade que tornavam possíveis fotos instantâneas sem o uso de flash , revolucionando a estética do fotojornalismo. Essas as fotos que se queria valorizar.

A influência da revista Paris Match está supervalorizada: na verdade, Paris Match era apenas um dos muitos veículos que se voltavam para a exploração da foto-atualidade usando as máquinas Laika e, depois, Nikkon e Cannon. Em termos de influência sobre o grafismo do Jornal do Brasil , em que pesem as diferenças estéticas entre revistas e jornais, talvez a mais importante tenha sido de outra revista francesa muito mais sofisticada, a Realitées-Illustration .

 Ao contrário do que ocorreu com o projeto gráfico, a reforma do texto jornalístico é processo cumulativo, que incorpora experiências de jornais e jornalistas de todo o mundo ao longo de décadas. A origem do lead não se prende à moda nem a qualquer escolha literária. O lead decorre da maneira como as pessoas contam umas às outras episódios pontuais a que assistiram, começando pelo mais relevante, com o objetivo evidente de atrair a atenção do interlocutor. Se formalizarmos esses tópicos orais situando o evento no tempo e espaço e dando nomes civis a pessoas e temas, chegaremos ao lead clássico. E não é verdade que o lead descontextualize o fato: apenas faz com que a exposição do fato anteceda a exposição do contexto.

 Um provável erro factual, decorrente da subordinação dos fatos à tese do trabalho, ocorre na página 20, quando se trata da formação de uma geração de jornalistas, que inclui Janio de Freitas, José Ramos Tinhorão, Ferreira Gullar, Armando Nogueira, Thiago de Mello e eu. Diz-se então que muitos de nós viemos "de experiências e trabalho nos Estados Unidos". Pelo que sei, é falso: se tivéssemos ido aos Estados Unidos, teria sido para campeonatos de bola de gude. Éramos muito jovens e, os que eu conheço, de famílias pobres. Janio tinha, se não me engano, passagem pela Faculdade de Arquitetura; Tinhorão, filho de um garçom, estudou Jornalismo e Direito; eu, de família de trabalhadores, vim da Faculdade de Medicina, Ferreira Gullar havia chegado do Maranhão, onde era poeta. Thiago de Mello, também poeta, não pertence ao grupo e, se trabalhou no Diário , foi por pouco tempo e sem sentido de carreira. Experiência de trabalho nos Estados Unidos quem teve mesmo foi Pompeu de Souza, em rádio, durante a Segunda Guerra Mundial, mas ele era bem mais velho.

Não foi através de nós que trafegou a tal influência americana.

 Há algumas omissões importantes, quando se trata de jornalistas que fizeram o Diário embora não tenha sido objeto da dissertação relacioná-los. Entre os que começavam, e que teriam longa carreira, Evandro Carlos de Andrade, por exemplo, ou Oscar Maurício Azêdo; entre os mais experientes, Carlos Castello Branco, o mais brilhante jornalista político brasileiro de sua geração, e Luís Paulistano, que morreu em um desastre de helicóptero, na década de 60.

 

Imprensa carioca e imprensa paulista

Da mesma forma que a reforma editorial e a reforma gráfica ocorreram, no Rio de Janeiro, em jornais que não se alinhavam entre os mais integrados no processo político da grande imprensa O Globo , por exemplo, ou os Diários Associados de Assis Chateaubriand , ela não se realizou, nessa etapa, na imprensa paulista, embora São Paulo já fosse o centro dinâmico do capitalismo brasileiro.

 A introdução do lead gerou, ao longo da década de 60, forte reação dos jornais tradicionais, particularmente de O Globo . Lá, Nélson Rodrigues, porta-voz de Roberto Marinho, dono da casa, moveu campanha feroz contra os "idiotas da objetividade" do copy desk do Jornal do Brasil .

O jornal da Condessa Pereira Carneiro Maurina Dunshee de Abranches assumiu, naquele período, o perfil de porta-voz ou símbolo de uma revolução cultural da classe média carioca e brasileira. Foi o tempo da bossa nova, do cinema novo, desaguando em propostas de uma insurreição sem povo os sindicatos haviam sido anulados como força política em 1964 que terminariam gerando as manifestações estudantis e urbanas de 1968, e, após o AI-5, finalmente, por suas alas radicais, as tentativas de chegada ao poder via ações guerrilheiras urbanas e rurais.

 O capitalismo industrial brasileiro ancorado em São Paulo prosperou ligado ao Estado, dependente do Estado, planejado e sustentado por empresas e bancos do Estado. Historicamente, as tentativas de implantação do grande capitalismo no Brasil, quando não colocadas sob o guarda-chuva do Estado, foram rapidamente suprimidas. E o processo desenvolvimentista da década de 50 decorreu de projetos e iniciativas públicas, concebidas desde a Revolução de 30 e, mais objetivamente, no segundo governo Vargas.

 Ainda assim, a ideologia da elite paulista é contra o Estado. A imagem uspiana do funcionário público é a do fiscal que entra na loja para cobrar impostos e receber suborno. Há, nisso, uma espécie destorcida de pensamento anarquista e, ao mesmo tempo, viés internacionalista que se articula com a origem agrária, exportadora, da economia de São Paulo. O desenvolvimento dependente de Fernando Henrique Cardoso é uma síntese desse quadro ideológico. E a linha editorial do Estado de S. Paulo , no período considerado, se resumia a combater Vargas, sua herança e tudo que Vargas significava.

 O Estado de S. Paulo , tal como O Globo , associava as novas técnicas do jornalismo não à influência americana para ele, sempre positiva mas a um avanço do pensamento nacionalista, de esquerda, sobre redutos tradicionalmente conservadores da imprensa. O que se temia era a transferência de poder à redação, sumariada no copy desk , que lia e podia alterar todas as matérias em nome da qualidade editorial. Mas o Estadão era, ainda assim, um jornal que se validava pelo volume de informação, incomum mesmo considerando outros grandes veículos do mundo.

O lead chegou ao Estadão pela porta dos fundos, levado por jornalistas que haviam aprendido a escrever dessa maneira e argumentavam que, se era assim que se fazia por toda parte, não haveria razão para ser diferente.

 Quando, finalmente, não havia mais jeito e os leitores de prestígio reclamavam do estilo pesado e palavroso da maior parte do jornal é que o Estado de S. Paulo pensou em mudar. Era o início da década de 70 e a repressão esvaziava o argumento ideológico contra as novas técnicas jornalísticas. Ainda assim, a primeira iniciativa de mudança foi a fundação de um vespertino, o Jornal da Tarde estranho veículo escrito e paginado como se fosse revista, praticamente sem informação nova, preenchido com matérias reescritas do jornal-matriz. Em lugar de fazedores de leads , disse um de seus editores, "temos fazedores de frases de efeito". Eram tópicos frasais de parágrafos expositivos típicos de magazine claramente inspirados na experiência da revista Realidade , da Editora Abril.

 

Conclusão

Há aspectos muito positivos nessa dissertação.

Ela envolve algo a que, até há pouco, não se dava importância a técnica editorial dos jornais. E relaciona a técnica com a nossa tardia revolução industrial que, como todas as tentativas anteriores de desenvolvimento autônomo do Brasil, está sendo jugulada.

Permite-nos colocar em xeque a teoria dominante na área de comunicação, que decorre da Escola de Frankfurt, exemplo de visão global, baseada em condições inevitáveis, para a explicação de fatos do mundo. Creio ter deixado claro que há outros modelos teóricos que podem ser aplicados ao caso embora, certamente, envolvam maior complexidade conceitual.

 Mas o que é mais relevante, no caso, é que a dissertação aborda o jornalismo não como mera expressão de vontade de magnatas e corporações do ramo ou como mero discurso do poder mas como forma de conhecimento distribuído socialmente e como atividade em que se mobilizam pessoas dotadas de vontade e inteligência aquelas da categoria profissional a que pertenço.

(*) Jornalista e professor titular da Universidade Federal de Santa Catarina. E-mail: <lage@floripa.com.br>
 
 

LIÇÃO DE CASA

Veja. Indispensável?

 

Juliana Peres, Rafael Teixeira, Geiza Rocha, Ana Beatriz Guerra, Rafael Alves e Edson Viana (*)

"E os diários? Para se tornarem semanais, aumentam o número de páginas, para aumentá-lo lutam por publicidade, e para ter mais publicidade aumentam ainda mais as páginas e inventam suplementos, para ocupar todas essas páginas são obrigados a contar alguma coisa, para contar algo devem ir além da notícia seca (que, aliás, já foi dada pela televisão) e, portanto, 'semanalizam-se' cada vez mais e têm que inventar notícias e transformar em notícia o que não é notícia." [Umberto Eco, in Cinco escritos morais]

 

Introdução

O semanário de informação da Editora Abril, a revista Veja , completou trinta anos no ano passado. Foi lançada em 1968, tendo passado nesse percurso por três fases da sociedade brasileira: ditadura (até o fim da década de 70); abertura (anos 80); e a nova democracia brasileira (anos 90). Tendo se tornado um sucesso editorial desde o seu lançamento atualmente é o quinta revista de informação de maior circulação no mundo -, nada mais oportuno do que fazer uma retrospectiva histórica dessa trajetória acompanhada de uma análise crítica de como, tal como a maioria dos veículos da imprensa no Brasil, Veja segue o modelo de Jornalismo pontuado pela lógica da Indústria Cultural.

 Os exemplos citados na análise prendem-se principalmente ao período de 1996 a 1999 de Veja , sem ignorar, no entanto, o passado e a história da revista e as diversas reformulações e modificações pelas quais a mesma passou durante sua existência.

 

Histórico

[ Dados, citações, números e referências presentes no histórico foram extraídos da revista Veja 30 Anos - Edição Especial .]

Ditadura militar 1968 a 1978

A revista Veja nasceu em setembro de 1968, ano que abrigou em seus dias o endurecimento do regime militar brasileiro com a edição do Ato Institucional Número 5. Sobre a repressão, o editor de Veja, Roberto Civita, contou: "Lembro-me do orgulho dele [seu pai, Victor Civita] na noite em que Veja nasceu (...), da sua aflição quando apenas três meses depois chegaram o AI-5 e a censura (...)." Aquele ano também viu crescer o movimento estudantil formado por jovens politicamente engajados que pegavam em armas e militavam contra a ditadura, viu Caetano Veloso ser vaiado por cantar É Proibido Proibir , no Festival da Canção, e condecorava Abelardo Barbosa, o Chacrinha, como maior comunicador brasileiro de todos os tempos.

 Em sua primeira edição, Veja publicou uma análise dos países da Cortina de Ferro, mostrando o relacionamento entre comunistas e o Ocidente capitalista e como estava o convívio entre os próprios comunistas. Na capa, sob a foice e o martelo, estampava-se em fundo vermelho: "O grande duelo no mundo comunista". Mas não seria sempre que o semanário conseguiria aprofundar-se em temas políticos e divulgar reportagens investigativas e questionadoras.

 Em dezembro de 68, a revista tinha como reportagem de capa uma extensa matéria sobre o Ato Institucional n 5, mas foi apreendida em todo o país antes de chegar às bancas. Desde então, até junho de 76, Veja teve 60 reportagens cortadas na íntegra, 44 fotografias, vinte ilustrações e quatro anúncios. Um controle que, por diversas vezes, era feito por um censor dentro da própria redação. Naquela época, além do regime de censura severa por parte do governo aplicado à imprensa, havia uma auto-regulação dos próprios veículos, praticada pelos editores e chefes de reportagem. Graças a essa autocensura, a liberdade do veículo era muitas vezes mais limitada do que se fosse imposta por um órgão governamental.

 O ápice da censura foi marcado por cortes feitos até mesmo nas cartas dos leitores, quando antes, as seções mais visadas eram "Brasil" e "Artes e Espetáculos". Nos espaços destinados às matérias cortadas, Veja publicava desenhos de anjos e demônios, a fim de denunciar a ditadura. Criava-se, com isso, um código para que os leitores percebessem as investidas dos censores. Pouco tempo depois, a censura proibiu os desenhos, que foram substituídos pela árvore símbolo da Editora Abril.

 Mesmo sob vigilância, Veja conseguiu publicar, até onde se sabe, sem cortes, uma matéria sobre o festival de música de Woodstock, um dos marcos da contracultura (10 de setembro de 1969): "Apesar da chuva violenta, 200.000 pessoas dançaram nuas e depois foram nadar num imundo rio. Dois meninos nasceram durante a festa, três pessoas morreram, mais de 5.000 foram hospitalizadas por abuso de drogas.". Nas mesmas condições, porém, no período final da ditadura militar, a revista noticiou a declaração do juiz Márcio José de Moraes, pela qual a União era responsabilizada "pela prisão, tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog, nas dependências do DOI-Codi paulista" (1o de novembro de 1978).

 Além disso, Veja publicou em suas páginas reportagens sobre alguns dos fatos mais importantes da História contemporânea: em 1969, a chegada do homem à Lua ("[o astronauta Neil] Armstrong era o primeiro a pisar no chão fino e poroso. A Terra conquistava a Lua") e, em 1973, o fim da Guerra do Vietnã ("Tudo acabou (...) quando o secretário de Estado americano, William Rogers, estendeu a mão para a primeira das 77 assinaturas do acordo de paz").

 Nessa época, as "Páginas Amarelas", destinadas às entrevistas, já eram uma marca de Veja . Em uma década pontuada por polêmicas, conflitos políticos e revolução artística, a revista trouxe à seção personalidades como Richard Nixon (1968), Nelson Rodrigues (1969), Yasser Arafat (1970), Tarsila do Amaral (1972), Salvador Dalí (1971), Augusto Pinochet (1975), Mick Jagger (1976), Fidel Castro (1977) e Tom Jobim, que afirmava, em 76, que "a música brasileira aqui é artigo massacrado".

Abertura política 1979 a 1988

Nos anos 80, a sociedade brasileira foi marcada pelo processo de abertura política. Terminava a ditadura militar e os exilados pouco a pouco retornavam ao país. A década viu a comoção nacional com morte de Elis Regina e mundial com o assassinato de John Lennon, o nascimento e falência do Plano Cruzado, o estouro de E.T. nos cinemas, o casamento do século, do Príncipe Charles e Lady Di, e o atentado sofrido pelo Papa em plena Praça de São Pedro.

 Apesar de livre de um sistema repressor, a imprensa ainda sofria as reminiscências da ditadura. Em 2 de fevereiro de 83, Veja publicou o dossiê que detonaria o processo de investigação das causas da morte do jornalista Alexandre von Baumgarten, de 52 anos, que já estava sendo ameaçado pelo Serviço Nacional de Informações, o SNI. O atentado à bomba no Riocentro, uma das últimas investidas dos militares, foi assunto da revista em 6 de maio de 81: "Os aplausos impediram que a multidão ouvisse a explosão da primeira bomba uma segunda explodiria dez minutos depois, na casa de força do Riocentro."

 Sendo um período de redescoberta da liberdade e de uma postura menos crítica com relação ao governo, a revista passou a se permitir abordar temas mais variados. Matérias de entretenimento começam a tomar um espaço maior em Veja , sobre cinema, televisão, música e personalidades. Em 18 de julho de 79, o semanário publicava uma matéria sobre o aparecimento da sexualidade na televisão: "A grande platéia plantada diante dos aparelhos de TV viu uma cena extraordinária: a mão de Malu, primeiro crispada, soltava-se a abria-se numa prova de que o orgasmo finalmente explodia no vídeo nacional." A abordagem de um tema tão delicado seria impossível em outras épocas.

 Nem por isso, Veja deixou de cobrir eventos de grande repercussão nacional e internacional, como a tragédia de Chernobyl (publicada em 7 de maio de 1986), que até hoje tem reflexos nos descendentes daqueles que foram afetados pela radiação. No Brasil, Veja deu destaque ao movimento das Diretas Já, que, em São Paulo, reuniu 200 mil pessoas na Praça da Sé, e, em 88, à nova Constituição, que acabava de ser anunciada.

 Nas "Páginas Amarelas", Veja entrevistou nomes como o papa (1979), Jorge Luis Borges (1980), Emílio Garrastazu Medici (1984), Jimmy Carter (1984) e Ronald Reagan, que, em 82, declarou: "Trataremos Cuba de acordo com o seu comportamento."

Nova democracia brasileira 1989 a 1999

A despeito do fim da Guerra Fria, esta última década teve a marca da instabilidade, do caos e da confusão no cenário político, econômico e social, tanto no Brasil como resto do mundo. Esse processo é deflagrado, ao que tudo indica, pela queda do muro de Berlim, que "serve de símbolo para um dos maiores fatos históricos do século XX. A queda do muro ao qual confluíram todos os embates políticos dos últimos 70 anos serve de emblema para o fim da idéia comunista", como publicou Veja em 15 de novembro de 89.

Veja esteve presente nos grandes acontecimentos políticos do mundo, como a invasão do Kuwait por Saddam Hussein em 90 e a Guerra do Golfo em 91, a vitória de Nelson Mandela nas eleições para presidente da frica do Sul, com o fim do apartheid , o massacre da Praça da Paz Celestial. No Brasil, dois fatos históricos na esfera da política: o primeiro impeachment de um presidente, Fernando Collor, e a primeira reeleição de outro, Fernando Henrique Cardoso. Em ambos os casos, Veja, assim como toda a imprensa, desempenhou um papel importante na influência e condução da opinião pública. A revista que teve como notícia de capa a denúncia de corrupção no governo Collor (maio de 1992) foi a mais vendida na história de Veja, com 264.400 exemplares vendidos. O então presidente acabaria caindo pouco tempo depois.

 A morte também foi assunto corrente nas páginas de Veja: Chico Mendes e Cazuza (1989), meninos da Candelária (1993), Ayrton Senna (1994), Pedro Collor (1995), Paulo César Farias e sua namorada, Suzana Marcolino (1996), Princesa Diana (1997), Sérgio Motta e Luiz Eduardo Magalhães (1998).

 Inicia-se a era da informação, e Veja passa a contar com a valiosa ajuda da Internet, a grande rede mundial de computadores, que permitiu que a notícia fosse divulgada com muito mais agilidade e rapidez.

 A globalização esteve na ordem da década e colaborou, tanto no aparato tecnológico para os veículos, que ganhavam novos recursos, como na possibilidade de divulgação desse novo fenômeno pela própria imprensa. O reflexo desse fenômeno no Brasil, através do qual o país aprofundou suas relações com o exterior e abriu sua economia ao capital internacional, foi a privatização das empresas estatais. Sobre o assunto, Veja publicou em 14 de junho de 1995: "O povo assistiu bestializado à quebra do monopólio da Petrobrás. A emenda foi aprovada na Câmara sem o protesto dos adversários e sem comícios de quem festeja a mudança."

 Atualmente, Veja é a revista de informação mais lida do país, com aproximadamente 4,5 milhões de leitores por semana (69% pertencentes às classes A e B e 23% à classe C). Entre os assinantes, a maior parte dos leitores da revista, 31% já têm a recebem a revista em casa há pelo menos cinco anos. As concorrentes diretas de Veja são a IstoÉ , da Editora Três, e a Época , da Editora Globo. Nenhuma delas, no entanto, chega a ameaçar a hegemonia do semanário da Abril no mercado editorial de revistas de informação.

 

Veja e a indústria cultural

Seja um jornal impresso, uma revista, uma estação de rádio ou um telejornal, qualquer veículo da imprensa é uma empresa. E, como qualquer outra, está sujeita à mesma realidade: tem um público que pretende atingir, enfrenta concorrência, tem necessidade de manter uma estrutura, deve pagar regiamente seus funcionários e, claro, vende um produto.

 Todo o problema reside no fato de que o produto que a imprensa pretende vender não é uma coisa qualquer. O jornal, ou, de uma forma mais abrangente, a informação, é um produto bastante especial, peculiar e específico. Embutidos nele, estão uma série de outros fatores e considerações que devem ser levados em conta, mas que parecem que hoje estão sendo esquecidos em prol do mercado. A notícia, em última análise, tornou-se mais um produto cultural transformado em mercadoria, guiado, portanto, pelas diretrizes e lógica do mercado (economia de custos, de tempo para produção e consumo etc.).

 Com Veja , a situação não é diferente. Como a absoluta maioria (e arrisco a dizer como a totalidade) dos veículos de informação na imprensa do Brasil, o semanário da Editora Abril foi definitiva e irremediavelmente assimilado pelo que os estudiosos da Escola de Frankfurt definiram como Indústria Cultural. No contexto da nova democracia brasileira, livre de uma ditadura militar repressiva, Veja aderiu às estratégias de mercado para vender seu produto.

 Adaptadas, evidentemente, ao contexto dos veículos de comunicação, essas estratégias são basicamente as mesmas utilizadas por outros tipos de empresas. Destacaremos aqui algumas mais significativas para a imprensa em geral e outras que Veja tem adotado com bastante freqüência. São elas: busca incessante e desenfreada do furo (mesmo que isso signifique o rompimento com a ética jornalística); campanha de agressiva de marketing e aumento da captação de anunciantes (permitindo muitas vezes que a publicidade domine o espaço que deveria ser destinado à informação); e, finalmente, criação de seções e produção de matérias não noticiosas (que atraem o leitor por outros motivos que não a busca da notícia).

 

Busca incessante e desenfreada do furo

A lógica que pontua a imprensa com relação ao chamado furo de reportagem é: a exclusividade atrai leitores e, portanto, anunciantes. Nas palavras de Pierre Bourdieu, "na lógica específica de um campo orientado para a produção desse bem altamente perecível que são as notícias, a concorrência pela clientela tende a tomar a forma de uma concorrência pela prioridade, isto é, pelas notícias mais novas (o furo) isso tanto mais, evidentemente, quando se está mais próximo do pólo comercial" [Boudier, Pierre Sobre a Televisão]. Paradoxalmente, o furo de reportagem acaba atraindo menos a atenção do próprio leitor do que dos anunciantes e concorrentes já que, uma vez dado o furo, todos os outros veículos vão imediatamente dar a mesma notícia.

 Como parte dessa imprensa, Veja também compartilha da mesma filosofia e utiliza o furo nem tanto como compromisso com os leitores, mas como a maneira mais garantida de captar anunciantes, mesmo que, para se conseguir o furo, a ética jornalística seja ignorada. Apesar da imagem de credibilidade que a revista conseguiu forjar ao longo de trinta anos, sérias críticas são feitas à forma como seus jornalistas conseguiram alguns furos de reportagem. Um dos mais recentes casos foi na edição de 12 de agosto de 1998, no caso da confissão do "maníaco do parque" Francisco de Assis Pereira, que mereceu a capa da revista. Na ocasião, a repórter se fez passar por estagiária de Direito para acompanhar uma conversa entre a advogada do assassino e o próprio, ferindo um dos princípios básicos da ética da imprensa, que é o de não se apresentar sob outra identidade para conseguir um depoimento que não seria dado espontaneamente a um jornalista [ver o artigo "Modo de obter marca a informação", de Alberto Dines ].

 Mesmo em assuntos menos relevantes, Veja já foi acusada de mentir e forjar entrevistas. A revista já foi desmentida por nomes como a autora de novelas Janete Clair, em 1971, o ex-presidente João Goulart, no mesmo ano, o escritor Plínio Marcos, em 1974 e o arquiteto Oscar Niemeyer, em 1981. Todos reclamavam de terem tido seus depoimentos distorcidos, mal-interpretados ou até mesmo inventados.

 É por esse motivo que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) jamais concede entrevistas a repórteres de Veja . E isso não ocorre apenas com os bispos o padre Fernando Altemeyer afirma: "Não falo a essa revista, porque ela distorce as declarações, como já ocorreu quatro vezes comigo. Na última vez, uma repórter me atribuiu uma frase que eu jamais disse" ["Veja que vá se queixar ao papa", de José Maria Mayrink, revista Jornal dos Jornais, maio 1999 ].

 

Campanha agressiva de marketing e aumento da captação de anunciantes

Como em qualquer empresa, nos veículos de comunicação vale a máxima de que "a propaganda é a alma do negócio". Não só a propaganda autopromocional, que se refere à divulgação do seu próprio nome, mas ao espaço vendido para os anunciantes (cada vez maior na imprensa), que vai efetivamente pagar os funcionários da empresa. Em muitos jornais, as páginas são diagramadas começando pelos anúncios as matérias ocupam os espaços que sobram.

 Algumas dos slogans usados nas campanhas publicitárias de Veja tentam induzir o leitor a enxergar na revista uma imagem de que ela seria imprescindível à vida. São eles: "Troque idéias com a revista Veja todas as semanas" (1970); "Dize-me o que lês e te direi quem és" (1972); "Veja , a número um em penetração" (1978); "Veja . Quem decide lê" (1980); "Veja indispensável" (1992); e "Veja . Os olhos do Brasil" (1998). Há páginas de propaganda de Veja dentro da própria revista, com frases seguindo a mesma linha dos slogans, como por exemplo: "Veja . Não é curriculum, mas é vitae".

 Com a entrada de uma nova revista no mercado, a Época , cuja campanha de lançamento foi bastante agressiva, as campanhas publicitárias de Veja passaram a ser mais intensas, utilizando até outdoors com frases de efeito relativas aos assuntos abordados nas capas das revistas.

 No que diz respeito à captação de anunciantes, em Veja de 15 de novembro de 1998, por exemplo, a quantidade de páginas destinadas à propaganda chegou atingiu quase metade do total: 106 de anúncios e 110 de matérias. Isso significa que, ao abrir a revista em uma página qualquer, a chance de se deparar com um anúncio é praticamente de 50%, o que acaba revelando a igual importância dada à informação e à publicidade.

 A revista atribuiu este crescimento de páginas com anúncios à qualidade de seus serviços e ao alto nível de seus leitores. Mas no editorial, afirma que aquele ano superou a média anual de venda em bancas [a maior parte da circulação de Veja corresponde às assinaturas ]. Isso se chama aumento no número de compradores em potencial. É o que sempre atraiu as empresas anunciantes. O editorial ainda exalta o número de reportagens, que aumentou em 25 páginas.

 Portanto, se "o grau de autonomia de um órgão de difusão se mede sem dúvida pela parcela de suas receitas que provém da publicidade e da ajuda do Estado (sob a forma de publicidade ou de subvenção) e também pelo grau de concentração dos anunciantes", como escreveu Bourdieu [op. cit. ] , podemos perceber em Veja um grau mínimo ou nulo de autonomia.

 

Criação de seções e produção de matérias não-noticiosas

Com a inserção do Jornalismo na esfera da Indústria Cultural, a imprensa perde qualquer chance de engajamento que ela possa ter. Na verdade, ela cada vez mais incorpora elementos da cultura de massa para atrair o maior número possível de consumidores. Há um valorização cada vez mais crescente à imprensa do fait divers, não noticiosa, que se presta cada vez mais a matérias de serviços e comportamento, neste último caso, fazendo um favor à publicidade, já que, como formadora de opinião, acaba criando símbolos consumíveis e atribuindo-lhes status.

 As seções "Gente" e "Guia", de Veja , são exemplos de como essa realidade se aplica à revista. "Gente", como o próprio nome indica, fala de pessoas famosas ou mesmo anônimas que por um motivo qualquer chamaram a atenção naquela semana. Serve basicamente para valorizar algumas personalidades do momento, alfinetar personas non gratas e, nesse processo, vender comportamentos e atitudes. São as chamadas soft news , em contraponto às hard news dos jornais diários. "Guia" é a seção de Veja destinada à orientação do leitor e prestação de serviços, como, por exemplo, onde matricular seu filho, como escolher a raça do seu cachorro, cuidados com as vitaminas, como se comportar numa entrevista. Não se tratam de maneira alguma de um projeto noticioso, mas de uma tentativa de atrair um número cada vez mais expressivo de leitores.

 Na esteira do projeto não noticioso, vêm os brindes que já se tornaram clássicos nos jornais diários. Tratam-se dos "presentes" que servem como estímulo para a compra da publicação. Através deles, o leitor, cada vez menos interessado no conteúdo jornalístico em si, e imprensa, cada vez mais desacreditada, saem perdendo. Embora não seja uma praxe na revista, Veja não foge à regra: um dos brindes oferecidos pelo semanário é um relógio, para o assinante que indicar um amigo que também queira uma assinatura. A seguir nesse caminho, porém, a previsão do jornalista Alberto Dines pode se tornar realidade: "Um dia, o comprador de jornais chegará à banca para pedir o fascículo da Britânica e vai reclamar do jornaleiro porque lhe enfiou também um jornal na mão" [Alberto Dines, "O circo da notícia", revista Imprensa, setembro de 1994 ].

 Além disso, percebe-se seções em que a notícia aparece de forma cada vez mais fragmentada e reduzida a notas que dão a impressão de uma grande abrangência de assuntos, quando na verdade não está se falando de nenhum com profundidade. Isso acarreta uma perda do conteúdo crítico. Como defende James Fallows, diretor executivo da terceira revista em circulação nos EUA (a semanal U.S. News and World Report ) e autor do livro Dando as Notícias Como os meios de comunicação minam a democracia americana , a imprensa escrita poderia e deveria incluir textos mais longos, elaborados e informativos. A realidade, porém, é outra.

 

Conclusão

Durante seus 31 anos de existência, Veja conseguiu manter uma imagem de credibilidade perante o público que atraía cada vez mais leitores. Não é por acaso que o a revista é um dos semanários mais importantes do mundo e seu espaço publicitário é um dos mais caros do mercado.

 A conclusão que se chega, porém, é que, inserido na lógica de mercado da Indústria Cultural, Veja perdeu até mesmo aquilo que é mais sagrado na imprensa: a isenção. Por trás de uma fachada de suposta imparcialidade, Veja é uma revista que se rende à situação. Entre suas agências internacionais (Associated Press, Agence France Presse e Reuters), não há e nunca houve uma russa, por exemplo.

 O semanário da Abril não é engajado politicamente. Nos dias de hoje, nem poderia ser. É apenas política, no mau sentido da palavra: aquele que lembra um conciliador sem posição definida. Isso é, pelo menos, a imagem transmitida ao leitor. Engolida pela lógica de uma imprensa industrializada, Veja pode até ser a revista mais importante do Brasil. Mas, jornalisticamente, já deixou de ser indispensável.

 (*) Alunos do 5 período (hoje no 6 ) do Curso de Jornalismo da PUC-Rio, em trabalho para a aula de História da Imprensa no Brasil, professor Marcos Dantas, julho de 1999
 
 

Bibliografia

BOURDIEU, Pierre. Sobre a Televisão ; tradução de Maria Lúcia Machado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1997.

 ECO, Umberto. Cinco Escritos Morais ; tradução Eliana Aguiar. Rio de Janeiro: Record, 1998.

 FALLOWS, James. Dando as Notícias - Como os meios de comunicação minam a democracia americana .

 Revista Veja 30 anos Edição especial .

 "Veja que vá se queixar ao papa", de José Maria Mayrink. Revista Jornal dos Jornais , maio 1999.

 "O circo da notícia", de Alberto Dines. Revista Imprensa , setembro 1994.
 
 

TV colombiana usa
P&B contra a violência

 

A.D.

Numa tentativa de contribuir para a diminuição da violência e do ressentimento político, as emissoras de televisão da Colômbia decidiram que a cobertura da guerra civil será apresentada em preto & branco. "É um gesto simbólico, porque o conteúdo continuará sendo dramático", afirmou, à Associated Press, Felipe Zuleta, diretor da Hora Zero (telejornal noturno).

Todos os 33 programas noticiosos colombianos concordaram em participar da iniciativa. Se as emissoras de TV continuarem a dedicar o mesmo tempo à cobertura da guerra civil e do combate ao narcotráfico, calcula-se que metade das emissões jornalísticas colombianas serão em preto e branco.

Anúncios com o slogan "Chega!" serão veiculados dentro das reportagens sobre violência.

O movimento das emissoras de TV foi uma resposta ao número crescente de queixas dos telespectadores sobre a veiculação da violência. (Do New York Times, 28/9/99).

 

REPETECO
Jornal Nacional, antes e
depois de Cid Moreira

Nota do O.I. : Republicamos o presente estudo, veiculado na ediçăo nş 75 do Observatório da Imprensa, devido a problemas técnicos que comprometeram o acesso pleno dos leitores ao texto. Nossas desculpas.

Alguns leitores têm demonstrado interesse em comentários mais aprofundados sobre os 30 anos do Jornal Nacional e seu papel na formação da audiência brasileira. Mantendo a tradição de divulgar estudos acadêmicos na área de Comunicação, o Observatório da Imprensa aproveita a oportunidade para publicar, nesta edição, o trabalho "Novas estratégias políticas na Globo? O Jornal Nacional antes e depois da saída de Cid Moreira", de Mauro P. Porto, bolsista de Doutorado da CAPES no Department of Communication da Universidade da Califórnia em San Diego (EUA).

Mauro P. Porto (*)

Em 1ş de abril de 1996, uma importante mudança teve lugar na televisão brasileira. Depois de apresentar o noticiário Jornal Nacional durante os seus primeiros 27 anos de existência, Cid Moreira não estava na tela como apresentador naquela noite. Ele apareceu por alguns segundos, mas desta vez apenas para ler o editorial, uma das inovações do período. Nos dias seguintes, este seria o único papel daquele que durante décadas apresentou o noticiário mais importante e popular da televisão brasileira. Cid Moreira foi uma presença constante nas residências dos brasileiros durante um período de profundas mudanças na sociedade e na política brasileiras. Como conseqüência, sua imagem estava profundamente vinculada à imagem da Rede Globo.

Quais foram as conseqüências desta mudança para o conteúdo do telejornal, particularmente no que se refere à cobertura de temas políticos, econômicos e sociais? Por que a Rede Globo substituiu Moreira e seu parceiro principal, Sergio Chapelin, como apresentadores do Jornal Nacional? Qual a relação entre estas mudanças e a estratégia política da emissora? Estas são algumas das questões a serem discutidas neste artigo. Através de uma análise de conteúdo do telejornal, será demonstrado que a mudança teve um impacto na forma como a Globo representa o mundo da política, levando a um papel mais ativo e interpretativo dos apresentadores. Este artigo discute as principais explicações existentes com relação a estas mudanças e sugere que elas podem ser melhor entendidas se contextualizadas em termos da nova estratégia política da emissora.

O texto está organizado da seguinte forma: primeiro, apresento as mudanças ocorridas no Jornal Nacional em 1996, incluindo a substituição de Cid Moreira. Em seguida apresento a hipótese principal da pesquisa e a metodologia utilizada para a análise de conteúdo, bem como os resultados da análise de 24 edições do telejornal entre julho de 1995 e agosto de 1996. Nas conclusões discuto os resultados da análise e as implicações das mudanças no Jornal Nacional para a política e a democracia brasileiras.

O velho e o "novo" Jornal Nacional

Inaugurado em 1ş de setembro de 1969, o Jornal Nacional teve um papel ativo e importante na vida política nacional. Vários autores ressaltaram o papel político do telejornal da Globo, destacando em particular sua cobertura noticiosa parcial e "governista". Um breve estudo sobre os seus primeiros dez anos de existência sugeriu que o noticiário se caracterizava pela manipulação das notícias e pela desinformação, refletindo a ideologia conservadora da emissora (Carvalho, 1980). Obviamente, este tipo de cobertura jornalística era resultado, em grande medida, da censura e do controle que a ditadura militar exercia sobre os meios de comunicação. Entretanto, mesmo após a abolição oficial da censura aos meios de comunicação em 1980, o jornalismo da Globo continuou a revelar sua aliança com o regime autoritário. A emissora deliberadamente distorceu informações com objetivos políticos durante os últimos anos da ditadura. Particularmente importante foi a cobertura da campanha "Diretas-Já", em 1984, por eleições diretas para presidente. O Jornal Nacional se recusou inicialmente a cobrir a campanha e só nas vésperas da votação pelo Congresso da emenda Dante de Oliveira é que o noticiário mudou a sua atitude, apresentado uma cobertura mais completa e menos parcial da mobilização de massa que tomava conta das ruas (Lima, 1988; Tosi, 1995). Quando ficou evidente que o regime militar estava em seus últimos dias, a Rede Globo se juntou ano novo bloco de poder que estava se formando em torno da candidatura de Tancredo Neves, apoiando sua eleição indireta pelo colégio eleitoral (Amaral e Guimarães, 1988).

Com o retorno da democracia em 1985, a Rede Globo continuou a desempenhar um papel político importante. Segundo alguns autores, a ascensão de Collor em 1989 nas primeiras eleições diretas para presidente foi favorecida pelo cenário construído pelos meios de comunicação (Rubim, 1989; Lima, 1993). No caso do Jornal Nacional, estudos indicaram uma cobertura disproporcional e favorável ao candidato Collor de Mello (Lima, 1993, pp. 106-107). Quando denúncias revelaram um esquema de corrupção no governo Collor, um novo movimento de massas ganhou as ruas exigindo o seu impeachment e uma CPI foi formada pelo Congresso. Como no caso da campanha das "Diretas-Já", a cobertura inicial dos comícios pelo Jornal Nacional foi caracterizada por uma forte presença de fontes e versões do governo, evitando-se referências aos vínculos entre Paulo César Farias e o presidente (Porto, 1994, pp. 141-142). Mas em outubro de 1992, quando o relatório da CPI foi divulgado considerando o presidente culpado e iniciando o processo de impeachment, a Rede Globo ampliou a cobertura do escândalo e apresentou uma cobertura mais isenta (ibid.). A emissora passou então a apoiar o afastamento do Presidente que havia ajudado a eleger em 1989.

Nas eleições presidenciais de 1994, a cobertura jornalística da Globo foi novamente objeto de discussão e investigação. Nos primeiros meses da campanha, a cobertura do Jornal Nacional concedeu mais tempo e "enquadrou" mais favoravelmente a candidatura do ex-ministro da economia, Fernando Henrique (Albuquerque, 1994). Posteriormente, talvez em razão de uma legislação que exigia imparcialidade no tratamento das candidaturas, o telejornal apresentou uma cobertura mais equilibrada. Todavia, a ênfase no Plano Real contribuiu para estabelecer um cenário favorável ao candidato oficial do governo (Maciel e Fabrício, 1995).

Estes breves exemplos sobre o papel político do Jornal Nacional ilustram uma tendência conhecida: o desenvolvimento de uma cobertura parcial que tende a favorecer as fontes e posicionamentos do governo federal. Durante este período histórico de profundas transformações, Jornal Nacional foi apresentado por Cid Moreira. Mas em 1ş de abril de 1996, Moreira e seu parceiro principal, Sergio Chapelin, foram substituídos como apresentadores. Para ocupar suas posições, a Rede Globo escolheu dois de seus jornalistas, William Bonner e Lilliam Witte Fibe. A mudança de apresentadores não foi, todavia, repentina. Cid Moreira já estava apresentando as notícias em companhia de diferentes profissionais, principalmente Fibe, nos meses que antecederam sua saída. Mas a partir de abril de 1996 o perfil da televisão brasileira se transformou. Cid Moreira estava ausente das telas dos aparelhos de TV dos brasileiros quando o noticiário mais importante do país foi ao ar. Esta inovação foi importante porque, entre outros motivos, significou a substituição de profissionais que se limitavam a ler as notícias por jornalistas que também atuavam como editores. Depois da mudança, Bonner passou a atuar como editor do noticiário nacional e Fibe do noticiário econômico, aproximando-os do estilo dos âncoras do telejornalismo norte-americano.

A saída de Cid Moreira refletiu um processo de mudança no telejornalismo da Rede Globo que já havia começado há algum tempo. Em julho de 1995, o diretor de jornalismo da emissora Alberico de Sousa Cru, foi substituído por Evandro Carlos de Andrade, então diretor de redação do jornal O Globo. A mudança foi importante por substituir um profissional vinculado ao tipo de cobertura política praticado pelo Jornal Nacional no passado por um profissional oriundo da imprensa escrita, menos relacionado ao passado do Jornal Nacional. Alberico de Sousa Cruz esteve envolvido em um dos episódios mais polêmicos da história da TV brasileira: a edição, pelo Jornal Nacional, do segundo debate entre Collor e Lula, em 1989. Vários analistas interpretaram a edição do debate como uma flagrante manipulação do processo político em favor do candidato Collor de Melo e pesquisas de opinião revelaram que o debate e sua edição tiveram um importante impacto nos resultados eleitorais.

[Pesquisas diárias realizadas pelo IBOPE revelaram que o apoio a Lula parou de crescer e começou a cair logo após o segundo debate e sua edição pelo Jornal Nacional (Straubhaar, Olsen e Nunes, 1993, p. 133). Segundo o diretor de jornalismo da Globo na época das eleições de 1989, Armando Nogueira, a edição do debate foi feita contra sua orientação. Nogueira acusou um de seus subordinados (Alberico de Souza Cruz) pela edição "burra" do debate (entrevista à Gazeta Mercantil, 4 de junho de 1996, p. 3). Alberico, por sua vez, negou que tenha participado da edição do debate em diversas entrevistas, insistindo, todavia, que a edição foi correta do ponto jornalístico (Entrevista a Vieira, 1991, pp. 64-65, e à revista Imprensa, n. 92, maio de 1995, p. 46)]

As razões para a saída de Moreira foram bem diferentes daquelas que levaram Globo a escolhê-lo em 1969 para apresentar seu principal programa de notícias. De acordo com José Bonifácio de Oliveira, o Boni, então vice-presidente da emissora, Moreira havia sido escolhido por causa de sua boa aparência e voz suave. O objetivo era o de atrair a audiência feminina das telenovelas que eram transmitidas antes e depois do Jornal Nacional (Mello e Souza, 1984, p. 226). Em 1996, a Rede Globo escolheu jornalistas com o objetivo de mudar a imagem da emissora em um período de declínio crescente dos seus índices de audiência.

Depois da mudança de apresentadores, Cid Moreira ficou responsável durante algumas semanas pela leitura dos editoriais do Jornal Nacional e Sergio Chapelin passou a apresentar o programa Globo Repórter. Outra novidade foi a introdução de um comentarista, o cineasta Arnaldo Jabor, que passou a tratar com humor e ironia diversos temas, principalmente com relação ao processo político. Jabor passou a ser criticado por sua atitude simpática ao presidente Fernando Henrique e se envolveu em episódios polêmicos. Em 29 de maio de 1996, Jabor utilizou o seu comentário no Jornal Nacional para acusar o Congresso de estar dominado por práticas de corrupção. A reação do poder legislativo foi imediata, incluindo a tentativa por parte de alguns parlamentares de incluir punições mais severas na lei de imprensa que estava sendo discutida pela instituição [Uma lei em discussão", Correio Braziliense, 2 de junho de 1996, p. 37].

As razões da saída de Cid Moreira

a) Uma resposta aos desejos da audiência?

Tendo considerado o papel histórico do Jornal Nacional e as mudanças que tiveram lugar em 1996, passo agora às possíveis explicações da decisão da Globo de substituir o principal apresentador do telejornal mais popular do país. Uma primeira possibilidade é a de que a emissora apenas respondeu aos desejos de sua audiência. Após 27 anos na tela, Cid Moreira poderia ter alcançado uma exposição excessiva e os brasileiros poderiam estar cansados da sua imagem. Mas esta hipótese não explica as mudanças. Uma pesquisa do instituto Data-Folha na cidade de São Paulo, nos dias 4 e 5 de maio de 1995, revelou que 88% dos espectadores eram favoráveis à permanência de Cid Moreira como apresentador do Jornal Nacional ["Cid Moreira deveria ficar, diz pesquisa", Folha de S. Paulo, TVFolha, 17/3/96, p. 7. O Datafolha entrevistou 1.080 pessoas]. Logo após a substituição de Moreira como o apresentador principal do telejornal, a revista Imprensa solicitou ao Instituto Gallup uma pesquisa para avaliar a reação da população com relação à saída de Cid Moreira ["Quem é o melhor?", Imprensa, n. 104, maio de 1996, pp. 36-41. O Instituto Gallup entrevistou 627 pessoas na cidade de São Paulo entre 27 e 30 de abril de 1996]. Antes de tudo, é importante ressaltar que a audiência notou a mudança. Dos 541 indivíduos (86% da amostra) que afirmaram assistir ao Jornal Nacional, 77,8% perceberam a substituição dos apresentadores. Além disso, a maioria do público preferia o par Moreira-Chapelin em relação aos novos apresentadores, Bonner-Witte Fibe, em todos os itens de comparação. Quando se solicitou aos que possuíam o hábito de assistir o Jornal Nacional que dessem notas individuais para cada apresentador, variando de 0 a 10, Cid Moreira recebeu uma média de 9,2, Sergio Chapelin 8,8, William Bonner 8,0 e Lillian Witte Fibe, 7,2. Quando perguntados sobre qual par transmitia mais credibilidade, 69,7% escolheram Moreira-Chapelin e 20,1% o par Bonner-Witte Fibe. Quando perguntados sobre quem era melhor na transmissão das notícias, 71,2% mencionaram Moreira-Chapelin e apenas 18,7% Bonner-Witte Fibe. Em todos os aspectos, o público preferia o par Moreira-Chapelin. Portanto, a hipótese baseada nos desejos da audiência não explica as mudanças. Além disso, os dados colocam uma série de questões importantes: como explicar que a Rede Globo tomou uma decisão contrária aos desejos e expectativas de sua audiência? Como veremos adiante, fatores de natureza política são fundamentais para entender as mudanças. Mas antes é preciso considerar outras possíveis explicações.

b) A influência do jornalismo norte-americano

Na literatura existente sobre o jornalismo brasileiro, um dos argumentos mais comuns utilizados para explicar mudanças em práticas jornalísticas se refere à influência do "modelo norte-americano". Tem sido argumentado, por exemplo, que este modelo teve o maior impacto no jornalismo praticado no Brasil, apesar de outras influências (Melo, 1985, p. 132). Para alguns, o desenvolvimento de uma imprensa comercial e moderna no Brasil tem lugar quando a elite urbana passa a exigir a partir da década de 1970 que os meios de comunicação tenham padrões de qualidade comparáveis aos da sociedade norte-americana (Silva, 1991). No caso dos telejornais, a transição para apresentadores mais próximos do estilo dos âncoras norte-americanos também tem sido explicada em termos da influência do jornalismo daquele país. Um estudo dedicado a um dos primeiros e mais importantes âncoras do telejornalismo brasileiro, Bóris Casoy do SBT, a conclusão é a de que o modelo adotado pelo jornalismo da televisão brasileira é o norte-americano (Squirra, 1993, p. 171). Estes argumentos sugerem outra possível explicação para a saída de Cid Moreira: a introdução de apresentadores mais próximos ao estilo dos âncoras norte-americanos pode ser interpretada como outro exemplo da influência do jornalismo praticado nos Estados Unidos. Portanto, é possível explicar as mudanças no Jornal Nacional como resultado de um processo de "modernização", a adoção de práticas jornalísticas comuns nos Estados Unidos.

Este tipo de argumento tem sido fortemente influenciado pela teoria normativa da imprensa tal como desenvolvida por Fred Siebert, Theodore Paterson e Wilbur Schramm em um manual que se tornaria um dos "clássicos" no estudo do jornalismo, o livro Four Theories of the Press (Siebert, Paterson e Schramm, 1956). De acordo com os autores, seria possível classificar as diferentes formas que a imprensa assume em diversos países em quatro categorias principais: a "teoria libertária", que tem no jornalismo praticado nos Estados Unidos sua melhor expressão; a "teoria da responsabilidade social", praticada nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial e a teoria dominante na maiorias dos países da Europa ocidental; a "teoria autoritária", comum em países do terceiro mundo; e, finalmente, a "teoria comunista-soviética", adotada pela União Soviética e demais países do bloco comunista. Os autores que apresentam argumentos baseados na influência do modelo norte-americano no jornalismo praticado no Brasil estão geralmente baseados neste esquema de análise. Lins da Silva (1991), por exemplo, argumenta que o jornalismo brasileiro se guia pelos princípios da escola libertária (p. 58). O autor afirma que apesar de ser um "esquema precário", a classificação proposta por Siebert, Peterson e Schramm reflete as divisões essenciais entre as diferentes formas de se conceber e praticar jornalismo em diferentes sociedades (p. 57).

Entretanto, vários autores têm levantado dúvidas sobre a utilidade de uma teoria normativa da imprensa tal como desenvolvida no livro Four Theories. Para alguns, o libro demonstra como a pesquisa comparativa nos Estados Unidos tem sido determinada pelo papel do país na política internacional durante o período da Guerra Fria (Hardt, 1988, p. 129). Para outros, o enfoque normativo é um obstáculo à compreensão de como o jornalismo funciona na realidade porque, entre outros motivos, desconsidera a necessidade de se levar em conta que jornalismo e sociedade interagem e se afetam mutualmente (Mancini, n.d). Em uma publicação dedicada à revisão do livro de Siebert, Peterson e Schramm, os autores criticam várias de seus argumentos e pressupostos, sugerindo a necessidade de um esquema mais adequado para a análise de práticas jornalísticas (Nerone, 1995). Apesar de sua posição dominante nos estudos de comunicação, um criticismo crescente com relação ao modelo das "quatro teorias da imprensa" tem indicado a necessidade de desenvolvimento de novos enfoques teóricos para o estudo das diversas práticas jornalísticas no mundo. Este estudo parte do pressuposto de que teorias normativas oferecem esquemas simplistas e lineares poucos úteis para a explicação das mudanças no jornalismo brasileiro. Como pretendo demonstrar nas próximas sessões, é preciso desenvolver novos modelos teóricos que levem em consideração as formas como práticas jornalísticas se transformam devido às suas relações com processos e instituições políticas.

c) A pressão da competição

Finalmente, é preciso considerar outra importante possível explicação para as mudanças no Jornal Nacional: a pressão exercida por outras redes de televisão e demais competidores no mercado de comunicação. Apesar de sua posição de virtual monopólio, dominando cerca de 80% da audiência nacional (Amaral e Guimarães, 1994), a Rede Globo tem sido confrontada no campo do telejornalismo pelo Sistema Brasileiro de Televisão (SBT), seu principal competidor no mercado de televisão. Em 1988, o SBT contratou Boris Casoy, jornalista da Folha de S.Paulo, para a ser o âncora do seu noticiário do horário nobre, o TJ Brasil. Casoy se tornou o primeiro âncora da televisão brasileira, pois recebeu não só a tarefa de apresentar as notícias, mas também de atuar como editor-geral do noticiário. O apresentador também desenvolveu um novo estilo, dando sua opinião sobre temas polêmicos, separando-se da forma mais "fria" e objetiva através da qual os apresentadores da Globo apareciam na tela [Em julho de 1997 Bóris Casoy deixou o SBT e passou a apresentar o telejornal da TV Record]. Em um relatório interno elaborado pelo seu departamento de jornalismo em 1991, o SBT definiu as características do projeto do novo telejornal. A combinação dos índices de audiência com credibilidade é apresentada como o objetivo central da estratégia da emissora. O documento desenvolve uma comparação interessante entre o departamento de jornalismo do SBT e o Jornal Nacional da Globo: "queremos ter um jornal que seja tão bom quanto o Jornal Nacional, com ritmo, beleza plástica, grandes reportagens ... Enfim, show e emoção. Só que queremos ter isso e mais a isenção" (ver Squirra, 1993, p. 141). Portanto, o SBT construiu uma estratégia baseada na falta de neutralidade do Jornal Nacional, identificando uma das principais debilidades do seu principal competidor: a imagem de uma rede de televisão governista.

O SBT desafiou o jornalismo da Globo não apenas através do TJ Brasil e Boris Casoy, mas também através do programa Aqui Agora. O programa começou em maio de 1991 e passou a se destacar pelo seu estilo "sensacionalista" e pela cobertura de crimes e violência urbana. O Aqui Agora levou para a televisão um popular jornalista do rádio, Gil Gomes, conhecido pelo seu programa que apresentava casos de violência na cidade de São Paulo. Gomes se tornou uma das principais atrações do Aqui Agora, relatando crimes com seu estilo dramático característico. O programa também inovou ao desenvolver um estilo realista de apresentação das notícias. Um certo senso de naturalismo foi construído através de uma produção precária e da "baixa qualidade" das imagens, com a câmara balançando enquanto o repórter corre ao lado dos policiais ao perseguir suspeitos e criminosos pelas ruas de São Paulo (Bucci, 1993, p. 104). O programa provou ser popular principalmente na cidade de São Paulo, onde os 10% iniciais da audiência cresceram para 20% em outubro de 1992 ["O rosto da periferia", Veja, n. 47, 18 de novembro de 1992, pp. 98-103].

Portanto, uma das possíveis explicações para a substituição de Cid Moreira pela Globo seria uma reação ao jornalismo praticado por seu principal oponente, o SBT. Para evitar a perda dos seus índices de audiência, a Globo seria obrigada a adotar um novo estilo jornalístico, mais imparcial. Para tal, seria importante substituir Cid Moreira, já que sua imagem estava profundamente associada ao tipo de jornalismo historicamente praticado pela emissora. Algumas evidências sugerem que esta interpretação é correta. De fato, o Jornal Nacional tem enfrentado um declínio crescente dos seus índices de audiência. Se na década de 1980 a audiência média do programa estava nos 60% dos domicílios com TV, entre 1993 e 1994 estes índices baixaram para 50% ["Turbulência na rota do Boeing", Imprensa, nş 80, maio de 1994, p. 30]. De acordo com a revista Imprensa, este declínio teve lugar quando o SBT criou uma segunda edição do programa Aqui Agora às 20 horas, o horário do Jornal Nacional [idem, p. 32]. Todavia, o Jornal Nacional mantém sua posição como o principal telejornal do país, com uma audiência diária estimada em 41 milhões de pessoas [Dados da home page da Rede Globo <http://www.redeglobo.com.br>]. A estratégia do SBT de ganhar audiência teve um sucesso apenas parcial: os seus programas de notícia (TJ Brasil e Aqui Agora) não alcançaram mais de 20% da audiência, em comparação dos mais de 40% do Jornal Nacional.

Mas se a tentativa do SBT de conquistar audiência teve um sucesso limitado, a principal competidora da Rede Globo obteve melhores resultados na área da credibilidade. A revista Imprensa encomendou outra pesquisa ao Instituto Gallup com o objetivo de verificar como os brasileiros avaliavam o desempenho dos telejornais ["A imagem dos telejornais: o povo acusa", Imprensa, n. 105, junho de 1996, pp. 24-28. O Instituto Gallup entrevistou 639 indivíduos na cidade de São Paulo, entre 25 e 27 de maio de 1996]. A Tabela 1 apresenta alguns dos resultados. Os dados da pesquisa são contraditórios. Como explicar que as mesmas pessoas que afirmaram que a Globo apresenta os fatos como realmente acontecem e informa mais corretamente o público também afirmaram que a emissora é a que mais distorce os fatos? Esta contradição indica que o tema da credibilidade dos telejornais é bastante complexo. No caso do Jornal Nacional, a evidência sugere um baixo nível de credibilidade relacionado à sua vinculação ao governo e outros interesses. Como mostra a Tabela 1, o Jornal Nacional é visto como o noticiário que mais defende interesses econômicos. Ao mesmo tempo, como vimos anteriormente, Cid Moreira desfrutava de altos níveis de credibilidade quando foi substituído pela emissora. Esta aparente contradição pode ser explicada se considerarmos a possibilidade de que o público pode confiar na forma do noticiário enquanto fonte neutra de informação e no apresentador enquanto personalidade, ao mesmo tempo em que permanece crítico com relação à imagem da emissora e ao seu papel político, tendo assim menos confiança no conteúdo do telejornal [Daniel Hallin (1996) sugere que a credibilidade do noticiário de televisão entre o público é baseado mais na forma que no conteúdo; em outras palavras, no seu caráter visual e pessoal (p. 89). De modo similar, Stam (1985) argumenta que parte da credibilidade da televisão é resultado do fato de que imagens dão à audiência a impressão de um acesso direto e não-mediado à realidade.]. Em outras palavras, o gênero "noticiário" e a personalidade do apresentador podem desfrutar altos níveis de credibilidade ao mesmo tempo em que a imagem da emissora permanece negativa.

TABELA 1

Opinião pública sobre os telejornais

Pergunta: Quais destas redes têm telejornais que ...

Emissora

… divulgam os fatos exatamente como ocorrem?

… distorcem mais os fatos?

… informam mais corretamente?

… defendem mais interesses econômicos?

…estão mais preocupados em fazer sensasionalismo?

Globo

40.1 %

37.0 %

40.1 %

45.4 %

31.5 %

SBT

30.3 %

29.8 %

26.4 %

26.6 %

41.7 %

Base: 571 pessoas que assistem a telejornais. FONTE: "A imagem dos telejornais: o povo acusa", Imprensa, nş 105, junho de 1996, p. 27.

Alguns autores sugerem que a emergência das novas tecnologias é a causa do declínio dos índices de audiência do Jornal Nacional. Squirra (1995), por exemplo, interpreta a implantação da TV a cabo como um desafio ao jornalismo praticado pelas redes de televisão, prevendo um declínio crescente dos seus índices de audiência. Todavia, apesar de alcançarem 1,7 milhões de assinantes, as "TVs pagas" (a cabo e por satélite) não oferecem um desafio real às redes de televisão no caso brasileiro (ver Porto, 1998). De acordo com uma pesquisa do Instituto IBOPE realizada em março de 1997, as redes de televisão têm 75% da audiência no horário nobre (20 horas), quando o Jornal Nacional é transmitido, contra apenas 1% das TVs pagas ["TV paga ainda não ameaça grandes redes", Folha de S.Paulo, 9/3/97].

d) Uma explicação alternativa: o papel de fatores políticos

Competição é um elemento importante para explicar as mudanças que tiveram lugar no Jornal Nacional. Todavia, como sugere o relatório interno do SBT, fatores de natureza política são fundamentais para explicar estas mudanças. Em particular, existem evidências de que a imagem de emissora "governista" foi uma das causas principais do declínio nos índices de audiência da Globo em geral e do Jornal Nacional em particular. Para compreendermos a crescente instabilidade na relação entre a Rede Globo e sua audiência é preciso ressaltar a sua imagem negativa que resultou do seu papel político nas últimas décadas da política brasileira. Neste sentido, proponho uma explicação alternativa com relação às mudanças no Jornal Nacional: a substituição de Cid Moreira seria parte de uma nova estratégia política da Globo que teria como objetivo o desenvolvimento de um jornalismo mais ativo e "independente", buscando assim construir uma nova imagem para a emissora. Desta forma, a Rede Globo poderia evitar um conflito ainda maior com sua audiência e o perigo de perdê-la para os seus principais competidores.

A comprovação desta tese sobre a nova estratégia política da Globo está, todavia, além dos limites deste trabalho. A seguir, procurarei demonstrar como a saída de Cid Moreira teve importantes conseqüências para o conteúdo do Jornal Nacional. A investigação das razões destas mudanças exigiria, todavia, não só uma análise de conteúdo do telejornal, mas também o acesso aos seus produtores e aos diretores da emissora para a realização de entrevistas. Neste trabalho, a hipótese sobre a nova estratégia da Globo tem por objetivo contextualizar as mudanças do Jornal Nacional e contribuir para o desenvolvimento de novos marcos teóricos para o estudo de práticas jornalísticas, em lugar de oferecer hipóteses que podem ser devidamente testadas [Como afirmam George e McKeown (1985), estudos de caso são particularmente úteis em um estágio inicial de desenvolvimento teórico, quando o objetivo é o desenvolvimento e não o teste de teorias. Considerando a falta de marcos teóricos sobre as relações entre práticas jornalísticas e processos políticos, estudos de caso como o proposto neste artigo podem contribuir na elaboração de novos marcos teóricos, apesar de não testarem hipóteses específicas sobre estas relações].

Hipótese e metodologia

Este artigo apresenta a proposição de que as mudanças no principal telejornal da Rede Globo não afetaram apenas a forma do noticiário, mas também, e de forma importante, o seu conteúdo. A hipótese principal da pesquisa é a seguinte: A substituição dos apresentadores do Jornal Nacional teve um impacto na forma como o telejornal representa o mundo da política, levando a um papel mais ativo dos apresentadores e a uma cobertura jornalística mais plural e menos baseada em fontes governamentais. De acordo com esta hipótese, a cobertura jornalística continuará a favorecer as versões do governo e de outros grupos poderosos, mas as fontes governamentais passarão a ter uma presença menos freqüente no noticiário.

Esta hipótese será testada através de uma análise de conteúdo do Jornal Nacional que se baseia numa comparação de longo prazo das edições do telejornal. O objetivo é o de identificar como a mudança de apresentadores afetou o conteúdo do noticiário. A amostra das edições do Jornal Nacional analisadas inclui quatro séries com seis edições completas do telejornal cada, totalizando 24 edições. O principal critério para a escolha das séries foi a substituição do par Cid Moreira-Sergio Chapelin pelo par William Bonner-Lillian Witte Fibe no dia 1 de abril de 1996. A amostra inclui duas fases. A primeira fase, composta pelas duas primeiras séries, inclui as edições do Jornal Nacional que foram ao ar antes da mudança de apresentadores. A segunda fase, compostas pelas duas últimas séries, inclui edições transmitidas depois da saída de Cid Moreira. A Tabela 2 apresenta a composição da amostra.

TABELA 2

Composição da amostra de edições do Jornal Nacional

Fases

Edições do Jornal Nacional

Número de edições

Primeira Fase

Primeira Série (1, 4, 6, 7, 8 e 10 de julho de 1995)

6

 

Segunda Série (14, 15, 21, 22, 27 e 28 de novembro de 1995)

Total da Primeira Fase:

6

12

Segunda Fase

Terceira Série (1, 3, 4, 5, 6 e 8 de abril de 1996)

6

 

Quarta Série (13, 15, 16, 17, 19 e 21 de agosto de 1996)*

Total da Segunda Fase:

6

12

Total da Amostra

 

24

* As edições de 17, 19 e 21 de agosto de 1996 estavam incompletas.

Qual o critério utilizado para a seleção das séries? No caso da terceira série, o critério foi simples: esta foi a primeira semana do Jornal Nacional após a substituição de Cid Moreira [O plano inicial era o de analisar séries compostas por uma semana completa, de segunda a sábado. Todavia, várias edições do Jornal Nacional do acervo de fitas utilizado estavam incompletas. A amostra não inclui dias consecutivos devido à prioridade dada às edições que estavam completas.]. Três outras séries foram incluídas, separadas por um intervalo de seis semanas, com o objetivo de permitir uma comparação de longo prazo. Considerando o fato de que uma análise que somente incluísse edições durante a mudança de apresentadores não permitiria verificar se seus efeitos no conteúdo do Jornal Nacional seriam momentâneos ou mais permanentes, optou-se por analisar o noticiário durante um período de mais de um ano (julho de 1995 a agosto de 1996).

O método utilizado para a análise do Jornal Nacional foi a análise de conteúdo de suas edições, incluindo tanto variáveis de caráter quantitativo como qualitativo. O objetivo era o de verificar como a mudança de apresentadores influenciou a forma de representação, as convenções narrativas utilizadas pelo telejornal na cobertura de temas políticos, econômicos e sociais [Sobre o conceito de forma de representação (form of representation), ver Hallin, 1994, p. 114.]. A análise baseada em aspectos quantitativos incluiu a codificação das notícias de acordo com seu tema e a medição do tempo ocupado por cada locutor. Os aspectos qualitativos incluíram a classificação da fala de cada locutor de acordo com sua função e das notícias de acordo com sua forma. Duas unidades de análise principais foram utilizadas: notícias e expressões. Em um primeiro momento, todas as notícias foram analisadas individualmente. Posteriormente, as notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais foram sub-divididas em expressões. A principal característica que define uma expressão (utterance) é a clara demarcação do seu início e do seu fim, a partir da mudança da pessoa que está falando (Bakhtin, 1986, p. 71). Em outras palavras, uma expressão inclui todo o conteúdo da fala contínua de um dos locutores que aparecem no noticiário. No caso da presente análise do Jornal Nacional, os possíveis locutores foram codificados como apresentador, repórter, comentador, ou pessoa que aparece em uma sonora [Sonoras são os segmentos de um noticiário que apresentam a fala de pessoas que não são funcionárias da emissora (políticos, expertos, pessoas comuns, etc.)].

Após cada expressão ter sido codificada e seu locutor identificado, uma análise qualitativa de sua função foi desenvolvida. As seguintes três possíveis funções foram identificadas:

Informativa: o locutor relata um fato/evento/ação ou introduz um tema;

Interpretativa: o locutor apresenta um interpretação do fato/evento/ação ou tema;

Interpretação indireta: o locutor relata a posição/fala de outra pessoa que interpreta o fato/evento/ação ou tema.

A partir desta classificação da função de cada locutor, cada notícia foi classificada de acordo com sua forma. Quatro possíveis formas foram identificadas:

Restrita: quando apenas uma interpretação do fato/evento/ação ou tema é apresentada;

Plural-fechada: quando mais de uma interpretação do fato/evento/ação ou tema são apresentadas, mas são organizadas em uma hierarquia de forma a que uma das interpretações é preferida sobre as demais e apresentada como superior ou mais correta;

Plural-Aberta: quando mais de uma interpretação do fato/evento/ação ou tema são apresentadas, mas são tratadas de forma mais indeterminada de forma a que nenhuma interpretação é apresentada como superior ou mais correta;

Episódica: quando nenhuma intepretação é apresentada na notícia que se limita a relatar algum fato/evento/ação ou tema.

Estes procedimentos metodológicos têm como objetivo testar a hipótese principal deste estudo: A substituição dos apresentadores do Jornal Nacional teve um impacto na forma como o telejornal representa o mundo da política, levando a um papel mais ativo dos apresentadores e a uma cobertura jornalística mais plural e menos baseada em fontes governamentais. Esta hipótese foi operacionalizada da seguinte forma: a) o papel mais ativo dos apresentadores: a pesquisa verificará se os apresentadores adotaram uma função mais interpretativa e se apareceram mais freqüentemente e por mais tempo depois da mudança; b) cobertura mais plural: a pesquisa verificará se as notícias adotaram formas mais plurais e menos restritas depois da mudança; c) cobertura menos baseada em fontes governamentais: a pesquisa verificará se o número de sonoras de representantes do governo federal diminuirá depois da mudança. A próxima sessão apresenta os resultados da análise.

A análise de conteúdo

a) Os temas das notícias

Nesta seção apresentarei os resultados da análise das 24 edições do Jornal Nacional de ambas as fases, antes e depois da mudança dos apresentadores. A Tabela 3 apresenta a porcentagem to tempo tomado por todas as notícias que apareceram na amostra, de acordo com seu tema.

TABELA 3

Tempo total das notícias por tema (porcentagem)

Tema

Julho
1995

Novembro
1995

TOTAL
PRIMEIRA FASE

Abril
1996

Agosto
1996

TOTAL
SEGUNDA FASE

Total
Todas Notícias

Política

16.6

36.5

26.6

7.7

15.0

11.0

18.8

Economia

13.2

7.0

10.1

15.4

9.7

12.8

11.5

Questões Sociais

2.2

2.0

2.1

4.9

0.9

3.1

2.6

Crime/Violência

12.3

14.0

13.1

20.6

16.9

18.9

16.0

Internacional

5.3

17.3

11.3

5.3

22.0

12.9

12.1

Variedades

19.6

16.2

17.9

23.6

19.9

22.0

19.9

Esporte

28.4

4.0

16.2

19.0

12.5

16.0

16.1

Previsão Tempo

2.4

3.0

2.7

3.4

3.1

3.3

3.0

Total*

100% (n=8236)

100% (n=8265)

100%
(n=16501)

100% (n=8992)

100%
(n=7513)

100%
(n=16505)

100% (n=33006)

* Número total de segundos.

A duração média de cada edição do Jornal Nacional é de 24 minutos, divididos em cinco blocos separados por intervalos comerciais. Os dados demonstram que política foi um dos principais temas do telejornal nas 24 edições analisadas, tomando 18,8% do tempo total do noticiário. Somente variedades ocuparam mais tempo (19,9%). É importante notar, todavia, notar uma tendência no sentido da diminuição da cobertura de temas políticos após a mudança de apresentadores: a primeira fase apresenta uma cobertura política muito maior do que a segunda. Para verificar se esta mudança no conteúdo do noticiário é significante, comparei a cobertura de temas políticos com a cobertura dos demais temas do telejornal em ambas as fases. A Tabela 4 apresenta os resultados.

TABELA 4

Freqüência das notícas por tema (porcentagem)

Tema

PRIMEIRA FASE

SEGUNDA FASE

Política

20,9

13.0

Outros

79.1

87.0

Total

100%
(n=201)

100%
(n=192)

Pearson Chi-Square: 4.31 (p< .05).

Os dados indicam que o declínio da cobertura de temas políticos entre as duas fases foi significante (p<.05). Como explicar este declínio na cobertura da política? Em primeiro lugar, é preciso ressaltar o fato de que em novembro de 1995 a maioria dos temas políticos apresentados pelo Jornal Nacional estavam relacionados ao escândalo do projeto Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), o polêmico e caro sistema de radar para a região norte do país. Portanto, o alto número de notícias da segunda série pode ser explicado como um resultado dos importantes eventos que tiveram lugar no período da série. É preciso verificar se esta tendência para uma cobertura mais reduzida é mais permanente ou se ela se deve apenas aos eventos que ocorreram nos meses finais de 1995.

Entretanto, os dados sugerem que a mudança dos apresentadores do Jornal Nacional é parte de uma tendência geral em direção a um jornalismo com menos ênfase em temas políticos, uma tendência já identificada por alguns críticos de televisão [Fernando de Barros e Silva, "Jornal Nacional renunciou à política", Folha de S.Paulo, 25/9/97]. Existem evidências de que esta nova direção pode ter um caráter mais definitivo. Ao tentar explicar a queda nos índices de audiência do Jornal Nacional a Rede Globo culpou a cobertura de temas políticos. Um relatório da emissora explicou este declínio em termos do "excesso" de notícias sobre temas políticos no telejornal que são cobertos devido a uma "obrigação jornalística" mas que afastam a audiência ["Turbulência na rota do Boeing", Imprensa, n. 80, maio de 1994, p. 33]. Desta forma a Globo culpa os políticos para explicar sua própria relação problemática com a audiência e não menciona o seu papel ativo na política nacional nas últimas décadas. A emissora também indica que pode estar reduzindo a cobertura de temas políticos para evitas conflitos com sua audiência. As conseqüências deste declínio da cobertura política são complexas, principalmente quando se nota um crescimento paralelo do tempo dedicado a crimes/violência e variedades. Estes dados sugerem um possível movimento em direção a um jornalismo "tablóide" ou "infotainment". A Globo pode estar buscando evitar o declínio dos seus índices de audiência com mais ênfase em violência e variedades e uma cobertura limitada de temas políticos. Cabe novamente insistir, todavia, que mais dados são necessários para verificar estas tendências.

A análise de conteúdo também incluiu a codificação das notícias sobre temas políticos para verificar qual imagem do "mundo da política" é apresentada pelo Jornal Nacional. A Tabela 5 apresenta os resultados da análise de 98 notícias sobre temas políticos das 24 edições da amostra. Os dados sugerem que a cobertura do telejornal se concentra na presidência e no governo federal. Em seu conjunto, notícias sobre o presidente e sobre iniciativas e políticas governamentais atingiram cerca de 43% do total de notícias. Os demais poderes constitucionais, legislativo e judiciário, receberam bem menos atenção. Corrupção e escândalos políticos foram tema de 21% das notícias, indicando uma ênfase em aspectos negativos do processo político. Portanto, de acordo com o Jornal Nacional, o mundo da política gira em torno da presidência e do governo, com corrupção e escândalos sendo algumas de suas características mais importantes. Instituições da esfera pública (organizações da sociedade civil e movimentos sociais) e outros poderes constitucionais (Congresso e tribunais) receberam bem menos atenção. Isto sugere que, de acordo com o Jornal Nacional a política se limita basicamente à esfera do estado, principalmente ao poder executivo.

TABELA 5

Freqüência dos temas das notícias sobre política (porcentagem)

Tema

Freqüência

Presidência

22.9

Corrupção/Escândalos Políticos

21.4

Políticas ou Iniciativas Governamentais Específicas

20.0

Sociedade Civil/Movimentos Sociais

15.7

Eleições Locais

7.1

Judiciário

7.1

Congresso

2.9

Política nos Estados

2.9

Total

100% (N=98)

b) O papel dos apresentadores

A hipótese principal da presente pesquisa afirmava que os apresentadores apareceriam mais freqüentemente e adotariam um estilo mais ativo e interpretativo depois da saída de Cid Moreira. A Tabela 6 apresenta os dados referentes ao tempo tomado por cada locutor nas notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. Depois da mudança, os apresentadores falaram por muito mais tempo, de 15% do tempo total na primeira fase para 26% na segunda. Esta é uma evidência importante de que os apresentadores passaram a adotar um papel mais ativo na produção das notícias. Repórteres falaram por bem menos tempo após a mudança, apesar de suas expressões terem sido responsáveis por dois terços do tempo total do noticiário.

TABELA 6

Tempo total de cada locutor (porcentagem)*

Locutor

Julho
1995

Novembro
1995

TOTAL
PRIMEIRA FASE

Abril
1996

Agosto
1996

TOTAL
SEGUNDA FASE

Apresentador

11.5

16.9

14.7

26.2

26.2

26.2

Repórter

64.7

68.2

66.8

57.3

57.5

57.4

Sonora

18.5

11.8

14.5

16.5

16.3

16.4

Comentador

5.3

3.1

4.0

0

0

0

Total**

100% (n=2211)

100% (n=3280)

100%
(n=5491)

100% (n=2060)

100% (n=1369)

100%
(n=3429)

* Notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais.

* *Número total de segundos.

Para verificar se estas mudanças foram significantes, a freqüência das expressões de cada locutor em cada notícia foi registrada. A Tabela 7 apresenta os resultados. Ela mostra que depois da mudança, entre a primeira e a segunda fase, os apresentadores apareceram mais freqüentemente no noticiário. Repórteres apareceram menos vezes, enquanto as sonoras aumentaram sua presença. Todavia, os dados demonstram que os resultados são significantes apenas no caso dos apresentadores (p<.05). Somente os apresentadores tiveram um aumento significante em sua participação no telejornal após a saída de Cid Moreira.

TABELA 7

Média da freqüência das expressões dos locutores em cada notícia*

Locutor

Julho
1995

Novembro
1995

TOTAL
PRIMEIRA FASE

Abril
1996

Agosto
1996

TOTAL
SEGUNDA FASE

T-Test**
t-value

Prob

Apresentador

1.22

1.36

1.29

1.57

1.48

1.53

-2.31

.05

Repórter

1.30

1.44

1.38

1.54

1.09

1.33

.14

.89

Sonora

1.22

1.13

1.17

1.36

1.17

1.27

-.29

.77

* Notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. Número total de notícias = 117.

** Refere-se somente às colunas da primeira e da segunda fase.

Portanto, os apresentadores apareceram mais freqüentemente e falaram durante mais tempo depois da mudança. Todavia, a hipótese da pesquisa também afirmava que os apresentadores desenvolveriam um papel mais interpretativo após a mudança. A classificação das funções das expressões dos apresentadores é apresentada na Tabela 8. Os dados demonstram uma aumento significante (p<.05) no número de expressões que apresentavam alguma interpretação (direta ou indiretamente), enquanto que a presença da função informativa diminuiu. Portanto, os apresentadores se tornaram mais ativos ao apresentar um número maior de expressões interpretativas e menos expressões informativas.

TABELA 8

Freqüência das expressões dos locutores por função (porcentagem)*

Função

Julho
1995

Novembro
1995

TOTAL PRIMEIRA FASE

Abril
1996

Agosto
1996

TOTAL
SEGUNDA FASE

Informativa

85.0

94.9

89.8

71.0

81.8

75.5

Interpretativa ou Interpretação Indireta

15.0

5.1

10.2

29.0

18.2

24.5

Total

100% (n=20)

100% (n=39)

100%
(n=59)

100% (n=31)

100% (n=22)

100%
(n=53)

* Notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. Número total de expressões dos locutores: 112.

Pearson Chi-Square: 4.09 (p< .05). O valor se refere somente às colunas da primeira e da segunda fase.

Outro aspecto relacionado ao papel ativo dos apresentadores se refere às expressões que apresentaram os argumentos finais em cada notícia. Em outras palavras, é importante investigar quem foi o último locutor a aparecer na notícia, já que o último a falar geralmente oferece algum tipo de conclusão ou interpretação. Se considerarmos as 66 notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais que apresentaram mais de um locutor, o crescente papel ativo dos apresentadores ficará ainda mais claro. A Tabela 9 apresenta a freqüência dos locutores que apresentaram os comentários finais nas notícias. Os resultados são altamente significantes (p<.00) e impressionantes. Os dados demonstram que após a saída de Cid Moreira se tornou praticamente uma regra que o apresentador é o responsável pela apresentação dos comentários finais das notícias. Repórteres nunca concluíram as notícias na segunda fase, comprovando o papel mais ativo dos apresentadores.

TABELA 9

Freqüencia do último locutor em cada notícia (porcentagem)*

Último Locutor

Julho
1995

Novembro
1995

TOTAL PRIMEIRA FASE

Abril
1996

Agosto
1996

TOTAL
SEGUNDA FASE

Apresentador

14.3

36.0

28.2

93.3

83.3

88.9

Outros

(Repórter, sonora ou comentador).

85.7

64.0

71.8

6.7

16.7

11.1

Total

100%
(n=14)

100%
(n=25)

100%
(n=39)

100%
(n=15)

100%
(n=12)

100%
(n=27)

* Notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. Número total de notícias: 66 (notícias com apenas um locutor foram excluídas). Pearson Chi-Square: 23.588 (p< .000). O valor se refere somente às colunas da primeira e da segunda fase.

c) A forma das notícias

A hipótese do estudo também afirmava que a mudança de apresentadores do Jornal Nacional levaria a uma cobertura política mais plural. No que se refere à noção de pluralidade, o objetivo era o de investigar se as notícias adotariam formas mais abertas e menos restritas após a saída de Cid Moreira. Os dados apresentados na Tabela 10 mostram que o Jornal Nacional seguiu esta tendência. Houve um declínio no número de notícias com uma forma restrita (onde apenas uma interpretação é apresentada) e um aumento no número de notícias com uma forma plural-aberta (onde várias interpretações são apresentadas e nenhuma é preferida). Portanto, a análise de conteúdo indica um movimento na direção de uma cobertura mais plural após a saída de Cid Moreira. Por outro lado, houve um aumento no número notícias episódicas que não apresentaram interpretações e basicamente se limitaram a relatar algum fato ou evento. Notícias "factuais" constituíram a grande maioria das notícias de todas as edições analisadas (57%).

TABELA 10

Freqüência das notícias por forma (porcentagem)*

Forma

Julho
1995

Novembro
1995

TOTAL PRIMEIRA FASE

Abril
1996

Agosto
1996

TOTAL
SEGUNDA FASE

Restrita

33.3

25.6

28.8

10.7

21.7

15.7

Plural-Fechada

14.8

17.9

16.7

21.4

4.3

13.7

Plural-Aberta

0

2.6

1.5

7.1

8.7

7.8

Episódica

51.9

53.8

53.0

60.7

65.2

62.8

Total

100% (n=27)

100% (n=39)

100%
(n=66)

100% (n=28)

100% (n=23)

100%
(n=51)

* Notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. Número total de notícias: 117.

Gamma: .237 (p< .13). O valor se refere somente às colunas da primeira e da segunda fase.

Todavia, os resultados da Tabela 10 não são estatisticamente significantes (p<.13). Portanto, mais dados são necessários para investigar se a cobertura de temas políticos, econômicos e sociais pelo Jornal Nacional realmente se tornou mais plural e mais episódica. Se estas tendências se confirmarem em novas pesquisas, algumas questões precisam ser esclarecidas. Por exemplo, como explicar que uma presença maior de interpretações no noticiário da Globo foi acompanhado por um aumento da cobertura "fatual", mais característica de um jornalismo objetivo? A ênfase em notícias episódicas pode ser parte da estratégia da emissora no sentido de ultrapassar sua imagem negativa. Ao concentrar a cobertura em "fatos" o telejornal evitaria a apresentação de notícias restritas que tendem a apresentar apenas o ponto de vista do governo federal, reforçando a imagem negativa e "governista" do Jornal Nacional entre sua audiência.

d) Sonoras

Outro tema relacionado às consequências da saída de Cid Moreira para o conteúdo do Jornal Nacional se refere ao peso de fontes e pontos de vista do governo federal na cobertura de temas políticos, econômicos e sociais. Para investigar a hipótese de que a mudança levaria a uma cobertura menos centrada no governo, foi proposto verificar se o número de sonoras com fontes fora da esfera do governo federal aumentaria após a mudança de apresentadores.

As sonoras são os segmentos das notícias de um telejornal que apresentam alguém falando (Hallin, 1994, p. 133). Estes segmentos referem-se às partes do noticiário que apresentam a fala de pessoas que não pertencem ao quadro de pessoal da emissora (políticos, expertos, pessoas comuns, etc.). No caso dos Estados Unidos, a tendência histórica de uma diminuição do tempo médio das sonoras (de mais de 40 segundos na década de 1960 para menos de 10 segundos na década de 1980) tem sido interpretada como expressão do processo pelo qual o noticiário passou a ser cada vez mais mediado ou comandado pelos jornalistas (ibid., pp. 133-152). O fato de que "outsiders" têm geralmente menos de dez segundos para expressar suas idéias nos telejornais tem importantes implicações para a natureza do discurso político. A curta duração das sonoras indica que os jornalistas são os responsáveis pela construção da unidade e do significado da estória de cada notícia. Os políticos podem ter suas interpretações apresentadas pelo noticiário, mas eles ou elas dependem de como a notícia é "empacotada" pelos jornalistas para garantir que suas interpretações irão prevalecer. Portanto, a presença de uma pessoa no noticiário não garante que sua interpretação será aceita ou avaliada positivamente. Todavia, a classificação das sonoras de acordo com a pessoa que aparece falando é uma importante variável para a verificação do peso de diferentes fontes no processo de elaboração do noticiário de televisão.

A análise de conteúdo registrou a presença de 143 sonoras nas 117 notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. A duração média das sonoras foi de 9,47 segundos. A Tabela 11 apresenta a classificação de todas as sonoras de acordo com a pessoa que aparece falando.

TABELA 11

Freqüência das sonoras (porcentagem)*

Pessoa na
Sonora

Julho
1995

Novembro
1995

TOTAL PRIMEIRA FASE

Abril
1996

Agosto
1996

TOTAL
SEGUNDA FASE

Fontes Oficiais (Presidente, Ministro, Burocratas)

36.4

20.5

27.3

18.4

17.9

18.2

Membro do Legistativo,
Judiciário ou Político

24.2

27.3

26.0

0

0

0

Cidadão comum

33.3

43.2

39.0

68.4

57.1

63.6

Outros

6.0

9.1

7.7

13.2

25.0

18.2

Total

100%
(n=33)

100%
(n=44)

100%
(n=77)

100%
(n=38)

100%
(n=28)

100%
(n=66)

* Notícias sobre temas políticos, econômicos e sociais. Número total de sonoras: 143.

Pearson Chi-Square: 25.761 (p< .000). O valor se refere somente às colunas da primeira e da segunda fase

Os dados comprovam a hipótese sobre o declínio de fontes governamentais e os resultados são altamente significantes (p<.000). A freqüência de fontes oficiais do governo diminuiu progressivamente entre a primeira e a quarta série, de um total de 27% das sonoras na primeira fase para 18% na segunda. Outra mudança importante com relação às sonoras tem a ver com o desaparecimento de membros do Congresso, do judiciário e de políticos que não são membros do governo federal depois da saída de Cid Moreira. Tendo alcançado 26% do número de sonoras da primeira fase, estes políticos não aparecem depois da mudança. Esta é outra indicação da diminuição da cobertura de temas políticos pelo telejornal. A segunda mudança mais importante tem a ver com o aumento da participação de "cidadãos comuns" no noticiário. Esta alteração nas fontes das notícias do Jornal Nacional sugere um movimento em direção a uma cobertura "populista" e menos política. É importante também ressaltar a rara presença de membros de organizações não-governamentais e sindicalistas, que foram responsáveis por apenas 3% do número total de sonoras. Por outro lado, empresários e profissionais liberais (doutores, advogados, expertos) foram responsáveis por mais de 10% das sonoras. Estes números indicam uma virtual ausência da sociedade civil na cobertura jornalística do Jornal Nacional e uma ênfase maior em grupos sociais e profissionais mais privilegiados.

Conclusões

A mudança de apresentadores do Jornal Nacional teve importantes conseqüências para a forma como o telejornal representa temas políticos, econômicos e sociais. Portanto, a substituição de Cid Moreira não significou apenas uma mudança na forma do telejornal, mas também em seu conteúdo. A análise de conteúdo confirmou a hipótese principal do estudo: o "novo" Jornal Nacional se caracteriza por um papel mais ativo e interpretativo dos apresentadores e por uma cobertura mais plural e menos baseada no governo federal, apesar de que os resultados sobre "pluralidade" não são estatisticamente significantes. A análise também demonstrou uma tendência no sentido de um tipo de jornalismo com menos cobertura de temas políticos e mais ênfase em criminalidade, violência e variedades. O declínio no tempo dedicado a assuntos políticos tem implicações complexas para o processo político. Para entender as razões destas mudanças é necessário considerar o papel da Rede Globo nas últimas décadas da política brasileira. A emissora pode estar diminuindo a cobertura de temas políticos para evitar os freqüentes conflitos com sua audiência devido à sua cobertura jornalística governista.

Como vimos, importantes mudanças tiveram lugar na televisão brasileira no período em consideração (1995-1996). Todavia, não está ainda claro se estas mudanças têm um caráter mais permanente ou foram apenas momentâneas. A Rede Globo pode ter retornado à sua cobertura mais parcial e passiva quando a conjuntura política do momento indicou a necessidade de intervenção política. De acordo com um crítico de televisão, as mudanças no Jornal Nacional foram positivas, mas a emissora logo retornou ao velho padrão de favorecimento do governo federal, como demonstrado por sua cobertura de um novo escândalo em 1997 envolvendo o presidente Fernando Henrique [Fernando de Barros e Silva, "O ‘JN’, o PFL e o x da questão", Folha de S. Paulo, 25/5/97]. Novas investigações são necessárias para verificar se as mudanças identificadas neste artigo têm um caráter mais permanente.

Para compreendermos melhor as práticas jornalística das emissoras de televisão necessitamos novos enfoques teóricos que levem em consideração suas relações com processos e instituições políticas. O presente estudo tem por objetivo contribuir neste sentido ao ressaltar os vínculos entre as mudanças no Jornal Nacional e a nova estratégia política da Rede Globo. Em particular, ele sugere que a história política de um país e o papel que os meios de comunicação tiveram no passado podem ser fatores fundamentais para a compreensão das mudanças que têm lugar nas práticas jornalísticas. Redes de televisão como a Globo podem perder credibilidade frente a audiência se insistirem em apresentar uma cobertura partidária e governista. Por outro lado, elas se tornaram importantes instituições políticas que se beneficiam do apoio que dão ao governo e a grupos sociais influentes. Como notam alguns estudiosos da comunicação política, os meios de comunicação têm sua própria necessidade de legitimação frente suas audiências que podem entrar em conflito com a legitimidade do sistema (Hallin, 1994, p. 32). No caso do Jornal Nacional, esta tensão se reflete de forma clara nas mudanças analisadas neste estudo. Um jornalismo mais ativo e mais independente poderia ajudar a Globo a ultrapassar sua crise de legitimidade frente a audiência, mas seus diretores têm plena consciência de que ele poderia também danificar a legitimidade do presidente e da aliança de classe que o apoia, da qual a Globo é parte integral. O papel dos meios de comunicação de massa não pode ser devidamente compreendido se o analista ignorar estas importantes variáveis de natureza política.

(*) Professor-assistente (licenciado) da Universidade de Brasília, pesquisador do Núcleo de Estudos Sobre Mídia e Política (NEMP), bolsista de Doutorado da CAPES no Department of Communication da University of California, San Diego. Mauro Porto apresentou este estudo no 22ş Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado na Universidade Gama Filho, no Rio, entre 3 e 9 de setembro de 1999. E-mail: mporto@weber.ucsd.edu # URL: http://communication.ucsd.edu/mporto/index.html

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