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OBSERVATÓRIO LITERÁRIO

As mil e uma noites

Esdras do Nascimento

 

O suplemento cultural do Estado de S.Paulo de 27/6/99 publica várias matérias sobre As mil e uma noites, a propósito do lançamento do livro Jardim de arabescos, tese de mestrado de Daisy Wajnberg, na USP, pela Editora Imago, e da encenação da peça Sherazade, de José Rubens Siqueira, montada como monólogo pela atriz Raquel Barcha.

Daisy Wajnberg é psicanalista e levou dez anos pesquisando para escrever Jardim de arabescos, que disseca 27 versões do maior mito oral persa, segundo informa Norma Couri. A idéia surgiu quando ela tinha 17 anos e vivia em Jerusalém, convivendo com a cultura árabe. Desde então fez várias viagens ao mundo islâmico, leu tudo o que encontrou sobre o assunto e ficou fascinada com a estética, a caligrafia e a iconografia requintadas da arte oriental. Ela acha que a psicanálise está ligada à literatura oral e que um dos grandes prazeres do analista é escutar histórias, sem se preocupar em saber se o paciente está mentindo ou não: "Tudo num consultório analítico se passa nesse registro e o que conta é a forma como ele encadeia sua verdade, a verdade do inconsciente. Assim, ele reescreve a própria história, que chegou até ele oralmente, por antepassados – e se é que existe, é aí que se dá a cura". Lacan já dizia que a verdade tem estrutura de ficção.

As narrativas de As mil e uma noites surgiram de uma traição. O rei Shariar saiu para caçar e a rainha aproveitou para transar com um escravo negro chamado Mas’Ud. O cunhado Shahzaman, que também fora passado para trás pela mulher, estava de olho e contou tudo ao rei, que além de mandar matar a rainha, decidiu levar para a cama todas as mulheres do reino da Índia e da China – cada noite, uma, com quem se dava sempre ao luxo de casar – entregando-as depois ao verdugo.

Foi aí que apareceu Sherazade, uma moça inteligente e bem-educada, que levou para o quarto a irmã mais nova, Dinarzad, escondeu-a embaixo da cama e lhe deu a missão de pedir que ela contasse uma história para passar o tempo até o nascer do dia. De manhã, Sherazade ainda não havia terminado de contar a história, que se ligava a uma outra, que dava origem a uma terceira, e assim por diante até chegar à de número 2000. A história 2001 foi acrescentada depois à série por causa da superstição que envolvia os número pares. O rei ficou tão curioso em saber o que viria depois nas histórias que foi adiando noite após noite a execução de Sherazade, com quem terminou se casando, tendo três filhos e sendo feliz para sempre, ao seu lado.

As histórias contadas por Sherazade têm tudo para prender a atenção dos leitores: sexo, morte, traição, humor, surpresa, magia, esperteza e final feliz. É isso talvez que explica a sua permanência.

A. S. Byatt, em artigo para The New York Times Magazine, traduzido pelo Estadão, de certa forma reabre antiga polêmica ao dizer que a narração é tão parte da natureza humana como a respiração e a circulação do sangue, e que a ficção moderna tentou inutilmente acabar com a história, que dizia ser vulgar, substituindo-a por flashbacks, epifanias e fluxos de consciência: "Contar histórias é algo intrínseco ao tempo biológico, do qual não podemos fugir. A vida é como estar numa prisão da qual, todos os dias, companheiros de cela são levados para a execução, dizia Pascal. Sobre nós, como sobre Sherazade, paira uma sentença de morte e todos pensamos em nossas vidas como narrativas, histórias com começo, meio e fim".

As mil e uma noites, com suas raízes na Pérsia e na Índia, estão circulando de uma forma ou de outra desde o século 9, em traduções, montagens e adaptações variadas. Apareceram pela primeira vez na Europa entre 1704 e 1717, na tradução francesa de Antoine Galland, que partiu de um texto sírio do século 14 e o adaptou e reescreveu ao gosto francês, colocando punhos de renda em frases brutalmente diretas, sobretudo as de conteúdo erótico, para não espantar os freqüentadores dos salões literários parisienses, que se deliciavam com sua leitura, conforme citação de Luiz Zanin Oricchio, em artigo para o Estadão.

Noventa anos depois, Edward Lane fez nova tradução, ao gosto britânico. Richard Burton, no final do século 19, criou uma curiosa versão em estilo medieval-vitoriano. E, em 1899, Joseph Charles Mardrus montou as histórias de tal forma que elas parecem ter sido escritas por Oscar Wilde ou Stéphane Mallarmé.

As mil e uma noites influenciaram de forma marcante o trabalho de vários escritores. Dentre eles, Charles Dickens, Edgar Allan Poe, John Barth, Naguib Mahfouz, Salman Rushdie, Italo Calvino, Borges, e até mesmo Marcel Proust, que se via como a própria Sherazade, tanto em relação ao sexo como em relação à morte.

Aos que se iniciam na atividade literária é aconselhável o estudo de As mil e uma noites. Além do prazer da leitura, haverá a aprendizagem de técnicas literárias antigas que permanecem atuais e, no entanto, não invalidam a utilização de fluxos de consciência, cortes temporais, epifanias e flashbacks, conquistas indiscutíveis da literatura moderna, em que pese a opinião discordante de A. S. Byatt, citada no início deste artigo.

 

REGISTRO
Joaquim Borges

Morreu em Uberlândia, Minas Gerais, o escritor Joaquim Borges. Nasceu na cidade mineira de Prata, em 25 de março de 1941. Exerceu jornalismo desde 61, foi colaborador das revistas Saga, de Ourinhos, Cultura & Tempo, de Recife, Paca Tatu Cotia Não, de São Gotardo. Pesquisador de cultura popular, agitador cultural no Triângulo Mineiro & arredores, dirigiu o curta-metragem Destino de Gê, extraído de seus contos, tratando dos problemas dos bóias-frias. José Carol disse dele, no Cuaderno Literário Azor, de Barcelona, Espanha: "Este Borges brasileño puede convertirse con el tiempo en una especie de Borges argentino, aunque de otro signo. Atención a este joven y notable escritor, autor de Gabrielão Solé".

Escreveu muitos livros, o mais famoso é Gabrielão Solé e outras histórias (Ed. Inéditos, Belo Horizonte, 1979), que obteve repercussão internacional, e o último foi a Batalha do andarilho (Armazém de Idéias, 1996). Poucos viram o enterro de sua última quimera, exceto a ingratidão, essa pantera; mas do boi só se perde o berro: Joaquim produziu estudos sobre folclore, curso popular sobre arte poética, um romance sobre Tiradentes.

Soube ser nacionalista espontâneo – o sentimento íntimo de que falava Machado de Assis, ele tinha. Joaquim era da geração 68, caracterizada por essa esperança no Brasil. Não importa que as gerações seguintes – e até alguns meia-oitos – tenham mergulhado em conceitos depressivos sobre nossa nação. Vejam Walter Salles Júnior: uma análise acurada indica que evoluiu de um internacionalismo pretensioso e publicitário daquela televisiva adaptação de Rubem Fonseca, passou por um murmúrio sobre identidade cultural em Terra estrangeira e chegou apaziguado ao sertão – tematizado em Gabrielão Solé – no filme Central do Brasil, e só aí conseguiu a consagração internacional. Acreditem, o caminho do artista brasileiro para consagrar-se universal é o de Joaquim Borges.

Evoé, Joaquim!

Lúcio Jr.

 

CARTAS

Com prazer acompanho o trabalho dos colaboradores do Observatório da Imprensa e, com especial atenção, os artigos de Esdras do Nascimento. Lógicos, objetivos e concisos, retratam muito bem as dificuldades e limitações intelectuais dos adultos e da juventude em formação, e a (ir)responsabilidade dos meios de comunicação a esse respeito.

Jornais importantes e com enorme vendagem dão trato especial aos marginais (quanto mais sangrenta a notícia, melhor), reservando espaço especial para suas fotos e detalhes dos crimes que cometeram, mostrando claramente que o crime... compensa. Os meliantes têm seu dia de glória. Fora as notícias sobre atrizes que perdem guarda do filho, o quanto engordaram alguns bebês "globais" e por aí afora.

Àqueles que procuram um pouco mais de informação, que buscam na mídia novidades substanciais que possam dar possibilidade de melhora em sua qualidade de vida, resta, felizmente, o Observatório da Imprensa. Com suas críticas excelentes denunciando o vazio que se formou nos meios de comunicação e longe, muito longe do jornalismo descartável.

Vale lembrar que, geralmente, os jornais reservam à literatura e à arte espaços maiores apenas nos cadernos especiais publicados uma vez por semana. Cometo uma injustiça, Deus meu! Volta e meia pequenas colunas dão dicas sobre esse ou aquele concerto, ou alguma noite de autógrafos. Nada do que comentei é novidade. Percebo que o Esdras vem, insistentemente, colocando esses pontos em seus artigos. Coloco-me a seu lado, em seus protesto. Cordial abraço,

Angela Adnet



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