Indice A imprensa em questao O circo da noticia Caderno da cidadania Entre aspas Caderno do leitor

MONITOR DA IMPRENSA

RÚSSIA
Striptease no telejornal

Fabiano Golgo, de Praga

Durante os anos soviéticos os russos podiam ser punidos por qualquer manifestaçao pública de afeto. O partido único pregava que o capitalismo trazia consigo, entre outros males, a perversao sexual. Via-se de vez em quando reportagens sobre casas de "massagem", peep shows, bares noturnos embalados a go-go girls – todos supostamente existentes apenas no lado ocidental europeu e na América.

Recentemente assisti a um daqueles documentários noticiosos apresentados no cinema antes dos filmes, em que o Carnaval brasileiro de 1974 é mostrado como símbolo da decadencia capitalista e o Brasil como marionete dos americanos. E naquela época a carne nao ficava tao r mostra. Pois, assim como no Brasil pós-ditadura, a Rússia também teve um boom de liberdade sexual, ambos provavelmente conseqüencia natural da repressao anterior. Mesmo que tivéssemos as pornochanchadas, financiadas pelos milicos, ainda assim a TV se mantinha um tanto puritana, com uma Martha Suplicy gerando controvérsia pelo mero uso de palavras como vagina.

O Brasil reagiu aos anos em que muito era proibido escancarando desde corpos nus e beijos ardentes antes menos explorados nas novelas até a liberaçao dos palavroes. A Rússia foi mais longe. Nao apenas as novelas brasileiras sao vistas nos canais RTR, ORT e NTR, com seu desfile de modelos-atores de pele r mostra (e na Rússia – como na maioria dos países que exibem novelas globais – elas sao apresentadas durante o dia), como também comercial de qualquer coisa tem seios como o melhor chamativo.

Inspiraçao para o batente

Mas o exemplo mais crasso surgiu há dois meses, no canal de TV local de Moscou MI TV. Eles lançaram um noticiário (com informaçoes sérias do dia na capital russa) em que a apresentadora aparece lendo o teleprompter devidamente vestida com terninhos sóbrios. Aos poucos – e um tanto surrealisticamente – ela vai se desabotoando, soltando o cabelo, tirando o blazer, a camisa, o sutia... A moça termina o telejornal apenas com a calcinha! Em 15 minutos ela simplesmente faz um striptease em frente rs câmeras, sem o menor sinal de nao estar levando a sério sua tarefa de apresentar as principais notícias do dia.

Resultado: a emissora que contava apenas com uma minúscula fatia da audiencia do horário catapultou seu ibope e sua minguada fatia do mercado publicitário. O sucesso do telejornal tem sido tao grande que a emissora resolveu reprisar o programa (originalmente rs 19h!) nas manhas do dia seguinte, rs 7h, "para preparar os russos para o novo dia de trabalho", segundo o diretor de operaçoes Leonid Margolis. O nome, traduzido, do telejornal é apropriado: Verdade Nua.




CROÁCIA

Provão duvidoso para jornalistas

F. G.

O esfarelamento da antiga Iugoslávia em vários países (Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina e a atual Iugoslávia, que engloba Sérvia, Voivodina e Montenegro, fora a atual Kosovo, de situação indefinida) provocou uma revolução na mídia de cada região, que antes era dominada pelos sérvios – os detentores do poder na república do marechal Tito.

Os eslovenos foram os bons meninos da turma, promovendo uma renovação democrática e moderna de todas as suas instituições, mídia incluída. Slobodan Milosevic, pelo menos no início, deixou surgir naturalmente a mídia privada, mantendo uma certa liberdade de imprensa, que era seu trunfo-propagada para o mundo. É claro que isso mudou aos poucos, e o presidente sérvio foi lançando mão de artifícios judiciais para calar a boca de seus antagonistas, fora a ajudazinha dos matadores profissionais que deram cabo de boa parte dos opositores ao governo iugoslavo.

Mas, apesar de o foco internacional geralmente estar na Iugoslávia de Milosevic, a Croácia de Franjo Tudjman não foi menos maquiavélica. Com exceção de um semanário no estilo da nossa revista Bundas, só que em papel-jornal, o resto da mídia se curvava ao professor de História e fiel aliado de Tito tornado presidente. Com a morte de Tudjman o cerco à imprensa acabou, mas sobrou um abacaxi: a TV estatal HRTV. Os novos e mais democráticos detentores do poder croata ficaram de mãos atadas graças a uma lei, astutamente aprovada pouco antes da morte do presidente, que não permite que cada novo governo dispense os funcionários da emissora ao seu gosto.

O que aparentemente soa correto, como arma contra o oportunismo político, na verdade veio servir apenas para a manutenção da velha guarda no controle do canal. Isso faz com que fortes ataques à nova administração sejam uma constante e a informação objetiva ainda apenas um desejo da população não-engajada.

A altitude do Kilimanjaro

Pois agora surgiu um esquema de honestidade duvidosa para mudar essa situação. Como no resto dos países do antigo bloco socialista, jornalistas eram correligionários apontados pelo poder para reverberar a ideologia oficial e manipular a informação ao gosto do partido único. Depois das revoluções que acabaram com a hegemonia comunista em toda a zona de influência soviética ainda demorou alguns anos até que se pudesse criar faculdades de jornalismo. O resultado é que faltam profissionais preparados para o exercício da profissão.

Então, o novo governo croata conseguiu do Poder Judiciário uma decisão que permite remover dos quadros aqueles jornalistas que não passem por uma espécie de provão de conhecimentos específicos da área e outros gerais. Mas os fins aparentemente nobres da nova administração são atingidos por meios um tanto duvidosos, para fazer valer a lei. Surgiram fortes indícios de que as perguntas tenham sido entregues com antecedência aos repórteres favoráveis ao governo, para que viessem preparados nos dias 22 e 23 de junho, quando se realizaram os exames. E, mesmo que nada se prove em relação a isso, fica o veemente protesto da maioria quanto a perguntas como "quem foi o único ciclista a ganhar o campeonato mundial em dois anos consecutivos?" ou "qual a altitude exata do Monte Kilimanjaro?", que obviamente são irrelevantes para o bom exercício jornalístico.




NA MIRA DO ESTADO

Kremlin enquadra mídia

O show russo do governo contra a mídia continua emocionante. Oficiais de justiça retornaram aos quartéis do barão da mídia russa, Vladimir Gusinsky. Inspirada, segundo críticos, em acusação de perseguição ao magnata pelo Kremlin, a nova investigação é apenas parte de um processo investigativo mais amplo.

De acordo com matéria de David Hoffman [The Washington Post, 12/7/00], além do incidente envolvendo Gusinsky, há outros dois do mesmo gênero, os quais, apesar de não estarem claramente relacionados, intensificam a atmosfera de incerteza em relação à forma de o governo lidar com magnatas que ganharam fortunas durante a transição da Rússia para o capitalismo.

Putin promenteu, durante sua campanha, apertar o cerco contra magnatas, mas até agora seu único alvo foi Gusinsky, contra quem o presidente sustenta antipatia pessoal. Apenas nesse ano, redações de veículos da Media-Most, conglomerado midiático de Gusinsky, foram invadidas, seu dono foi preso e acusado de fraude no desvio de verbas estatais. "Não há objetivo", disse Pavel Astakhov, advogado de Gusinsky, referindo-se às medidas do governo em relação ao conglomerado. "A investigação limita-se a paralisar atividades da companhia e de suas mídias."

Críticos atentam para o fato de Putin está criando instabilidade política e amedrontando investimentos estrangeiros.

Gusinsky foi acusado de se envolver com a privatização de uma emissora de TV em São Petersburgo. Agora, está sendo intimado a resolver sua dívida com a Gazprom, empresa de gás natural parcialmente estatal.

Vladimir Pinemov, um dos investigadores, afirmou que "nem tudo foi feito de forma limpa e legal", referindo-se às negociações com a Gazprom. Segundo ele, a Media-Most enganou a Gazprom, mas não quis entrar em detalhes. Os investigadores negaram estar trabalhando sob ordens do Kremlin.

Reação estrangeira

A "pressão paterna" a que a mídia russa vem sendo submetida questiona a intenção do presidente Vladimir Putin de proteger a liberdade de imprensa, de acordo com o Grupo de Apoio à Imprensa Russa, formado por seis advogados estrangeiros. O grupo, segundo Nick Wadhams [Associated Press, 13/7/00], conversou por três dias com autoridades do governo, jornalistas e editores e afirmou que Putin tem feito muito pouco para validar suas palavras de que liberdade de imprensa é crucial para uma democracia saudável.

"Não há mídia verdadeiramente livre e independente na Rússia", constatou o grupo. Recentemente, Putin sublinhou seu compromisso em proteger a liberdade de imprensa. O ministro das Comunicações Mikhail Lesin, nomeado inimigo número um da livre imprensa por crer que o governo deve se proteger da mídia, insistiu que não há censura no país.

Em entrevista ao jornal Izvestia, Putin afirmou proteger fortemente a liberdade de imprensa, mas reconheceu que alguns veículos, devido ao alto custo de circulação, não poderiam sobreviver se não fossem submetidos a interesses alheios. "Apenas a mídia autosuficiente pode refletir a vida real", disse.

O grupo afirmou que a intimidação da mídia tomou diversas formas, como detenções, desaparecimentos, investigações criminosas – como a que está sendo feita à Media-Most de Gusinsky –, agressões físicas a jornalistas e mortes. "Não podemos excluir acusações politicamente motivadas, claramente ameaçadoras à liberdade de imprensa, direcionadas a uma das poucas vozes independentes da Rússia", afirmou, referindo-se a Gusinsky, James H. Ottaway Jr., presidente do Comitê Mundial para Liberdade de Imprensa e vice-presidente sênior da Dow Jones & Co. Durante a entrevista do Izvestia, Putin não citou o nome do magnata, mas disse que alguns homens de negócio "estão lutando mais para salvar suas influências no governo que para preservar liberdade de discurso e de imprensa."

O grupo de advogados afirmou que está particularmente preocupado com a declaração da política russa em relação à mídia, que pede prevenção de "uso de infomações com tendências a menosprezar a política estatal, econômica e social". "Esse é o tipo de linguagem a que não ouvimos na Rússia e em qualquer lugar, desde o fim da Guerra Fria", disse Ronald Koven, representante europeu do Comitê Mundial para Liberdade de Imprensa.




ELEIÇÕES NOS EUA

NBC reduz tempo de transmissão

A NBC News cobrirá as convenções dos partidos Republicano e Democrata durante apenas quatro dias – dois para cada partido –, omitindo o discurso do presidente Clinton no evento Democrata. A convenção Republicana ocorrerá em Filadélfia, no dia 31 de julho, e a Democrata em Los Angeles, em 14 de agosto.

Segundo matéria de Elizabeth Jensen [Los Angeles Times, 14/7/00],a NBC disse que limitará cobertura ao vivo, transmitindo apenas uma hora em cada quarta-feira e 90 minutos em cada quinta, no exato momento em que os candidatos farão seus discursos.

O porta-voz da Casa Branca Jake Siewert assegurou que "americanos interessados em assistir ao discurso de Clinton durante a convenção democrata terão ampla oportunidade para fazê-lo". Segundo Siewert, é inútil tentar contornar as decisões da emissora.

Os democratas ainda não liberaram a agenda da convenção, mas a cobertura da NBC deverá cortar discursos como o do general aposentado Colin L. Powell, do senador John McCain e da antiga candidata à presidência Elizabeth Hanford Dole.

Bill Wheatley, vice-presidente da NBC News, afirmou que sua emissora considerou os discursos dos candidatos "os dois momentos mais importantes, em que cada um tem oportunidade de expor sua filosofia e seus planos para o país".

Segundo jornalistas da NBC, uma cobertura adicional será adotada dependendo do discurso de Clinton. "Temos sorte de a NBC poder dar a nossos telespectadores uma escolha", disse Wheatley.

Os planos da NBC geralmente alinham-se com os de emissoras rivais, como CBS, ABC e CNN, as quais, recentemente, diminuiram a cobertura de convenção à medida que o interesse do público se reduziu e que os eventos perderam seu "suspense" devido à adoção de discursos lidos.

A CBS prevê anunciar seus planos nesta semana. As emissoras de TV pública, bem como a CNN e a Fox, planejam cobrir amplamente as quatro noites.




BOSTON GLOBE

Mais um caso de plágio

O Boston Globe passa por novo sufoco. Após demissão dos colunistas Mike Barnicle e Patricia Smith, em 1998, Jeff Jacoby, colunista reconhecidamente conservador do jornal, foi suspenso no sábado, 8 de julho, por quatro meses – sem direito a salário –, sob acusação de plágio.

De acordo com Howard Kurtz [Washington Post, 11/7/00], em coluna do dia 3 de julho Jacoby discorreu sobre o destino dos signatários da Declaração de Independência, tema explorado por Paul Harvey, Rush Limbaugh e outros. Jacoby reconheceu ter consultado livros, enciclopédias e websites para escrever sua versão, a qual apresenta certa similaridade com publicações anteriores.

"Acusando-me de séria má conduta jornalística, o Globe está envenenando o bom nome que passei anos construindo", afirma o colunista. "A suspensão é uma reação bruta a algo que nem o Globe considera plágio."

Em declaração sobre a suspensão, o Globe afirmou que a coluna foi baseada "em dados presentes em outras publicações, livros e sítios, e falhou ao deixar de citar tais fontes".

Renee Loth, editora-chefe do jornal, disse que o ocorrido "não tem absolutamente nada a ver com ideologia". Segundo ela, a demissão de Barnicle e Smith não tem relação com o destino de Jacoby. Grande parte da equipe do jornal, no entanto, discorda. "A punição soou como uma terrível precipitação", afirmou Charles Stein, colunista de economia do Globe. "Jacoby fez besteira, mas o caso é bem diferente dos outros incidentes que envolveram o jornal, nos quais pessoas inventaram fatos", disse. "Talvez reprimenda e suspensão por uma semana fossem mais apropriados."

Steve Bailey, outro colunista do Globe, afirmou que a opinião de Jacoby nunca foi bem-vinda na redação desde seu primeiro dia. "Uma escorregada e ele seria despedido", disse. "É difícil imaginar que a punição não está ligada com suas tendências conservadoras; Jacoby cultivou muitos inimigos durante anos." Bailey diz que, apesar de não concordar com seu ponto de vista, admira seu trabalho.

A suspensão do veterano colunista causou protestos de jornalistas de veículos como National Review Online, Jewish World Review, FrontPageMag.com e Wall Street Journal.

Diferentemente dos casos anteriores, o afastamento de Jacoby enfureceu os que afirmam que o jornal é pobre em diversidade política. "Jacoby cometeu uma estupidez e admitiu", disse Dan Kennedy, crítico de mídia do Boston Phoenix, "mas ao destruir-se a reputação e a carreira de um homem, deve-se tomar cuidado". Segundo Kennedy, a coluna não teve intenção de plagiar alguém, mas há pessoas na redação que abominam Jacoby, o que torna sua punição mais fácil.

Loth deu o veredicto final: "Quatro meses são tempo suficiente para Jacoby sentir se quer um novo emprego – que é seu direito –, ou se ainda quer voltar".

 



Mande-nos seu comentário

Início do Monitor da imprensa





Observatório | Índice da edição | Busca | Objetivos | Purposes
Caderno do Leitor | Edições anteriores | Observatório impresso
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe | Quem é você