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OBSERVATÓRIO LITERÁRIO
PRÊMIO NOBEL
O imposto da culpa

Marcos Santarrita

 

É ótima a idéia de um observatório da imprensa na Internet, para vigiar os deslizes e também louvar os acertos dos coleguinhas. Melhor ainda o espaço para a literatura brasileira (a literatura em geral), que resulta em comentários como o do Esdras do Nascimento sobre o Prêmio Nobel de José Saramago [ver remissão abaixo].

Só há um detalhe: não creio que haja motivo para foguetórios no Brasil pela premiação dele. Esse prêmio não foi dado à língua portuguesa, e sim, especificamente, a Portugal, sem dúvida como parte das comemorações dos 500 anos das grandes navegações que iniciaram a Idade Moderna. É sempre assim: acontece alguma coisa em alguma parte do mundo - uma guerra, um regime que passa da conta na opressão, um aliado importante dos Estados Unidos em apuros, na época da Guerra Fria - e pode-se contar como certo: o Prêmio Nobel vai para lá; o escolhido é um mero detalhe.

No dia em que Fernando Henrique vender o mar brasileiro, como o Señor Presidente de El Otoño del Patriarca, de Gabriel García Márquez - quer dizer, quando nada mais restar a vender - talvez o Nobel saia para nós, para ele, por esse grande pioneirismo na história da raça humana.

Fora isso, não creio que algum acadêmico da Suécia saiba português, ou sequer se interesse por saber, e portanto um conjunto de obras publicado apenas nessa língua jamais conquistará o prêmio. Se algum dia, faute de mieux, a (duvidosa, porque política, não literária) honra couber ao Brasil é porque o escritor estará traduzido, no mínimo, para o espanhol.

Devido ao que chamo (most politically incorrect) de imposto de expiação de culpa, que faz com que medíocres escritores anglófonos do Caribe, da Ásia e da África sejam badalados como gigantes da literatura (um poeta indiano fraquinho, Vikram Seth, que jamais fizera ficção, teria recebido nada menos que 1 milhão de dólares de adiantamento para escrever seu primeiro romance, A suitable boy, 1.349 páginas de mau pastiche - eu li, até onde pude - da literatura colonial vitoriana), é mais provável um escritor lusófono africano - ou de Macau, ou de Timor - ganhar o Nobel que um brasileiro.

Nós não somos percebidos (para usar um anglicismo) como vitimizados (outro), e por isso não temos direito a esse imposto; brasileiro no Nobel só falando outra língua. Talvez, quem sabe, o prêmio saia, um pouco tardiamente, para o tal Morris Alpert (é isso mesmo?), autor de Feelings, ou, o que seria mais coerente, para o nosso inefável Paulo Coelho. Sem falar, claro, nos suspeitos de sempre, sempre e invariavelmente os mesmos, convocados pelo Itamarati para todos os eventos internacionais de literatura, e que pouco mais fazem que correr o mundo alcovitando (às vezes financiando) traduções de seus livros e caitiutuando junto aos acadêmicos suecos, ou a quem a eles tem acesso, como consta que vivia fazendo o próprio Saramago. Mais uma vez, deve-se lembrar que, quase sempre, o artista pouco ou nada tem a ver com a pessoa que nos encanta com sua arte.

 

Leitor Literário

Só para complementar o comentário do Esdras, diria que quem "descobriu", para os leitores brasileiros, o Saramago genial de Memorial do convento, Levantado do chão e A jangada de pedra foi o nosso também genial Millôr Fernandes, em crônica do JB à época do lançamento, no Brasil, de Memorial do convento. Merecidíssimo o prêmio. Não sei se o mundo agora vai dar mais atenção à literatura portuguesa, mas, certamente, Herculano, Eça e Pessoa estão recebendo, por tabela, a homenagem que também mereceriam, gênios que foram na arte de escrever.

José Silveira da Rosa Filho

xxx

Não sei, mas tenho a impressão de ter lido uma matéria assim ou muito parecida na revista Veja desta semana... principalmente os dois primeiros parágrafos. Tem alguma coisa a ver ou estou apenas enganado?

Carlmoses

Esdras do Nascimento responde: A observação do leitor é correta. Os dados sobre a vida e a obra de Saramago publicados em jornais e revistas são praticamente os mesmos. Nem poderiam ser diferentes, já que se trata do mesmo autor. O importante é a sugestão aos editores de cadernos culturais no sentido de que, aproveitando a repercussão do Prêmio Nobel, sejam abertos espaços para apreciação crítica da obra do grande romancista português. E.N.

 

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Saramago depois do prêmio



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