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MARCHA DO TEMPO

AGOSTO DE 54
A cobertura do Correio da Manhã

 

Luiz Roberto Guimarães da Costa Júnior(*)

Introdução

Nove jornais, três posturas

Os principais órgãos de imprensa atuaram na formação de um consenso a respeito da crescente inviabilidade política e moral do governo Vargas. A radicalização da imprensa e dos militares (que apostavam, agora, na mesma solução de 1945) impediu a resolução do impasse político por meios legais.

Curiosamente, estávamos na democracia, e não mais na ditadura do Estado Novo, mas se buscava a antiga solução. Os jornais de maior circulação da época, no Rio de Janeiro, eram Correio da Manhã, Diário de Notícias, Diário Carioca, O Globo, O Jornal e, em São Paulo, O Estado de S.Paulo e a Folha da Manhã. Os outros jornais importantes da época e que estavam em pólos opostos (extremos dentro do espectro jornalístico e que, portanto, não serão analisados) eram Última Hora, de Samuel Wainer, de grande circulação, que fazia a defesa sistemática do governo Vargas, e a Tribuna da Imprensa, de Carlos Lacerda, de pequena circulação, que fazia a maior campanha de ataques diários ao governo Vargas.

A crise de agosto de 1954 foi analisada no livro Vargas e a crise dos anos 50 (pp.23-69), seguindo a evolução dos citados sete primeiros jornais em relação às fases da crise, mas não deixando de acompanhar como atuaram os dois últimos. A primeira etapa da crise correspondeu à apresentação do atentado e à construção de grave crise política e moral. A segunda etapa foi a fase da acusação de culpa do presidente, mesmo que indiretamente, no clima de insegurança do país por causa do envolvimento da Guarda Pessoal no atentado. A terceira etapa foi a fase do apelo à renúncia diante da inviabilidade política de continuação do governo Vargas. A quarta e última etapa foi a fase da imposição da renúncia ou deposição por causa da incapacidade moral do presidente em continuar governando e sua perda de autoridade política e administrativa.

Ataques ao Globo

Os jornais O Globo, O Jornal e Folha da Manhã fizeram cobertura moderada com menos apelo emocional contra o presidente, tanto é verdade que depois da apresentação do início da crise (fase 1), passaram diretamente ao apelo da renúncia (fase 3), mas tardiamente, O Globo no dia 21 de agosto e os outros dois jornais no próprio dia do suicídio. Isso não impediu que o jornal O Globo fosse atacado por populares por causa da posição radical da Rádio Globo que abrira espaço, no ar, para a UDN durante toda a crise de agosto de 1954. O papel das rádios também mereceria um trabalho à parte, principalmente, por causa da divulgação da carta-testamento.

Os jornais Diário de Notícias, O Estado de S.Paulo, Diário Carioca e Correio da Manhã seguiram as quatro fases. A diferença é que os três primeiros defenderam a imposição da renúncia, respectivamente, nos dias 13, 14 e 15 de agosto de 1954, pois a idéia ganhara força, naquele fim de semana, durante a Assembléia do Clube Militar,. e isso acabou tendo ampla divulgação.

O Correio da Manhã fazia a defesa de uma saída legal sem golpes e defendeu a imposição da renúncia apenas em 19 de agosto, quando foram revelados os negócios escusos que envolviam Gregório Fortunato. Depois disso, os próprios jornais mais moderados já iniciariam o apelo à renúncia. O cerco da imprensa e dos militares se fechava contra o presidente, e a data-limite seria 25 de agosto, Dia do Soldado.

O levantamento histórico do período de agosto de 1954, sobre o crime da rua Toneleros, foi feito tendo por base o jornal Correio da Manhã do Rio de Janeiro, fundado por Edmundo Bittencourt, em 1901, e cujo redator-chefe na época era Antonio Callado. A escolha deste jornal decorreu do fato de que ele mostrou gradativamente as razões do agravamento da crise em suas quatro fases. A cobertura do Correio da Manhã refletiu muito bem o clima da época. Um estudo mais aprofundado e comparativo da visão de cada um dos jornais mereceria ser feito. Este trabalho procura ser um primeiro passo. Usaremos, na maioria das vezes, a abreviatura CM ao citar matérias do jornal.

Madrugada de 5 de agosto

A manchete

"...acuso um só homem como responsável por esse crime.
É o protetor dos ladrões, cuja impunidade lhes dá audácia para atos como o desta noite. Esse homem chama-se Getúlio Vargas"

Carlos Lacerda

O Rio de Janeiro era a capital federal. Na madrugada do dia 5/8/1954, em Copacabana, acontecia o crime da rua Toneleros, que foi a manchete do dia: "Carlos Lacerda baleado na madrugada de hoje" (CM, 5/8/1954, 1ͺ página). O major-aviador Rubens Florentino Vaz, 32 anos, casado e pai de quatro filhos, foi morto com dois tiros. O jornalista Carlos Lacerda – que vinha fazendo campanha contra a corrupção no governo – foi ferido com um tiro no pé esquerdo. O vigilante noturno Sálvio Romeiro, 27 anos, foi atingido com um tiro na perna esquerda. As placas de dois carros que rapidamente saíram do local do tiroteio foram anotadas: 5-60-21, pertencente a Antônio José de Rezende, e 10-89-81, de Lourival Nobre de Almeida. O primeiro carro era um táxi, e o motorista, Nelson Raimundo de Souza, se apresentou à polícia, mas sua história não convenceu e ele acabou detido; quanto ao segundo carro ficou provado que não participou do crime: eram três jornalistas do Diário Carioca que conversavam justamente ali e naquela hora.

O clima de insegurança no país era grande, o deputado Raimundo Padilha comparou a morte do major Vaz à morte de um jornalista ocorrida em maio em decorrência de espancamento sofrido no 2Ί DP: "Era o caso de Nestor Moreira, que todos de certo já esqueceram, exceto sua família; como o major morto não será esquecido por sua família. Mas, passado o clima emocional que cerca essas ocorrências terríveis, ninguém se recorda mais do que houve. Depois dos primeiros momentos de indignação pelo assassinato de Nestor Moreira, verificou-se um amornamento generalizado, até agora, quando explode novamente a indignação nacional com este novo e inominável caso" (CM, 6/8/1954, p.12).

O brigadeiro Eduardo Gomes deu declaração que marcou o rumo dos acontecimentos: "Para honra da Nação, confiamos que este crime não fique impune", (pois os crimes estavam se tornando freqüentes e impunes durante aquele período do segundo governo Vargas). O presidente chamou à sua presença Gregório Fortunato e Lutero Vargas para pedir explicações, para saber se algum dos dois estava envolvido no atentado contra Lacerda e na morte do major Vaz – o que ambos negaram. O general Caiado de Castro, chefe da Casa Militar, representou o presidente no enterro do major Vaz, no cemitério São João Batista, e afirmou que o presidente ficara chocado e pedira medidas enérgicas na apuração (CM, 6/8/1954, p.7).

Comoção e indignação

Nos dias seguintes ao crime, a opinião pública continuava comovida, indignada e emocionada pela morte do major-aviador Rubens Florentino Vaz – condecorado com duas medalhas e pioneiro do Correio Aéreo Nacional. Surgiu grande solidariedade das Forças Armadas, principalmente da Aeronáutica, ao jornalista Carlos Lacerda. Os acontecimentos daquela madrugada em Copacabana tiveram grave repercussão na Câmara dos Deputados, no Senado Federal, em todo o país (inclusive CAs, UME e UNE) e até no exterior. O Correio da Manhã disse, ao condenar o atentado: "[tentaram] eliminar Carlos Lacerda, voz de um jornalista independente empenhado numa campanha de recuperação moral e política contra o roubo, a corrupção, a violência e o crime nos próprios meios governamentais." (CM, 6/8/1954). No editorial: "... já se acha generalizada a convicção de que só será apurado o crime e só serão conhecidos os culpados mediante ordens do presidente da República às autoridades competentes no inquérito – e ordens claras, inequívocas, insofismáveis" (CM, 6/8/1954, p. 4).

O ministro da Justiça, Tancredo Neves, afirmou que em 24 horas as responsabilidades estariam apuradas. Seriam mobilizados recursos e meios ao alcance para apurar os fatos (CM, 6/8/1954, p. 7) – prazo que não foi cumprido, e a cada dia aumentava a desconfiança de que o crime não estaria sendo devidamente apurado. A Aeronáutica, nas palavras do major Borges, apuraria o caso até o fim se a polícia do 2Ί DP não tivesse coragem (CM, 7/8/1954, p. 12). O coronel Adil de Oliveira fora indicado pelo ministro da Aeronáutica, Nero Moura, para acompanhar o inquérito policial.

O ministro da Justiça, Tancredo Neves, garantia que o governo apoiaria as investigações para entregar autores e mandantes à Justiça (CM, 8/8/1954, p. 12). O motorista de táxi Nelson Raimundo – que tinha ligações com membros da Guarda Pessoal e era portador de carteira da Polícia Política de Niterói (era informante) –, após dias prestando depoimento, revelou o nome de Climério Euribes de Almeida, da Guarda Pessoal do presidente da República, como autor do atentado (posteriormente provou-se que foi Alcino João do Nascimento quem fez os disparos). Antes destas revelações, Vargas já dissolvera sua Guarda Pessoal que fora criada em 1938 (em virtude do ataque integralista ao Palácio Guanabara, em 11/5/1938) e o acompanhara durante todo o Estado Novo – ela fora novamente montada durante a campanha eleitoral e reorganizada desde a posse do presidente, em 31/1/1951.

Campanha pela renúncia

Parlamentares do Congresso Nacional e a imprensa oposicionista começaram campanha de apelo pela renúncia do presidente para preservar o país e encerrar a crise política – "manter a Ordem, a Legalidade, o Regime e a Constituição". Não se queria repetir 29/10/1945, quando Getúlio Vargas foi derrubado, e nem 10/11/1937, quando ele deu um golpe e instaurou o Estado Novo (CM, 10/8/1954, p. 4, editorial "Renúncia").

No editorial "Crise de Confiança", o Correio da Manhã escreveu sobre o envolvimento da Guarda Pessoal do presidente no atentado contra Lacerda: "O que se apurou estava, porém, pressentido desde a primeira hora, fazia parte do pensamento geral: o crime se gerou como uma conseqüência, como um desfecho do estado ao mesmo tempo de amoralismo e impunidade nas esferas oficiais. Por isso a crise de confiança, aberta com um fato brusco, atingiu o governo em cheio, criando imediatamente uma crise de autoridade. Em qualquer outro momento, nas circunstâncias normais de poderes públicos estabilizados nas responsabilidades de suas funções, a opinião pública estaria tranqüilizada com tantas notas oficiais e tantas declarações do governo no sentido de garantir empenho e imparcialidade na punição do crime. Se não produzem efeito – é que já se acha nos termos finais a crise de confiança e autoridade.

"Não estamos apenas diante de um episódio isolado, por mais revoltante e doloroso que seja na sua realidade imediata. O sentimento da opinião pública revelou-se, desde logo, bem mais profundo como revolta e se dirigiu para bem mais longe como julgamento. Por isso, nenhuma das medidas e providências tomadas pelo governo foi até agora suficiente ou satisfatória para fazer cerrar a exacerbação dos ânimos e a excitação dos espíritos. É o passado inteiro do governo que está sendo julgado nesta convicção de que a madrugada de sangue em Copacabana resultou da impunidade de outros crimes, do sistema de fatos consumados que vinha sendo nas esferas oficiais, um estímulo para todos os atentados. Depois da desordem econômica, da desordem social, da desordem política – surgiram, como etapa conseqüente, a desordem e o crime nas ruas. Depois da corrupção oficializada, do peculato defendido pelos escudos governamentais, da impunidade para todos os assaltos contra o patrimônio público explodiu em cena, no ritmo sucessivo e lógico dos crimes o assassínio como instrumento de dominação e terror." (CM, 11/8/1954, p. 4).

A missa de 7Ί dia do major Vaz ocorreu no dia 11/8/1954, às 11 da manhã, na Igreja da Candelária. Ocorreram distúrbios de rua, pois a população estava ainda revoltada com a morte do major Vaz e o atentado a Lacerda. Uma multidão se reuniu nas escadarias do Teatro Municipal para um comício improvisado. Um carro foi incendiado, a polícia interveio e bombas de gás lacrimogêneo foram lançadas contra os manifestantes.

Suborno e corrupção

Na Câmara dos Deputados, Bilac Pinto defendia a campanha liderada por Carlos Lacerda contra a corrupção e os sucessivos escândalos administrativos do governo Vargas. Afirmou que com a volta de Getúlio Vargas ao poder a corrupção se ampliara e o crime crescera. A administração pública só andava mediante suborno e corrupção. A Guarda Pessoal do presidente era uma polícia privada formada por capangas mantidos ilegalmente com dinheiro público, funcionava como defesa e agressão, enquanto uma guarda formada só pelas Forças Armadas funcionaria como defesa, mas nunca como agressão.

No editorial de 13/8/1954, página 4, intitulado "História do Brasil: uma viagem a Minas", o Correio da Manhã relatou o assassinato do jornalista Líbero Badaró, diretor do órgão oposicionista Observador Constitucional, em 21 de novembro de 1830. Antes de morrer, ele dissera a célebre frase: "Morre um liberal, mas não morre a liberdade." O imperador, em visita a Minas Gerais, encontrou uma província, que era liberal e democrática, de luto, os sinos dobravam em toque de finados, homenagens fúnebres. Ao regressar ao Rio de Janeiro, o imperador encontrou opinião pública também contrária, e abdicou em 7 de abril de 1831. Com este gesto, redimiu-se dos erros. Segundo o editorial, Vargas deveria fazer o mesmo: renunciar para dar um desfecho rápido à crise política.

Todos os envolvidos no crime da rua Toneleros foram presos dia após dia na maior operação militar já realizada pela Aeronáutica para a captura de suspeitos de um crime, com apoio e solidariedade de oficiais do Exército e da Marinha que voluntariamente se apresentavam para participar das diligências. O inquérito policial-militar (IPM) foi instaurado na Base Aérea do Galeão (daí o termo "República do Galeão"), e ficou sob a presidência do coronel Adil de Oliveira, que já acompanhava o inquérito policial e passou a ouvir os depoimentos dos detidos. O IPM foi instaurado baseado no seguinte fato: um militar fora morto por uma arma, calibre 45 milímetros, de uso privativo das Forças Armadas. O inquérito policial apenas permitia a detenção dos acusados por dez dias, e era preciso esperar a decretação da prisão preventiva. No caso do IPM, a detenção era por quinze dias, renovável por mais quinze, e isso permitiria sua conclusão e posterior remessa ao inquérito policial.

Contra a Guarda Pessoal

No editorial de 14/8/1954, página 4, intitulado "A opinião e o Presidente", o Correio da Manhã assim se manifestou: "Suponhamos – e infelizmente, para dignidade da República, tal suposição parece inteiramente sem fundamento – que o crime não tivesse sido arquitetado na intimidade do próprio Palácio. Suponhamos – para isolar e definir melhor a conclusão a que desejamos chegar – que o indivíduo Alcino não estivesse dizendo a verdade ao declarar o nome do mandante do crime, que é o nome do deputado Lutero Vargas [Carlos Lacerda tinha anunciado esta informação pelo rádio]. Nem por isso se alteraria o fato de ter sido o crime planejado e cometido, e depois acobertado, por gente desse organismo esdrúxulo, direta e exclusivamente incorporado à estrutura do Catete, que é a Guarda Pessoal.

"Nesta medida está caracterizada a responsabilidade também pessoal do sr. Getúlio Vargas, não diremos no crime, mas nas circunstâncias que o tornaram possível. É preciso que, na confusão geral, não se perca de vista esse ponto essencial para que os acontecimentos se desenvolvam normalmente e venham a ter seu desfecho justo e merecido."

A renúncia do presidente chegou a ser sugerida na Assembléia do Clube Militar, mas um discurso do general Juarez Távora mostrou a inoportunidade da proposta e conclamou os militares à união em torno das deliberações do Alto Comando (CM, 15/8/1954, p.12). Dois dias depois, entretanto, o brigadeiro Nero Moura pedia exoneração do cargo de ministro da Aeronáutica por não conseguir mais controlar a situação na Aeronáutica (CM, 17/8/1954, p. 12).

Repercussão no exterior

A tensão aumentava e repercutia até no exterior. O Correio da Manhã cita duas reportagens, uma de The New York Times (17/8/1954), que publica artigo criticando severamente o presidente Getúlio Vargas: "A tentativa de assassínio contra o sr. Lacerda foi ultrajante, e com razão deu mau nome ao governo de Vargas em todo o hemisfério, onde aquele diretor é bem conhecido e muito respeitado por seu valor e integridade. Se a única resposta às críticas do sr. Lacerda são as balas de um assassino, as coisas chegaram a uma situação lamentável sob o governo Vargas.

"Getúlio Vargas tem constituído certamente profunda desilusão desde que foi eleito pelo voto popular em 3 de outubro de 1950. O melhor que se pode dizer é que não tem feito nada. O pior é que tem posto frente a frente grupos e indivíduos para atingir seus próprios propósitos políticos. Tem permitido que definhe a economia do seu rico país até chegar à crise atual que se manifesta na escassez de divisas, dificuldades de exportação, descontentamento de trabalhadores, inflação, aumento constante do custo de vida.

"O Brasil é o maior país do hemisfério ocidental e o mais rico em potencial depois dos Estados Unidos. Tem sido o nosso melhor amigo na América Latina e aliado leal na guerra. É lamentável, para todos os seus amigos contemplar essa instabilidade atual; mas não há nada que um governo firme e ilustrado não possa curar em curto espaço de tempo." (CM, 18/8/1954, 1ͺ página).

Até o Vaticano

A segunda reportagem é do Diário de Nova York (17/8/1954), editado em espanhol, onde se afirma que "A impressão é que a polícia e o exército, que eram os suportes do regime Vargas, reagiram favoravelmente ao esclarecimento desse crime político no qual aparece indiretamente implicado o presidente Vargas. Tudo parece indicar que o Brasil está em vésperas de importantes acontecimentos." (CM, 18/8/1954, 1ͺ página). Outra manifestação foi da Rádio Vaticano, condenando o atentado, o terceiro sofrido por Lacerda na sua campanha contra a imoralidade e a corrupção dos serviços públicos governamentais (CM, 18/8/1954, 1ͺ página).

O vácuo entre a nação e o Catete aumentara desde o crime da rua Toneleros. Não fosse o empenho da Aeronáutica nas diligências e as prisões daí resultantes, esse crime político, com o exemplo de outros que se esmaeceram no tempo, também cairia na vala comum dos fatos consumados, na não apuração ou acobertamento nos inquéritos policiais normais (CM, 18/8/1954).

O coronel Adil de Oliveira presidia o IPM e, para prosseguir nas investigações, teve acesso à documentação pertencente a Gregório no Palácio do Catete – o general Caiado de Castro estava presente durante a busca e apreensão. Os documentos revelaram uma rede de tráfico de influência no governo, mostraram a culpa de Gregório, chefe da extinta Guarda Pessoal, e aumentaram as pressões sobre Getúlio Vargas devido à crescente crise moral e falta de confiança no presidente. Segundo o Correio da Manhã, Vargas era no mínimo moralmente culpado pelo atentado pois este partira de sua Guarda Pessoal.

Novas críticas

Em 19/8/1954, no editorial "As três renúncias", página 4, o Correio da Manhã começou a defender a imposição da renúncia do presidente e comparou a situação com a vivida por Dom Pedro I, pelo regente Feijó e pelo presidente marechal Deodoro da Fonseca: "Sim, as renúncias foram ‘forçadas’, mas pelo constrangimento íntimo, pelo peso das circunstâncias, pelas determinações do sentimento nacional. A espontaneidade do gesto de um chefe de Estado, no ato da renúncia, consiste em interpretar e aceitar, num plano alto, este imperativo, não das armas, mas de sua própria sensibilidade diante dos fatos."

Ao nomear o novo ministro da Aeronáutica, brigadeiro Epaminondas Gomes dos Santos, Vargas foi novamente criticado pelo deputado Bilac Pinto: "O sr. presidente da República escolhe para ministro da Aeronáutica um homem de suas ligações pessoais, íntimo de S. Exe. e de sua família, deixando de lado todos os brigadeiros que poderiam inspirar confiança na isenção e na imparcialidade do prosseguimento do inquérito." (CM, 19/8/1954, p.8).

Em 20/8/1954, no editorial "A Guarda Pessoal", o Correio da Manhã pronunciou-se sobre o agravamento da crise: "Responsabilidade – isto não é apenas questão jurídica ou legal, mas um problema moral, sobretudo quando se trata de uma crise que envolve uma Nação inteira, quando estamos diante de fatos que sobem, no seu desenvolvimento, até a presidência da República.

"Constrangimento e vergonha"

"Ante o crime da rua Toneleros, o sentimento da opinião pública não foi só de luto e indignação, mas também de constrangimento e vergonha. E esta sensação e vergonha só fez crescer com a revelação de que o atentado foi planejado em salas do Palácio do Catete, de que o crime foi tramado e executado por gente da Guarda Pessoal do presidente da República. Se ainda falta o nome do mandante, como num mistério de romance policial, os criminosos da execução já se acham conhecidos e identificados. Do todo poderoso ‘tenente Gregório’ ao guarda-costas Climério – é a fina flor da Guarda Pessoal do presidente da República que se encontra nas mãos dos oficiais da Aeronáutica como instrumentos de participação e execução no atentado da rua Toneleros. E sob este aspecto é que se acha caracterizada a responsabilidade do sr. Getúlio Vargas, não no crime, mas no ambiente que o gerou e tornou possível. Isto é um ponto essencial, que não se deve perder de vista, sejam quais forem as conclusões do nome do mandante ou mandantes.

"Desde o primeiro instante, com a consciência da dignidade da República, estabelecemos este ponto de partida: não atribuímos ao sr. Getúlio Vargas responsabilidade direta ou conhecimento prévio no crime. Ficamos satisfeitos que assim seja. Assim será menor o opróbrio para a dignidade das funções públicas neste país, será menos aflitiva a vergonha do crime para o nome do Brasil.

"Mas isto não lava a nódoa que macula o Palácio do Catete – casa do governo e sede da presidência da República. Lá dentro se planejou o atentado, nas dependências da Guarda Pessoal. De lá partiram os pistoleiros, de lá saíram os avisos e o dinheiro para a fuga dos assassinos. Quando a sua Guarda Pessoal, deste modo, se acha comprometida por todos os lados, quando o inquérito atravessou os portões do Palácio do Catete – o presidente da República não pode considerar-se incólume e distante de qualquer responsabilidade pois há no caso uma responsabilidade moral, que não se apaga, nem se descaracteriza. A Guarda Pessoal estava integrada no Palácio do Catete, fazia parte da estrutura funcional do Palácio do Catete. Nenhum argumento fará desaparecer a vergonha desta realidade." (CM, 20/8/1954, p.4).

Em busca do mandante

Na Base Aérea do Galeão, os depoimentos continuavam e convergiam para Gregório Fortunato. Entretanto, ele não teria interesse pessoal em matar Lacerda. Portanto, continuava a tese de que havia um mandante (CM, 20/8/1954, p. 10). O Superior Tribunal Militar (STM) negou habeas-corpus aos acusados (o de Gregório nem chegou a ser julgado pois ele cancelou o pedido) e todos permaneceram presos no Galeão (CM, 21/8/1954, p.5).

Era o chamado "mar de lama sob o Catete", que se agravava dia a dia. Os meios políticos e militares defendiam o afastamento do presidente para que investigações e julgamento não sofressem interferência de Getúlio Vargas.

Em 22/8/1954, no editorial "Renúncia e golpe", o Correio da Manhã descrevia o clima de então: "Dezoito dias de expectativa em torno do crime de Copacabana convulsionaram o país, abalaram o governo, perturbaram a vida normal da Nação. A visão da madrugada de sangue desdobrou-se em luto, e se prolonga com a mesma nitidez e reações da opinião pública até que se encerre para sempre o ambiente do crime, este ciclo até então crescente de corrupção e banditismo político. Estamos todos não num clima de paixão partidária, e sim de vigília cívica, em que não se fixa apenas um episódio isolado, mas ainda, em outro plano, o que ele significa e simboliza como estado da situação dominante.

"Lusco-fusco no Catete"

"Não teria ousado tanto a Guarda Pessoal do presidente da República, indo do assalto aos dinheiros públicos ao assassínio político nas ruas, se não fora aquela atmosfera em lusco-fusco no Palácio do Catete, feita de omissão, impunidade ou cumplicidade do governo em tudo o que tocava os seus correligionários, apaniguados e cúmplices. E por isso é que o nome do sr. Getúlio Vargas – aqui, no estrangeiro, em toda parte – aparece associado ao crime, não como autor, mas como responsável pelo Palácio do Catete, casa do governo e sede da presidência da República.

"É preciso olhar de frente a extensão, a profundidade da crise que se desdobrou em todos os setores: crise política, crise militar, crise moral. Se não for encontrada com rapidez uma solução correta e constitucional – do seu bojo poderão surgir talvez imprevistas conseqüências, nefastas para todos e que só uma cegueira generalizada ou uma insensibilidade comodista, nas esferas oficiais, se recusam a fixar em suas devidas proporções.

"Estamos como na expectativa de um desfecho. A vida do país está suspensa e paralisada. Sente-se a preocupação, a ansiedade refletida em todas as fisionomias. A força do governo se encontra dispersa e desgastada, a autoridade do chefe de Estado se acha abalada nos seus fundamentos. Dentre em pouco, se a situação se prolonga, é a própria legalidade, é a estrutura das instituições que entrará em perigo pelo descontrole da crise política e moral, a que se veio ajuntar o agravamento da crise econômica.

"Sinal de maturidade"

"Desejamos todos que se encontre, com a verdade sobre o crime, solução justa e merecida para a crise. Um sinal de maturidade política nas forças vivas da Nação tem sido esse estado ao mesmo tempo de lucidez e firmeza, intransigência e serenidade, disciplina e determinação de ir até o fim em linha alta e reta. De um lado, a recusa a quaisquer soluções golpistas, vindas de baixo ou de cima, da direita ou da esquerda. Pois um golpe de força seria o caminho aberto para a ditadura, para o imprevisto, para a sucessão de 'pronunciamentos'. Representaria uma última vitória, pela sobrevivência, da mentalidade caudilhesca do sr. Getúlio Vargas. Do outro lado, porém, a convicção, igualmente firme, de que a solução pacífica e honrosa para a crise é a renúncia espontânea do presidente da República. Pelo constrangimento íntimo, pelo peso das circunstâncias, pelas determinações do sentimento nacional – o sr. Getúlio Vargas se erguerá, por certo, a este gesto de desprendimento e consciência para que se mantenha de pé o regime e íntegra a Constituição, juntamente com a ordem pública e a tranqüilidade nos espíritos" (CM, 22/8/1954, p.4).

A proposta de renúncia conjunta, anteriormente sugerida por Café Filho, abriria espaço para uma eleição indireta, pelo Congresso Nacional, para se eleger presidente e vice-presidente, que completariam os mandatos até 31 de janeiro de 1956. Vargas recusara a proposta, enquanto os udenistas e os militares já articulavam a posse do vice-presidente Café Filho para os próximos dias. Poderia se usar, se necessário, o Dia do Soldado (25 de agosto) como pretexto para a deposição do presidente e a posse do vice-presidente.

Madrugada de 24 de agosto de 1954, durante a reunião ministerial, Getúlio Vargas propõe sua licença da Presidência da República e é redigida nota para ser divulgada na manhã do dia 24. As Forças Armadas, entretanto, queriam que fosse definitiva a licença do presidente. Em vez de esperar pela deposição, o presidente se suicidou com um tiro no coração – disparando seu Colt calibre .32 milímetros.

Suicídio segundo o Correio

No dia seguinte, no editorial "O sentimento trágico da vida", o Correio da Manhã se pronunciou sobre o inesperado desfecho: "A história dos povos começa onde começa a história do seu sofrimento. Nada de grande e de sólido principia enquanto os indivíduos que compõem uma Nação se consideram primeiro indivíduos e depois partes de um corpo superior de idéias e de objetivos. Alegria, tranqüilidade, prosperidade não são jamais dons gratuitos, colhidos sem pena, e os povos sem capacidade de tragédia são aqueles sem capacidade de realizar um destino.

"Diante do presidente da República morto não queremos evocar seus erros. Diante do Supremo Magistrado sacrificado por suas próprias mãos não queremos reavivar os ecos da luta que com ele mantivemos. Seria, porém, fazer pobre justiça à sua imolação e à nossa sinceridade o pretender que a morte anulou a luta ou dissolveu divergências indissolúveis. Mas exatamente porque sempre combatemos o sr. Getúlio Vargas como homem público e não como pessoa, exatamente porque fizemos a nossa luta em campo aberto, podemos agora olhar com serenidade e emoção seu dramático sacrifício.

"A crise em que nos debatíamos era principalmente dolorosa para o orgulho nacional. De todos os países civilizados do mundo chegava-nos o pasmo provocado pela revelação do perfil de homens que sem dúvida haviam agido sem a permissão ou a ciência do presidente da República, mas que eram realmente chocantes, inaceitáveis à sensibilidade do povo brasileiro. Da sede do governo haviam saído e se materializado forças obscuras, vingativas, arcaicas. O país não as podia entender e muito menos conjurá-las com explicações ligeiras. O horrível não desaparece quando tentamos fingir que não o vemos ou quando procuramos pintá-lo com cores alegres; ao contrário, fica mais horrível ao ficar também grotesco.

"Sentimento trágico de vida"

"Deixando que o inquérito prosseguisse, abrindo de par em par as portas do Palácio, o presidente da República já começara a se negar à superficialidade das soluções de orgulho e displicência. Não afastou de si o amargar da prova e nem considerou alguma retirada fácil do Palácio transformando a necessidade da busca numa violência em casa vazia. A crise, no entanto, se não teria remédio na sua fuga, teria desfecho honroso no seu afastamento legal – na sua renúncia, no seu licenciamento e até mesmo na sua deposição.

"Mas aqui – e é este o ponto que não discutimos, que não analisamos, que não contemplamos, nem por um momento, com frieza e desprendimento – aqui o sr. Getúlio Vargas revelou à Nação seu sentimento trágico da vida, sua capacidade de transformar o desespero em destino. Esperemos que esse destino tão violentamente afirmado concorra com sua grandeza – não com sua violência – para tornar mais sério e maior o Brasil" (CM, 25/8/1954, p. 4).

Conclusão

Comoção nas ruas

Após a morte do presidente e a divulgação de sua carta-testamento, os distúrbios tomaram conta das ruas do país. Populares atacaram jornais e rádios que faziam oposição a Vargas, e também a embaixada americana. Câmara dos Deputados e Senado Federal suspenderam atividades. O vice-presidente Café Filho assumiu a presidência e foi decretado luto oficial por oito dias. Pesares começaram a chegar de todos os países do mundo. O único episódio semelhante na história política mundial até então ocorrera no Chile, onde o presidente José Manuel Balmaceda se suicidara em 1891, deixando carta-testamento (O Cruzeiro, 18/9/1954, pp. 34B-34E)

Em 1956, os acusados do crime da rua Toneleros foram levados a um primeiro julgamento: Gregório Fortunato foi condenado a 25 anos como mandante do crime. Climério Euribes de Almeida e Alcino João do Nascimento pegaram 33 anos de prisão pela morte do major Vaz, a tentativa de assassinato de Lacerda e as lesões corporais do vigilante noturno Sálvio Romeiro. O motorista Nelson Raimundo de Sousa, como cúmplice do atentado, foi condenado a 11 anos. João Valente de Souza, secretário da Guarda Pessoal, foi condenado a dois meses de prisão e multa. José Antônio Soares foi condenado, como co-autor, por fornecer a arma do crime e pegou 26 anos de prisão. Soares tinha longa ficha policial nos anos 20 e 30, mas nada constava nos anos mais recentes, mas ele tinha um cartão de entrada livre no Palácio do Catete. Embora estivesse em São Paulo naquela madrugada do crime, Soares foi condenado porque o Smith & Wesson, calibre .45 milímetros, de uso exclusivo das Forças Armadas, registrado sob nΊ 3734, foi a arma utilizada por Alcino na madrugada de 5 de agosto de 1954. Soares comprara a arma de um sargento reformado de nome Ismael da polícia de Caratinga, estado de Minas Gerais. A arma era do Regimento de Infantaria e fora roubada em 1949. Em 1968 ocorreu um segundo julgamento, que não alterou as condenações de Climério, Alcino e Soares. Gregório Fortunato fora assassinado na prisão em 1962 e o motorista Nelson Raimundo estava em liberdade condicional desde 1960.

As diligências à procura de um mandante acima de Gregório Fortunato chegaram aos seguintes resultados: levantaram-se suspeitas contra Benjamin Vargas e os deputados Lutero Vargas, Danton Coelho e Euvaldo Lodi. Indícios surgiram contra o general Ângelo Mendes de Morais, que teria pressionado Gregório a fazer alguma coisa contra Lacerda. O general Mendes de Morais, então prefeito do Rio, era visto por muitos como mandante das agressões físicas sofridas por Lacerda na porta da Rádio Mayrink Veiga, em 1948. O processo contra o general não teve prosseguimento na Justiça Militar, e ele sempre negou as acusações dizendo que se tratava um novo caso Dreyfus (capitão do Exército francês acusado injustamente de vender informações aos alemães no final do século 19).

"Passado vingativo"

No Congresso Nacional surgiram acusações de que a família Vargas teria um passado vingativo, como o assassinato do jovem paulista Carlos Almeida Prado, cometido em Ouro Preto, em 1897, por um grupo de gaúchos, entre eles Protásio Vargas e Virial Vargas (irmãos mais velhos do presidente). Outro caso citado foi o de Artur Bernardes Filho, que queria sair do país com segurança, mas acabou vítima da polícia em 1930 (CM, 8/8/1954, p 3). A acusação contra Lodi acabou sendo mais séria do que a de Coelho. Ambos falaram com Gregório que Lacerda estava atacando demais o governo, e alguma coisa precisava ser feita. A diferença entre os dois é que Lodi era do SESI, contribuía mensalmente para a Guarda Pessoal com 50 mil cruzeiros [equivalente a cerca de 10 mil reais] e, em julho de 1954, doara o dobro. Isso fez recair sobre ele mais suspeitas, mas acabou reeleito deputado, o que lhe garantiu imunidade. O curioso é que a polícia civil, o Ministério do Trabalho, a Rádio Nacional e até os banqueiros do jogo do bicho também contribuíam para a Guarda Pessoal do presidente.

A cobertura do Correio da Manhã procurou mostrar a culpa moral do presidente e a estrutura corrupta que vinha do Estado Novo. O jornal defendia uma saída legal e sem golpe. A singularidade da cobertura do Correio da Manhã residiu no fato de que não fez nem uma cobertura moderada como O Globo, O Jornal e Folha da Manhã, nem se antecipou à imposição da renúncia (com deposição), como Diário de Notícias, O Estado de S.Paulo e Diário Carioca. Um estudo comparativo mais aprofundado entre as coberturas dos jornais, levando-se em conta outras capitais como Porto Alegre e Recife, seria útil para mostrar os diferentes recortes que a imprensa fez ao construir a crise de agosto de 1954.

(*) Mestrando em Ciência Política (IFCH/Unicamp).

 



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