MONITOR DA IMPRENSA


MOÇAMBIQUE
Os sons do silêncio (*)

Rui Paulo da Cruz

Os especialistas começaram a divulgar aquilo que descobriram em Montepuez. E o que ouvimos corresponde ao horror mais completo. A cela da prisão tem 7 metros por 3 metros. Portanto, 21 metros quadrados. Nessa cela foram colocadas 94 pessoas. Se fizermos uma rápida conta, temos mais de 4 pessoas por metro quadrado. Se o leitor fizer um quadrado no chão, com um metro de lado, e colocar lá quatro pessoas em cima percebe como estavam os
desgraçados presos na cadeia de Montepuez. Durante 24 horas por dia, muito provavelmente, ao longo de não sabemos quantos dias. As manifestações foram no dia 9 e a notícia desta morte colectiva chegou a 23. De quantos dias terá sido a agonia daquelas pessoas? Janelas havia duas, de 30 cm por 75 cm, isto é, muito mais pequenas do que uma vulgar janela de casa. E, apesar disso, um das janelas estava parcialmente fechada. Dos mortos autopsiados poucos mostravam ter sido alimentados."

Quase uma centena de cadaveres numa pequena cela de uma prisão moçambicana quase não foi notícia em Portugal. E não foi notícia em parte nenhuma do Mundo.

Mais grave: alguns jornalistas portugueses e jornalistas moçambicanos ao serviço de órgãos de informação dependentes do governo de Portugal apressaram-se a justificar as mortes como «acidente por asfixia». Um médico legista moçambicano foi ouvido a dizer que não havia vestígios de maus tratos.

Mais espaço foi dado ao assassinato de Carlos Cardoso, em Maputo. Um jornalista moçambicano empenhado em descobrir e revelar verdades incómodas.

Carlos Cardoso tinha nome em Moçambique e até em Portugal. Os noventa e quatro homens mortos na cela de Montepuez ninguém sabe quem são, a não ser as famílias que os choram, no silêncio cúmplice do Mundo. O Mundo sabe vagamente onde fica Maputo, quem sabe onde fica Montepuez?

São dois casos de assassinato. Na proporção de um para cem. Ninguém sabe ao certo quem matou Carlos Cardoso, embora se presuma quem mandou matar. Sabe-se perfeitamente quem condenou à morte, por asfixia, quase cem presos políticos moçambicanos.

O que se está a passar em Moçambique, de Maputo a Montepuez, perante a indiferença do Mundo é pura barbárie. Uma barbárie estranhamente consentida.

PS: Não sei quantos terão reparado que aquilo que ocupa os noticiários internacionais há quase um mês, a recontagem de votos no estado da Florida, é exactamente o mesmo que Afonso Dhlakama e a Renamo exigiram nas eleições moçambicanas de há um ano atrás. A diferença está na natureza dos tribunais e na reacção da «comunidade internacional». Porque é que os democratas moçambicanos não têm direito a ver recontados os votos de uma eleição duvidosa e os americanos têm.

(* ) Copyright DiarioDigital, 26/11/00



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