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MONITOR DA IMPRENSA
MÍDIA NA MACEDÔNIA
Etnias, pobreza e oficialismo
Fabiano Golgo
A mídia na Macedônia floresceu nos últimos dois anos. Quando a Iugoslávia se dissolveu, as únicas produções locais eram um canal de televisão; duas rádios (uma de música clássica, outra de folclore e pop); um jornal "jovem" (apenas no nome, não tendo nada em seu conteúdo que justificasse a classificação) e um diário engajado ao governo. Todas as revistas vinham de Belgrado, na República Sérvia, ou de Zagreb, na Croácia.
A abertura do mercado local não mudou a situação imediatamente. A pobreza do país e de sua população, somado a um código regulador completamente defasado, afastaram possíveis investimentos externos no setor. O Parlamento foi empurrando a votação de novas leis que facilitariam a entrada de interessados nos negócios editoriais. Somente em 1997 surgiu a legislação que permitiu o florescimento de uma indústria midiática. Surpreendentemente, ela conseguiu arrebanhar mais consumidores do que se esperava, considerando-se os baixos índices de alfabetização e baixos salários, além do desemprego crônico.
O jornal Dnevnik, campeão de circulação, pulou de 20 mil para 80 mil exemplares, quando seu preço caiu de 20 dinares para apenas 5 – estratégia possível com a introdução de anúncios classificados diários. O segundo jornal em importância e circulação é o privatizado Nova Makedonija, que foi obrigado a ajustar as contas e a seguir o exemplo do concorrente, baixando os preços para sobreviver. Em vez de classificados, Nova Makedonija tem a vantagem de ter escritórios espalhados por todo o país, recolhendo anúncios de pequenos negócios locais. Com a diminuição do preço, aumentou as vendas de 15 mil para 70 mil exemplares por dia.
Na mesma briga está o Fokus, uma excelente publicação semanal, com teor de oposição ao governo e textos analíticos da melhor qualidade. Os jornalistas que escrevem ali geralmente fazem parte da nata cultural da sociedade, oferecendo sua visão dos fatos com um pouco mais de profundidade que o habitual. Fokus tem uma tiragem de 40 mil exemplares.
Nos finais de semana saem o Denes e o Forum. O primeiro é sustentado por gente ligada ao governo, o que garante uma cobertura parcial e simpática à administração pública. Já Forum se propôs a fazer um trabalho de investigação jornalística sério, mas depois do terceiro número teve que demitir metade de seus 12 repórteres, comprometendo a qualidade do produto.
TV sem sal
Como na Macedônia vive uma forte minoria de origem albanesa, a mídia reflete essa divisão. Delo foi o primeiro jornal independente em língua albanesa, mas sua circulação sofreu uma queda de 20 mil para apenas 3 mil exemplares. O mesmo aconteceu com Globi, que vive de manchetes escandalosas e de incitamentos racistas contra os não-albaneses da região (sérvios, macedônios, ciganos, búlgaros e gregos). No primeiro ano em que circulou, Globi costumava vender 7 mil exemplares diários; hoje sobrevive com apenas 4 mil. A crise dos albano-kosovares levou muitas famílias a gastar para abrigar refugiados e/ou colocar todo o dinheiro disponível na reconstrução do enclave. Este talvez seja um fator importante na queda da compra de jornais, considerados dispensáveis pela população com cerca de 80% de analfabetos.
Há várias rádios na Macedônia. Desde os serviços da BBC em albanês, 14 horas por dia, passando pela RFI francesa e a Rádio Livre Europa, de Praga, além de boa parte das emissoras búlgaras e iugoslavas que chegam ao país. Há ainda pelo menos 20 emissoras de pouco alcance, voltadas ao cotidiano local.
Dois canais de TV em língua macedônia, e mais dois em albanês, são agora alvo de uma comissão ética que vem tentando acabar com os constantes ataques entre as etnias. Os quatro veículos têm sua programação recheada de debates. Uma mesa, um fundo azul e às vezes um buquê de flores fazem o cenário. Os 15 minutos diários de noticiário da emissora estatal são oficialescos e não apresentam mais que a leitura de releases dos políticos e imagens de agências internacionais. O outro canal em língua macedônia sequer tem um informativo. Limita-se a boletins de dois minutos entre os filmes de faroeste da noite. Os canais albaneses têm mais noticiários, um deles a cada hora, mas que não apresentam nada especial. Como sua estrutura é muito pobre, o apresentador passa a maior parte do tempo lendo notícias que não são acompanhadas de imagens – ou, quando são, geralmente não passam de slides.
O que tem causado controvérsia é a decisão do Congresso de passar ao governo a palavra final quanto às decisões da comissão que supervisiona o funcionamento da mídia eletrônica. Há riscos de futuros governos usarem seu poder para pressionar as emissoras.
JORNAL NACIONAL
Dá para confiar em quem tem mais de 30 anos?
Guilherme Jorge de Rezende (*)
Desde sua controvertida implantação, financiada pelo grupo empresarial norte-americano Time-Life, em abril de 1965, a TV Globo percorreu um caminho de muitas conquistas. Atualmente a Rede Globo chega a 99,84% dos municípios brasileiros, através de suas 91 emissoras, entre geradoras e afiliadas. Ainda segundo dados divulgados por sua homepage, em agosto de 1997, a Globo detém "74 % de audiência no horário nobre, 56 % no horário no matutino, 59 % no vespertino e 69 % no noturno" [Rede Globo, 1977]. Conforme números do IBOPE Internacional Brasil, dos 20 programas de maior audiência, em São Paulo, no período de 12 de agosto de 8 de setembro de 1996, apenas um era produzido por outra emissora – SBT [IBOPE Internacional Brasil, 1997].
Em função disso, a Globo fica com 75% do total da verbas publicitárias investidas na mídia televisiva brasileira. Dados divulgados pelo SBT revelaram que enquanto a rede de tevê de Sílvio Santos faturava 300 milhões de reais por ano, a Globo recebia cinco vezes mais, 1,5 bilhão de reais. Os 200 milhões de reais restantes que completariam o "bolo" das verbas publicitárias seriam repartidos pelas demais emissoras [FERRAZ, 1996: 110].
Êxito ainda mais expressivo a Rede Globo conquista na produção de programas, pela quantidade e qualidade das produções. A emissora exibe nada menos do que 80% de uma programação concebida e realizada em seus próprios estúdios, envolvendo mais de quatro mil de seus 8.300 empregados. Entre esses programas, destacam-se as produções da teledramaturgia. Além de seduzirem brasileiros, as novelas e as minisséries encantam outros milhões de telespectadores em 130 países de todos os continentes para onde são exportadas. Computados todos os programas que produz, entre novelas, shows, musicais, telejornalismo, alcança-se uma soma extraordinária: 4.440 anuais, "algo em torno de 2.210 longa-metragens, o que a tornou a maior produtora de programas de televisão do mundo" [Rede Globo de Televisão, 1997].
O jornalismo da Globo
Mais de 3 horas diárias de notícias
A Central Globo de Jornalismo se responsabiliza pela realização diária (na verdade de segunda a sexta-feira ou sábado) de 4 telejornais multitemáticos – Bom Dia Brasil, Jornal Hoje, Jornal Nacional e Jornal da Globo – e um noticiário especializado – Globo Esporte. Incluído o noticiário regional, a Rede Globo apresenta mais de três horas de telejornalismo por dia, em programas que duram de 2 a 45 minutos, mobilizando 400 jornalistas no Brasil e no exterior [Rede Globo de Televisão, 1997].
Cuida também de quatro produções semanais, duas delas líderes de audiência na televisão brasileira: o Globo Repórter, dedicado ao gênero documentário, e Fantástico – 0 show da vida, com o perfil de revista de variedades. Os outros dois programas, exibidos na manhã de domingo, são destinados a públicos determinados, o Globo Rural, para informar e orientar o homem do campo e o Esporte Espetacular, com notícias e transmissão de eventos esportivos. Nas emissoras regionais, a Globo reserva horário aos sábados de manhã para o Globo Comunidade, que aborda temas e problemas locais da atualidade. Além disso, a Rede Globo faz coberturas planejadas de eventos sazonais – Carnaval, Jogos Olímpicos, Copa do Mundo, Campeonato Brasileiro de Futebol, Fórmula l, eleições – e acontecimentos extraordinários – guerras, acidentes, comemorações, votações no Congresso etc.
O Jornal Nacional
Afinal, qual é a audiência?
Já em seu 30o ano de existência, o Jornal Nacional permanece como o principal programa jornalístico da TV Globo e da televisão brasileira em geral. Sua importância se mede pela audiência que alcança. Os números dessa audiência variam mesmo entre as fontes oficiais da Rede Globo.
Na parte relativa à história do programa, constante da homepage da emissora, fala-se em 40 milhões de telespectadores. Em 15 de junho de 1996, um anúncio da Rede Globo publicado na Folha de S.Paulo dava conta de que a audiência do JN era de 31 milhões de telespectadores, por dia. Por outro lado, o diretor da Central Globo de Jornalismo, Evandro Carlos de Andrade, informa que o Jornal Nacional atinge, em média, 40% dos aparelhos ligados, o que corresponde a um público de 30 milhões de pessoas [IMPRENSA, 1997: 50].
É difícil, portanto, chegar a valores exatos, ainda mais em virtude das mudanças por que passa a televisão aberta no Brasil, causadas, entre outros fatores, pelo crescimento dos canais segmentados por assinatura. O que ninguém ousa discutir é a liderança absoluta do Jornal Nacional entre os telejornais, condição que lhe outorga um enorme poder de impacto informativo em todo o Brasil.
Porta-voz da elite
Se o surgimento da TV Globo se vinculou à questão da presença do capital estrangeiro na imprensa brasileira, o JN nasceu sob outro signo que marcou indelevelmente a emissora: suas ligações com a elite civil e militar que governou o país por mais de 20 anos, desde a década de 60. A estréia do programa ocorreu justamente no dia em que se iniciava o período mais duro do regime militar.
Vigiado impiedosamente pela censura e depois vítima da autocensura, sintoma da indisfarçável vinculação com o poder dominante, o JN atravessou todos esses anos com as marcas do refinamento formal e da limitação no conteúdo das notícias. Do ponto de vista editorial, em seu estilo manchetado perseguiu o objetivo definido pelo diretor da Central Globo de Jornalismo por mais de 25 anos: "O Jornal Nacional pretende ser a síntese da primeira página de um jornal impresso" [NOGUEIRA, 1988: 89].
Não obstante todas as críticas à postura política da Globo, o JN desde cedo desenvolveu novas técnicas de redação e apresentação de notícias, que se tornaram paradigmáticas para todo o telejornalismo praticado no país.
"O texto, lido de forma intercalada pelos apresentadores passava a ser redigido em frases curtas e simples, de fácil entendimento, afastando-se da pomposidade que caracterizava até então o nosso jornalismo" [Rede Globo de Televisão, 1997b].
Além disso, o noticiário saía cada vez mais do estúdio para, diretamente do "palco de ação" dos fatos, "colocar à prova a capacidade de improvisação dos repórteres" [Rede Globo, 1997b].
O programa se manteve, ao longo dos anos, com poucas transformações. Dia após dia, o JN se impôs como o espetáculo da realidade, numa conveniente conjunção de forma e conteúdo, sustentada no primor das imagens e no alto teor emocional dos "fait-divers". Modificações mais estruturais só aconteceram mesmo recentemente.
Integração e censura
Ao vivo para cinco capitais
Em janeiro de 1969, o Brasil ingressava na era da comunicação espacial. As ligações por microondas e as transmissões via satélite possibilitavam a integração nacional e aproximação com o resto do mundo. Tornava-se, enfim, viável a formação de redes de TV, considerada pelo então diretor da Globo, Walter Clark, como solução para a permanente crise que atormentava a televisão brasileira.
Essa conjuntura abriu as perspectivas para o lançamento, em setembro de 1969, do Jornal Nacional, transmitido simultaneamente, ao vivo, para o Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte,. Curitiba, Porto Alegre e Brasília. Com recursos correspondentes à produção de "um programa tão caro e caprichado e caro como novela de maior IBOPE, ao anunciar a criação do Jornal Nacional a Rede Globo salientou: "Vamos lançar um telejornal para que 56 milhões de brasileiros tenham mais coisas em comum. Além de um simples idioma" [VEJA, 52: 68]. Os objetivos reais que motivavam a iniciativa ligavam-se a interesses políticos e mercadológicos. Além de possuir um noticiário que lhe desse prestígio, a TV Globo queria competir com o Repórter Esso, da TV Tupi.
"O problema não era somente pôr no ar o primeiro jornal em rede. Para os profissionais que trabalhavam na então TV Globo, Canal 4, o mais importante era lutar com o Repórter Esso, que, então, dominava a horário e tinha uma importante audiência cativa. Até porque, àquela época, a imagem do locutor Gontijo Teodoro, que apresentava o Repórter Esso, pontualmente às oito horas da noite, era teoricamente insubstituível" [MELLO E SOUZA, 1984: 14].
Paralelo ao progresso tecnológico, o rigor no planejamento da produção identificava o novo modelo de telejornalismo: "Para manter o nível do noticiário na altura do avanço eletrônico que possibilita a formação da grande cadeia, as notícias e comentários serão escritos por redatores selecionados e não será permitida a improvisação..." [VEJA, 52: 68].
Afinidade com o regime
Como contrapeso para suas virtudes técnicas, o Jornal Nacional, logo no início, teve que enfrentar o estigma que perseguiria a TV Globo por muitos anos: a afinidade ideológica com o regime militar. Na edição de estréia, o locutor Hílton Gomes anunciava, como manchete do dia, que o governo do país passava temporariamente ao controle dos três ministros militares, por causa da doença do Presidente da República, general Costa e Silva. O acaso evidenciava o que para muitos significava mais do que uma simples coincidência. A integração nacional pela notícia, via Jornal Nacional, e o endurecimento da ação do governo militar começavam no mesmo dia.
O sintoma do endurecimento foi logo notado pelo maior rigor da intervenção da censura sobre a imprensa e especialmente no Jornal Nacional, conforme lembra Armando Nogueira, na época diretor da Central Globo de Telejornalismo.
"O primeiro Jornal Nacional, em 1º de setembro de 1969, coincidiu com a doença do presidente Costa e Silva e ninguém pôde fotografar ou filmar no Palácio das Laranjeiras. Só conseguirmos dar a notícia, assim mesmo em nota oficial" [NOGUEIRA, 1988: 82].
A face do poder
Na seqüência do noticiário, revelava-se também, sem subterfúgios, a verdadeira face de quem exercia o poder no país. O primeiro videoteipe na estréia do Jornal Nacional exibiu o então ministro da Fazenda, Delfim Neto, transmitindo uma mensagem de otimismo, após sair de uma reunião com a Junta Militar. Logo no seu nascimento, ficava claro que a originalidade do Jornal Nacional residiria apenas na qualidade técnica, uma vez que o conteúdo estava sacrificado pela interferência da censura.
"Nossa preocupação maior, quase que única, era operar convenientemente todo esse complexo mecanismo de televisão... do ponto de vista de conteúdo...nenhum de nós poderia estar empolgado naquele primeiro dia. Nossa preocupação em matéria de telejornalismo... não ia além da forma, do formato, da parte visual, porque sofríamos restrições ao exercício da plena liberdade de informação" [NOGUEIRA, Apud. MELLO E SOUZA, 1984: 12-13].
A glória de um e a derrocada de outro. Enquanto o Jornal Nacional imediatamente passava a comandar a audiência entre os telejornais do horário nobre, o Repórter Esso, o porta-voz da multinacional americana revendedora de combustíveis, dava seus últimos suspiros, no último dia de 1970 . O seu desaparecimento representava o fim de um modelo dominante no telejornalismo do Brasil durante muitos anos, que se tornou célebre pelos slogans "O primeiro a dar as últimas" e " testemunha ocular da história", entoados por outro símbolo do programa, o apresentador Gontijo Teodoro [ESQUENAZI, 1993: 25].
Morre um estilo
"Crescer ou morrer. Esse o dilema que enfrenta o telejornalismo brasileiro. O Repórter Esso – com uma tradição de mais de 17 anos – vai acabar no próximo 31 de dezembro e muita gente acredita que, com ele, morrerá um estilo de noticiário televisionado que muito pouco evoluiu nos 20 anos de TV no Brasil: 15 a 20 minutos de programa em que o locutor – lendo notícias já divulgadas pelo rádio e até mesmo por jornais – ocupa mais o vídeo do que os curtos filmes de assuntos locais, sem muita importância, ou os velhos filmes de arquivo" (O Estado de S.Paulo, 8/11/70).
Mas, se no plano da forma, tudo ia bem no Jornal Nacional, êxito igual não se obtinha quanto ao conteúdo. A riqueza plástica não encontrava compatibilidade com o trabalho jornalístico. Com a ressalva de que se trata de uma tese "sem comprovação", mas que ainda "corre solta", o jornalista Boris Casoy disse que esse padrão estético-editorial dominante na TV brasileira "foi imprimido pela Rede Globo durante o regime militar, buscando substituir a ausência de substância no noticiário" [CASOY, 1997].
Durante a fase de censura mais aguda, o telejornalismo, sobretudo o praticado na Globo, líder de audiência, acabou se afastando da realidade brasileira. Despolitizada, a emissora encontrava nos programas de entretenimento o atalho para se aproximar afetivamente de sua audiência.
Omissão e lágrimas
"Os telejornais da Globo se mantiveram distantes dos grandes fatos políticos nacionais, levados aos jornais mesmo na época da rigorosa censura do governo Médici. Sobre política, a televisão foi omissa ou, como querem os produtores de seus noticiários, obrigada a ficar omissa, reservando os seus horários mais nobres para a lacrimosidade das telenovelas e o riso "non sense" de seus shows milionários" [MAIA, 1977].
Com tempo suficiente para dar apenas notícias de uma página de um diário impresso, o Jornal Nacional enfrentava outra dificuldade para aprimorar o seu conteúdo. A superficialidade no tratamento dos fatos impedia a prática de um jornalismo mais denso e crítico. Mas isso não era algo que preocupava a direção da Globo. O diretor-geral da empresa, Bonifácio Oliveira, Boni, dizia: "Quem espera conteúdo, opinião no jornalismo da televisão brasileira pode desistir que não vai ter tão cedo" [BONI, Apud. ALMEIDA FILHO, 1976: 28]. Perfeitamente afinado com esse pensamento, o editor de jornalismo da Globo, Luís Fernando Mercadante, afirmava tempos depois: "Lugar de conteúdo não é no telejornalismo. Telejornalismo, como eu compreendo, é superficial, impressionista, rapidíssimo e dá para as pessoas um blá-blá-blá" [ECA/USP, 1978].
Não como reflexo da censura, a superficialidade do noticiário explicava-se, assim, como resultado de uma diretriz editorial baseada na agilidade do estilo "manchetado", que se ajustava ao perfil da audiência do programa. Essa orientação continua a ser adotada até hoje pelo Jornal Nacional e noticiários de outras emissoras veiculados no horário-nobre da TV.
"Parece ser importante dar ao telespectador que volta para casa depois de um dia inteiro de trabalho, um panorama breve do que aconteceu de mais significativo naquele dia... Este resultado é obtido transmitindo-se somente mini-flashes das notícias selecionadas que para serem transmitidas devem obedecer a rigorosos critérios de clareza, rapidez e possibilidade de fácil absorção, de modo que se dê ao telespectador a ilusão de que foi "bem informado..." [PEREIRA & MIRANDA, 1983: 125].
Caem as mordaças
As mordaças que calavam a imprensa começaram a ser cuidadosamente retiradas no fim dos anos 70 e início da década de 80. A anistia política, a efervescência do sindicalismo eram sinais da política de "distensão"que o governo militar anunciava. Na TV Tupi, Fernando Barbosa Lima transformou o programa semanal Abertura em uma espécie de arauto desse novo tempo. Com um elenco numeroso de editores-apresentadores – Antônio Callado, Fausto Wolf, Ziraldo, Sérgio Cabral, Vilas Boas-Correa – , o programa abriu o microfone para os exilados que voltavam ao país – Luís Carlos Prestes, Leonel Brizola, Darci Ribeiro, entre outros. Tinha ainda como uma de suas principais atrações, o cineasta Gláuber Rocha a expressar, com veemência e mordacidade, uma nova concepção de tevê.
"Também em nível da própria linguagem televisiva, Abertura deu espaço às intervenções de Gláuber Rocha, que pulverizou a estética acrílica e falsa do padrão global. Uma câmera nervosa, inquieta e "suja", e uma atuação totalmente engajada, opinativa, "quente" a nível das reportagens e entrevistas – com esses recursos Gláuber mostrou, em especial a uma geração emergente de jovens realizadores, que era possível fazer boa TV, mal comportada" [ (PRIOLLI, 1985: 39].
Os ventos democratizantes e as inovações estéticas, no entanto, não ameaçavam a supremacia da telejornalismo da Globo. O tempo passava e o enorme índice de popularidade do Jornal Nacional mantinha-se inalterado graças à estratégica medida de inseri-lo entre as novelas das sete e das oito, os programas de maior audiência da televisão brasileira. Em 1979, o JN alcançava a prodigiosa marca de 79,9 por cento da audiência nacional, o que correspondia a 11.985 mil televisores e 59.925 mil telespectadores ligados no noticiário. (ÁVILA, 1982: 60)
Autocensura
Perplexos com a liberdade
Segundo Armando Nogueira, a liberalização política foi sensível a partir da segunda metade governo Geisel, entre 1977 e 1979, e a partir do governo do presidente João Batista Figueiredo o departamento de Jornalismo não recebeu mais nenhuma ordem da Censura. Desde então, admitia Nogueira, a única forma de controle era a censura interna exercida, muitas vezes, através de uma autocensura, dentro do telejornalismo da tevê Globo [CARVALHO, 1979-80].
À época, o editor de jornalismo da TV Globo, Woyle Guimarães, lamentava, a postura de estupefação e passividade adotada pelo próprio pessoal de televisão em relação ao fim da censura oficial: "Os anos de obscurantismo embotaram tanto os profissionais como os donos das empresas jornalísticas". Para ele, o telejornalismo estava "perplexo com a sua liberdade... uma batata-quente na mão do dono da empresa" e que, por isso, só se dispunha a abordar temas mais controversos quando, antes, o "poder central" se abria para eles [Apud. FERNANDES JÚNIOR: 5].
Depois de tantos anos acorrentada à censura, a Globo precisava a reaprender a prática de um jornalismo que superasse o limite do primor formal para conquistar a qualidade também no conteúdo. Esse tinha sido um dos prejuízos mais sensíveis que o longo período de restrições à liberdade de imprensa havia causado. A perfeição técnica que resultou no "padrão global" se refletia apenas na aparência, na embalagem das notícias. Muitos anos depois, Armando Nogueira relembrou a dimensão dos efeitos da ação da censura:
"Foi essa implacável marcação da ditadura que nos levou a esquecer a batalha do conteúdo para tentar descobrir os encantos da forma nesse veículo. Trabalhávamos em cima da técnica e da estética, deixando de lado, um pouco, a ética de fazer jornalismo" [NOGUEIRA, 1988: 82].
O estigma permanece
Embora livre da marcação severa da censura, a TV Globo não conseguia, porém, apagar o estigma de sua vinculação com o governo – ainda sob o controle dos militares. O noticiário dispensava um tratamento generoso às autoridades governamentais, enquanto, explicitamente, parecia ignorar qualquer iniciativa de políticos de oposição.
"Uma audiência com espírito crítico, ainda que não sistematizada, do Jornal Nacional permite que se percebam algumas técnicas através das quais o principal meio de da população brasileira passa uma imagem altamente positiva do regime e negativa das oposições. Qualquer notícia que possa ter aspectos favoráveis ao governo, por exemplo, é dada com grande ênfase e com entrevistas ministros competentes, se que se dê chance a líderes oposicionistas de contestarem, principalmente quando o assunto é econômico. Por outro lado, informações sobre aumentos de preços ou que possam ser recebidas com sentimentos negativos do público em relação ao governo são apenas registradas, quando são" [LINS DA SILVA,1981:51].
Por meio de uma análise sistemática de forma e conteúdo em seis edições do Jornal Nacional, em janeiro de 1982, o autor desta pesquisa verificou também que o programa favoreceu o governo, concedendo à oposição um espaço muito acanhado. Outras conclusão do estudo foi a de que o telejornal "privilegiou nitidamente as regiões ricas, tanto no noticiário nacional como no internacional, refletindo toda a ordem econômica a que se submete o Brasil nos planos interno e externo" [REZENDE, 1985: 153].
Espetáculo permanente
Mas a observação de maior realce que se extraiu do Jornal Nacional se referiu ao seu caráter de espetáculo, "tanto na forma de apresentação como no conteúdo", explícito na farta manifestação de "fait-divers" em suas "múltiplas aparências: a tragédia, o conflito, o personalismo, o pitoresco, o humor" [REZENDE, 1985]. Das três características evidenciadas, a espetacularidade permaneceu ativa com o mesmo grau de intensidade. Para comprová-lo, bastaria apenas fazer uma nova análise. Afinal, nenhum veículo de comunicação parece demonstrar mais afinidade com a emoção do que a TV.
Naqueles tempos, a Globo introduziu timidamente um tom um pouco mais crítico nos telejornais do final da noite. Apesar de se declarar pessoalmente a favor de um jornalismo mais isento, Nogueira considerava que o comentarista poderia ter uma posição "mais descontraída que o locutor" [CARVALHO, 1979-80: 38]. Mas ele sabia que era impossível uma mudança rápida, porque o período ditatorial havia impedido a formação de profissionais para o exercício do jornalismo opinativo.
Pouco a pouco, no entanto, alguns repórteres ganharam espaço no vídeo: Sérgio Mota Melo, Carlos Monforte, Antônio Britto, Glória Maria, Belisa Ribeiro, entre outros. Aumentou, por outro lado, a participação de comentaristas especializados – Paulo Francis, Marco Antônio Rocha, Enio Pesce, Joelmir Beting, Newton Carlos – que enriqueciam as informações com suas análises. Os jornalistas voltavam a ocupar um lugar de destaque nos noticiários não só como repórteres e comentaristas. Alternavam com os locutores consagrados – Cid Moreira, Sérgio Chapelin – a responsabilidade pela apresentação de telejornais – Celso Freitas, Leda Nagle, Marília Gabriela.
Paralelamente às experiências que ocorriam na técnica de apresentação, o noticiário repercutia a efervescência das mudanças políticas. Depois de anos a fio sem poder escolher o seu presidente, o povo brasileiro embarcou no sonho da campanha das "Diretas-já", conduzida por uma frente pluripartidária. Mas se o movimento encontrava ressonância no jornalismo impresso, colidia com "o silêncio das emissoras de televisão" que através de um "monopólio da informação jornalística no horário nobre", liderado pela Globo, teimavam em ignorar o clamor das multidões que lotavam as praças das grandes capitais brasileiras [MARQUES DE MELO, l984: 5].
Boicote ao país real
O comício da Praça da Sé, em São Paulo, em 25 de janeiro de 1984, espelhou muito bem esse boicote. Enquanto TV Cultura era a única a realizar a cobertura direta do comício (o que lhe valeu um aumento vertiginoso de audiência), pressionada pelo vigor popular e pela insatisfação de seus próprios funcionários, a Globo resolveu dar uma breve notícia sobre o fato pelo Jornal Nacional. Mesmo assim, referiu-se ao comício como se ele fizesse parte das comemorações do 430º aniversário da capital paulista e não tivesse qualquer conotação política. Apesar de distorcer o caráter do evento, a transmissão do flash, decidida em clima de tensão pelo presidente do grupo, Roberto Marinho, significou uma vitória contra a intransigência da Globo.
"Incidente marcante que determinou a liberação do acontecimento foi a mobilização dos próprios jornalistas da emissora desencantados e revoltados com a inobservância do princípio elementar da objetividade noticiosa que procura ser implementado por qualquer veículo jornalístico não partidário. Pressão igual emergiu dos próprios artistas vinculados contratualmente à emissora: cantores, atores e locutores, que aderiram pessoalmente à campanha pelas diretas e compareceram ao comício de São Paulo e aos de outras cidades brasileiras, numa demonstração saudável de sua independência política frente ao patrão (padrão) global" [MARQUES DE MELO,1984: 5-6].
A partir daquela data, até por razões mercadológicas, uma vez que o desconhecimento da campanha poderia ocasionar a perda de audiência e de faturamento, as emissoras de televisão mudaram de postura. Na véspera da votação, com o abrupto e efêmero ressurgimento da censura prévia à imprensa, garantido com a adoção de "medidas de emergência" pelo governo federal, a Globo soube ser criativa para burlar as proibições. Os locutores e jornalistas faziam alusão à emenda constitucional através das gravatas e outros adereços amarelos (cor que simbolizava as Diretas-já) e de gestos, expressões e comentários ambíguos na apresentação de notícias.
O Congresso não aprovou a emenda Dante de Oliveira e, o que era previsto pelo menos entre os políticos, o sonho da eleição direta para presidente foi adiado. A própria imprensa ajudou a incutir na consciência popular uma forma de sublimar o desgosto.
A Nova República
Meses depois, as praças foram tomadas de novo para apoiar a candidatura de Tancredo Neves na eleição indireta para presidente da república, via Colégio Eleitoral composto deputados federais e senadores. A festa da vitória de Tancredo celebrada pelas câmeras de TV durou pouco. Um dia antes da posse, Tancredo adoeceu e nos 37 dias de agonia até sua morte, dia 21 de abril, a tevê brasileira realizou talvez a mais intensa e extensa cobertura jornalística de sua história, com vários plantões ao vivo. A democracia voltava ao vídeo como espetáculo de festa, dor e esperança.
Denominação que se deu ao primeiro governo civil encabeçado depois de mais de vinte anos de regime militar, a Nova República se instaurava com a promessa de assegurar a liberdade de imprensa. Fê-lo apenas em parte, porque outros meios de controle foram utilizados como moeda política. Segundo Sônia Virgínia Moreira, o governo Sarney bateu todos os recordes ao distribuir 1.028 concessões, quase a metade dos canais outorgados durante toda a história da radiodifusão no Brasil [MOREIRA, 1995: 46].
A intervenção governamental chegou, porém, a tal nível de contundência que levou Armando Nogueira a admitir que sofreu "mais pressão na época da Nova República do que na época do regime militar". Nogueira lembra que enquanto os governos militares usavam a tevê "mais para não deixar noticiar certas coisas do que para noticiar outras tantas", na "disputa por quatro cinco anos de mandato, o Planalto exerceu sobre a TV Globo uma pressão sufocante", contando com "uma cumplicidade da alta direção da empresa" [Armando Nogueira In: VIEIRA, 1991: 91].
Era collorida
Ainda cúmplices
Rei morto, rei posto: a pressão parece não ter sido suficientemente constrangedora ao ponto de afastar a Globo de seu envolvimento com o Governo. Isso ficou logo demonstrado pela explícita cumplicidade da emissora durante a gestão de Fernando Collor na Presidência da República, no final dos anos 80.
Aliás, os efeitos da ligação do presidente Fernando Collor de Mello com a Globo se manifestaram antes mesmo da eleição presidencial. Mais precisamente por ocasião do último debate entre Collor e Lula, nas eleições de 1989.
Uma montagem considerada tendenciosa e prejudicial ao candidato Lula que o Jornal Nacional exibiu do debate foi o estopim de um desentendimento interno no Jornalismo da Rede Globo. O atrito resultou no afastamento de Armando Nogueira da direção geral do Telejornalismo da emissora e sua substituição por Alberico Souza Cruz, que exercia o cargo de diretor de telejornais da Rede Globo. Tempos depois, Nogueira relembrou que o clima de tensão se tornou perturbador a partir das duas semanas que antecederam a eleição e culminou com a edição distorcida do debate, feita sem seu conhecimento. Armando contou que a possibilidade de vitória do candidato do Partido dos Trabalhadores, Lula, precipitou uma reação dos partidários de Fernando Collor de Mello dentro do próprio setor de jornalismo da TV Globo.
"Todos os setores ligados à candidatura Collor passassem a desembarcar na TV Globo. A rigor, como a reação do Lula só ocorreu nos últimos 15 dias, eu só senti constrangimento nos últimos 15 dias, e sobretudo na antevéspera, com aquela famosa edição facciosa. Eu tinha tido o controle de uma edição do último debate, que foi a do jornal Hoje... e depois pedi que a mesma edição, muito bem feita, fosse ao ar também no Jornal Nacional. Me desliguei do assunto, mas fiquei sabendo depois que o Alberico Souza Cruz adulterou a primeira edição, à minha revelia, com o objetivo de ajudar o candidato Collor" [NOGUEIRA, In: VIEIRA, 1991: 90-91].
O debate Lula-Collor
Já no cargo de diretor da Central Globo de Jornalismo – CGJ, Alberico Souza Cruz negou ter participado da edição do debate divulgada pelo Jornal Nacional e refutou também a acusação de que houve "ingerência de ordem política" na Globo. Admitiu, porém, que julgou a edição do Jornal Nacional "correta do ponto de vista jornalístico", porque mostrava que tinha havido um debate e que "um ganhou e outro perdeu". Ainda segundo Alberico, o fato teve repercussão "porque procurava-se um bode expiatório e nós fomos escolhidos, mas ninguém falou nada quando o Lula ganhou o primeiro debate e nós editamos essa vitória com os mesmos critérios utilizados depois no segundo debate" [SOUZA CRUZ, In: VIEIRA, 1991: 64-65].
Independente da acalorada controvérsia que o episódio gerou, a Globo entrava na década de 90 sem libertar-se da pecha de ser um permanente aliado do poder dominante.
Um dos propósitos de Alberico Souza Cruz como novo diretor da CGJ era o de substituir progressivamente o "jornalismo de estúdio" por um "jornalismo de rua" [IMPRENSA, 1995: 44]. Ao estimular a cobertura externa, se preciso "ao vivo", ele pretendia mudar um comportamento que até então, segundo ele, prejudicava a produção jornalística da emissora.
"A televisão tem de ser instantânea, tem de refletir o fato no momento em que ele estiver acontecendo...Aqui na Globo havia sempre o medo de que numa cobertura, algo pudesse dar errado na telinha, havia até uma norma : se houver uma hipótese de dar errado não vamos tentar. Eu inverti isso: se houver uma chance de dar certo nós vamos tentar" [SOUZA CRUZ Apud. IMPRENSA, 1995: 43].
Jornalistas no comando
Ter voz não é tudo
Enquanto a Globo passava por essa mudança, o telejornalismo brasileiro ganhava, enfim, uma proposta nova, através do Telejornal Brasil, noticiário do SBT. O êxito de Boris Casoy no Tj Brasil, como âncora, indicava a emergência de um novo modelo de telejornalismo, centrado na valorização do trabalho do jornalista como apresentador de notícias. Foi o próprio Casoy quem assinalou a evidência desta característica:
"O que acontece é que a fase dos grandes locutores está acabando. Não temos mais a escola das grandes vozes, de onde surgiu alguém como Cid Moreira e vai ser muito difícil ter apresentadores do porte e do brilho do Cid de agora em diante. Os jornalistas-apresentadores naturalmente irão ocupar os lugares disponíveis. Serão mais fracos na locução, mas irão reforçar a parte jornalística" [CASOY Apud.TRAMONTINA, 1996: 79].
O exemplo bem sucedido TJ Brasil e do Jornal da Record – para onde, em 1997, Casoy transplantou praticamente sem retoques o modelo de telejornalismo –, observou-se uma crescente presença de jornalistas na apresentação de telejornais como um indício da busca de credibilidade. Ao avaliar essa tendência, Armando Nogueira descartou a hipótese de que decorresse necessariamente de um movimento de revalorização da palavra no telejornalismo brasileiro. Ele entende que a boa qualidade de um texto depende mesmo do nível de competência dos profissionais encarregados da redação das notícias, que geralmente exercem suas funções apenas nos bastidores das emissoras.
"Essa mudança no critério de apresentação, quer dizer essa busca, ela é muito mais uma busca da credibilidade do que da qualidade do texto que vai pro ar. Porque mesmo quando você usa narradores, locutores, ‘speakers’ para usar uma palavra bem antiga, desde que você tenha, na retaguarda uma equipe de bons redatores, ele, ao ler a notícia – uma notícia bem escrita, escrita com bom gosto – ela terá o mesmo efeito que ela teria lida por um apresentador jornalista. O que ele não tem – o narrador, o ‘speaker’ – é a credibilidade que aquele jornalista de renome confere à informação que ele ‘tá’ passando. O importante na presença do jornalista do jornalista como apresentador de um telejornal é reforçar a credibilidade do apresentador e, por conseqüência, a credibilidade do telejornal" [NOGUEIRA, 1997].
A era Evandro
Ao substituir Alberico Souza Cruz na direção da Central Globo de Jornalismo, em julho de 1995, Evandro Carlos de Andrade logo imprimiu mudanças substanciais em sua área. As mudanças transcenderam a mera troca de apresentadores dos telejornais e se refletiram no próprio perfil editorial de cada programa.
A mudança a que indiretamente Armando Nogueira se referia acontecera no Jornal Nacional. No dia 29 de março de 1996, a Central Globo de Jornalismo, já sob o comando de Evandro Carlos de Andrade, promoveu a substituição de dois apresentadores símbolos do programa – Cid Moreira e Sérgio Chapelin. Os lugares foram ocupados, a partir do dia 1º de abril, por dois jornalistas da emissora, William Bonner e Lílian Witte Fibe. As modificações, na realidade, abrangiam todos os programas jornalísticos da TV Globo e não se limitavam à troca de apresentadores.
Conforme Evandro Carlos de Andrade, a substituição de apresentadores e de cenários apenas tornavam mais explícitas as transformações que já vinham sendo feitas no Jornal Nacional:
"Fisicamente tornaram-se mais evidentes as modificações que, em substância, já tinham sido tomadas na qualidade de nossa cobertura. O jornalismo praticado não muda com os novos apresentadores" [CAMPOS, 1996: 6].
Bonner & Witte Fibe
Para alguns, contrariando o resultado de pesquisas de opinião, Andrade resolveu escalar William Bonner e Lílian Witte Fibe no lugar de Cid Moreira e Sérgio Chapelin, a consagrada dupla de locutores do Jornal Nacional. Segundo pesquisa do Datafolha, realizada em 1995, 88% dos paulistanos eram favoráveis à permanência de Cid Moreira no JN [FOLHA DE S.PAULO, TVFolha, 1996: 7].
Ao comentar a troca de mestre de cerimônias do JN, a crítica de TV da Folha de S.Paulo, Esther Hamburger, exaltou a figura dos dois apresentadores, sobretudo Cid Moreira, cujas imagens públicas acabaram confundindo-se com a do próprio telejornal.
"Há quem diga que o telejornal deveria mudar também de nome. Cid Moreira apresenta o "Jornal Nacional" desde a primeira edição no dia 1o de setembro de 1969. Ajudou o sucesso da emissora e viveu os tempos áureos do maior campeão de audiência. Sua imagem talvez não represente o que pode haver de mais televisivo. É quase que um signo vazio. É possível que daí venha muito de sua força. Seus cabelos prateados, brilham combinando com o azul infinito do cenário. De tão estável em seu posto de apresentador do primeiro telejornal nacional, suja figura perdeu a materialidade carnal e adquiriu a materialidade eletrônica dos raios catódicos que recompõem a imagem no final do processo físico da telecomunicação. Com o tempo, contagiou Sérgio Chapelin. Se tornaram parecidos. Sua presença sinalizava que estava no ar uma comunidade imaginária, que perde agora sua referência mais familiar" [HAMBURGER, 1996: 4 - 4].
A Cid, os editoriais
Em face dos apelos afetivos que a perda da referência familiar de Cid Moreira poderia causar, as mudanças no Jornal Nacional se deram sem grande alarde e nenhum trauma aparente, porque foram implementadas cuidadosamente. Preocupada em evitar possíveis prejuízos junto a audiência com o afastamento dos dois locutores, a TV Globo manteve Sérgio Chapelin no Globo Repórter e conferiu a Cid Moreira a honrosa função de apresentar os editoriais do Jornal Nacional.
As mudanças, no entanto, tinham um significado mais profundo, fundando-se em razões editoriais. Representavam, de certa forma, o fim da era dos locutores e a valorização da presença dos jornalistas na busca para assegurar maior credibilidade ao noticiário. Essa intenção ficou explícita na declaração do próprio Evandro Carlos de Andrade: "Bonner será o editor de assuntos nacionais e Lílian editora de assuntos econômicos" [GRILLO, 1996:7].
Mais de um ano depois da reformulação editorial, o diretor da Central Globo de Jornalismo explicava que performance se esperava dos jornalistas-apresentadores do Jornal Nacional.
"Nós queremos que os apresentadores respondam o máximo possível sobre os textos que lêem, buscando a linguagem mais natural para eles, sem perda do ritmo. Porque a velocidade está ali, cronometrada e é medida rigorosamente. Nossa medida é o segundo. A programação é nosso cliente e nós somos fornecedores" [Evandro Carlos de Andrade Apud. PADIGLIONE, 1997: 5:1].
O povo é quem manda
Nessa matéria, Andrade reitera a concepção de que o telejornal deve valer "por uma primeira página", onde caibam as notícias na meia hora em que, segundo o diretor da Central Globo de Jornalismo, o povo quer que dure o Jornal Nacional.
A rapidez do noticiário está, de fato, sempre presente nos cinco blocos do JN, não importando qual o formato da matéria jornalística divulgada. As palavras de Joelmir Beting sobre seu trabalho de comentarista ilustram perfeitamente essa prática.
"O comentarista do JN tem que seguir o pique do jornal. Manter o ritmo da fala e não baixar o tom de voz, senão dá um branco meio esquisito no Jornal, uma espécie de janela no noticiário" [BETING Apud. TRAMONTINA, 1996: 106].
Em matéria publicada no jornal O Estado de S.Paulo, o crítico de TV Eugênio Bucci saudou com ressalvas as mudanças no Jornal Nacional. Bucci reconheceu "até com empolgação, que o Jornal Nacional ganhou movimento , rapidez e juventude"e que os temas iam e vinham "numa ciranda mais animada" [BUCCI, 1996]. Apesar disso, o crítico destacou que no essencial, o telejornal parecia não ter mudado, sobretudo quanto à sua estrutura melodramática, com direito ao infalível happy end, e ao "governismo", que ficou "menos solícito, menos oferecido, mais privatista e mais a favor da reeleição" (do presidente Fernando Henrique Cardoso) [BUCCI, 1996].
A audiência cai
Meses depois, começou a registrar-se uma progressiva queda nos índices de audiência do Jornal Nacional. O que poderia ser encarado como um prejuízo causado pelas alterações introduzidas no programa, representava um fenômeno mundial gerado pelas inúmeras alternativas de entretenimento e de informação que as novas tecnologias de comunicação propiciam. Ao examinar o caso particular do Jornal Nacional, Bucci vislumbra, otimista, perspectivas positivas para o telejornalismo brasileiro. Ele lembra que fora o fator das novelas mexicanas, exibidas no horário do telejornal,
"... o que vem tirando pontos da Globo é a modernidade e a democracia. Vai longe o tempo dos governos militares, quando o Jornal Nacional era uma Voz do Brasil com imagens. Hoje o público já não mora dentro de um curral eletrônico. Quer e pode variar. Já era hora. Pretender um telejornal com eternos 70 pontos é pretender o monopólio ou o totalitarismo... De resto, 35 pontos não são nenhuma vergonha e mantê-los não é fácil. A Globo, que já deu uma melhorada no seu jornalismo do ano passado para cá, talvez devesse agora torná-lo mais crítico. Cairia muito bem para quem já não é a emissora única do Brasil" [BUCCI, "Despencada Saudável", 1997: 18].
Outra vozes insuspeitas se levantaram não simplesmente para sair em defesa do Jornal Nacional, mas para exaltar as virtudes do programa em sua nova fase. Em comentário via internet, Alberto Dines golpeou a "hipocrisia e desfaçatez" dos que julgam que as mazelas da imprensa brasileira estejam "localizadas apenas na Vênus Platinada" [DINES, 1997]. Segundo Dines, "dessa forma, endeusa-se tudo que é anti-Marinho – das novelas mexicanas aos perdigotos fascistóides despejados por Bóris Casoy" [DINES, 1997]. Após enfatizar que a queda de audiência do Jornal Nacional de 50 para 30 pontos inseria-se "na trajetória previsível das redes abertas de televisão", o editor do Observatório da Imprensa enalteceu as mudanças jornalísticas na TV Globo.
"Acontece que o telejornalismo da Globo hoje atravessa a melhor fase da sua história (desde a abertura democrática). O Padrão Global de Qualidade Jornalística (se é que existe) embora ainda esteja longe de satisfazer as novas necessidades de contextualização e continuidade, está no caminho certo para lá chegar. Matérias mais longas, mais esclarecimentos, mais reportagens (em lugar da controvérsia apenas), mais serviço público, mais defesa do consumidor, mais internacional, mais densidade, mais crítica... A verdade é que o Jornal Nacional mudou para melhor. Se, com isto, desfez-se daqueles telespectadores que não sabem onde fica a Bósnia e de Ruanda só querem as imagens macabras, é problema dos que apostam na desinformação" [DINES, 1997].
O caso Diadema
No primeiro dia de abril de 1997, um fato tornou-se emblemático da nova linha editorial do Jornal Nacional: a reportagem do jornalista Marcelo Rezende sobre a truculência policial em Diadema, na Grande São Paulo. A notícia baseava-se em gravação em vídeo da pancadaria feita por um anônimo cinegrafista amador. Além do horror das cenas, as imagens quebravam toda a rigorosa assepsia visual estabelecida, durante anos, pelo padrão global de qualidade. O valor jornalístico impunha-se à concepção de notícia-espetáculo. Foi um acontecimento estrondoso que despertou incontáveis análises.
O cineasta e cronista Arnaldo Jabor, em matéria na Folha de S.Paulo, comparou a reportagem a uma produção cinematográfica, afirmando, entre irônico e admirado, que se tratava "do melhor filme brasileiro dos últimos tempos". Ressaltou que a gravação não tinha diálogos , estúdios e nem os efeitos especiais dos filmes norte-americanos, "só uma locação suja e pobre, atores desconhecidos". Acentuou ainda que a produção barata era uma realização popular" [JABOR, 1997: 4-8].
No meio do longo comentário, a ironia, no entanto, transforma-se em análise objetiva do fato, onde Jabor indica claramente as razões para a consagração que a cobertura alcançou.
"‘Diadema Nunca Mais’ aborda um tema atualíssimo, mas sem os costumeiros políticos por uma mensagem "positiva"; limita-se a expor o conflito entre excluídos sem farda e excluídos disfarçados de homens da lei, num buraco de inferno, um capo de lama perdido (permitam-me) lá no cu do Judas" [JABOR, 1997: 4-8].
A vida como ela é
O mérito do Jornal Nacional no caso Diadema mereceu também destaque nas observações do professor José Marques de Melo, para quem a cobertura, por sua inusitada operação da técnica jornalística, parecia inspirar-se no modelo ficcional, "contando uma história ao estilo rodrigueano: a vida como ela é."
"Durante uma semana o Brasil viveu sob o impacto das imagens de Diadema, exibindo evidências da violência policial junto às camadas empobrecidas da nossa população. Para os cidadãos que vivem nas periferias das grandes metrópoles elas não surpreenderam. Era como se a telinha funcionasse como espelho do seu cotidiano, retratando situações que eles próprios já haviam presenciado ou conhecido por narrativas de terceiros" [MARQUES DE MELO, 1997].
Ao acentuar que a população brasileira, cansada dos "discursos jornalísticos historicamente defasados", procura refúgio "no mundo ficcional mas verossímil das telenovelas", Melo descreveu assim a reação da Globo à queda dos índices de audiência.
"Mais rápida e eficiente que os seus competidores, ela demonstra sinais de vitalidade. Abandona o estigma de emissora oficialista e acerta o passo com os anseios da sociedade civil. Como aliás, já vinha fazendo no mundo dos sonhos (ou melhor das telenovelas e minisséries)" [MARQUES DE MELO, 1997].
Elogios gerais
Com o nome inscrito na história do telejornalismo brasileiro pelo seu trabalho como diretor de jornalismo do A Hora da Notícia, telejornal da TV Cultura que na década de 70 abria os microfones para o depoimento popular, Fernando Pacheco Jordão foi outra voz insuspeita a saudar as transformações do Jornal Nacional, marcadas pelo reportagem de Diadema. Numa linha coerente com o seu passado jornalístico, Jordão salientou a presença do cidadão como protagonista das notícias e não um mero espectador de sua história.
"Na edição de 1º de abril, num dia que todo o mundo oficial, federal e estadual se pronunciou, o JN abriu não com a palavras dos políticos ou dos experts, mas como a do cidadão, ouvido nas ruas e nas mensagens recebidas na redação da Globo, via fax e e-mail. Usou-a como pontuação dramática ao longo do programa, sublinhando-a com efeitos sonoros. E mais importante que tudo -, destacou a responsabilidade do governo do Estado pela ação criminosa de sua PM, mas apontou para algo a que o país ainda não está habituado: a possibilidade e a necessidade de ação da cidadania" [JORDÃO, 1997].
O pique do JN segue, por sua vez, o ritmo de toda a programação da Rede Globo. O toma-lá-dá-cá corre num timing de uma agilidade impressionante para oferecer o maior número de notícias no menor tempo possível. A ordem é não desperdiçar nenhum segundo, para não perder o vínculo com o telespectador.
Notícias curtas, por favor
E conforme pesquisas que a Globo faz regularmente, o telespectador brasileiro "gosta de noticiários em linguagem simples, com apresentadores fixos e baseados principalmente em reportagens de serviço, comportamento, saúde, meio ambiente, além de ciência e tecnologia" [CAMACHO, SANCHES e LEITE, 1998: 70]. A partir ainda de consultas sistemáticas feitas pelo instituto Soma, de Brasília, a direção de telejornalismo da Globo constatou que o público quer mesmo que os telejornais, especialmente o Jornal Nacional, prefere "notícias curtas, máximo de meia hora de duração e divisão baseada em blocos que começam com notícias de impacto e terminam com assuntos leves" [CAMACHO, SANCHES e LEITE, 1998: 70].
Parece que de novo vem aquela pergunta sem resposta. Quem nasceu primeiro: o modelo de telejornalismo que a Globo consagrou ou os atributos que o público nomeia para caracterizar o telejornal de seu gosto? É mais provável que, após anos e anos de experiência. os telespectadores cheguem mesmo a confundir suas preferências com o estilo editorial do noticiário.
Na Globo, as dificuldades eram de outra natureza. Em fevereiro de 1998, Lílian Witte Fibe deixou o JN por causa do seu baixo grau de empatia junto à audiência e sua insatisfação com a linha editorial do telejornal, mais afeita à uma concepção amena de jornalismo[CAMACHO, SANCHES e LEITE, 1998: 79-80].
Na obstinada busca de audiência, o JN escalou a dupla de apresentadores preferida pelo Ibope, o casal William Bonner e Fátima Bernardes. Trocou também notícias mais relevantes por "reportagens lacrimosas, curiosidades do mundo animal, ou intermináveis inventários sobre a vida de celebridades" [VEJA, 1998].
A casa é dos artistas
A nova política editorial frutificou rapidamente: 1) em 28 de julho, o nascimento da filha da apresentadora Xuxa teve uma cobertura duas vezes maior do que a privatização da Telebrás; 2) em 17 de agosto, o assalto ao ator Gérson Brenner ganhou um destaque seis vezes maior do que a declaração de moratória da Rússia; 3) em 16 de setembro, o acidente com o ator Danton Melo ocupou um tempo dez vezes maior do que a matéria sobre cortes do orçamento do governo brasileiro.
No mesmo diapasão crítico, o ex-editor do Jornal da Band, Paulo Henrique Amorim, afirmou que "O Jornal Nacional se transformou em mais um produto da linha de entretenimento da Globo"e "que não há mais notícias ali" [VEJA, 1998, "Show de Variedades das 8", 30/9/98, p: 48]. Meses atrás, em entrevista à revista Imprensa, ao comparar o JN com um Fantástico diário (programa de variedades exibido pela Rede Globo aos domingos), Amorim comentou que o Jornal Nacional "cada vez mais incorporou o papel de ser um trânsito entre novelas" [IMPRENSA, 1998, Entrevista – Paulo Henrique Amorim: 32].
No aniversário de 30 anos do Jornal Nacional, no dia 1o de setembro, Paulo Henrique Amorim reiterou suas críticas ao afirmar que "o noticiário nem é percebido como telejornal", porque "tem compromisso com o entretenimento, não com o jornalismo" [Apud. BARROS E SILVA, 1999: p.4-1]..
Na mira, só barnabé
Nessa matéria da Folha de S.Paulo sobre o aniversário do JN, o crítico de TV, Fernando de Barros e Silva, reconhece que o telejornal vem mudando nos últimos dez anos e pouco tem daquele "que funcionou como porta-voz ‘oficioso’ do regime militar" [Id.Ibid.]. Ressalvou, porém que, embora o JN tenha adquirido "mais ímpeto investigativo, suas denúncias (contra a violência policial, os remédios falsificados, a corrupção no futebol, entre outras) nunca "visam o topo da política", mas "as estruturas anônimas e subalternas da administração pública" [Id. Ibid.].
Apesar de rejeitar a crítica ao perfil "espetaculoso" do Jornal Nacional ("Discordo de que a ênfase atual do JN seja para o fait-divers"), o editor e apresentador do programa, William Bonner, admite a despolitização do telejornal como "conseqüência direta da despolitização da sociedade" [BONNER , Apud. BARROS E SILVA, 1999].
E aí surge de novo a metáfora do ovo e da galinha: o que vem primeiro, a despolitização da sociedade ou a despolitização do Jornal Nacional, a principal, quando não a única, referência informativa para a maioria dos brasileiros?
Já sem ser tão ostensivamente governista, o JN, contudo, não só manteve, como intensificou sua tendência de espetacularização da notícia. E talvez por causa dessa fórmula tão bem sucedida de combinar realidade e ficção, em setembro de 1998, só em São Paulo, o JN atraía diariamente um público de 3 milhões e duzentos mil telespectadores, correspondentes a 40 pontos no Ibope [FOLHA DE S.PAULO, 1998, TVfolha, IBOPE – Os programas mais vistos em SP de 31/8 a 6/9/98: p. 2].
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(*) Doutor em Teoria e Ensino da Comunicação pela Universidade Metodista de São Paulo, com tese sobre o tema "Perfil Editorial do Telejornalismo Brasileiro"; e professor do Departamento de Letras, Artes e Cultura da Fundação de Ensino Superior de São João Del Rei – FUNREI.
URUGUAI
Mídia e contexto histórico
Eugênio Viola (*)
"Nós, uruguaios, temos uma certa tendência a acreditar que o país existe, mas que o mundo não toma conhecimento disso. Os grandes meios de comunicação, os que têm influência universal, jamais mencionam esta nação pequena e perdida no Sul do mapa."
Esta frase de um dos maiores intelectuais latino-americanos, o escritor Eduardo Galeano, dá bem a dimensão da humildade e autoconsciência de um povo que hoje dá mais um salto histórico, sem estardalhaços e, quiçá, só acompanhado devidamente pela mídia dos países fronteiriços, com ênfase para os que hoje formam o Mercosul.
Os meios de comunicação brasileiros, principalmente os jornais, deram ampla cobertura ao primeiro turno das eleições presidenciais uruguaias de 31 de outubro, no qual saiu vitorioso o ex-prefeito de Montevidéu, Tabaré Vásquez, encerrando um século e meio de alternância no poder entre Colorados e Blancos. O Jornal do Brasil foi sem dúvida o que melhor situou o momento histórico vivido pelos uruguaios. Na edição do dia 31 (domingo), sob o título "Entre o continuísmo e a ousadia", o enviado especial Marcelo Ninio traçou um panorama completo da silenciosa revolução que lá se opera, quinze anos depois de uma das mais violentas ditaduras militares em nosso continente. Mas as emissoras de TV aberta preferiram recorrer às chamadas "notas cobertas", ou seja, às imagens de agências internacionais com textos feitos na própria redação. É difícil acompanhar todos os telejornais de todas as emissoras, mas, os que vi, assim agiram. A cobertura das eleições na Argentina mereceu destaque muito maior, obviamente pela importância econômica daquele país.
Poucas foram as reportagens e artigos, porém, a observar que tanto na Argentina quanto no Uruguai e no Chile (que tem também um candidato da esquerda bem posicionado para as eleições de dezembro), o que ocorre é o fim de um ciclo político e econômico. O fim do neoliberalismo, determinado no governo Tatcher nos anos 80, exportado para grande parte do planeta nos anos 90 e que tanto estrago vem causando no Cone Sul de nosso continente.
Pouco espaço foi dado pela mídia, no final de 1992, quando os uruguaios foram consultados, por meio de um plebiscito, sobre a privatização dos serviços públicos. Setenta e dois por cento disseram "não". Foi talvez o primeiro passo para chegar ao novo modelo que agora se anuncia com a virtual vitória do candidato da Frente Ampla no segundo turno.
Em reportagem publicada em O Globo, o repórter Ascânio Seleme diz que "do ponto de vista político, as autoridades brasileiras não acreditam estar em curso na região uma mudança de ambiente político capaz de influenciar o eleitorado brasileiro". Como poderia isso se dar se o que vemos nas últimas décadas é exatamente o contrário, ou seja, para onde um desses países da região vai os outros vão juntos? Ainda mais em tempos de Mercosul.
Império do medo
O país onde vivi no início dos anos 80 pouco tinha a ver com a então conhecida Suíça da América Latina. Era negro y gris. De cada seis uruguaios, um estava no exterior, sufocado pelas condições políticas. De cada cem uruguaios, um conheceu de perto o cárcere ou a tortura. Num país de pouco mais de 3 milhões de habitantes, 20 mil chegaram a ter algum tipo de ligação com os Tupamaros, numa contestação à ditadura militar incomparável à dos países vizinhos. Aos olhos do mundo, os Tupamaros só ganharam espaço na mídia no decorrer do episódio do seqüestro e morte de Dan Mitrione, o policial norte-americano para lá enviado (com um longo histórico também no Brasil) a fim de ensinar aos agentes repressores as mais modernas e cruéis técnicas de tortura a presos políticos.
No país onde vivi, periodista estrangeiro era visto como uma ameaça permanente: a qualquer momento poderia denunciar os desmandos dos ensandecidos militares. Não foram poucas as vezes em que fui parado na rua e, ao mostrar os documentos, a primeira pergunta que faziam era se estava a serviço ou a passeio, numa atitude sempre truculenta. Poucas matérias consegui enviar e publicar aqui. Lembro-me de quatro longas entrevistas: uma com um famoso radialista, Alfredo Percovitch (já falecido), da rádio CX 30; outra com Alejandro Paternain, articulista do El Día; com o então líder da Democracia-Cristã, Juan Pablo Terra; e com o vigário-geral de Montevidéu, Ponce de León. Todas recheadas de metáforas e palavras cuidadosamente medidas. O medo imperava. A censura era institucional e sem margem a contestações. O terror de "Punta Rieles" e "Libertad", os principais presídios de Montevidéu, martirizava a mente de cada jornalista, de cada cidadão.
Os tempos mudaram. E muito. Anos depois de ser discutida na Europa, parece que a terceira via chega às nossas portas. Um fato que grande parte da mídia deixou de lado.
(*) Diretor do programa Observatório da Imprensa na TV
ASPAS
Eduardo Galeano
"Nós, uruguaios, temos certa tendência a crer que nosso país existe, mas o mundo não sabe. Os grandes meios de comunicação, os que têm influência universal, jamais mencionam esta nação pequenina e perdida no Sul do mapa.
Numa exceção, há alguns meses, a imprensa britânica se ocupou de nós, nas vésperas da visita do príncipe Charles. Então, o prestigiado jornal The Times informou a seus leitores que a lei uruguaia autoriza o marido traído a cortar o nariz da esposa infiel e castrar o amante. O The Times atribuiu à nossa vida conjugal esses maus costumes das tropas coloniais britânicas: agradecemos a gentileza, mas a verdade é que não descemos tão baixo. Este país bárbaro, que aboliu os castigos corporais nas escolas 120 anos antes que a Grã-Bretanha, não é o que parece quando olhado de cima e de longe. Se os jornalistas descessem do avião, poderiam ter algumas surpresas.
Nós, uruguaios, somos pouquinhos, nada mais que 3 milhões. Cabemos todos num só bairro de qualquer das grandes cidades do mundo. Três milhões de anarquistas conservadores: não gostamos que ninguém mande em nós e custa-nos mudar. Quando nos decidimos a mudar, a coisa é séria. Agora sopram no país bons ventos de mudança. Já é hora de deixarmos de ser testemunhas de nossas próprias desgraças. O Uruguai perdeu muito tempo estacionado em sua própria decadência, desde a época em que supunhamos estar na vanguarda de tudo. Os protagonistas se tornaram espectadores. Três milhões de ideólogos políticos, e a política prática em mãos dos politiqueiros que tornaram os direitos dos cidadãos favores do poder; 3 milhões de técnicos de futebol, e o futebol uruguaio vivendo da nostalgia; 3 milhões de críticos de cinema, e o cinema nacional não passou de uma esperança.
O país que vive em perpétua contradição com o país que foi. A jornada de trabalho de oito horas foi imposta por lei, no Uruguai, um ano antes que nos Estados Unidos e quatro anos antes que na França: mas hoje em dia encontrar um trabalho é um milagre, e milagre maior é encher as panelas trabalhando nada mais que oito horas; só Jesus poderia se fosse uruguaio e se fosse capaz de multiplicar os pães e os peixes.
O Uruguai teve lei de divórcio 70 anos antes da Espanha e voto feminino 14 anos antes da França; mas a realidade continua tratando as mulheres pior que os tangos, e elas brilham por sua ausência de poder político, umas poucas ilhas femininas em um mar de machos.
O sistema de poder, um sistema cansado e estéril, não apenas trai sua própria memória, além disso, sobrevive em contradição perpétua com a realidade nacional. O país depende do campo, das vendas de carne, couro, lã e arroz ao exterior, mas o campo está em mãos de poucos. Esses poucos, que pregam as virtudes da família cristã, expulsam os peões que se casam e maltratam a pouquíssima gente que trabalha em suas imensas propriedades livres com a graça de Deus. Os médios e pequenos produtores recebem um peso por cada produto que vale dez, e acabam abandonando a produção para tentar a sorte em Montevidéu. A capital do país, centro do poder burocrático, congrega a metade da população nacional.
Há cada vez mais pessoas que vivem recolhendo lixo; e, no ritmo em que vamos, os produtores rurais caberão todos juntos num estádio de futebol, e vai sobrar espaço. Mas o Uruguai tem mais terra cultivável que o Japão e uma população 40 vezes menor. Aqui, quem quer terra para trabalhar recebe uma porta na cara; e quem consegue alguma terrinha, depende dos créditos que os bancos outorgam sempre a quem tem, jamais a quem necessita.
Em matéria de contradições entre o poder e a realidade, ganhamos os campeonatos mundiais que o futebol nos nega. No mapa, rodeado por seus grandes vizinhos, o Uruguai parece um anão. Nem tanto. Temos cinco vezes mais terra que a Holanda e cinco vezes menos habitantes. Contudo, são muitos os uruguaios que emigram, porque aqui não encontram seu lugar sob o sol. Uma população escassa e envelhecida: poucas crianças nascem, nas ruas se vêem mais cadeiras de rodas que carrinhos de bebês. Quando essas poucas crianças crescem, o país as expulsa. Exportamos jovens. Há uruguaios até no Alasca e no Havaí. Há vinte e tantos anos, a ditadura militar mandou muita gente para o exílio. Em plena democracia, a economia condena ao desterro muito mais gente. A economia é manejada por banqueiros, que praticam o socialismo socializando suas fraudulentas bancarrotas e praticam capitalismo oferecendo um país de serviços. Para entrar pela porta de serviço no mercado mundial, reduzem-nos a um santuário financeiro com sigilo bancário, quatro vacas atrás e vista para o mar. Nesta economia, o povo sobra, por pouco que seja.
Modéstia à parte, deve-se dizer tudo, também por bons motivos mereceríamos figurar no Guinness. Durante a ditadura militar, não houve no Uruguai um só intelectual importante, nem cientista relevante, nem artista representativo, nem um, disposto a aplaudir os mandões. E nos tempos atuais, já na democracia, o Uruguai foi o único país no mundo que derrotou as privatizações em consulta popular, no plebiscito do final de 1992, 72% dos uruguaios decidiram que os serviços públicos essenciais continuarão sendo públicos. A notícia não mereceu uma linha da imprensa mundial, ainda que fosse uma insólita prova de senso comum. A experiência de outros países latino-americanos nos ensina que as privatizações podem engordar as contas privadas de alguns políticos, como ocorreu na Argentina, no Brasil, Chile e México nos últimos dez anos; e as privatizações humilham, a preço de banana, a soberania.
O habitual silêncio dos grandes meios de comunicação evitou qualquer possibilidade mínima de que o plebiscito propagasse seu exemplo para fora das fronteiras. Mas, fronteiras adentro, aquele ato coletivo de afirmação nacional contra a corrente, aquele sacrilégio contra a ditadura universal do dinheiro, anunciou que estava viva a energia de dignidade que o terror militar quis aniquilar.
Valham estas linhas, se de algo valem, como fundamento de voto pelo Encontro Progressista. Oxalá as urnas confirmem, nestas eleições de 31 de outubro, a vocação respondona deste país paradoxal, onde eu nasci e voltaria a nascer."
"Uma contradição chamada Uruguai", copyright Gazeta Mercantil, 28/10/99

Jornal Nacional
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