11/11/2003 2/18

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IMPRENSA FRANCESA
Apuração com charme e champanhe

Matéria interessante do dossiê é dedicada à opinião dos correspondentes internacionais sediados em Paris sobre os colegas franceses, sob o título "Parece que estamos na corte de Versalhes". Os anglo-saxões relutaram em falar, por conta da parcialíssima Fox News e do farsante Jayson Blair nos Estados Unidos e dos tablóides sensacionalistas na Inglaterra. "Não estamos em posição de julgar", alegaram. Mas quando afinal falaram... "doeu", revela o Observateur. Porque americanos e britânicos percebem nos franceses uma reverência e um respeito notáveis pelo poder. Uma entrevista do presidente à TV, no 14 de Julho (dia nacional da França) ainda o deixa siderados.

Compartilham da opinião dos correspondentes do Guardian (Londres) e do Washington Post (Washington) colegas do Spiegel (Hamburgo), do Libre Belgique (Bruxelas), do El Mundo (Madri): "Incrível, parece Versalhes, tamanha a complacência".

Os franceses jamais arriscariam fazer 13 vezes a mesma pergunta a um ministro relutante, como na Grã-Bretanha. Aqui, os franceses aceitam enviar previamente as perguntas, e apresentar o texto para revisão depois. "É possível permitir uma releitura sobre pontos técnicos, mas isso jamais é sistemático", critica Cristina Frade, correspondente de El Mundo. "Na França, os jornalistas consideram os políticos como amigos", disse um americano. "Com eles, é confidência em off, champanhe e salmão defumado."

"A concepção da imprensa é muito diferente na França", afirma John Henley, correspondente do Guardian. "O sonho de todo jornalista britânico é conseguir uma informação que derrube um ministro ou o governo." Para Romain Leich, do Spiegel, se o presidente diz "silêncio" não se ouve mais uma palavra sobre alguma notícia escandalosa. "O potencial de indignação cívica parece um pouco fraco na França."

Também chama atenção a propensão a comentar tudo, a romancear tudo, a misturar fatos e análise, a recorrer sistematicamente a sociólogos e psicólogos, a abusar de adjetivos e advérbios. "Parece que um bom número de jornalistas franceses é escritor frustrado", diz Nick Spicer, da americana NPR (National Public Radio). "Além disso, passam todo o tempo se autoflagelando, reclamando da profissão."

"Em suma, todo o charme dos franceses", ironiza o Observateur.(Marinilda Carvalho)



Os 10 segredos dos jornalistas

1) Eles são poderosos?

Em comparação aos indivíduos, é evidente. Mas o poder dos jornalistas incomoda peixes grandes (políticos e empresários). Mesmo que no fim o balanço de seu trabalho contra os desvios seja minimizado nos tribunais, a profissão ganhou em capacidade de intimidação. Isso não significa que o poder da mídia seja maior do que todos os outros. Frente a interlocutores determinados ou que nada mais têm a perder a relação pode se inverter. Na realidade, os jornalistas pesam mais pela fraqueza dos demais poderes.

2) Eles escondem o que sabem?

A concorrência entre veículos e a competição entre jornalistas deixam pouco espaço a uma pseudo omertà. A autocensura é freqüentemente justificada pelo respeito à vida privada – por exemplo, o silêncio sobre Mazarine, a filha oculta de Mitterrand. Outra mordaça: o respeito à presunção de inocência. E há ainda os batalhões de advogados, uma chuva de direitos de resposta e de processos por difamação, que exigem prudência. A exigência do respeito ao direito da pessoa é indispensável, mas igualmente uma arma de intimidação cada vez mais usada, por vezes antes mesmo da publicação das matérias.

3) Eles são amigos dos poderosos?

Acontece. A amizade entre jornalistas e homens de poder não é entretanto considerada uma falta deontológica em todas as redações. Os problemas ocorrem sobretudo com os que estão na profissão por uma questão de carreira, e não de vocação.

4) Eles estão a serviço dos acionistas de seus veículos?

O conflito entre os grandes interesses financeiros e a mídia ocorre na França como em nenhum outro lugar, exceto, talvez, a Itália. É um festival: Dassault (Le Figaro, L’Express), Pinault (Le Point), Arnault (La Tribune), Bouygues (TF1), Suez-Lyonnaise des Eaux (M6), Vivendi (Canal+) ou Lagardère (Match, Télé 7 jours, JDD, Elle), sem esquecer Jérôme Seydoux (Libération) e outros que desenham uma paisagem barroca onde se confundem sem complexos os interesses mais contraditórios. Deve-se concluir que os jornais dos grupos industriais são amordaçados? Que a chama da liberdade de imprensa só existe na TV pública – paradoxo! –, no Monde, no Parisien, em Echos, Capital, Canard Enchaîné, Marianne, Nouvel Observateur e alguns outros, que foram o último punhado de jornais financeiramente independentes da grande indústria? Não. Pois as redações têm vida própria, uma autonomia ligada a sua cultura, a sua história, e os proprietários são os primeiros a descobrir isso.

5) Quem lhes paga?

"Um jornalista só pode aceitar salários ou vantagens da empresa de imprensa com a qual colabora", proclama o código da profissão. É o caso da maioria dos 35 mil profissionais. E seu salário médio de 2.600 euros por mês não lhes permite fazer parte da elite francesa, como muitos acreditam. É na verdade uma profissão em vias de pauperização, tanto se multiplicam os estágios não-remunerados, o uso sistemático de pigistes [free-lancer fixo, remunerado por tarefa, situação prevista pela lei na França], que representam 20% da profissão. A visão é deformada pela situação dos grandes jornais parisienses e dos apresentadores de TV. No alto da pirâmide reina um pequeno número de jornalistas-estrelas, de alta renda.

6) Eles são manipulados?

A evidência é ensinada em todas as escolas de Jornalismo: não foram apenas os jornalistas do Washington Post que derrubaram Nixon, mas também sua "Garganta Profunda". O jornalista é um cano, não existe sem suas fontes. E estas raramente são neutras: querem fazer valer um ponto de vista, destruir um concorrente, paralisar um inimigo, responder a um ataque, promover-se, vingar-se etc. Daí a importância do trabalho em equipe: numa redação, cada um tem seus interlocutores privilegiados. É preciso portanto cruzar as fontes, confrontar as informações – coisa que as rivalidades internas impedem com freqüência. Além disso, em poucos anos a comunicação passou de uma simples técnica de influência a uma verdadeira indústria da informação orientada.

Além disso, os anunciantes sabem jogar com a ameaça de cancelar os orçamentos, uma vez que a publicidade garante quase a metade dos custos da imprensa escrita, e mais de 70% de uma TV como TF1. Todos os veículos já sofreram tal pressa. Alguns resistem – como o Observateur – outros não.

7) Eles são competentes?

Muitos os vêem como um bando de impostores e ignorantes. Irritam-se com as aproximações, os números errados, os erros de data e de nome. Mas nunca se cometeram tão poucos erros, porque a categoria nunca foi tão bem formada.

8) Eles têm meios para se informar?

O próprio surgimento da expressão "jornalismo de investigação", que é um pleonasmo absoluto, revela bem as fraquezas atuais da apuração. A queixa "faltam recursos para apurar direito" nunca foi tão forte entre os jornalistas. As redações, submetidas a exigências crescentes de rentabilidade, trabalham com prazos cada vez mais curtos. Quantas podem hoje deixar um jornalista apurar várias semanas uma pauta, sem garantia de resultado? Falta de meios também é desculpa da preguiça: poucos querem ir à cozinha, onde está a informação. Resistir às pressões, investigar sem nada encontrar semanas a fio, encarar a inveja e a incompreensão dos colegas, o constrangimento ou a censura dos chefes: a investigação exige determinação e energia consideráveis.

9) Eles são como repetitivos como carneiros?

O mundo da mídia dá por vezes a impressão de ser uma vasta indústria de reciclagem, como se sofresse desesperadamente com a falta de imaginação. o peso da publicidade e do marketing sobre uma imprensa de baixa rentabilidade reforça o conformismo. De olhos na circulação, surgem cadernos e suplementos para buscar anunciantes, e sempre sobre temas consensuais, para atrair o grande público, e sempre seguindo os mesmos conselhos: o público é cada vez mais influenciado pela TV, escreva curto, privilegie o visual, os temas práticos, o glamour, o divertimento. Como se a realidade em 2003 devesse ser um produto sedutor e a atualidade, enfim, feliz…

10) Eles são intocáveis?

É uma queixa freqüente, mas a França dispõe de um arsenal de leis para proteger o cidadão dos jornalistas, em matéria de difamação ou de invasão de privacidade. Nas redações, contudo, as sanções são raras e quase nunca públicas. Nas derrapadas, lava-se a roupa suja em família. (Marinilda Carvalho)



Os números da profissão na França

Os profissionais

** Jornalistas: 35.270 (contra 6.836 em 1955)

** Sexo: 60% de homens, 40% de mulheres

** Idade média: 42 anos

** Pigistes: 20% (contra 5% em 1955) .

** Salários: 35% dos pigistes ganham entre 762 e 1.525 euros (bruto) por mês

** 50% dos assalariados da imprensa nacional ganham entre 2.287 e 3.811 euros (bruto) por mês

** 30% dos assalariados ganham mais de 3.811 euros (bruto) por mês

** Taxa de desemprego: 4%, dados de 1999 (muitos desempregados se declaram pigistes)

A atividade

** Na imprensa escrita: 72,8% (áreas especializadas: 33%; reportagem local: 20%; cobertura nacional: 8%).

Televisão: 12,4%.

Rádio: 8,5%.

Agências de notícias: 6%.

Fonte: Revista Hermès n° 35: "Os jornalistas ainda têm poder?"

(Marinilda Carvalho)


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