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DOCUMENTO

Agosto de 54, uma releitura

 

Luiz Roberto Guimarães da Costa Júnior (*)

Em 3 de outubro de 1950, nos 20 anos da Revolução de 1930, Getúlio Vargas foi eleito presidente do Brasil. Vargas havia sido chefe do governo provisório (1930-1934), depois presidente eleito indiretamente (1934-1937) e ditador do Estado Novo (1937-1945). Agora, pela primeira vez, Vargas chegava ao poder por eleições democráticas e tomava posse em 31 de janeiro de 1951.

 Os principais órgãos de imprensa do eixo Rio-São Paulo se colocaram contra a candidatura de Vargas e depois contra seu governo. O presidente não teve a cobertura da imprensa na campanha, apoiando o brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN. Na campanha de Vargas, que durou 53 dias e percorreu todas as unidades da Federação, foram usados caminhões com alto-falantes e distribuídos volantes impressos para divulgar o programa de governo. A imprensa atacava as propostas políticas, econômicas e sociais de Vargas. O candidato a presidente defendia a necessidade de capital externo para financiar a infra-estrutura, desenvolver a economia e fazer avançar a indústria no país, com apoio do Estado, já que o capital interno e a iniciativa privada não tinham condições de fazer isso sozinhos. Este caminho intermediário, proposto por Vargas, era difícil de ser seguido por causa do pano de fundo ideológico da Guerra Fria entre EUA (capitalismo) e URSS (comunismo).

 A única forma encontrada pelo governo para divulgar suas idéias e se defender dos ataques da imprensa, que agora era livre mas sofrera muito no Estado Novo, foi apoiar e financiar o jornal ltima Hora , de Samuel Wainer. A imprensa, em geral, atacou desde o início esta iniciativa. Em 1953, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) investigou e comprovou o financiamento público, mas não conseguiu envolver o presidente.

1954, um ano conturbado

O ano de 1954 foi um dos mais conturbados da história republicana brasileira. Em fevereiro, oitenta e dois coronéis, apoiados pelo então ministro da Guerra, general Ciro do Espírito Santo Cardoso, divulgaram manifesto criticando as greves dos trabalhadores e o custo de vida. Por um lado, o presidente demitiu o ministro e colocou, no Ministério da Guerra, o general Zenóbio da Costa, aceito sem restrições pelos militares por ter sido um dos comandantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, o presidente teve que ceder, demitindo o ministro do Trabalho, João Goulart, por causa da proposta de aumento de 100% do salário mínimo. Em 1 de maio, nas comemorações do Dia do Trabalho, entretanto, o próprio presidente aumentou o salário mínimo em 100% (a inflação prevista era de 54%, o que geraria aumento real de 46% nos salários). Em seguida, foi divulgado um falso acordo secreto entre os governos populistas de Perón e Vargas, e isso deu origem à proposta de abertura de um processo de impeachment contra o presidente. Em 16 de junho, a Câmara dos Deputados recusou por ampla maioria a abertura do processo.

 Ainda em maio ocorreu a morte do jornalista Nestor Moreira, do jornal A Noite , casado e pai de dois filhos. Ele foi violentamente espancado pelo policial Paulo Ribeiro Peixoto, vulgo "Coice de Mula", com ajuda de dois vigilantes e sob o olhar de um comissário da 2 DP. Após 11 dias agonizando, o jornalista morreu e foi enterrado em clima de consternação e revolta, em 23 de maio. Esse acontecimento comoveu a opinião pública e revoltou toda a imprensa, dadas as características do caso semelhanças com as práticas da SS nazista ou do Estado Novo do próprio Getúlio Vargas , em relação ao tratamento com a imprensa e com os opositores do regime (o livro Memórias do Cárcere , de Graciliano Ramos, registra esta época). A revolta contra a impunidade, a corrupção generalizada e a violência, que dominava grande parte da opinião pública antes da democratização do país, aumentou após a queda de Vargas no final de 1945, e persistiu quando o ex-ditador foi eleito presidente democraticamente em 1950.

 Começava o mês de agosto de 1954, as eleições legislativas federais e estaduais seriam dali a dois meses. O clima no país era tenso por causa da radicalização entre getulistas e antigetulistas. O jornalista Carlos Lacerda estava em campanha para deputado federal e usava seu jornal, Tribuna da Imprensa , para atacar o presidente. Este jornalista já havia sofrido duas agressões físicas (tratadas na época como atentados) por causa de sua moralizante campanha contra a corrupção. Em 1948, quando era vereador, no Rio de Janeiro, levara uma surra de várias pessoas quando saía da Rádio Mayrink Veiga. Carlos Lacerda acusou o então prefeito do Rio, general ngelo Mendes de Morais, de mandante do atentado. Em 14 de maio de 1950, o coronel da Aeronáutica Guilherme Aloísio Teles Ribeiro trocou socos com Lacerda, à saída do elevador, no 10 andar do Edifício Albervânia, na Rua Toneleros n 180, por causa das denúncias da Tribuna da Imprensa , que acusara o coronel de fazer negociatas com Artur Pires, presidente do Sesc.

Os componentes da crise

A crise econômica do Brasil era grave em 1954, havia os fatores externos da crise do preço internacional do café e a dificuldade da venda da safra e o fator interno do aumento do salário mínimo e do custo de vida. Estes fatores econômicos estavam causando tensão e gerando uma crise política até aquele momento contornada pelo presidente Vargas. Na madrugada do dia 5 de agosto de 1954, o jornalista Carlos Lacerda levou um tiro no pé e seu acompanhante, o major Vaz, foi morto com dois tiros. A imprensa teve papel importante nos acontecimentos de agosto de 1954. O crime da rua Toneleros mobilizou a maior parte da imprensa na campanha pela renúncia do presidente. O agravamento da crise política, que agora se transformara em político-militar, levou o presidente ao suicídio no dia 24 de agosto de 1954.

 Os principais órgãos de imprensa atuaram na formação de um consenso a respeito da crescente inviabilidade política e moral do governo Vargas. A radicalização da imprensa e dos militares (que apostavam, agora, na mesma solução de 1945) impediram a resolução do impasse político por meios legais, curiosamente estávamos na democracia e não mais na ditadura do Estado Novo, mas se buscava a antiga solução. O presidente Vargas, em seu diário, já escrevera que se a Revolução de 1930 fracassasse ele se mataria. Em 1938, no atentado integralista ao Palácio Guanabara, Vargas guardara algumas balas para se matar e à família, caso fosse necessário, pois não iria se render. Diante do quadro político de 1954, o presidente se viu diante de situação vivida duas vezes antes. Desta vez, ele foi até o fim.

 Os jornais de maior circulação da época, no Rio de Janeiro, eram Correio da Manhã , Diário de Notícias , Diário Carioca , O Globo , O Jornal e, em São Paulo, O Estado de S.Paulo e Folha da Manhã . Os outros jornais importantes da época e que estavam em pólos opostos (extremos dentro do espectro jornalísticos e que, portanto, não serão analisados) eram ltima Hora , de Samuel Wainer, de grande circulação, que fazia a defesa sistemática do governo Vargas, e Tribuna da Imprensa , de Carlos Lacerda, de pequena circulação, mas que fazia a maior campanha de ataques diários a Vargas.

Etapas da crise

A crise de agosto de 1954 foi analisada no livro Vargas e a crise dos anos 50 (pp.23-69), seguindo a evolução dos citados sete primeiros jornais em relação às fases da crise, mas não deixando de acompanhar como atuaram os dois últimos jornais citados. A primeira etapa da crise correspondeu à apresentação do atentado e à construção de grave momento político e moral. A segunda etapa foi a fase da acusação de culpa do presidente, mesmo que indiretamente, no clima de insegurança do país por causa do envolvimento da Guarda Pessoal no atentado. A terceira etapa foi a fase do apelo à renúncia diante da inviabilidade política de continuação do governo Vargas. A quarta e última etapa foi a fase da imposição da renúncia ou deposição por causa da incapacidade moral do presidente em continuar governando e sua perda de autoridade política e administrativa.

 Os jornais O Globo , O Jornal e Folha da Manhã fizeram cobertura moderada, com menor apelo emocional contra o presidente, tanto é verdade que depois da apresentação do início da crise (fase 1) passaram diretamente ao apelo à renúncia (fase 3), mas tardiamente: O Globo , em 21 de agosto, e os outros dois jornais no próprio dia do suicídio. Isso não impediu que O Globo fosse atacado por populares por causa da posição radical da Rádio Globo, que abrira espaço, no ar, para a UDN durante toda a crise. O papel das rádios também mereceria trabalho à parte, principalmente por causa da divulgação da Carta-Testamento e sua conseqüências para o país.

Diário de Notícias , O Estado de S.Paulo, Diário Carioca e Correio da Manhã seguiram as quatro fases. A diferença é que os três primeiros defenderam a imposição da renúncia, respectivamente, nos dias 13, 14 e 15 de agosto, pois a idéia ganhara força, naquele final de semana, durante a Assembléia do Clube Militar, e isso acabou tendo ampla divulgação. O Correio da Manhã fazia a defesa de uma saída legal sem golpes, e pregou a imposição da renúncia apenas no dia 19 de agosto, quando foram revelados os negócios escusos que envolviam Gregório Fortunato. Depois disso, os jornais mais moderados já iniciariam o apelo à renúncia, como já foi dito. O cerco da imprensa e dos militares se fechava contra o presidente e a data limite seria 25 de agosto, Dia do Soldado.

 O presente artigo faz a reconstituição do momento do crime da rua Toneleros, dando a versão mais plausível a partir da visão de Alcino João do Nascimento, que matou o major Vaz e atirou em Lacerda, dos demais envolvidos e das testemunhas do crime. Na conclusão, há uma análise histórica do significado do atentado a Carlos Lacerda.

Antecedente histórico

A proposta de análise do atentado, levando-se em conta o ponto de vista de quem atirou, tem interessante antecedente na historiografia latino-americana. [Fato similar ao crime da rua Toneleros foi um evento histórico ocorrido na Argentina. Em 1 de maio de 1933, em Londres, era assinado o Tratado Roca-Rociman, pelo qual a Grã-Bretanha se comprometia a manter o volume de importações de carnes argentinas, em condições similares às concedidas aos países da Commonwealth. Em troca disso, a Argentina permitia aos britânicos e norte-americanos o virtual monopólio da exportação de carnes, além de vantagens comerciais, aduaneiras e tarifárias que asseguravam às empresas de capital inglês um tratamento benévolo. Dezoito meses depois, o Senado criou uma comissão de investigação a partir das denúncias feitas pelo senador Lisandro De La Torre, da Província de Santa Fé, de que estariam ocorrendo irregularidades na exportação de carne e corrupção na administração pública. O senador De La Torre (chamado pela situação de "Bode Velho") vinha recebendo ameaças de morte por carta, mas não parava as investigações que fazia por conta própria. Em 23 de julho de 1935, durante as conclusões da investigação, ocorrem tensos debates e trocas de acusações no plenário do Senado. O senador De La Torre discute com os ministros da Agricultura e da Fazenda e com os demais senadores quando é contido por vários senadores. Ele consegue se desvencilhar e dirige-se ao ministro da Fazenda quando é empurrado pelo ministro da Agricultura e cai ao chão sendo então amparado pelos outros senadores. O jovem senador Enzo Bordabehere era da mesma província de Santa Fé, amigo do senador De La Torre, e estava no plenário naquele momento. Bordabehere ainda não tinha sido diplomado para pode tomar posse pois sua eleição estava sendo reexaminada e, assim, o senador De La Torre estava isolado no plenário em sua solitária defesa dos interesses argentinos do ponto de vista da oposição. Bordabehere viu De La Torre ser empurrado e cair ao chão e foi em direção a De La Torre, aos ministros e aos senadores da situação para intervir na situação de tenso conflito. Quando Bordabehere passou pelo ex-policial Ramón Valdés Cora, este pensou que Bordabehere estivesse armado e o matou pelas costas com três tiros. Este ex-policial servia a Dom Alberto, do Partido Conservador, e tinha sido designado para ficar no plenário e descobrir informações e informantes de De La Torre, já que este contava com amplo apoio dos sindicatos que passavam informações importantes à comissão de investigação. O assassinato foi considerado premeditado e político por amplos setores da sociedade portenha. Ramón Valdéz Cora foi condenado a vinte anos de prisão. Em 1950, por decreto do poder executivo, o total da pena foi reduzido em dois anos e um mês. Ele saiu em liberdade em 23 de junho de 1953, faleceu 18 meses depois. Nunca se pôde provar nada de seus cúmplices ou mandantes. A investigação sobre o comércio de carnes com a Grã-Bretanha ficou paralisada em definitivo. Lisandro De La Torre se suicidou em 5 de janeiro de 1939. Passadas cinco décadas, um filme foi realizado ( Asesinato en el Senado de la Nación, Argentina 1984, direção de Juan José Jusid, filmado em cores, com duração de 100 minutos) e que narra os acontecimentos do ponto e vista do policial, mostrando que não houve a premeditação e nem o crime político, embora a versão da época tenha considerado o contrário. ] A visão das pessoas difere em decorrência de vários fatores como gênero, idade, renda, classe social, nível cultural e escolaridade. Um exemplo de como a visão das camadas médias e altas é comparativamente diferente das camadas populares pode se vista no filme O caso dos Irmãos Naves (Brasil, 1967, direção de Luís Sérgio Person, filmado em preto-e-branco, com duração de 92 minutos). Este filme retrata a história real ocorrida durante o Estado Novo de dois irmãos acusados pela morte de uma pessoa na cidade de Araguari, em Minas Gerais. Foram dois julgamento e duas absolvições, mas as autoridades policiais não se convenciam do álibi dos acusados. Após o julgamento dos recursos nas instâncias superiores, os irmãos Naves acabaram condenados com base nos autos. A verdade surgiu apenas nos anos 50, coincidentemente na época do segundo governo Vargas: o "morto" reapareceu vivo e desmontou toda a história.

 A proposta deste artigo não chega a tanto. A idéia é apenas propor uma releitura do crime da Rua Toneleros, mudando-se o foco da análise, centrando-o na reconstituição do momento do crime, que não foi feita na época e nem na minissérie Agosto , da Rede Globo, e que poderia ter esclarecido muita coisa. A visão de quem atirou pode ajudar a rever a versão da maioria dos jornalistas, historiadores e cientistas sociais que analisam os eventos ocorridos há 45 anos. Rever o crime da rua Toneleros e a construção simbólica feita pela imprensa pode nos ajudar a entender melhor o desfecho do segundo governo Vargas em agosto de 1954.

Reconstituição do crime

O crime da Rua Toneleros completa 45 anos e agora, passado tanto tempo, propomos analisar de uma outra forma os eventos ocorridos em agosto de 1954, levando-se em consideração a reconstituição do crime. [O crime da rua Toneleros é o segundo evento mais dramático do segundo governo Vargas, apenas sendo superado logo depois pelo suicídio do presidente. O clima tenso e ideológico da época refletia a paranóia da Guerra Fria e pode ser medido por duas opiniões sobre o atentado e que hoje podem ser consideradas absurdas: a)a princípio, o chefe da Casa Militar, general Caiado de Castro, chegou a pensar que fosse uma ação de comunistas para desestabilizar o governo Vargas (depois ficou surpreso com o envolvimento de Gregório Fortunato); b) Lutero Vargas achava que era um complô da CIA com apoio da UDN e que o pistoleiro tinha sido contratado por Tenório Cavalcanti para matar o militar que acompanhava Lacerda e, assim, desestabilizar o governo Vargas. Dois acontecimentos de 1954 não foram divulgados na época e não há como aprofundá-los atualmente: a)em 4 de julho, Lacerda estava numa lancha com seus acompanhantes. Quando a lancha se aproximava do cais da ilha de Paquetá, um pacote bomba foi lançado do alto do cais e explodiu na água, provocando um rombo na lancha (isso mostra que Lacerda e seus acompanhantes militares esperavam outros possíveis atentados durante a campanha eleitoral e estavam prontos para agir preventivamente); b) em 8 de agosto, o ministro da Justiça, Tancredo Neves, foi informado da confissão do motorista Nelson e que incriminava Climério da Guarda Pessoal. Tancredo Neves avisou Gregório Fortunato no Palácio do Catete, dando tempo para a fuga de todos os subordinados. As Forças Armadas, principalmente a Aeronáutica, guardaram uma profunda irritação com este acobertamento do crime da rua Toneleros. Tancredo Neves passou a não ser bem viso por certos setores das Forças Armadas desde aquela época. ]

 Gregório Fortunato (denominado "O Anjo Negro" pela imprensa lacerdista), chefe da Guarda Pessoal do presidente, contratou Alcino João do Nascimento para seguir o jornalista Carlos Lacerda (denominado "O Corvo" pela imprensa getulista). Gregório tinha um livro de autoria de Stefan Zweig. O livro era a biografia de Joseph Fouché homem que passou incólume pela Revolução Francesa , perigoso, bacharel na arte de tramar nos bastidores, mestre da intriga que soubera arrastar à guilhotina até Rosbespierre e depois passara a ser chefe de polícia de Napoleão. O poder intimidador de Fouché era grande, com seus arquivos secretos. Gregório Fortunato estava lendo este livro na noite de 4 para 5 de agosto de 1954.

Gregório queria levantar informações sobre os hábitos de Lacerda, seus negócios (tentando descobrir alguma irregularidade), seu posicionamento político, seus discursos e de quem recebia apoio. Lacerda era candidato a deputado federal nas eleições legislativas de 3 de outubro de 1954, além de ser o jornalista de mais feroz oposição a Getúlio Vargas. As informações obtidas seriam uma forma de municiar o governo para abrir algum processo contra seu opositor (represália aos constantes ataques ao governo).

 Gregório Fortunato entregou um cartão da Ordem Política e Social a Alcino. Os trabalhos de investigação eram feitos por mais de duas centenas de pessoas da Guarda Pessoal do presidente. Tudo era de inteira responsabilidade de Gregório, que não queria envolver o presidente, caso ocorresse algum problema com seus subordinados que atuavam em equipes, fora do Palácio do Catete, para investigar várias pessoas. Outro trabalho era fazer a segurança, e o levantamento de locais, quando das viagens do presidente Vargas.

Começa a investigação

No final de 1953, Alcino começou a seguir e investigar a vida de Lacerda e, nos meses próximos às eleições Gregório começou a enviá-lo com Climério. No Rio de Janeiro, Climério conhecia muitas pessoas amigas e inimigas, tinha 22 anos de trabalho e poderia ajudar na obtenção de informações, já que Alcino vivera muitos anos em Minas Gerais e agora tinha voltado ao Rio de Janeiro. Climério afastou-se do Palácio do Catete para trabalhar nessas diligências ele sempre ficava afastado da ação do companheiro, e Soares dirigia o carro. Em depoimento no IPM, Gregório se referiu a Climério afirmando que ele "era utilizado em reuniões públicas de modo não ostensivo porque ele não tinha apresentação para isso, sendo mesmo um tipo que despertava certa atenção, de modo que se tornava inconveniente para um policiamento digno".

 Concluídas as diligências que estava fazendo, durante a campanha eleitoral, Alcino entregava os relatórios a Gregório, na mesa cativa deste, na Churrascaria Gaúcha, nas Laranjeiras. Alcino tinha recebido a promessa de Climério de conseguir para ele um emprego de investigador de polícia para depois das eleições.

 No dia 4 de agosto de 1954, Alcino teve um sonho: sonhou que atirava em alguém e atiravam nele. Um guarda tentava prendê-lo e ele também atirava. Lembrou-se que tinha ido a uma cartomante que dissera que ele ia ter azar e complicações com a Justiça. Nesse dia, Climério o chama, eles tinham que continuar a seguir Lacerda. Alcino diz que não queria ir. Climério o convence, pois ele, Alcino, tinha que fechar o relatório para entregar a Gregório. Faltavam dois meses para as eleições legislativas de 3 de outubro de 1954.

Terno branco e discurso

Alcino e Climério vão até o Externato [hoje Colégio] São José, na rua Barão de Mesquita, na Tijuca. Lacerda, de terno branco, chega e faz seu discurso. Alcino verifica placas de carros, além de anotar pontos do discurso. Lacerda sai do colégio acompanhado de seu filho Sérgio, do major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, que fazia a segurança à paisana para Lacerda, e mais duas pessoas que descem no caminho (uma delas era Amaral Netto), antes de o carro seguir para Copacabana. [Em 1953, o deputado Armando Falcão pedira providências ao ministro da Justiça, Tancredo Neves, para que Lacerda tivesse sua vida protegida. A polícia dava proteção mas Lacerda pediu para que essa vigilância fosse aliviada. Carlos Lacerda recebeu, então, de um grupo de oficiais da Aeronáutica, o oferecimento para acompanhá-lo em aparições públicas nas quais ele pronunciaria os seus discursos durante a campanha eleitoral. Os oficiais apoiavam as opiniões políticas de Lacerda e faziam revezamento entre eles, realizando uma segurança espontânea ao jornalista e candidato a deputado federal nas eleições legislativas de 3 de outubro de 1954. Naquela noite de 4 de agosto de 1954, o escalado para ir com Lacerda até o Colégio São José era o major Gustavo Borges da Aeronáutica. Ele, entretanto, não podia ir pois tinha que substituir um piloto doente e fazer um vôo, na manhã seguinte, para Goiás. O major Borges ligou para o major Vaz e pediu que este fosse em seu lugar. Carlos Lacerda em Confissões de Lacerda descreveria o major Vaz como "homem talvez nervoso não era um sujeito calmo e tranqüilo mas discreto e ponderado" ( Mataram o presidente! p.102). Dois dias antes de morrer, o major Vaz dissera à esposa Lígia Vaz que a coisa não andava bem e que se ele morresse, seria por estar engajado numa causa na qual acreditava. (Paiva, 1994, p. 129). ] No caminho até a rua Toneleros, o major Vaz e o jornalista Carlos Lacerda conversam no banco da frente do carro sobre os acontecimentos da noite, enquanto o filho de Lacerda está no banco traseiro.

Por um lado, o major Vaz se mostra inquieto e preocupado com o filho Ronaldo, de 3 anos, que iria extrair as amígdalas na manhã seguinte, no Hospital da Aeronáutica, no Rio Comprido. Lacerda recomenda a Vaz que não assista à operação pois sofreria mais que a criança. Lacerda já havia passado por essa situação. Por outro lado, o major Vaz também estava contente com a compra de um telefone, no dia anterior, que era uma velha aspiração da esposa Lígia Vaz. Lacerda sugere então um almoço em comemoração à conquista do telefone.

 Alcino encontra Climério, que o esperava no bar em frente ao colégio, pois na confusão da aglomeração de pessoas e de carros saindo não percebeu que Lacerda já havia partido em outro carro, e não no que viera. Climério já tinha telefonado a um taxista que conhecia, chamado Nelson Raimundo, que servira outras vezes à Guarda Pessoal e fazia ponto perto do Palácio do Catete, mas ele não estava naquele momento. [Nelson trabalhava numa barbearia de dia e era taxista à noite com um carro emprestado de um amigo que era taxista de dia. Nelson havia vendido o seu Mercury, e estava acertando a compra de outro carro. Nelson sequer conhecia Alcino, por isso durante os primeiros depoimentos só revelou à polícia o nome de Climério. Depois que Alcino foi preso, Nelson lembrou-se de tê-lo visto uma vez conversando com Climério na barbearia onde trabalhava. ] Climério então ligou para o Café Palácio e deixou recado para Nelson pegá-lo na Tijuca. Passado pouco tempo, chega Nelson, que recebera o recado, e leva Climério e Alcino até Copacabana.

O motor ficou ligado

O Studebaker dirigido por Nelson pára e fica com o motor em funcionamento na rua Paula Freitas, transversal da rua Toneleros, em Copacabana, e ele fica aguardando a diligência. Climério e Alcino vão em direção à esquina da rua Hilário de Gouveia, onde ficam conversando e percebem a chegada de um carro com três pessoas que pára em frente ao Edifício Albervânia (rua Toneleros, n 180), que tem uma rampa e é servido por uma garagem com uma porta pantográfica, cuja entrada ficava do lado direito do prédio. Carlos Lacerda, seu filho Sérgio, de 15 anos, e o major Vaz descem do carro. Climério atravessa a rua para a outra calçada da Hilário de Gouveia. Alcino caminha pela calçada oposta até a frente do edifício de Lacerda a fim de verificar a placa do carro, se era Lacerda, de terno branco e óculos, e se quem o acompanhava era o mesmo homem que vira no colégio horas antes.

 Já passavam pouco mais de 30 minutos depois da meia-noite. Já era 5 de agosto de 1954, quando o major Vaz conversa com Lacerda comentando os acontecimentos da noite e ambos combinam novamente o almoço e se despedem, enquanto Lacerda já percebera as duas pessoas conversando na esquina e se afastando uma da outra. Lacerda e o filho se dirigem à porta do edifício, mas voltam, pois estavam sem chave para abrir a porta que estava fechada, e se dirigem à porta da garagem.

Nesse momento, Alcino, com um chapéu desabado, usando jaquetão cinza abotoado, caminha pela calçada do outro lado da rua, atravessa a rua com um cigarro aceso, fumando, em direção à outra calçada, perto do carro de cor branca para verificar a placa e quem era o motorista. O major Vaz vai abrir a porta do carro para entrar, mas grita "Ei! Pare aí! Quem é você?", e vai em direção ao homem parado cerca de três metros atrás do carro, àquela hora da madrugada, em frente ao prédio de quem ele dava segurança.

Tiros na madrugada

Lacerda e o filho estavam na entrada da garagem do edifício, Lacerda se vira para acenar despedindo-se novamente e percebe num rápido flash o que acontece a certa distância. O major Vaz tenta segurar Alcino. Durante a luta corporal, Alcino saca o Smith & Wesson, calibre .45 milímetros, dispara o primeiro tiro de baixo para cima e o segundo tiro de cima para baixo que acertam o peito do major Vaz e ambos caem ao chão, um para cada lado. Lacerda já sacara seu Smith & Wesson, calibre .38 milímetros, e o disparara em direção a Alcino, que se escondera atrás do carro e, meio agachado, também atirara, atingindo o pé de Lacerda numa troca de tiros. [O major Vaz morreria a caminho do hospital no colo do jornalista Carlos Lacerda. No Hospital Miguel Couto, Lacerda recebeu anestesia local e foi constatada fratura óssea. O pé esquerdo sofreu uma limpeza cirúrgica no ferimento, depois foi enfaixado e, finalmente, foi colocada uma tala branca de papelão provisória por 24 horas porque na época o hospital não tinha ortopedista nos plantões noturnos. Dois dias depois, já em seu apartamento, foi colocado o gesso por causa da fratura óssea. Carlos Lacerda nunca entregou o próprio revólver para exame de balística: não confiava na polícia, pois poderia surgir alguma suspeita de tiro involuntário contra o major Vaz. ]

 Havia um pequeno movimento na rua àquela hora da noite. O jornalista Armando Nogueira, que morava na rua Toneleros n 186, foi uma das pessoas que testemunharam o crime. Dois amigos jornalistas, que também trabalhavam no Diário Carioca , estavam no interior de um Plymouth hidramático de cor verde, e Armando Nogueira conversava com eles, debruçado na janela do carro, quando percebeu a troca de tiros. Fato confirmado pelas investigações in loco do major Borges.

 Depois da troca de tiros, Alcino sai correndo em direção à rua Paula Freitas, enquanto Lacerda entra pela garagem, sai pela porta da frente do prédio e termina de descarregar o revólver na direção de Alcino. Climério tinha fugido a pé pela Hilário de Gouveia, gritara que ouvira tiros e passara em frente à 2 DP, de onde saíam algumas pessoas.

Enquanto isso, o vigilante noturno Sálvio Romeiro estava a serviço rondando a casa do coronel Melquíades na rua Toneleros n 89. [O vigilante noturno Sálvio Romeiro contou estar naquele local por acaso, um desses acidentes do destino. Claudio de Lacerda Paiva assim relata: "Sálvio era guarda de uma polícia mantida pela antiga Prefeitura do Distrito Federal, com a incumbência de policiar praças públicas e prédios municipais. Uma polícia que andava fardada de cinza, chamada de Guarda Municipal. Dava plantões na praça Nossa Senhora da Paz, em Ipanema. Mas naquela noite, de 4 para 5 de agosto, ao apresentar-se ao serviço, foi informado de que deveria trocar o plantão, indo para a rua Toneleros, esquina da rua Paula Freitas, onde morava o comandante da guarda, um oficial do Exército" (Paiva, 1994, p. 128). ] Quando conversava com o vigia de uma obra nas proximidades, ouve tiros, sai correndo, e quando se aproxima da esquina da Paula Freitas vê Alcino andando apressadamente e dobrando a esquina. Grita para ele parar. Alcino atira em sua direção e acerta um tiro na perna esquerda do vigilante. Alcino rapidamente caminha até a segunda árvore da rua e entra no carro.

O Smith & Wesson cai na rua

O vigilante caído atira em direção ao carro e atinge a carroceria do Studebaker de cor vinho. O táxi partiu pela Avenida Copacabana em direção ao Flamengo. Na Avenida Beira-Mar, na altura da rua México, Alcino tenta jogar a arma, embrulhada numa flanela, na Baía de Guanabara, mas a arma caiu para fora do táxi por causa de uma manobra do motorista que desviara de um carro que vinha na direção contrária. A arma de uso privativo das Forças Armadas foi encontrada e possibilitou a instauração do IPM. O motorista Nelson Raimundo se apresentou e, após vários interrogatórios, indicou no dia 8 de agosto o nome de Climério da Guarda Pessoal do presidente Vargas.

 Alcino acreditava que não podia ser preso por trabalhar de "secreta", como dizia, e não poder revelar a sua função, um dos motivos que o levava a andar armado. Ele não sabia que a pessoa que estava com Carlos Lacerda, que matou para não ser detido, era um major da Aeronáutica à paisana. Além do inquérito policial, houve um inquérito policial-militar que apurou o crime a partir de suas conotações políticas. As apurações feitas envolveram Gregório Fortunato, chefe da Guarda Pessoal, e seus subordinados.

 O assassinato do major Vaz e o atentado contra Carlos Lacerda acabaram sendo utilizados politicamente para derrubar Getúlio Vargas e resultaram no suicídio do presidente na manhã de 24 de agosto de 1954, na sede do poder executivo, no terceiro andar do Palácio do Catete. [No quarto de Vargas, no terceiro andar do Palácio do Catete, hoje transformado no Museu da República, ainda está lá, na parede, o relógio parado e marcando 8h35. ] Anos antes, os tiros que haviam matado o candidato a vice-presidente João Pessoa, em Recife, em 26/7/1930, da chapa do próprio Getúlio Vargas, foram o pretexto utilizado por ele mesmo para a Revolução de 1930. A imprensa, a opinião pública e as Forças Armadas foram importantes nos dois eventos: tanto para a ascensão de Getúlio Vargas em 1930 como para sua queda em 1954.

A corte de Getúlio é acusada

Nunca houve provas de que Getúlio Vargas fosse o mandante do crime ou soubesse dele. Acusações recaíram sobre os suspeitos Benjamin Vargas, os deputados Lutero Vargas, Danton Coelho e Euvaldo Lodi e sobre o general Mendes de Morais, todos como possíveis instigadores. Gregório Fortunato foi quem acabou condenado como mandante do crime. Ao se reconstituir o crime da Toneleros, que ocorreu em 5 de agosto de 1954, podem-se levantar duas versões, a partir de jornais e revistas da época e da confrontação dos depoimentos, principalmente de Alcino (único responsável pela morte do major Vaz) e do jornalista Carlos Lacerda, ferido por um tiro no pé esquerdo.

 Gregório Fortunato tanto poderia estar utilizando os seus subordinados para levantar informações como poderia tê-los pago para matar Lacerda. Disse Benjamin Vargas: "Pela sua formação, pelo seu passado, pelas vezes que tem brigado, levando a melhor ou pior, não era homem de tocaia. Não era inimigo de Carlos Lacerda, não o conhecia, nunca viu, nunca leu, nunca ouviu." Valente, em depoimento, afirmou que Gregório, após o crime, dissera o seguinte a respeito de Climério: "Meu compadre está metido nessa trapalhada e esta bomba ainda vai estourar em cima de mim." Gregório acabou confessando a Benjamin Vargas (seu padrinho de casamento) que dera fuga ao compadre Climério (Gregório era padrinho de batismo de Adão, filho de Climério).

 Gregório Fortunato nasceu em São Borja, como o presidente, e durante sua infância conhecera a família Vargas no final do século 19. Gregório teve contato com Vargas em 1923, durante a Revolução no Rio Grande do Sul e depois, em 1932, durante a Revolução Constitucionalista. Em 1938, Gregório se mudou para a capital federal, após o atentado integralista, e organizou a Guarda Pessoal, assumindo a sua chefia em 1942. Quando Gregório Fortunato foi interpelado pelo presidente, após o atentado sofrido por Lacerda, respondeu-lhe: "Tenho a Guarda nas mãos, não acredito numa traição dessas"; isso mostrava a lealdade de muitos anos para com o presidente e desconhecimento, até aquele momento, do que havia acontecido. Em depoimento ao IPM, Gregório disse: "Tenho matado peleando, trocando balaços, não sou homem para ser assalariado para tirar a vida de quem quer que seja".

 Climério acompanhava Alcino nas diligências e Soares dirigia o carro. Naquela noite de 4 para 5 de agosto de 1954, Soares estava em São Paulo, Climério e Alcino pegaram várias conduções para chegar ao Colégio São José. Antes de partirem, Climério ligara para o motorista Nelson, solicitando uma corrida de táxi para ele e Alcino. Ambos foram verificar se Lacerda já havia chegado à Toneleros, antes de eles irem embora para a casa de Climério. Nelson conhecia Climério, mas não conhecia Alcino. Por se tratar de uma diligência, Nelson ficou esperando o retorno dos dois, como também poderia estar parado esperando a volta dos assassinos. A arma fornecida por Soares para proteção de Alcino e eventual uso durante seu trabalho também pode ter sido fornecida para um assassinato.

Nem plano de fuga havia

Entretanto, por causa do passado de sicários da Guarda Pessoal, todos acabaram condenados como participantes do atentado. Atentado este que, se bem analisado, mostra que não havia plano de fuga nem dinheiro previamente entregue aos acusados. Outro fator a se considerar é o não uso de um carro qualquer com chapa fria, mas um táxi de um ponto que ficava ao lado do Palácio do Catete. A falta de reconstituição do crime é o fato que mais chama a atenção até hoje, pois possibilitaria esclarecer vários pontos sobre o crime em si.

 Alcino não tinha porte físico, nem experiência de pistoleiro e nunca usara uma arma calibre .45 milímetros, mas ao atingir o pé de Lacerda atingiu fundo o imaginário da época a ameaça que pairava sobre Lacerda e finalmente se concretizava. [Alcino foi acusado do "crime da Pavuna". Várias mulheres estavam sendo assediadas por um "dom Juan" de nome Marcos Augusto, vulgo "Naval", no bairro da Pavuna. O investigador Edson de Alencar Sacramento não achou nada que pudesse relacionar com a morte de Walter Ferreira, mas ao analisar o nome do seu acompanhante, Marcos Augusto, percebeu que poderia estar diante de um crime passional. Em suas investigações, Edson percebeu que a esposa de Soares tinha sido uma dessas mulheres assediadas e por causa da longa ficha policial de Soares nos anos 20 e 30, decidiu intimá-lo para um depoimento. Climério compareceu em seu lugar e pediu para Soares não ser importunado. O investigador Edson considerou isso uma ameaça e interpretou como um caso de acobertamento e, após o crime da rua Toneleros, ele passou a informação aos majores da Aeronáutica. O investigador Edson interrogou o vigilante municipal Manuel Joaquim do Nascimento Filho, vizinho de Soares, conseguindo o endereço de Alcino o que possibilitou a prisão dele. No IPM, não consta o depoimento do vigilante municipal, mas sim do próprio investigador Edson, onde consta que o vigilante disse a ele que Alcino era o autor do "crime da Pavuna". Isso permitiu a ligação do nome de Soares ao de Alcino. Soares por ciúme teria contratado Alcino para matar Marcos Augusto, mas ele errou o alvo e matou Walter Ferreira, acompanhante dele. Estranho parece ser contratá-lo para matar Lacerda depois deste suposto engano e ainda por cima recair a acusação de pistoleiro profissional. Nunca houve provas de que Soares fosse o mandante e tivesse contratado Alcino, embora o Smith & Wesson, calibre .38 milímetros, de Soares tivesse sido apreendido e apresentado como a arma do crime pois as balas que mataram Walter Ferreira eram desse mesmo calibre. O "crime da Pavuna" foi usado para se contrapor ao álibi de Soares e envolvê-lo no crime da rua Toneleros, embora estivesse em São Paulo naquela noite. ] Além disso, a morte do major Vaz deu conotação político-militar à crise de agosto de 1954. O motorista Nelson, ao permanecer no carro permitindo a fuga de Alcino do local do crime, passou a cúmplice. Soares, por fornecer a arma e receber o dinheiro de Valente, passou a co-autor e também por encobrir a fuga de Climério. Este, ao entregar o dinheiro a Alcino, e por ter estado com ele no local do crime, passou a ser culpado também. Gregório, ao financiar e acobertar a fuga de todos, passou a mandante de tudo.

A Guarda Pessoal e a polícia estavam em julgamento por todo o passado de crimes impunes e acobertados que os inquéritos não apuravam e que aconteceram nos períodos de 1938-1945 e 1951-1954. Gregório Fortunato estava bem de vida, e não teria motivos para se arriscar, pois dali a um ano haveria eleições presidenciais e ele sairia do governo. Seu objetivo parecia ser continuar obtendo informações sobre de várias pessoas, entre as quais Lacerda. Mas Alcino, ao disparar o Smith & Wesson, calibre .45 milímetros, alterou os acontecimentos, que se precipitaram até o suicídio do presidente dezenove dias depois. Não se julgam as intenções das pessoas, mas os atos praticados. [Na prisão, Gregório Fortunato estava escrevendo um diário sobre os bastidores do governo Vargas, com base na memória que tinha dos seus arquivos pessoais. Gregório foi esfaqueado e morreu em 23 de novembro de 1962, quando Carlos Lacerda era governador da Guanabara. Após o crime, o diário desapareceu e nunca foi encontrado. Em 25 de março de 1975, faltando poucos dias para ser libertado, Climério Euribes de Almeida morreu no Hospital Souza Aguiar em decorrência de complicações de vários anos por ter sido esfaqueado na prisão. Em 9 de abril de 1975, Alcino João do Nascimento foi libertado e passou a viver na Baixada Fluminense e manteve a sua versão de que não estava na rua Toneleros para matar Lacerda. No primeiro julgamento, em 1956, Alcino afirmou em depoimento que não teve intenção de matar ninguém. Segundo Hugo Baldessarini, advogado de acusação, foi "um depoimento que ninguém entendeu". No julgamento de Climério, este disse estar "vigiando" Carlos Lacerda, isto é, "fazendo um serviço de informação" e que tanto ele como o motorista Nelson foram vítimas da função que cumpriam e seriam, portanto, inocentes. Houve seis julgamentos, um para cada réu, e a atuação da defesa, na tentativa de reduzir as penas dos acusados, foi extremamente política (pró Vargas e contra Lacerda e os militares) em alguns casos. O advogado de defesa, Carlos de Araújo Lima, convenceu Gregório Fortunato a assumir a autoria do atentado, tentando uma redução de pena baseado no "relevante valor social": Gregório teria mandado matar Carlos Lacerda para salvar o país de uma guerra civil e por gratidão a Getúlio Vargas (a tese da defesa poderia diminuir a pena de 1/6 a 1/3), havia uma outra tese de "excesso de mandato" que significaria "dar um jeito" em Lacerda e não matá-lo. No depoimento de Gregório Fortunato, este tentou envolver possíveis instigadores para diminuir a própria pena e recair a culpa sobre os possíveis instigadores. O advogado de defesa, Humberto Salles, defendeu Alcino baseado na tese de "coação irresistível e crime continuado", o que significava uma acusação contra Climério, responsável pela coação. Essas alegações diminuiriam bastante a pena de Alcino. Os advogados de defesa não pediram reconstituição do crime, o que poderia ajudar os réus em suas defesas, e partiram para uma defesa política num tenso clima político na época do primeiro julgamento em 1956.O segundo julgamento confirmou as penas de Climério, Alcino e Soares em 1968. ]

O significado do atentado

O crime da Toneleros sempre foi analisado por um único ângulo: por estarem envolvidos integrantes da Guarda Pessoal, ganhou conotação política. Nunca se perguntou se os eventos daquela madrugada em Copacabana poderiam ter outra interpretação. Como membros da Guarda Pessoal do presidente estavam envolvidos, as perguntas nos interrogatórios visavam respostas pré-determinadas, em busca do mandante ou mandantes do crime. As técnicas de interrogatório tipicamente sugestionadoras pretendem encaminhar as respostas dos acusados para as vias já estabelecidas.

Portanto, se pré-estabelecemos que houve um crime político, devemos pela lógica seguir o raciocínio e fazer perguntas em busca de respostas que nos levem aos mandantes ou instigadores do crime. Todo o passado da Guarda Pessoal e dos próprios envolvidos foi utilizado para nos levar à conclusão do crime político e, portanto, do tipo de interrogatório a ser seguido para obter a confissão de culpa dos acusados. A imprensa e o inquérito policial-militar agiram deste modo naquela época.

 A imprensa denunciou os envolvidos no atentado. As Forças Armadas prenderam os suspeitos e a Justiça condenou a todos. Entretanto, o papel da história é reavaliar os acontecimentos e chegar, ou não, às mesmas conclusões da imprensa que, na época, acompanhou diariamente os acontecimentos. Já há distância histórica suficiente para se analisar o crime da Toneleros, embora os livros nos contem apenas a versão e as conclusões da época. A versão da época é válida para a própria época, e pode continuar assim, mas isso não impede que a História reveja os acontecimentos, já que estamos distantes do clima emocional de 1954.

 Para revermos os acontecimentos, é necessário mudarmos as perguntas, pois se fizéssemos as mesmas perguntas teríamos as mesmas respostas.

O que faziam?

A pergunta que deveria ser feita é: o que estavam fazendo Climério e Alcino na Toneleros? Eles poderiam estar cumprindo ordens de Gregório Fortunato, seguindo Carlos Lacerda e recolhendo informações, como já vinham fazendo há meses. No ano de 1954, haveria eleições legislativas, Carlos Lacerda era candidato a deputado federal e maior opositor de Getúlio Vargas.

Por que apenas Alcino se encaminhou em direção ao carro do major Vaz? Segundo ele, para verificar a placa do carro de quem estava ajudando e apoiando Carlos Lacerda em seus comícios e na eleição. Entretanto, o major Vaz, ao voltar-se em direção ao carro, vê Alcino e tenta detê-lo, numa ação comum e freqüentemente citada na imprensa da época: deter uma pessoa em atitude suspeita para averiguação. Portanto, situando-nos nos anos 50, a pergunta seria algo como: O que um homem mulato estaria fazendo aquela hora da madrugada na rua Toneleros? A expectativa de um atentado pode ter contribuído para que o incidente se transformasse em atentado. O major Vaz entra em luta corporal com Alcino e é morto por ele. Carlos Lacerda, da entrada da garagem, atira em direção a Alcino que, agachado atrás do carro, atira em direção a Carlos Lacerda para dar cobertura à própria fuga.

Alcino atinge o pé de Carlos Lacerda numa troca de tiros. Esse tiro definiu a construção simbólica do atentado. Lacerda foi retratado no hospital, em casa e depois no enterro do major Vaz.

Enredo perfeito

A morte de um oficial das Forças Armadas, o ferimento no pé de Carlos Lacerda e o fato de o autor dos tiros ser ligado à Guarda Pessoal do presidente formam o enredo de um evento histórico comparável ao da morte de João Pessoa, em 1930, doze dias após o feriado nacional de 14 de julho em homenagem à Revolução Francesa. João Pessoa tinha sido ministro do STM e era candidato a vice-presidente na chapa de Getúlio Vargas. A morte de João Pessoa abriu o ciclo do primeiro governo Vargas e a morte do major Vaz, no segundo governo Vargas, fechou o ciclo iniciado 24 anos antes.

 Durante o período de existência da Guarda Pessoal entre 1938 e 1945, ocorreram vários crimes e confrontos entre membros da Guarda Pessoal e da Polícia Especial, de um lado, e opositores do regime e jornalistas, de outro. A impunidade era completa nesse período do Estado Novo. Quando, em 1950, Getúlio Vargas foi eleito democraticamente, a Guarda Pessoal foi rearticulada e continuou a agir como se estivesse no Estado Novo. A forma de agir da Guarda Pessoal do presidente e de vários policiais nas delegacias era incompatível com um regime democrático. A morte do jornalista Nestor Moreira mostrara a continuidade da impunidade, um impasse constante e o agravamento da situação política do segundo governo Vargas.

Especialidade de Gregório

Gregório Fortunato sempre agia da mesma maneira diante de conflitos, agressões e mesmo morte provocadas por seus subordinados: financiava a fuga e esperava que se acalmassem os ânimos. Gregório não tinha controle absoluto sobre a ação de seus homens, que, com autonomia, podiam cometer excessos, como abuso de autoridade e uso descabido de violência.

 Gregório Fortunato, depois do incidente envolvendo Alcino e o major Vaz, fez o que sempre fazia: deu proteção e fuga aos subordinados. Entretanto, estávamos diante de um caso único, as Forças Armadas como instituição haviam sido atingidas. O brigadeiro Eduardo Gomes deu a declaração que definiu o rumo dos acontecimentos: "Para honra da nação, confiamos que este crime não fique impune". As Forças Armadas desempenharam papel importante na apuração dos fatos e na prisão dos culpados.

 A pressão da maior parte da imprensa e da opinião pública desempenhou papel importante na apuração do crime. A estrutura da Guarda Pessoal e a rede de informações, montadas por Gregório Fortunato, foram desmanteladas, assim como foram denunciadas algumas das negociatas do "Anjo Negro". Ele pode ter aberto os próprios arquivos à devassa para provar que tinha uma rede de informações sobre opositores, e que não havia um complô para assassinar Lacerda, mas os olhos dos seus acusadores só viram as negociatas (exemplo: Maneco, filho de Vargas, vendera uma fazenda a Gregório). Apenas pequena parte do material (a que continha os negócios suspeitos) foi vazada para a imprensa oposicionista. Os arquivos secretos não foram anexados ao processo e nem serviram de prova no julgamento, apenas o dinheiro apreendido mostrava a ligação de Gregório na fuga de Climério, Alcino e Soares, e não no financiamento prévio do crime.

Ninguém viu

Carlos de Araújo Lima, na defesa prévia, queixou-se por não ter acesso aos arquivos secretos de Gregório Fortunato para saber que autoridades do novo governo estariam citadas nos documentos apreendidos. Nas alegações finais de Carlos Lacerda, apresentadas por Sobral Pinto, este jurista lamentou a ausência da documentação para aprofundar o julgamento contra Gregório Fortunato e buscar provas contra os instigadores do crime [O jurista Sobral Pinto afirmou no primeiro julgamento, em 1956: "Realmente, a única fonte que surgiu neste processo como elemento de informação dos responsáveis diretos pela morte do major Rubens Florentino Vaz e pelo atentado contra Carlos Lacerda foi Gregório Fortunato. Da sua palavra e do seu arquivo teriam de partir, necessariamente, as pistas para estas investigações. Pois bem, do seu arquivo não se tem mais notícias, como, também, na ocasião em que foi apreendido, também não se soube, senão uma parte diminuta, o que é que ele continha realmente. Não foi feita, igualmente, por qualquer autoridade, nenhuma relação dos documentos que o integravam e dos papéis que nele se achavam recolhidos. Dele se tiraram apenas algumas peças, poucas, que foram entregues aos jornais de oposição, que as publicaram com escândalo. As pistas que porventura poderiam fornecer não foram seguidas nem utilizadas." (Paiva, 1994, p. 269). ]. Os dois lados queriam os mesmos arquivos com objetivos diferentes, mas curiosamente não tiveram acesso a eles. Na época, após a comoção do suicídio do presidente, os documentos apreendidos ficaram de posse das Forças Armadas, já no governo Café Filho. Os depoimentos do IPM, sobre o crime da Toneleros, ocorreram na Base rea do Galeão, a chamada "República do Galeão", embora o quartel-general das investigações estivesse localizado na Diretoria de Rotas Aéreas (comandada na época pelo brigadeiro Eduardo Gomes) no Aeroporto Santos Dumont.

 A morte de um oficial das Forças Armadas, o ferimento no pé do principal opositor de Getúlio Vargas e o envolvimento da Guarda Pessoal do presidente fez com que se construísse, em torno do crime, a versão de um crime político. O julgamento não era apenas jurídico, estava em julgamento político toda a Guarda Pessoal, a Polícia Especial (a polícia política de uniforme cáqui de Getúlio Vargas) e as arbitrariedades cometidas no Estado Novo. Toneleros era o símbolo da necessidade de um julgamento geral, e a culpa moral recaiu sobre o presidente.

As saídas propostas fracassaram: o impeachment era impossível (falhara em junho); a renúncia não fora aceita (apesar da campanha da maior parte da imprensa e, nas ruas, das passeatas, quando milhares de pessoas usavam a letra "R" de renúncia pregada à roupa; a licença do presidente foi proposta e depois recusada por ele, no dia 24, pois seria definitiva. Restava a deposição, como em 1945, mas Getúlio optou pelo suicídio. A imprensa em geral (menos ltima Hora ) foi pega de surpresa pelo desfecho inesperado do enredo criado a partir do crime da Toneleros.

As intenções não importavam

Segundo Alcino, não houve intenção em praticar o atentado, mas as suas íntimas intenções não interessaram à imprensa, à Justiça e à opinião pública, que cumpriram seu papel na época. Não estava em julgamento apenas o caso Toneleros, com bem disse o Correio da Manhã , mas todo o passado de arbitrariedade, acobertamento e impunidade da polícia e da Guarda Pessoal no Estado Novo e no próprio segundo governo Vargas (1951-1954). A legitimidade do poder reside na capacidade de emitir e manejar uma série de imagens e símbolos que exprimam crenças comuns, normas de bom comportamento e papéis sociais.

Em agosto de 1954, havia uma crise de legitimidade agravada após o crime da rua Toneleros. Ao manipular a figura do major morto, a UDN transferiu aos militares toda a simbologia necessária à legitimidade do poder: "ordem, honestidade, legalidade, probidade, heroísmo, patriotismo, desprendimento". A crise moral abatia o presidente, mas o suicídio resgatou o desgaste, restaurou o carisma, consolidou o mito para a posteridade poder analisá-lo de diferentes maneiras nos diversos períodos de seus governos.

 A reação do major Vaz em deter Alcino e a reação deste em atirar, para não ser detido ou preso, provocaram uma reação em cadeia no país, com apoio da maior parte da imprensa e das rádios, levando o presidente ao suicídio porque ele não queria abandonar a missão de cumprir o seu mandato até o final.

IPM e imprensa falharam

Há vários problemas na investigação do inquérito policial-militar, assim como na atitude passiva da imprensa, de mera reprodutora da versão oficial, sem independência e sem investigação própria. Primeiro, a cena do crime não foi preservada. Segundo, não houve acareação entre Alcino e Lacerda. Terceiro, não foi feita a reconstituição do crime. Quarto, Lacerda deixou o país e o julgamento foi feito sem seu testemunho ocular. Quinto, o arquivo de Fortunato não foi anexado nem ao inquérito nem ao processo.

O mais grave ocorreu com a peça-chave da acusação: a vinculação de Soares aos demais. O investigador Edson de Alencar Sacramento, após procurar os majores, deu depoimento ao IPM citando o vigilante municipal Manuel Joaquim do Nascimento Filho para provar a vinculação entre Soares e Alcino, e que este era pistoleiro. Essa frágil acusação, feita de maneira indireta, não foi sequer checada nem confirmada no julgamento, mas vazou para a imprensa, que a divulgou de maneira ampla.

 Gregório Fortunato tinha uma rede de informações que foi desmontada após o atentado. Ele abriu os arquivos para provar que não havia um complô e foi assassinado na prisão porque estava escrevendo um livro com base em seus arquivos. Fortunato deu dinheiro a Climério para facilitar a sua fuga por sua relação de compadrio. Fortunato confessou a Benjamin Vargas que estava metido nesta confusão toda também em função de sua relação de compadrio. Bejo acreditou em Fortunato, tanto que pelo resto de sua vida alimentou a suspeita de que Tenório Cavalcanti conseguira infiltrar um agente duplo a fim de derrubar o governo com o atentado praticado contra Lacerda.

Os fatos sem paranóia

Eliminando-se a paranóia da época, percebe-se que a falta de reconstituição do crime prejudicou seu esclarecimento: a) o major Vaz tentou segurar Alcino, e levou o primeiro tiro de baixo para cima. Alcino, depois de se desvencilhar, deu o segundo tiro, de cima para baixo; b) já agachado atrás do carro, Alcino trocou tiros com Lacerda, sendo que um acertou o chão e só depois o pé de Lacerda, e por isso não lhe destroçou o pé.

Houve uma condenação judicial, mas nada impede que haja uma segunda leitura dos autos do processo ou dos acontecimentos. A culpa moral era muito grande e levou o presidente ao suicídio. A condenação dos acusados foi o ato final que sepultou o Estado Novo.

 A crise de agosto de 1954 parece um romance, e como tal permite várias interpretações, a intertextualidade. Como em O Estrangeiro de Albert Camus, a condenação judicial não impede uma outra leitura dos acontecimentos.

 (*) Mestrando em Ciência Política (IFCH/Unicamp)

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