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OBSERVATÓRIO LITERÁRIO
Peleja do monstro Macobeba
com o caboclo Mitavaí
Ou de como querem forçar Mr. Mercado a matar o leitor
Esdras do Nascimento
Em artigo para o suplemento Idéias, do Jornal do Brasil, Luciana Villas-Boas, diretora da Record, uma das maiores editoras do país, diz que o aumento do número de títulos lançados, no momento, é proporcional à redução das tiragens, e que "numa competição quase autofágica, os editores estão disputando aquele profissional liberal que já compra oito ou nove títulos por mês, e espera-se que ele compre o décimo ou décimo primeiro livro".
Para os meses de fevereiro e março de 1999 estava previsto um cataclismo na venda de livros. Ocorreu o contrário. Pelo menos na Editora Record, houve aumento de 12,6% com relação ao mesmo período do ano anterior. "À primeira vista, uma notícia espetacular, surpreendente" – comenta Luciana Villas-Boas. "Mas o que se tem aqui é também mais um sinal do difícil quadro educacional, cultural e literário deste país. Um indicador claro de quanto a leitura é privilégio em nossa sociedade".
Dizem alguns ingênuos que durante as crises as pessoas lêem mais. Isso de fato ocorreu nos Estados Unidos, logo depois do crash da Bolsa de Valores, em 1929. Mas lá já havia uma população altamente alfabetizada e quase inexistiam opções de lazer doméstico. Televisão, vídeo, discos compactos de música, Internet, por exemplo, sequer eram ainda sonhos. "Leitura exige formação: conjuntura econômica não forma leitor."
Segundo as estatísticas, seriam produzidos no Brasil 400 milhões de livros por ano e haveria no país 80 milhões de leitores. Nesses números estão provavelmente incluídos folhetos de dez páginas distribuídos nas portas das igrejas evangélicas e panfletos de diversos tipos. E também livros de grande importância que só alcançam tiragens significativas porque são de leitura obrigatória nas escolas.
Sistema educacional eficiente, comida na boca do povo, saúde pública menos cruel, salários decentes que permitissem idas ao cinema, ao teatro, às salas de concertos, e aquisição de livros, além do aumento do número de bibliotecas públicas seriam as soluções óbvias para o problema da falta de leitores, estivesse o atual governo interessado nessas questões e não apenas em repassar dinheiro dos contribuintes para bancos em dificuldades reais ou forjadas.
Mesmo assim, algumas coisas podem ser tentadas. Nos jornais, por exemplo. No passado, cada jornal tinha o seu colunista literário, que dava informações aos leitores sobre o que se passava no mundo dos livros. Na Última Hora, atuava Mauritônio Meira; no O Jornal, Valdemar Cavalcanti; no Correio da Manhã, José Condé; no Globo, Antônio Olinto. Na Tribuna da Imprensa, eu mantinha seção diária de informação e crítica. Além disso, havia os rodapés famosos e artigos assinados por Álvaro Lins, Otto Maria Carpeaux, Paulo Rónai, Wilson Martins, M. Cavalcanti Proença e Franklin de Oliveira, entre outros. A publicação de um romance, uma coletânea de poemas ou um livro de contos era notícia importante e gerava debates. Disso naturalmente resultava a formação de leitores qualificados, em condição de refletir criticamente sobre a realidade nacional.
Desapareceram essas colunas e esses artigos. Quase tudo o que lembrava cultura foi banido. Entraram no lugar:
- colunas sociais chinfrins;
- páginas de rock;
- fofocas sobre atores e atrizes de tevê:
- resenhas sintéticas de livros recém-lançados — de preferência, estrangeiros, é claro;
- a mamadeira da filha da Xuxa;
- quem esteve na ilha de Caras;
- bumbum mais bonitinho da semana;
- comentários apressados e muitas vezes primários e tendenciosos sobre economia;
- manchetes sobre o sobe e desce das bolsas de valores (como se todo mundo no Brasil, ganhando salário mínimo, jogasse nessas bolsas), desvios de verbas, galhofas sobre comissões parlamentares de inquérito;
- sensacionalismo sobre crimes, que no passado só seriam explorados, da maneira como estão sendo, em determinado tipo de jornal não muito bem conceituado;
- restaurantes novos que vendem pratos deliciosos, aonde "todo mundo" está indo.
Coisas assim.
Isso tudo resultou na criação demoníaca de um personagem histérico chamado Mercado, diante do qual todos religiosamente se agacham. E quase ninguém mais se pergunta se vale ou não a pena ler determinado livro, assistir a uma peça em cartaz, ouvir uma orquestra, ir a uma exposição de artes plásticas. O que se pergunta e o que se noticia é: quanto vendeu, quantas pessoas assistiriam, quantas mulheres do society estavam lá?
Tudo isso pode ser mudado, é claro. Se os editores de jornais, revistas, rádios e tevês – muitos deles, sem dúvida alguma, capazes e angustiados com a atual situação – se derem ao trabalho e puderem pensar a respeito.
Quanto ao pessoal do governo, sei lá, sei não. Não faço fé. Praza aos céus que eu me engane.
CARTAS
Muito oportuno o artigo de Esdras do Nascimento sobre a impossibilidade de publicar Machado de Assis atualmente. O livro de Jason Tercio, Órfão da tempestade, conta como Carlinhos de Oliveira, cronista consagrado do Jornal do Brasil, não conseguia vender seu livro Terror e êxtase, por causa da concorrência predatória das traduções.
O livro traduzido custa pouco. De R$ 500 a R$ 2.000, no máximo. As traduções são as porcarias que conhecemos, feitas nas coxas, desbastadas a facão, pois o pagamento do tradutor é ridículo. Tradução virou serviço braçal, antigamente pago por página, atualmente pago por batidas nas teclas. Como um milheiro de pregos.
O livro custa caro porque vende pouco e vende pouco porque custa caro. E o preço alto gera lucros. Mas o público, extremamente reduzido (hoje em dia ninguém mais lê, o livro é presente de amigo ou decoração ensovacada de estante), não reclama, não se rebela, e os editores multiplicam os lançamentos para ocupar os espaços vazios. O importante é a livraria cheia de títulos, pouca venda individual, mas lucro no geral.
Uma sugestão: apresentar a um editor Epithaph of a bad winner (Memórias póstumas de Brás Cubas) ou The Psyshiatrist (O alienista). Talvez, traduzido do "ingrês", os nossos editores os publiquem.
Carlos Araujo
Encantos de Machado
O que mais me espanta não é a falta de resposta, mas a falta de sensibilidade para reconhecer o estilo "renderizado", artisticamente trabalhado de Machado. Ainda que não reconhecessem o Mestre, que pelo menos se rendessem aos encantos de uma escrita finamente trabalhada, e de um estilo de prosear que é pura poesia e criatividade. Criatividade artística que nos faz tanta falta hoje em dia.
Alda Solon Curiale

Editores esnobam Machado de Assis
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