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MARCHA DO TEMPO
DOCUMENTO
Agosto de 54, uma releitura
Luiz Roberto Guimarães
da Costa Júnior (*)
Em 3 de outubro de 1950, nos 20 anos
da Revolução de 1930, Getúlio Vargas foi eleito presidente
do Brasil. Vargas havia sido chefe do governo provisório (1930-1934),
depois presidente eleito indiretamente (1934-1937) e ditador do Estado
Novo (1937-1945). Agora, pela primeira vez, Vargas chegava ao poder por
eleições democráticas e tomava posse em 31 de janeiro
de 1951.
Os principais órgãos
de imprensa do eixo Rio-São Paulo se colocaram contra a candidatura
de Vargas e depois contra seu governo. O presidente não teve a cobertura
da imprensa na campanha, apoiando o brigadeiro Eduardo Gomes, da UDN. Na
campanha de Vargas, que durou 53 dias e percorreu todas as unidades da
Federação, foram usados caminhões com alto-falantes
e distribuídos volantes impressos para divulgar o programa de governo.
A imprensa atacava as propostas políticas, econômicas e sociais
de Vargas. O candidato a presidente defendia a necessidade de capital externo
para financiar a infra-estrutura, desenvolver a economia e fazer avançar
a indústria no país, com apoio do Estado, já que o
capital interno e a iniciativa privada não tinham condições
de fazer isso sozinhos. Este caminho intermediário, proposto por
Vargas, era difícil de ser seguido por causa do pano de fundo ideológico
da Guerra Fria entre EUA (capitalismo) e URSS (comunismo).
A única forma encontrada
pelo governo para divulgar suas idéias e se defender dos ataques
da imprensa, que agora era livre mas sofrera muito no Estado Novo, foi
apoiar e financiar o jornal ltima Hora , de Samuel Wainer. A imprensa,
em geral, atacou desde o início esta iniciativa. Em 1953, uma Comissão
Parlamentar de Inquérito (CPI) investigou e comprovou o financiamento
público, mas não conseguiu envolver o presidente.
1954, um ano conturbado
O ano de 1954 foi um dos mais conturbados
da história republicana brasileira. Em fevereiro, oitenta e dois
coronéis, apoiados pelo então ministro da Guerra, general
Ciro do Espírito Santo Cardoso, divulgaram manifesto criticando
as greves dos trabalhadores e o custo de vida. Por um lado, o presidente
demitiu o ministro e colocou, no Ministério da Guerra, o general
Zenóbio da Costa, aceito sem restrições pelos militares
por ter sido um dos comandantes da Força Expedicionária Brasileira
(FEB) na Segunda Guerra Mundial. Por outro lado, o presidente teve que
ceder, demitindo o ministro do Trabalho, João Goulart, por causa
da proposta de aumento de 100% do salário mínimo. Em 1 de
maio, nas comemorações do Dia do Trabalho, entretanto, o
próprio presidente aumentou o salário mínimo em 100%
(a inflação prevista era de 54%, o que geraria aumento real
de 46% nos salários). Em seguida, foi divulgado um falso acordo
secreto entre os governos populistas de Perón e Vargas, e isso deu
origem à proposta de abertura de um processo de impeachment contra
o presidente. Em 16 de junho, a Câmara dos Deputados recusou por
ampla maioria a abertura do processo.
Ainda em maio ocorreu a morte
do jornalista Nestor Moreira, do jornal A Noite , casado e pai de
dois filhos. Ele foi violentamente espancado pelo policial Paulo Ribeiro
Peixoto, vulgo "Coice de Mula", com ajuda de dois vigilantes e sob o olhar
de um comissário da 2 DP. Após 11 dias agonizando, o jornalista
morreu e foi enterrado em clima de consternação e revolta,
em 23 de maio. Esse acontecimento comoveu a opinião pública
e revoltou toda a imprensa, dadas as características do caso semelhanças
com as práticas da SS nazista ou do Estado Novo do próprio
Getúlio Vargas , em relação ao tratamento com a imprensa
e com os opositores do regime (o livro Memórias do Cárcere
, de Graciliano Ramos, registra esta época). A revolta contra a
impunidade, a corrupção generalizada e a violência,
que dominava grande parte da opinião pública antes da democratização
do país, aumentou após a queda de Vargas no final de 1945,
e persistiu quando o ex-ditador foi eleito presidente democraticamente
em 1950.
Começava o mês
de agosto de 1954, as eleições legislativas federais e estaduais
seriam dali a dois meses. O clima no país era tenso por causa da
radicalização entre getulistas e antigetulistas. O jornalista
Carlos Lacerda estava em campanha para deputado federal e usava seu jornal,
Tribuna da Imprensa , para atacar o presidente. Este jornalista
já havia sofrido duas agressões físicas (tratadas
na época como atentados) por causa de sua moralizante campanha contra
a corrupção. Em 1948, quando era vereador, no Rio de Janeiro,
levara uma surra de várias pessoas quando saía da Rádio
Mayrink Veiga. Carlos Lacerda acusou o então prefeito do Rio, general
ngelo Mendes de Morais, de mandante do atentado. Em 14 de maio de 1950,
o coronel da Aeronáutica Guilherme Aloísio Teles Ribeiro
trocou socos com Lacerda, à saída do elevador, no 10 andar
do Edifício Albervânia, na Rua Toneleros n 180, por causa
das denúncias da Tribuna da Imprensa , que acusara o coronel
de fazer negociatas com Artur Pires, presidente do Sesc.
Os componentes da crise
A crise econômica do Brasil era
grave em 1954, havia os fatores externos da crise do preço internacional
do café e a dificuldade da venda da safra e o fator interno do aumento
do salário mínimo e do custo de vida. Estes fatores econômicos
estavam causando tensão e gerando uma crise política até
aquele momento contornada pelo presidente Vargas. Na madrugada do dia 5
de agosto de 1954, o jornalista Carlos Lacerda levou um tiro no pé
e seu acompanhante, o major Vaz, foi morto com dois tiros. A imprensa teve
papel importante nos acontecimentos de agosto de 1954. O crime da rua Toneleros
mobilizou a maior parte da imprensa na campanha pela renúncia do
presidente. O agravamento da crise política, que agora se transformara
em político-militar, levou o presidente ao suicídio no dia
24 de agosto de 1954.
Os principais órgãos
de imprensa atuaram na formação de um consenso a respeito
da crescente inviabilidade política e moral do governo Vargas. A
radicalização da imprensa e dos militares (que apostavam,
agora, na mesma solução de 1945) impediram a resolução
do impasse político por meios legais, curiosamente estávamos
na democracia e não mais na ditadura do Estado Novo, mas se buscava
a antiga solução. O presidente Vargas, em seu diário,
já escrevera que se a Revolução de 1930 fracassasse
ele se mataria. Em 1938, no atentado integralista ao Palácio Guanabara,
Vargas guardara algumas balas para se matar e à família,
caso fosse necessário, pois não iria se render. Diante do
quadro político de 1954, o presidente se viu diante de situação
vivida duas vezes antes. Desta vez, ele foi até o fim.
Os jornais de maior circulação
da época, no Rio de Janeiro, eram Correio da Manhã
, Diário de Notícias , Diário Carioca
, O Globo , O Jornal e, em São Paulo, O Estado
de S.Paulo e Folha da Manhã . Os outros jornais importantes
da época e que estavam em pólos opostos (extremos dentro
do espectro jornalísticos e que, portanto, não serão
analisados) eram ltima Hora , de Samuel Wainer, de grande circulação,
que fazia a defesa sistemática do governo Vargas, e Tribuna da
Imprensa , de Carlos Lacerda, de pequena circulação,
mas que fazia a maior campanha de ataques diários a Vargas.
Etapas da crise
A crise de agosto de 1954 foi analisada
no livro Vargas e a crise dos anos 50 (pp.23-69), seguindo a evolução
dos citados sete primeiros jornais em relação às fases
da crise, mas não deixando de acompanhar como atuaram os dois últimos
jornais citados. A primeira etapa da crise correspondeu à apresentação
do atentado e à construção de grave momento político
e moral. A segunda etapa foi a fase da acusação de culpa
do presidente, mesmo que indiretamente, no clima de insegurança
do país por causa do envolvimento da Guarda Pessoal no atentado.
A terceira etapa foi a fase do apelo à renúncia diante da
inviabilidade política de continuação do governo Vargas.
A quarta e última etapa foi a fase da imposição da
renúncia ou deposição por causa da incapacidade moral
do presidente em continuar governando e sua perda de autoridade política
e administrativa.
Os jornais O Globo ,
O Jornal e Folha da Manhã fizeram cobertura moderada,
com menor apelo emocional contra o presidente, tanto é verdade que
depois da apresentação do início da crise (fase 1)
passaram diretamente ao apelo à renúncia (fase 3), mas tardiamente:
O Globo , em 21 de agosto, e os outros dois jornais no próprio
dia do suicídio. Isso não impediu que O Globo fosse
atacado por populares por causa da posição radical da Rádio
Globo, que abrira espaço, no ar, para a UDN durante toda a crise.
O papel das rádios também mereceria trabalho à parte,
principalmente por causa da divulgação da Carta-Testamento
e sua conseqüências para o país.
Diário de Notícias
, O Estado de S.Paulo, Diário Carioca e Correio da Manhã
seguiram as quatro fases. A diferença é que os três
primeiros defenderam a imposição da renúncia, respectivamente,
nos dias 13, 14 e 15 de agosto, pois a idéia ganhara força,
naquele final de semana, durante a Assembléia do Clube Militar,
e isso acabou tendo ampla divulgação. O Correio da Manhã
fazia a defesa de uma saída legal sem golpes, e pregou a imposição
da renúncia apenas no dia 19 de agosto, quando foram revelados os
negócios escusos que envolviam Gregório Fortunato. Depois
disso, os jornais mais moderados já iniciariam o apelo à
renúncia, como já foi dito. O cerco da imprensa e dos militares
se fechava contra o presidente e a data limite seria 25 de agosto, Dia
do Soldado.
O presente artigo faz a reconstituição
do momento do crime da rua Toneleros, dando a versão mais plausível
a partir da visão de Alcino João do Nascimento, que matou
o major Vaz e atirou em Lacerda, dos demais envolvidos e das testemunhas
do crime. Na conclusão, há uma análise histórica
do significado do atentado a Carlos Lacerda.
Antecedente histórico
A proposta de análise do atentado,
levando-se em conta o ponto de vista de quem atirou, tem interessante antecedente
na historiografia latino-americana. [Fato similar ao crime
da rua Toneleros foi um evento histórico ocorrido na Argentina.
Em 1 de maio de 1933, em Londres, era assinado o Tratado Roca-Rociman,
pelo qual a Grã-Bretanha se comprometia a manter o volume de importações
de carnes argentinas, em condições similares às concedidas
aos países da Commonwealth. Em troca disso, a Argentina permitia
aos britânicos e norte-americanos o virtual monopólio da exportação
de carnes, além de vantagens comerciais, aduaneiras e tarifárias
que asseguravam às empresas de capital inglês um tratamento
benévolo. Dezoito meses depois, o Senado criou uma comissão
de investigação a partir das denúncias feitas pelo
senador Lisandro De La Torre, da Província de Santa Fé, de
que estariam ocorrendo irregularidades na exportação de carne
e corrupção na administração pública.
O senador De La Torre (chamado pela situação de "Bode Velho")
vinha recebendo ameaças de morte por carta, mas não parava
as investigações que fazia por conta própria. Em 23
de julho de 1935, durante as conclusões da investigação,
ocorrem tensos debates e trocas de acusações no plenário
do Senado. O senador De La Torre discute com os ministros da Agricultura
e da Fazenda e com os demais senadores quando é contido por vários
senadores. Ele consegue se desvencilhar e dirige-se ao ministro da Fazenda
quando é empurrado pelo ministro da Agricultura e cai ao chão
sendo então amparado pelos outros senadores. O jovem senador Enzo
Bordabehere era da mesma província de Santa Fé, amigo do
senador De La Torre, e estava no plenário naquele momento. Bordabehere
ainda não tinha sido diplomado para pode tomar posse pois sua eleição
estava sendo reexaminada e, assim, o senador De La Torre estava isolado
no plenário em sua solitária defesa dos interesses argentinos
do ponto de vista da oposição. Bordabehere viu De La Torre
ser empurrado e cair ao chão e foi em direção a De
La Torre, aos ministros e aos senadores da situação para
intervir na situação de tenso conflito. Quando Bordabehere
passou pelo ex-policial Ramón Valdés Cora, este pensou que
Bordabehere estivesse armado e o matou pelas costas com três tiros.
Este ex-policial servia a Dom Alberto, do Partido Conservador, e tinha
sido designado para ficar no plenário e descobrir informações
e informantes de De La Torre, já que este contava com amplo apoio
dos sindicatos que passavam informações importantes à
comissão de investigação. O assassinato foi considerado
premeditado e político por amplos setores da sociedade portenha.
Ramón Valdéz Cora foi condenado a vinte anos de prisão.
Em 1950, por decreto do poder executivo, o total da pena foi reduzido em
dois anos e um mês. Ele saiu em liberdade em 23 de junho de 1953,
faleceu 18 meses depois. Nunca se pôde provar nada de seus cúmplices
ou mandantes. A investigação sobre o comércio de carnes
com a Grã-Bretanha ficou paralisada em definitivo. Lisandro De La
Torre se suicidou em 5 de janeiro de 1939. Passadas cinco décadas,
um filme foi realizado ( Asesinato en el Senado de la Nación,
Argentina 1984, direção de Juan José Jusid, filmado
em cores, com duração de 100 minutos) e que narra os acontecimentos
do ponto e vista do policial, mostrando que não houve a premeditação
e nem o crime político, embora a versão da época tenha
considerado o contrário. ] A visão das pessoas
difere em decorrência de vários fatores como gênero,
idade, renda, classe social, nível cultural e escolaridade. Um exemplo
de como a visão das camadas médias e altas é comparativamente
diferente das camadas populares pode se vista no filme O caso dos Irmãos
Naves (Brasil, 1967, direção de Luís Sérgio
Person, filmado em preto-e-branco, com duração de 92 minutos).
Este filme retrata a história real ocorrida durante o Estado Novo
de dois irmãos acusados pela morte de uma pessoa na cidade de Araguari,
em Minas Gerais. Foram dois julgamento e duas absolvições,
mas as autoridades policiais não se convenciam do álibi dos
acusados. Após o julgamento dos recursos nas instâncias superiores,
os irmãos Naves acabaram condenados com base nos autos. A verdade
surgiu apenas nos anos 50, coincidentemente na época do segundo
governo Vargas: o "morto" reapareceu vivo e desmontou toda a história.
A proposta deste artigo não
chega a tanto. A idéia é apenas propor uma releitura do crime
da Rua Toneleros, mudando-se o foco da análise, centrando-o na reconstituição
do momento do crime, que não foi feita na época e nem na
minissérie Agosto , da Rede Globo, e que poderia ter esclarecido
muita coisa. A visão de quem atirou pode ajudar a rever a versão
da maioria dos jornalistas, historiadores e cientistas sociais que analisam
os eventos ocorridos há 45 anos. Rever o crime da rua Toneleros
e a construção simbólica feita pela imprensa pode
nos ajudar a entender melhor o desfecho do segundo governo Vargas em agosto
de 1954.
Reconstituição do crime
O crime da Rua Toneleros completa 45
anos e agora, passado tanto tempo, propomos analisar de uma outra forma
os eventos ocorridos em agosto de 1954, levando-se em consideração
a reconstituição do crime. [O crime da rua
Toneleros é o segundo evento mais dramático do segundo governo
Vargas, apenas sendo superado logo depois pelo suicídio do presidente.
O clima tenso e ideológico da época refletia a paranóia
da Guerra Fria e pode ser medido por duas opiniões sobre o atentado
e que hoje podem ser consideradas absurdas: a)a
princípio, o chefe da Casa Militar, general Caiado de Castro, chegou
a pensar que fosse uma ação de comunistas para desestabilizar
o governo Vargas (depois ficou surpreso com o envolvimento de Gregório
Fortunato); b) Lutero
Vargas achava que era um complô da CIA com apoio da UDN e que o pistoleiro
tinha sido contratado por Tenório Cavalcanti para matar o militar
que acompanhava Lacerda e, assim, desestabilizar o governo Vargas. Dois
acontecimentos de 1954 não foram divulgados na época e não
há como aprofundá-los atualmente: a)em
4 de julho, Lacerda estava numa lancha com seus acompanhantes. Quando a
lancha se aproximava do cais da ilha de Paquetá, um pacote bomba
foi lançado do alto do cais e explodiu na água, provocando
um rombo na lancha (isso mostra que Lacerda e seus acompanhantes militares
esperavam outros possíveis atentados durante a campanha eleitoral
e estavam prontos para agir preventivamente); b) em
8 de agosto, o ministro da Justiça, Tancredo Neves, foi informado
da confissão do motorista Nelson e que incriminava Climério
da Guarda Pessoal. Tancredo Neves avisou Gregório Fortunato no Palácio
do Catete, dando tempo para a fuga de todos os subordinados. As Forças
Armadas, principalmente a Aeronáutica, guardaram uma profunda irritação
com este acobertamento do crime da rua Toneleros. Tancredo Neves passou
a não ser bem viso por certos setores das Forças Armadas
desde aquela época. ]
Gregório Fortunato (denominado
"O Anjo Negro" pela imprensa lacerdista), chefe da Guarda Pessoal do presidente,
contratou Alcino João do Nascimento para seguir o jornalista Carlos
Lacerda (denominado "O Corvo" pela imprensa getulista). Gregório
tinha um livro de autoria de Stefan Zweig. O livro era a biografia de Joseph
Fouché homem que passou incólume pela Revolução
Francesa , perigoso, bacharel na arte de tramar nos bastidores, mestre
da intriga que soubera arrastar à guilhotina até Rosbespierre
e depois passara a ser chefe de polícia de Napoleão. O poder
intimidador de Fouché era grande, com seus arquivos secretos. Gregório
Fortunato estava lendo este livro na noite de 4 para 5 de agosto de 1954.
Gregório queria levantar informações
sobre os hábitos de Lacerda, seus negócios (tentando descobrir
alguma irregularidade), seu posicionamento político, seus discursos
e de quem recebia apoio. Lacerda era candidato a deputado federal nas eleições
legislativas de 3 de outubro de 1954, além de ser o jornalista de
mais feroz oposição a Getúlio Vargas. As informações
obtidas seriam uma forma de municiar o governo para abrir algum processo
contra seu opositor (represália aos constantes ataques ao governo).
Gregório Fortunato entregou
um cartão da Ordem Política e Social a Alcino. Os trabalhos
de investigação eram feitos por mais de duas centenas de
pessoas da Guarda Pessoal do presidente. Tudo era de inteira responsabilidade
de Gregório, que não queria envolver o presidente, caso ocorresse
algum problema com seus subordinados que atuavam em equipes, fora do Palácio
do Catete, para investigar várias pessoas. Outro trabalho era fazer
a segurança, e o levantamento de locais, quando das viagens do presidente
Vargas.
Começa a investigação
No final de 1953, Alcino começou
a seguir e investigar a vida de Lacerda e, nos meses próximos às
eleições Gregório começou a enviá-lo
com Climério. No Rio de Janeiro, Climério conhecia muitas
pessoas amigas e inimigas, tinha 22 anos de trabalho e poderia ajudar na
obtenção de informações, já que Alcino
vivera muitos anos em Minas Gerais e agora tinha voltado ao Rio de Janeiro.
Climério afastou-se do Palácio do Catete para trabalhar nessas
diligências ele sempre ficava afastado da ação do companheiro,
e Soares dirigia o carro. Em depoimento no IPM, Gregório se referiu
a Climério afirmando que ele "era utilizado em reuniões públicas
de modo não ostensivo porque ele não tinha apresentação
para isso, sendo mesmo um tipo que despertava certa atenção,
de modo que se tornava inconveniente para um policiamento digno".
Concluídas as diligências
que estava fazendo, durante a campanha eleitoral, Alcino entregava os relatórios
a Gregório, na mesa cativa deste, na Churrascaria Gaúcha,
nas Laranjeiras. Alcino tinha recebido a promessa de Climério de
conseguir para ele um emprego de investigador de polícia para depois
das eleições.
No dia 4 de agosto de 1954,
Alcino teve um sonho: sonhou que atirava em alguém e atiravam nele.
Um guarda tentava prendê-lo e ele também atirava. Lembrou-se
que tinha ido a uma cartomante que dissera que ele ia ter azar e complicações
com a Justiça. Nesse dia, Climério o chama, eles tinham que
continuar a seguir Lacerda. Alcino diz que não queria ir. Climério
o convence, pois ele, Alcino, tinha que fechar o relatório para
entregar a Gregório. Faltavam dois meses para as eleições
legislativas de 3 de outubro de 1954.
Terno branco e discurso
Alcino e Climério vão
até o Externato [hoje Colégio] São José, na
rua Barão de Mesquita, na Tijuca. Lacerda, de terno branco, chega
e faz seu discurso. Alcino verifica placas de carros, além de anotar
pontos do discurso. Lacerda sai do colégio acompanhado de seu filho
Sérgio, do major da Aeronáutica Rubens Florentino Vaz, que
fazia a segurança à paisana para Lacerda, e mais duas pessoas
que descem no caminho (uma delas era Amaral Netto), antes de o carro seguir
para Copacabana. [Em 1953, o deputado Armando Falcão
pedira providências ao ministro da Justiça, Tancredo Neves,
para que Lacerda tivesse sua vida protegida. A polícia dava proteção
mas Lacerda pediu para que essa vigilância fosse aliviada. Carlos
Lacerda recebeu, então, de um grupo de oficiais da Aeronáutica,
o oferecimento para acompanhá-lo em aparições públicas
nas quais ele pronunciaria os seus discursos durante a campanha eleitoral.
Os oficiais apoiavam as opiniões políticas de Lacerda e faziam
revezamento entre eles, realizando uma segurança espontânea
ao jornalista e candidato a deputado federal nas eleições
legislativas de 3 de outubro de 1954. Naquela noite de 4 de agosto de 1954,
o escalado para ir com Lacerda até o Colégio São José
era o major Gustavo Borges da Aeronáutica. Ele, entretanto, não
podia ir pois tinha que substituir um piloto doente e fazer um vôo,
na manhã seguinte, para Goiás. O major Borges ligou para
o major Vaz e pediu que este fosse em seu lugar. Carlos Lacerda em Confissões
de Lacerda descreveria o major Vaz como "homem talvez nervoso não
era um sujeito calmo e tranqüilo mas discreto e ponderado" ( Mataram
o presidente! p.102). Dois dias antes de morrer, o major Vaz dissera
à esposa Lígia Vaz que a coisa não andava bem e que
se ele morresse, seria por estar engajado numa causa na qual acreditava.
(Paiva, 1994, p. 129). ] No caminho até a rua Toneleros,
o major Vaz e o jornalista Carlos Lacerda conversam no banco da frente
do carro sobre os acontecimentos da noite, enquanto o filho de Lacerda
está no banco traseiro.
Por um lado, o major Vaz se mostra
inquieto e preocupado com o filho Ronaldo, de 3 anos, que iria extrair
as amígdalas na manhã seguinte, no Hospital da Aeronáutica,
no Rio Comprido. Lacerda recomenda a Vaz que não assista à
operação pois sofreria mais que a criança. Lacerda
já havia passado por essa situação. Por outro lado,
o major Vaz também estava contente com a compra de um telefone,
no dia anterior, que era uma velha aspiração da esposa Lígia
Vaz. Lacerda sugere então um almoço em comemoração
à conquista do telefone.
Alcino encontra Climério,
que o esperava no bar em frente ao colégio, pois na confusão
da aglomeração de pessoas e de carros saindo não percebeu
que Lacerda já havia partido em outro carro, e não no que
viera. Climério já tinha telefonado a um taxista que conhecia,
chamado Nelson Raimundo, que servira outras vezes à Guarda Pessoal
e fazia ponto perto do Palácio do Catete, mas ele não estava
naquele momento. [Nelson trabalhava numa barbearia de
dia e era taxista à noite com um carro emprestado de um amigo que
era taxista de dia. Nelson havia vendido o seu Mercury, e estava acertando
a compra de outro carro. Nelson sequer conhecia Alcino, por isso durante
os primeiros depoimentos só revelou à polícia o nome
de Climério. Depois que Alcino foi preso, Nelson lembrou-se de tê-lo
visto uma vez conversando com Climério na barbearia onde trabalhava.
] Climério então ligou para o Café Palácio
e deixou recado para Nelson pegá-lo na Tijuca. Passado pouco tempo,
chega Nelson, que recebera o recado, e leva Climério e Alcino até
Copacabana.
O motor ficou ligado
O Studebaker dirigido por Nelson pára
e fica com o motor em funcionamento na rua Paula Freitas, transversal da
rua Toneleros, em Copacabana, e ele fica aguardando a diligência.
Climério e Alcino vão em direção à esquina
da rua Hilário de Gouveia, onde ficam conversando e percebem a chegada
de um carro com três pessoas que pára em frente ao Edifício
Albervânia (rua Toneleros, n 180), que tem uma rampa e é servido
por uma garagem com uma porta pantográfica, cuja entrada ficava
do lado direito do prédio. Carlos Lacerda, seu filho Sérgio,
de 15 anos, e o major Vaz descem do carro. Climério atravessa a
rua para a outra calçada da Hilário de Gouveia. Alcino caminha
pela calçada oposta até a frente do edifício de Lacerda
a fim de verificar a placa do carro, se era Lacerda, de terno branco e
óculos, e se quem o acompanhava era o mesmo homem que vira no colégio
horas antes.
Já passavam pouco mais
de 30 minutos depois da meia-noite. Já era 5 de agosto de 1954,
quando o major Vaz conversa com Lacerda comentando os acontecimentos da
noite e ambos combinam novamente o almoço e se despedem, enquanto
Lacerda já percebera as duas pessoas conversando na esquina e se
afastando uma da outra. Lacerda e o filho se dirigem à porta do
edifício, mas voltam, pois estavam sem chave para abrir a porta
que estava fechada, e se dirigem à porta da garagem.
Nesse momento, Alcino, com um chapéu
desabado, usando jaquetão cinza abotoado, caminha pela calçada
do outro lado da rua, atravessa a rua com um cigarro aceso, fumando, em
direção à outra calçada, perto do carro de
cor branca para verificar a placa e quem era o motorista. O major Vaz vai
abrir a porta do carro para entrar, mas grita "Ei! Pare aí! Quem
é você?", e vai em direção ao homem parado cerca
de três metros atrás do carro, àquela hora da madrugada,
em frente ao prédio de quem ele dava segurança.
Tiros na madrugada
Lacerda e o filho estavam na entrada
da garagem do edifício, Lacerda se vira para acenar despedindo-se
novamente e percebe num rápido flash o que acontece a certa distância.
O major Vaz tenta segurar Alcino. Durante a luta corporal, Alcino saca
o Smith & Wesson, calibre .45 milímetros, dispara o primeiro
tiro de baixo para cima e o segundo tiro de cima para baixo que acertam
o peito do major Vaz e ambos caem ao chão, um para cada lado. Lacerda
já sacara seu Smith & Wesson, calibre .38 milímetros,
e o disparara em direção a Alcino, que se escondera atrás
do carro e, meio agachado, também atirara, atingindo o pé
de Lacerda numa troca de tiros. [O major Vaz morreria
a caminho do hospital no colo do jornalista Carlos Lacerda. No Hospital
Miguel Couto, Lacerda recebeu anestesia local e foi constatada fratura
óssea. O pé esquerdo sofreu uma limpeza cirúrgica
no ferimento, depois foi enfaixado e, finalmente, foi colocada uma tala
branca de papelão provisória por 24 horas porque na época
o hospital não tinha ortopedista nos plantões noturnos. Dois
dias depois, já em seu apartamento, foi colocado o gesso por causa
da fratura óssea. Carlos Lacerda nunca entregou o próprio
revólver para exame de balística: não confiava na
polícia, pois poderia surgir alguma suspeita de tiro involuntário
contra o major Vaz. ]
Havia um pequeno movimento
na rua àquela hora da noite. O jornalista Armando Nogueira, que
morava na rua Toneleros n 186, foi uma das pessoas que testemunharam o
crime. Dois amigos jornalistas, que também trabalhavam no Diário
Carioca , estavam no interior de um Plymouth hidramático de
cor verde, e Armando Nogueira conversava com eles, debruçado na
janela do carro, quando percebeu a troca de tiros. Fato confirmado pelas
investigações in loco do major Borges.
Depois da troca de tiros, Alcino
sai correndo em direção à rua Paula Freitas, enquanto
Lacerda entra pela garagem, sai pela porta da frente do prédio e
termina de descarregar o revólver na direção de Alcino.
Climério tinha fugido a pé pela Hilário de Gouveia,
gritara que ouvira tiros e passara em frente à 2 DP, de onde saíam
algumas pessoas.
Enquanto isso, o vigilante noturno
Sálvio Romeiro estava a serviço rondando a casa do coronel
Melquíades na rua Toneleros n 89. [O vigilante
noturno Sálvio Romeiro contou estar naquele local por acaso, um
desses acidentes do destino. Claudio de Lacerda Paiva assim relata: "Sálvio
era guarda de uma polícia mantida pela antiga Prefeitura do Distrito
Federal, com a incumbência de policiar praças públicas
e prédios municipais. Uma polícia que andava fardada de cinza,
chamada de Guarda Municipal. Dava plantões na praça Nossa
Senhora da Paz, em Ipanema. Mas naquela noite, de 4 para 5 de agosto, ao
apresentar-se ao serviço, foi informado de que deveria trocar o
plantão, indo para a rua Toneleros, esquina da rua Paula Freitas,
onde morava o comandante da guarda, um oficial do Exército" (Paiva,
1994, p. 128). ] Quando conversava com o vigia de uma obra nas
proximidades, ouve tiros, sai correndo, e quando se aproxima da esquina
da Paula Freitas vê Alcino andando apressadamente e dobrando a esquina.
Grita para ele parar. Alcino atira em sua direção e acerta
um tiro na perna esquerda do vigilante. Alcino rapidamente caminha até
a segunda árvore da rua e entra no carro.
O Smith & Wesson cai na rua
O vigilante caído atira em direção
ao carro e atinge a carroceria do Studebaker de cor vinho. O táxi
partiu pela Avenida Copacabana em direção ao Flamengo. Na
Avenida Beira-Mar, na altura da rua México, Alcino tenta jogar a
arma, embrulhada numa flanela, na Baía de Guanabara, mas a arma
caiu para fora do táxi por causa de uma manobra do motorista que
desviara de um carro que vinha na direção contrária.
A arma de uso privativo das Forças Armadas foi encontrada e possibilitou
a instauração do IPM. O motorista Nelson Raimundo se apresentou
e, após vários interrogatórios, indicou no dia 8 de
agosto o nome de Climério da Guarda Pessoal do presidente Vargas.
Alcino acreditava que não
podia ser preso por trabalhar de "secreta", como dizia, e não poder
revelar a sua função, um dos motivos que o levava a andar
armado. Ele não sabia que a pessoa que estava com Carlos Lacerda,
que matou para não ser detido, era um major da Aeronáutica
à paisana. Além do inquérito policial, houve um inquérito
policial-militar que apurou o crime a partir de suas conotações
políticas. As apurações feitas envolveram Gregório
Fortunato, chefe da Guarda Pessoal, e seus subordinados.
O assassinato do major Vaz
e o atentado contra Carlos Lacerda acabaram sendo utilizados politicamente
para derrubar Getúlio Vargas e resultaram no suicídio do
presidente na manhã de 24 de agosto de 1954, na sede do poder executivo,
no terceiro andar do Palácio do Catete. [No quarto
de Vargas, no terceiro andar do Palácio do Catete, hoje transformado
no Museu da República, ainda está lá, na parede, o
relógio parado e marcando 8h35. ] Anos antes, os tiros
que haviam matado o candidato a vice-presidente João Pessoa, em
Recife, em 26/7/1930, da chapa do próprio Getúlio Vargas,
foram o pretexto utilizado por ele mesmo para a Revolução
de 1930. A imprensa, a opinião pública e as Forças
Armadas foram importantes nos dois eventos: tanto para a ascensão
de Getúlio Vargas em 1930 como para sua queda em 1954.
A corte de Getúlio é acusada
Nunca houve provas de que Getúlio
Vargas fosse o mandante do crime ou soubesse dele. Acusações
recaíram sobre os suspeitos Benjamin Vargas, os deputados Lutero
Vargas, Danton Coelho e Euvaldo Lodi e sobre o general Mendes de Morais,
todos como possíveis instigadores. Gregório Fortunato foi
quem acabou condenado como mandante do crime. Ao se reconstituir o crime
da Toneleros, que ocorreu em 5 de agosto de 1954, podem-se levantar duas
versões, a partir de jornais e revistas da época e da confrontação
dos depoimentos, principalmente de Alcino (único responsável
pela morte do major Vaz) e do jornalista Carlos Lacerda, ferido por um
tiro no pé esquerdo.
Gregório Fortunato tanto
poderia estar utilizando os seus subordinados para levantar informações
como poderia tê-los pago para matar Lacerda. Disse Benjamin Vargas:
"Pela sua formação, pelo seu passado, pelas vezes que tem
brigado, levando a melhor ou pior, não era homem de tocaia. Não
era inimigo de Carlos Lacerda, não o conhecia, nunca viu, nunca
leu, nunca ouviu." Valente, em depoimento, afirmou que Gregório,
após o crime, dissera o seguinte a respeito de Climério:
"Meu compadre está metido nessa trapalhada e esta bomba ainda vai
estourar em cima de mim." Gregório acabou confessando a Benjamin
Vargas (seu padrinho de casamento) que dera fuga ao compadre Climério
(Gregório era padrinho de batismo de Adão, filho de Climério).
Gregório Fortunato nasceu
em São Borja, como o presidente, e durante sua infância conhecera
a família Vargas no final do século 19. Gregório teve
contato com Vargas em 1923, durante a Revolução no Rio Grande
do Sul e depois, em 1932, durante a Revolução Constitucionalista.
Em 1938, Gregório se mudou para a capital federal, após o
atentado integralista, e organizou a Guarda Pessoal, assumindo a sua chefia
em 1942. Quando Gregório Fortunato foi interpelado pelo presidente,
após o atentado sofrido por Lacerda, respondeu-lhe: "Tenho a Guarda
nas mãos, não acredito numa traição dessas";
isso mostrava a lealdade de muitos anos para com o presidente e desconhecimento,
até aquele momento, do que havia acontecido. Em depoimento ao IPM,
Gregório disse: "Tenho matado peleando, trocando balaços,
não sou homem para ser assalariado para tirar a vida de quem quer
que seja".
Climério acompanhava
Alcino nas diligências e Soares dirigia o carro. Naquela noite de
4 para 5 de agosto de 1954, Soares estava em São Paulo, Climério
e Alcino pegaram várias conduções para chegar ao Colégio
São José. Antes de partirem, Climério ligara para
o motorista Nelson, solicitando uma corrida de táxi para ele e Alcino.
Ambos foram verificar se Lacerda já havia chegado à Toneleros,
antes de eles irem embora para a casa de Climério. Nelson conhecia
Climério, mas não conhecia Alcino. Por se tratar de uma diligência,
Nelson ficou esperando o retorno dos dois, como também poderia estar
parado esperando a volta dos assassinos. A arma fornecida por Soares para
proteção de Alcino e eventual uso durante seu trabalho também
pode ter sido fornecida para um assassinato.
Nem plano de fuga havia
Entretanto, por causa do passado de
sicários da Guarda Pessoal, todos acabaram condenados como participantes
do atentado. Atentado este que, se bem analisado, mostra que não
havia plano de fuga nem dinheiro previamente entregue aos acusados. Outro
fator a se considerar é o não uso de um carro qualquer com
chapa fria, mas um táxi de um ponto que ficava ao lado do Palácio
do Catete. A falta de reconstituição do crime é o
fato que mais chama a atenção até hoje, pois possibilitaria
esclarecer vários pontos sobre o crime em si.
Alcino não tinha porte
físico, nem experiência de pistoleiro e nunca usara uma arma
calibre .45 milímetros, mas ao atingir o pé de Lacerda atingiu
fundo o imaginário da época a ameaça que pairava sobre
Lacerda e finalmente se concretizava. [Alcino foi acusado
do "crime da Pavuna". Várias mulheres estavam sendo assediadas por
um "dom Juan" de nome Marcos Augusto, vulgo "Naval", no bairro da Pavuna.
O investigador Edson de Alencar Sacramento não achou nada que pudesse
relacionar com a morte de Walter Ferreira, mas ao analisar o nome do seu
acompanhante, Marcos Augusto, percebeu que poderia estar diante de um crime
passional. Em suas investigações, Edson percebeu que a esposa
de Soares tinha sido uma dessas mulheres assediadas e por causa da longa
ficha policial de Soares nos anos 20 e 30, decidiu intimá-lo para
um depoimento. Climério compareceu em seu lugar e pediu para Soares
não ser importunado. O investigador Edson considerou isso uma ameaça
e interpretou como um caso de acobertamento e, após o crime da rua
Toneleros, ele passou a informação aos majores da Aeronáutica.
O investigador Edson interrogou o vigilante municipal Manuel Joaquim do
Nascimento Filho, vizinho de Soares, conseguindo o endereço de Alcino
o que possibilitou a prisão dele. No IPM, não consta o depoimento
do vigilante municipal, mas sim do próprio investigador Edson, onde
consta que o vigilante disse a ele que Alcino era o autor do "crime da
Pavuna". Isso permitiu a ligação do nome de Soares ao de
Alcino. Soares por ciúme teria contratado Alcino para matar Marcos
Augusto, mas ele errou o alvo e matou Walter Ferreira, acompanhante dele.
Estranho parece ser contratá-lo para matar Lacerda depois deste
suposto engano e ainda por cima recair a acusação de pistoleiro
profissional. Nunca houve provas de que Soares fosse o mandante e tivesse
contratado Alcino, embora o Smith & Wesson, calibre .38 milímetros,
de Soares tivesse sido apreendido e apresentado como a arma do crime pois
as balas que mataram Walter Ferreira eram desse mesmo calibre. O "crime
da Pavuna" foi usado para se contrapor ao álibi de Soares e envolvê-lo
no crime da rua Toneleros, embora estivesse em São Paulo naquela
noite. ] Além disso, a morte do major Vaz deu conotação
político-militar à crise de agosto de 1954. O motorista Nelson,
ao permanecer no carro permitindo a fuga de Alcino do local do crime, passou
a cúmplice. Soares, por fornecer a arma e receber o dinheiro de
Valente, passou a co-autor e também por encobrir a fuga de Climério.
Este, ao entregar o dinheiro a Alcino, e por ter estado com ele no local
do crime, passou a ser culpado também. Gregório, ao financiar
e acobertar a fuga de todos, passou a mandante de tudo.
A Guarda Pessoal e a polícia
estavam em julgamento por todo o passado de crimes impunes e acobertados
que os inquéritos não apuravam e que aconteceram nos períodos
de 1938-1945 e 1951-1954. Gregório Fortunato estava bem de vida,
e não teria motivos para se arriscar, pois dali a um ano haveria
eleições presidenciais e ele sairia do governo. Seu objetivo
parecia ser continuar obtendo informações sobre de várias
pessoas, entre as quais Lacerda. Mas Alcino, ao disparar o Smith &
Wesson, calibre .45 milímetros, alterou os acontecimentos, que se
precipitaram até o suicídio do presidente dezenove dias depois.
Não se julgam as intenções das pessoas, mas os atos
praticados. [Na prisão, Gregório Fortunato
estava escrevendo um diário sobre os bastidores do governo Vargas,
com base na memória que tinha dos seus arquivos pessoais. Gregório
foi esfaqueado e morreu em 23 de novembro de 1962, quando Carlos Lacerda
era governador da Guanabara. Após o crime, o diário desapareceu
e nunca foi encontrado. Em 25 de março de 1975, faltando poucos
dias para ser libertado, Climério Euribes de Almeida morreu no Hospital
Souza Aguiar em decorrência de complicações de vários
anos por ter sido esfaqueado na prisão. Em 9 de abril de 1975, Alcino
João do Nascimento foi libertado e passou a viver na Baixada Fluminense
e manteve a sua versão de que não estava na rua Toneleros
para matar Lacerda. No primeiro julgamento, em 1956, Alcino afirmou em
depoimento que não teve intenção de matar ninguém.
Segundo Hugo Baldessarini, advogado de acusação, foi "um
depoimento que ninguém entendeu". No julgamento de Climério,
este disse estar "vigiando" Carlos Lacerda, isto é, "fazendo um
serviço de informação" e que tanto ele como o motorista
Nelson foram vítimas da função que cumpriam e seriam,
portanto, inocentes. Houve seis julgamentos, um para cada réu, e
a atuação da defesa, na tentativa de reduzir as penas dos
acusados, foi extremamente política (pró Vargas e contra
Lacerda e os militares) em alguns casos. O advogado de defesa, Carlos de
Araújo Lima, convenceu Gregório Fortunato a assumir a autoria
do atentado, tentando uma redução de pena baseado no "relevante
valor social": Gregório teria mandado matar Carlos Lacerda para
salvar o país de uma guerra civil e por gratidão a Getúlio
Vargas (a tese da defesa poderia diminuir a pena de 1/6 a 1/3), havia uma
outra tese de "excesso de mandato" que significaria "dar um jeito" em Lacerda
e não matá-lo. No depoimento de Gregório Fortunato,
este tentou envolver possíveis instigadores para diminuir a própria
pena e recair a culpa sobre os possíveis instigadores. O advogado
de defesa, Humberto Salles, defendeu Alcino baseado na tese de "coação
irresistível e crime continuado", o que significava uma acusação
contra Climério, responsável pela coação. Essas
alegações diminuiriam bastante a pena de Alcino. Os advogados
de defesa não pediram reconstituição do crime, o que
poderia ajudar os réus em suas defesas, e partiram para uma defesa
política num tenso clima político na época do primeiro
julgamento em 1956.O segundo julgamento confirmou as penas de Climério,
Alcino e Soares em 1968. ]
O significado do atentado
O crime da Toneleros sempre foi analisado
por um único ângulo: por estarem envolvidos integrantes da
Guarda Pessoal, ganhou conotação política. Nunca se
perguntou se os eventos daquela madrugada em Copacabana poderiam ter outra
interpretação. Como membros da Guarda Pessoal do presidente
estavam envolvidos, as perguntas nos interrogatórios visavam respostas
pré-determinadas, em busca do mandante ou mandantes do crime. As
técnicas de interrogatório tipicamente sugestionadoras pretendem
encaminhar as respostas dos acusados para as vias já estabelecidas.
Portanto, se pré-estabelecemos
que houve um crime político, devemos pela lógica seguir o
raciocínio e fazer perguntas em busca de respostas que nos levem
aos mandantes ou instigadores do crime. Todo o passado da Guarda Pessoal
e dos próprios envolvidos foi utilizado para nos levar à
conclusão do crime político e, portanto, do tipo de interrogatório
a ser seguido para obter a confissão de culpa dos acusados. A imprensa
e o inquérito policial-militar agiram deste modo naquela época.
A imprensa denunciou os envolvidos
no atentado. As Forças Armadas prenderam os suspeitos e a Justiça
condenou a todos. Entretanto, o papel da história é reavaliar
os acontecimentos e chegar, ou não, às mesmas conclusões
da imprensa que, na época, acompanhou diariamente os acontecimentos.
Já há distância histórica suficiente para se
analisar o crime da Toneleros, embora os livros nos contem apenas a versão
e as conclusões da época. A versão da época
é válida para a própria época, e pode continuar
assim, mas isso não impede que a História reveja os acontecimentos,
já que estamos distantes do clima emocional de 1954.
Para revermos os acontecimentos,
é necessário mudarmos as perguntas, pois se fizéssemos
as mesmas perguntas teríamos as mesmas respostas.
O que faziam?
A pergunta que deveria ser feita é:
o que estavam fazendo Climério e Alcino na Toneleros? Eles poderiam
estar cumprindo ordens de Gregório Fortunato, seguindo Carlos Lacerda
e recolhendo informações, como já vinham fazendo há
meses. No ano de 1954, haveria eleições legislativas, Carlos
Lacerda era candidato a deputado federal e maior opositor de Getúlio
Vargas.
Por que apenas Alcino se encaminhou
em direção ao carro do major Vaz? Segundo ele, para verificar
a placa do carro de quem estava ajudando e apoiando Carlos Lacerda em seus
comícios e na eleição. Entretanto, o major Vaz, ao
voltar-se em direção ao carro, vê Alcino e tenta detê-lo,
numa ação comum e freqüentemente citada na imprensa
da época: deter uma pessoa em atitude suspeita para averiguação.
Portanto, situando-nos nos anos 50, a pergunta seria algo como: O que um
homem mulato estaria fazendo aquela hora da madrugada na rua Toneleros?
A expectativa de um atentado pode ter contribuído para que o incidente
se transformasse em atentado. O major Vaz entra em luta corporal com Alcino
e é morto por ele. Carlos Lacerda, da entrada da garagem, atira
em direção a Alcino que, agachado atrás do carro,
atira em direção a Carlos Lacerda para dar cobertura à
própria fuga.
Alcino atinge o pé de Carlos
Lacerda numa troca de tiros. Esse tiro definiu a construção
simbólica do atentado. Lacerda foi retratado no hospital, em casa
e depois no enterro do major Vaz.
Enredo perfeito
A morte de um oficial das Forças
Armadas, o ferimento no pé de Carlos Lacerda e o fato de o autor
dos tiros ser ligado à Guarda Pessoal do presidente formam o enredo
de um evento histórico comparável ao da morte de João
Pessoa, em 1930, doze dias após o feriado nacional de 14 de julho
em homenagem à Revolução Francesa. João Pessoa
tinha sido ministro do STM e era candidato a vice-presidente na chapa de
Getúlio Vargas. A morte de João Pessoa abriu o ciclo do primeiro
governo Vargas e a morte do major Vaz, no segundo governo Vargas, fechou
o ciclo iniciado 24 anos antes.
Durante o período de
existência da Guarda Pessoal entre 1938 e 1945, ocorreram vários
crimes e confrontos entre membros da Guarda Pessoal e da Polícia
Especial, de um lado, e opositores do regime e jornalistas, de outro. A
impunidade era completa nesse período do Estado Novo. Quando, em
1950, Getúlio Vargas foi eleito democraticamente, a Guarda Pessoal
foi rearticulada e continuou a agir como se estivesse no Estado Novo. A
forma de agir da Guarda Pessoal do presidente e de vários policiais
nas delegacias era incompatível com um regime democrático.
A morte do jornalista Nestor Moreira mostrara a continuidade da impunidade,
um impasse constante e o agravamento da situação política
do segundo governo Vargas.
Especialidade de Gregório
Gregório Fortunato sempre agia
da mesma maneira diante de conflitos, agressões e mesmo morte provocadas
por seus subordinados: financiava a fuga e esperava que se acalmassem os
ânimos. Gregório não tinha controle absoluto sobre
a ação de seus homens, que, com autonomia, podiam cometer
excessos, como abuso de autoridade e uso descabido de violência.
Gregório Fortunato,
depois do incidente envolvendo Alcino e o major Vaz, fez o que sempre fazia:
deu proteção e fuga aos subordinados. Entretanto, estávamos
diante de um caso único, as Forças Armadas como instituição
haviam sido atingidas. O brigadeiro Eduardo Gomes deu a declaração
que definiu o rumo dos acontecimentos: "Para honra da nação,
confiamos que este crime não fique impune". As Forças Armadas
desempenharam papel importante na apuração dos fatos e na
prisão dos culpados.
A pressão da maior parte
da imprensa e da opinião pública desempenhou papel importante
na apuração do crime. A estrutura da Guarda Pessoal e a rede
de informações, montadas por Gregório Fortunato, foram
desmanteladas, assim como foram denunciadas algumas das negociatas do "Anjo
Negro". Ele pode ter aberto os próprios arquivos à devassa
para provar que tinha uma rede de informações sobre opositores,
e que não havia um complô para assassinar Lacerda, mas os
olhos dos seus acusadores só viram as negociatas (exemplo: Maneco,
filho de Vargas, vendera uma fazenda a Gregório). Apenas pequena
parte do material (a que continha os negócios suspeitos) foi vazada
para a imprensa oposicionista. Os arquivos secretos não foram anexados
ao processo e nem serviram de prova no julgamento, apenas o dinheiro apreendido
mostrava a ligação de Gregório na fuga de Climério,
Alcino e Soares, e não no financiamento prévio do crime.
Ninguém viu
Carlos de Araújo Lima, na defesa
prévia, queixou-se por não ter acesso aos arquivos secretos
de Gregório Fortunato para saber que autoridades do novo governo
estariam citadas nos documentos apreendidos. Nas alegações
finais de Carlos Lacerda, apresentadas por Sobral Pinto, este jurista lamentou
a ausência da documentação para aprofundar o julgamento
contra Gregório Fortunato e buscar provas contra os instigadores
do crime [O jurista Sobral Pinto afirmou no primeiro julgamento,
em 1956: "Realmente, a única fonte que surgiu neste processo como
elemento de informação dos responsáveis diretos pela
morte do major Rubens Florentino Vaz e pelo atentado contra Carlos Lacerda
foi Gregório Fortunato. Da sua palavra e do seu arquivo teriam de
partir, necessariamente, as pistas para estas investigações.
Pois bem, do seu arquivo não se tem mais notícias, como,
também, na ocasião em que foi apreendido, também não
se soube, senão uma parte diminuta, o que é que ele continha
realmente. Não foi feita, igualmente, por qualquer autoridade, nenhuma
relação dos documentos que o integravam e dos papéis
que nele se achavam recolhidos. Dele se tiraram apenas algumas peças,
poucas, que foram entregues aos jornais de oposição, que
as publicaram com escândalo. As pistas que porventura poderiam fornecer
não foram seguidas nem utilizadas." (Paiva, 1994, p. 269). ].
Os dois lados queriam os mesmos arquivos com objetivos diferentes, mas
curiosamente não tiveram acesso a eles. Na época, após
a comoção do suicídio do presidente, os documentos
apreendidos ficaram de posse das Forças Armadas, já no governo
Café Filho. Os depoimentos do IPM, sobre o crime da Toneleros, ocorreram
na Base rea do Galeão, a chamada "República do Galeão",
embora o quartel-general das investigações estivesse localizado
na Diretoria de Rotas Aéreas (comandada na época pelo brigadeiro
Eduardo Gomes) no Aeroporto Santos Dumont.
A morte de um oficial das Forças
Armadas, o ferimento no pé do principal opositor de Getúlio
Vargas e o envolvimento da Guarda Pessoal do presidente fez com que se
construísse, em torno do crime, a versão de um crime político.
O julgamento não era apenas jurídico, estava em julgamento
político toda a Guarda Pessoal, a Polícia Especial (a polícia
política de uniforme cáqui de Getúlio Vargas) e as
arbitrariedades cometidas no Estado Novo. Toneleros era o símbolo
da necessidade de um julgamento geral, e a culpa moral recaiu sobre o presidente.
As saídas propostas fracassaram:
o impeachment era impossível (falhara em junho); a renúncia
não fora aceita (apesar da campanha da maior parte da imprensa e,
nas ruas, das passeatas, quando milhares de pessoas usavam a letra "R"
de renúncia pregada à roupa; a licença do presidente
foi proposta e depois recusada por ele, no dia 24, pois seria definitiva.
Restava a deposição, como em 1945, mas Getúlio optou
pelo suicídio. A imprensa em geral (menos ltima Hora ) foi
pega de surpresa pelo desfecho inesperado do enredo criado a partir do
crime da Toneleros.
As intenções não
importavam
Segundo Alcino, não houve intenção
em praticar o atentado, mas as suas íntimas intenções
não interessaram à imprensa, à Justiça e à
opinião pública, que cumpriram seu papel na época.
Não estava em julgamento apenas o caso Toneleros, com bem disse
o Correio da Manhã , mas todo o passado de arbitrariedade,
acobertamento e impunidade da polícia e da Guarda Pessoal no Estado
Novo e no próprio segundo governo Vargas (1951-1954). A legitimidade
do poder reside na capacidade de emitir e manejar uma série de imagens
e símbolos que exprimam crenças comuns, normas de bom comportamento
e papéis sociais.
Em agosto de 1954, havia uma crise
de legitimidade agravada após o crime da rua Toneleros. Ao manipular
a figura do major morto, a UDN transferiu aos militares toda a simbologia
necessária à legitimidade do poder: "ordem, honestidade,
legalidade, probidade, heroísmo, patriotismo, desprendimento". A
crise moral abatia o presidente, mas o suicídio resgatou o desgaste,
restaurou o carisma, consolidou o mito para a posteridade poder analisá-lo
de diferentes maneiras nos diversos períodos de seus governos.
A reação do major
Vaz em deter Alcino e a reação deste em atirar, para não
ser detido ou preso, provocaram uma reação em cadeia no país,
com apoio da maior parte da imprensa e das rádios, levando o presidente
ao suicídio porque ele não queria abandonar a missão
de cumprir o seu mandato até o final.
IPM e imprensa falharam
Há vários problemas na
investigação do inquérito policial-militar, assim
como na atitude passiva da imprensa, de mera reprodutora da versão
oficial, sem independência e sem investigação própria.
Primeiro, a cena do crime não foi preservada. Segundo, não
houve acareação entre Alcino e Lacerda. Terceiro, não
foi feita a reconstituição do crime. Quarto, Lacerda deixou
o país e o julgamento foi feito sem seu testemunho ocular. Quinto,
o arquivo de Fortunato não foi anexado nem ao inquérito nem
ao processo.
O mais grave ocorreu com a peça-chave
da acusação: a vinculação de Soares aos demais.
O investigador Edson de Alencar Sacramento, após procurar os majores,
deu depoimento ao IPM citando o vigilante municipal Manuel Joaquim do Nascimento
Filho para provar a vinculação entre Soares e Alcino, e que
este era pistoleiro. Essa frágil acusação, feita de
maneira indireta, não foi sequer checada nem confirmada no julgamento,
mas vazou para a imprensa, que a divulgou de maneira ampla.
Gregório Fortunato tinha
uma rede de informações que foi desmontada após o
atentado. Ele abriu os arquivos para provar que não havia um complô
e foi assassinado na prisão porque estava escrevendo um livro com
base em seus arquivos. Fortunato deu dinheiro a Climério para facilitar
a sua fuga por sua relação de compadrio. Fortunato confessou
a Benjamin Vargas que estava metido nesta confusão toda também
em função de sua relação de compadrio. Bejo
acreditou em Fortunato, tanto que pelo resto de sua vida alimentou a suspeita
de que Tenório Cavalcanti conseguira infiltrar um agente duplo a
fim de derrubar o governo com o atentado praticado contra Lacerda.
Os fatos sem paranóia
Eliminando-se a paranóia da época,
percebe-se que a falta de reconstituição do crime prejudicou
seu esclarecimento: a) o major Vaz tentou segurar Alcino, e levou o primeiro
tiro de baixo para cima. Alcino, depois de se desvencilhar, deu o segundo
tiro, de cima para baixo; b) já agachado atrás do carro,
Alcino trocou tiros com Lacerda, sendo que um acertou o chão e só
depois o pé de Lacerda, e por isso não lhe destroçou
o pé.
Houve uma condenação
judicial, mas nada impede que haja uma segunda leitura dos autos do processo
ou dos acontecimentos. A culpa moral era muito grande e levou o presidente
ao suicídio. A condenação dos acusados foi o ato final
que sepultou o Estado Novo.
A crise de agosto de 1954 parece
um romance, e como tal permite várias interpretações,
a intertextualidade. Como em O Estrangeiro de Albert Camus, a condenação
judicial não impede uma outra leitura dos acontecimentos.
(*) Mestrando
em Ciência Política (IFCH/Unicamp)
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