10/10

Procure no arquivo

ASPAS

CHINA
Jornal do Brasil

"‘Sete nãos’ para os jornalistas", copyright Jornal do Brasil, 23/08/01

"Preocupados com a sucessão que se aproxima, os dirigentes chineses têm incrementado sua campanha para varrer do país tudo que for crítico aos ditames do Partido Comunista (PC). A ofensiva, que começou este ano e deve se alongar até o segundo semestre de 2002, quando novos dirigentes serão escolhidos, busca conter uma avalanche de ‘conteúdo não autorizado’ que tem inundado as ruas das cidades do país. A ofensiva inclui até uma lista de temas tabu para os jornais, divulgada no início do mês e que ficou conhecida como ‘os sete nãos’.

A nova ofensiva, chamada pelo governo de ‘limpeza espiritual’, tem por alvo internet cafes ilegais, jornais, bancas de CDs e DVDs pirateados, centros de jogos eletrônicos e também casas de prostituição. Pequim criticou duramente os administradores de províncias e municípios afastados, que estariam sendo ‘indulgentes’ em sua fiscalização.

Alternativas - Muito dessa liberdade é fruto, ironicamente, das pressão do mercado, ainda que de forma enviesada. Como aponta a pesquisadora para a Ásia do Comitê de Proteção aos Jornalistas, Sophia Beach, até mesmo os jornais oficiais das províncias têm recorrido a anunciantes para suprir a carência dos subsídios governamentais. E para garantir anúncios, descobriram os editores, nada melhor que o binômio sensacionalismo e investigação.

Manchetes chamativas e reportagens exclusivas têm garantido o sucesso dos veículos junto a um público ávido por um noticiário não-oficialista. Mas como são subordinados aos dirigentes locais, muitas vezes os jornais cobrem em tintas fortes escândalos em províncias vizinhas sem nunca sujar o nome do dirigente no prédio ao lado.

Um bom exemplo é o Nanfang Zhoumo, jornal semanal da província sulista de Guangdong. Suas páginas vinham sendo preenchidas com belos exemplos de jornalismo investigativo: Aids, crime, corrupção e tráfico de mulheres foram alguns dos temas. O futuro parecia garantido enquanto os editores voltassem suas baterias para longe.

Virada - Tudo ia bem até que, em abril, o Zhoumo publicou uma reportagem sobre uma gangue de delinqüentes assassinos. Além do relato do crime, o semanário também entrevistou membros do bando, seus familiares e analisou a conjuntura que une falta de perspectivas, desigualdade e pura miséria para empurrar os jovens para o crime. Foi o que bastou para que o governo da província de Hunan - onde nasceu o líder do bando, Zhang Jun - notificasse as autoridades de Pequim do ‘retrato negativo da luta socialista na China’ que havia sido escrito pelo semanário. Como punição, o autor da matéria e seu editor foram proibidos de exercer a profissão."

 

RACISMO
Arthur Ituassu

"O ocaso do fofoqueiro de Hollywood", copyright Jornal do Brasil, 21/8/01

"Não gosta de regras. Autodenomina-se homem-camaleão. É chamado por muitos de ‘o mais poderoso de Hollywood’. Por outros de ‘o mais odiado de Hollywood’. Foi produtor de O poderoso chefão, Chinatown e O bebê de Rosemary. Peter Bart, de 69 anos, que se diz o único jornalista membro da Academia que distribui anualmente o prêmio mais importante do cinema mundial, o Oscar, é tudo isso. Só não é mais, pelo menos por um tempo, o editor da Variety, a revista mais influente de Hollywood, que fala de tudo e de todos na terra do cinema. Do topo da Variety, Bart exercia seu poder no templo do cinema americano há 12 anos. Ajudando amigos, execrando inimigos.

Uma matéria publicada no fim da semana passada, na edição de setembro da revista Los Angeles Magazine, que tentou desvendar quem é Peter Bart, lavou a alma dos inimigos. Nas 13 mil palavras publicadas incluem-se comentários racistas e machistas feitos por Bart e uma acusação séria de que ele teria vendido um roteiro à indústria cinematográfica enquanto editor da Variety, o que é proibido pelas regras editorias da publicação. Resultado: Bart foi afastado do cargo, que ocupa desde 1989, imediatamente após a publicação do artigo.

Segundo a LA Magazine, Bart teria dito certa vez a um subalterno que não contratava mais gays porque eles ficam doentes e acabam morrendo. Além disso, sobre negros Bart teceu o seguinte comentário à revista: ‘Você fala com muitos que são bem-educados, bem-sucedidos. Você sabe, eles não são lá negros. A grande distinção é entre as pessoas que eles chamam de niggers (negros, em termos pejorativos) - que são os negros dos guetos, que mal sabem falar; não conseguem um emprego e se enterram nessa atitude negra. E aqueles que são mais bonitos, bem-educados, inteligentes e que fazem parte do mundo. A classe média negra’, disse Bart à LA Magazine.

Roteiro - Outro problema contra Bart foi a acusação, que não é nova, de que ele havia vendido um roteiro enquanto editor da revista - o que as regras da publicação chamam de ‘conflito de interesses’. Não foi com surpresa, dado que Bart tem muitos inimigos na cidade, que o repórter da LA Magazine, autor da matéria, achou um belo dia, na caixa de correio de sua casa, uma cópia do suposto roteiro, enviada sabe-se lá por quem. O roteiro estava assinado por Leslie Cox, nome solteiro da mulher de Bart e dizia: ‘Com base no romance de Peter Bart, setembro de 1996’.

Ao ser afrontado com a cópia, o grande Bart ficou pequeno. ‘Você me pegou. Eu escrevi esse roteiro? Agora estou sofrendo de perda de memória’, disse à revista. ‘Digamos que isso seja um roteiro e que está assinado por Leslie. O que isso prova? O quê?’ É isso que os proprietários da revista querem saber e por isso o dispensaram do cargo alegando que vão investigar as acusações de racismo, sexismo e também de ‘conflito de interesses’.

Bart nunca deixou de repetir um lema: ‘Sei agora que não há apenas uma verdade. Tudo é verdade’, diz ele, citando o escritor americano Ernest Hemingway. A verdade da LA Magazine não lhe caiu bem e soou como um terremoto em Hollywood. Afinal, as verdades de Bart, apresentadas em uma coluna própria semanal e nas páginas de Variety, sempre serviram para o seus interesses. Bart nunca quis agradar a todos.

Há cerca de três anos, o ator Emilio Estevez espalhou uma carta por toda Los Angeles dirigida a Bart: ‘Em você eu vejo um produtor fracassado, alguém protegido pelo cargo que ocupa. É triste e patético. Quero que você 1: não veja mais meus filmes; 2: morra logo; 3. Vá se f...’, dizia a carta.

Clássicos - Esteves pode ter suas razões, mas é difícil ver em Bart um produtor fracassado. Contratado em 1967 para trabalhar na Paramount Picture, Bart comandou produções como O poderoso chefão, O poderoso chefão 2 - comenta-se que o próprio Bart teria convencido o diretor Francis Ford Coppola de fazê-lo -, Ensina-me a viver, Chinatown, O bebê de Rosemary entre outros clássicos do cinema hollywoodiano dos anos 1970.

Naquela época, considerada por muitos críticos a ‘época de ouro ‘ de Hollywood, os filmes, segundo Bart ‘desafiavam a narrativa tradicional, quebravam tabus de linguagem e de comportamento’, não como hoje que ‘é tudo McDonalds’. E o pior, talvez dissesse Bart, hoje o filme precisa ser politicamente correto."



                         Mande-nos seu comentário




Observatório | Índice da edição | Busca
Objetivos | Purposes | Edições anteriores
Modo de Usar | Banca | Jornalistas na Net | Equipe