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Poeira e futebol
em Burkina Fasso (*)

 

Paulo Campos

“Nunca tinha ouvido falar em Burkina Fasso até que me avisaram que deveria preparar minhas malas para lá cobrir a Copa da África de futebol. Que nome mais esquisito! A primeira reação foi dar uma olhada num Atlas, o suficiente para localizar o país ? noroeste do continente africano ? e descobrir que seu nome anterior era Alto Volta.

Tomadas as devidas providências (vacinas, visto de entrada), fomos para lá em três: o cinegrafista Laudemir Ferreira, o repórter Helvídio Mattos e eu, produtor da ESPN/Brasil. Na chegada, logo comecei a simpatizar com os locais. Eram pessoas prestativas, simpáticas, dispostas a ajudar um trio completamente perdido. Os mais espertos falavam um francês básico que ajudou bastante. Percebi que alguns tinham a mania de andar de mãos dadas, numa demonstração de amizade. Do aeroporto ao hotel, o cenário pouco mudou. A capital, Uagadugu, não têm prédios, nem mesmo na região central. As ruas, empoeiradas, vivem lotadas de mobiletes, num ritmo muitas vezes alucinante. Com o tempo, descobri o motivo de tanta poeira no ar: Burkina Fasso fica no limite do deserto do Saara. Num dos 15 dias da viagem, enfrentamos uma verdadeira tempestade de areia. Por ironia, foi no mesmo dia em que a seleção do país se classificou para a semifinal, um sábado de carnaval inesquecível para a história do país.

A Copa da África foi o grande acontecimento em Burkina Fasso nos últimos tempos. O time local era limitadíssimo, mas jogou com tanta garra que conseguiu um inédito quarto lugar. Curioso foi aprender com um jornalista local que, pelo menos numa área, o país é o grande centro do continente: a cada dois anos, Burkina Fasso sedia o festival pan-africano de cinema. A produção local de filmes é grande e expressiva, com diretores formados na França. Assisti a alguns pela TV, e curti identificar as locações, pois, em menos de 3 dias, já conhecia bem as ruas da pequena Uagadugu.

Com o passar dos dias, o que mais nos impressionou foi a lamentável pobreza do país. Grande parte da população vive em situação miserável, de esmola. Cada vez que eu saía do hotel era imediatamente rodeado por meninos desesperados para vender qualquer coisa. E o incrível é que descobriram meu nome e me chamavam por ele, com sotaque francês. Era preciso dizer NÃO umas oito mil vezes para eles largarem do meu pé. E o clima muito quente e seco só prejudica a qualidade de vida dos moradores. Apesar disso, muitos adoram andar com roupas pesadas, bem coloridas.

Quando resolvemos viajar até a outra cidade-sede do torneio, Bobo Dioulasso, conheci o lado selvagem da África. Foram 300 quilômetros de carro, passando pelas savanas da região. Eu tentava cochilar no banco de trás, mas era impossível, pois quando pegava no sono o motorista logo dava uma brecada forte. É que, volta e meia, um bicho diferente resolvia atravessar a estrada bem na frente do carro: porco, zebra, cachorro, gato, ovelha, vaca etc. Vimos ônibus quebrados, cheios de gente, parados no acostamento, esperando sei lá que providências.

Paramos em alguns lugares onde avistamos pessoas muito humildes. Faziam parte de tribos e falavam num dialeto que o motorista nativo mal entendia. Sem dúvida nenhuma, foram as pessoas mais humildes que conheci na vida. Vivem da economia de subsistência. Plantam a comida, bebem água de um poço e costuram suas roupas. Para eles, devíamos parecer um trio de extra-terrestres falando em português, com uma aparência tão distinta e munidos de câmeras de vídeo. Foi um contato inesquecível, sem dúvida.

Bobo Dioulasso, a segunda maior cidade do país, era, como esperávamos, mais simples ainda. Foi lá que vimos a seleção de Burkina Fasso perder na semifinal para o Egito, que acabaria ficando com o título. Foi uma tristeza geral. A cena dos torcedores caminhando em silêncio pela avenida que saía do estádio me lembrou um filme.

Em duas ocasiões senti o clima de ditadura que, infelizmente, domina tantos países africanos. Na final da Copa, de volta a Uagadugu, fui retirado a tapa do estádio por um segurança e, até hoje, não entendi o motivo (nem ele fez questão de me explicar). Assisti à partida das arquibancadas, escondido. E, na hora de pegar o vôo de volta para casa, passamos por umas trezentas revistas dentro do aeroporto. Nosso passaporte foi requisitado incontáveis vezes, uma burocracia.

Mas até dessas partes me lembro hoje com muito carinho. Afinal, não é a toda hora que se tem a chance de ir a um lugar chamado Burkina Fasso, não é mesmo?”

(*) Copyright Revista Velotrol, setembro/99 <www.velotrol.com.br>
 

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