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CONTEÚDO & PROGRAMAÇÃO
The New York Times vai à TV
Nelson Hoineff (*)
O New York Times acaba de ingressar no clube dos programadores de TV por assinatura. Pagou 100 milhões de dólares pela metade de um dos canais da Discovery Communications International, o Discovery Civilization Channel. O canal passou a chamar-se Discovery Times, e começou a transmitir na segunda-feira, 24/3, para cerca de 29 milhões de assinantes nos EUA.
O NY Times estréia no business da programação, mas já estava há bastante tempo na produção de conteúdo para a televisão. Aliás, a venda de seus próprios programas para a nova rede de TV por assinatura entra como parte substancial do novo negócio: nos próximos cinco anos, o Discovery Times será obrigado a comprar 40 milhões de dólares em programação da unidade de produção para televisão do NY Times. A parceria de produção entre o NY Times e o Discovery não é nova: juntas, as produtoras já fizeram vários programas, inclusive o premiado On the inside: Wall Street.
Até a semana retrasada, no entanto, o Discovery Civilization era uma rede fortemente voltada para reprises de programas e séries históricas exibidas previamente em outros canais. Com a nova parceria, muda o perfil da rede – que estreou com dois documentários inéditos: Al Qaeda 2.0, sobre os bastidores da rede terrorista, e Terror´s Children, sobre refugiados afegães no Paquistão. O Discovery Times não será um canal de notícias, como a CNN, a Fox News, o MSNBC e a BBC World. Esse mercado está saturado, altamente efervescente, um grande devorador de recursos, e é improvável que qualquer empresário de TV no mundo pense neste momento em aportar o dinheiro necessário para entrar nessa competição.
Mesmo que dispusesse de todo o dinheiro do mundo, dificilmente o refratário Discovery se atreveria a ingressar no segmento de hard-news, ou mesmo gerenciar um canal desta natureza. Fundado há apenas 17 anos pelo visionário John Hendriks a um custo de míseros 25 milhões de dólares, o canal permaneceu alguns anos exibindo somente velhos documentários da BBC enquanto ia criando, mesmo com conteúdo tão incipiente, uma sólida rede de distribuição. Mutatis mutandis, a mesma tática do SBT, que nasceu dois anos antes e exibiu durante muito tempo apenas velhíssimos longa-metragens (além do programa Silvio Santos, é claro) enquanto montava sua rede de afiliadas.
Em 1991, o Discovery comprou o The Learning Channel e começou sua expansão. Comprou depois o Animal Planet, o Travel Channel e muitos outros. Hoje está presente em mais de 180 países. No Brasil, são distribuidos cinco de seus canais, em feeds exclusivos para o país: Discovery Channel, Discovery Kids, Animal Planet, People&Arts, Health Channel. De acordo com o Jack Myers Report, a Discovery Communications International é há 7 anos a mais eficiente empresa de comunicação do mundo no que diz respeito a vendas. Em 2002, seu poder de vendas medido pela consultoria Jack Myers estava em 69 pontos, contra 63 pontos da CBS TV, em segundo lugar.
Propriedade cruzada
Da parceria do Discovery com a BBC surgiu o People&Arts, uma mistura televisiva de Bravo com Caras – se tal coisa fosse possível. A extraordinária capacidade de fazer receitas light com qualquer matéria-prima que tiver em mãos transformou em tão pouco tempo a Discovery Communications International numa das maiores fábricas de redes de TV da história. Hoje, são cerca de vinte. Foi essa massa que o New York Times buscou para botar o seu recheio. O sabor que prevalecerá é uma grande incógnita. O Discovery Times é na verdade um The History Channel atualizado e com estofo na tradição de conteúdo jornalístico do Times (que tem parceria com a CNN para a cobertura da guerra no Iraque), mas gerenciado, distribuído e vendido pela empresa-mãe, que se não é a mãe de todas as bombas está longe de ser o pai do bom jornalismo.
A novidade, então, é o ingresso do NY Times na programação de documentários jornalísticos. Essa é a chave para o entendimento de um acordo que jornalisticamente pareceria inusitado. Documentários jornalísticos representam um dos gêneros mais novos e de maior crescimento no mundo. Um exemplo pode ser encontrado em Bowling for Columbine, que acaba de ganhar o Oscar e, de quebra, propiciar, no discurso de agradecimento violentamente antibelicista de Michael Moore, um dos melhores momentos da entrega dos prêmios deste ano.
O fato é que tais documentários não encontravam estofo até agora em qualquer dos canais do Discovery, que seguem dogmaticamente a política de rejeição a qualquer tipo de polêmica. No Brasil, alguns desses produtos são vistos com certa assiduidade pela GNT, da Globosat, mas não determinam o foco deste canal. Estão presentes maciçamente na BBC e também na NHK. Até agora, no entanto, é paradoxalmente nos festivais de cinema (inclusive em mostras como o "É Tudo Verdade", que abre esta semana no Rio e em São Paulo) que o público tem a chance de conhecê-los em conjunto.
O próprio Michael Moore está finalizando um documentário sobre as relações comerciais entre as famílias de Bush e bin Laden. São documentários investigativos desse tipo que, muito além da exposição jornalística dos fatos do momento, têm colaborado para a compreensão mais profunda do mundo pelo espectador. Assumiram o tom de profundidade crítica e analítica que se supunha ser prerrogativa da imprensa escrita. Bem formatados e distribuídos, são literalmente capazes de colaborar para a transformação do mundo.
Documentários de investigação jornalística não nasceram ontem. Sua proliferação é que se acelerou nos últimos anos, assim como o entendimento que é ao espectador comum, e não apenas aos freqüentadores de festivais de cinema, que eles falam.
"Documentário", até bem pouco tempo, era entendido como a documentação de situações sociais ou antropológicas, de eventos ou fatos, fotografias animadas de acidentes geográficos, vida selvagem, manifestações políticas. Só bem recentemente a idéia do documentário se ampliou para qualquer coisa que não seja ficção. Um diretor pode, por exemplo, documentar os seus desejos, as suas inquietações. Mas foi a escola do documentário jornalístico que mostrou que há no universo do gênero caminhos distintos das Maravilhas da Natureza (ver, a propósito, Manufacturing Consent: the Political Economy of the Mass Media, de Noam Chomsky e Edward S.Herman).
É neste universo que o NY Times está mergulhando ao entrar, até onde as rígidas leis de cruzamento de propriedade de veículos nos EUA o permitem, no campo da programação de TV por assinatura. A parceria não deverá ser fácil porque a Discovery Communications International – que mantém o controle das operações, com 3 membros entre os 5 do board – pode querer o dinheiro e o nome do sócio, mas não os problemas que o jornalismo investigativo são capazes de trazer. "O Discovery não se ocupa de conflitos sociais e nem pretende fazê-lo", garantiu há alguns anos um de seus diretores, que hoje ocupa cargo ainda maior na corporação.
Jornalismo diferenciado
Nem o Discovery mudou e muito menos o Times. Há no mercado de TV por assinatura, no entanto, a percepção que existem nos operadores do mundo inteiro muitos canais e pouca diversificação. Essa contradição, que no Brasil chega ao paroxismo, é menos cruel para o mercado em países com índice de cabeamento superior a 75%, como nos EUA, do que em províncias com menos de 5%, como o Brasil. Mas é igualmente perversa para o assinante. A TV por assinatura, da qual se esperava pluralidade e inteligência, acabou despejando maciçamente sobre seus assinantes o concentracionismo e a burrice. Nesse mercado superpovoado existe, então, espaço para conteúdo de qualidade – o que é apontado por praticamente todas as pesquisas qualitativas que se faz sobre o mercado de TV por assinatura hoje no mundo.
Quase 29 milhões de assinantes, que é por onde começa o Discovery Times, é relativamente pouco para os padrões americanos – onde só o Discovery Channel tem mais de 90 milhões –, mas representa um número impensável no Brasil, onde a base total de assinantes mal passa dos 3 milhões.
No Brasil, onde as operadoras de TV por assinatura conseguiram potencializar a crise que o setor enfrenta no resto do planeta, a diversificação tem sido severamente punida. Vendeu-se ao assinante a idéia que TV fechada é a fragmentação dos modelos da TV aberta e está difícil recuar para começar tudo de novo. Agora mesmo, o Canal Brasil, única rede a exibir o precioso acervo cinematográfico brasileiro, está ameaçado de parar imediatamente se não conseguir uma base de assinantes maior por intermédio de outras operadoras; mas na própria NET, que como o Canal Brasil tem os dois pés no Sistema Globo, permanece apenas no pacote mais restrito.
A produção original para TV por assinatura, essa então agoniza – revelando a face mais perversa da falência do estúpido sistema que se montou no Brasil. A Abril, de notável tradição jornalística, mal chegou a produzir para a TV. Seu mais ambicioso projeto de jornalismo televisivo, o CNA, foi abortado antes de nascer. Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo foram impelidos em momentos diferentes a diversificar. Nunca pagaram para ver. Com exceção da Globo e da RBS, são pouquíssimas as empresas jornalísticas que se lançaram com sucesso na produção de conteúdo jornalístico para a televisão, aberta ou por assinatura. Jornais brasileiros, no dizer do proprietário de um deles, não devem ser produtores de conteúdo, mas veiculadores. Imagine a televisão.
Nem todos pensam assim. Do lado de cima, CNN, Fox News e MSNBC juntas produzem 72 horas de programação jornalística por dia, só em seus canais principais (a CNN e a Fox juntas têm quase 20). Quando uma rede como a Discovery Times é lançada no sistema, isto significa mais 10 ou 12 horas, no mínimo, de programação jornalística original por dia. É muito o que se oferece ao assinante, é muitíssimo o que se obtém da indústria.
A complexidade social, política, econômica e cultural do Brasil não gera um resíduo sequer dessa quantidade de produção, basicamente porque não se investiu na criação de mercado para isso. A falta desse mercado resulta na carência de produção jornalística brasileira para televisão e, conseqüentemente, no estímulo à desinformação da sociedade sobre suas questões e na submissão desta sociedade ao universo temático e às interpretações que vêm massacrante e hegemonicamente de fora.
O Discovery Times deve, na pior das hipóteses, aumentar a demanda por produção de jornalismo investigativo diferenciado. Essa imensa produção, da qual tão pouco se conhece, vai aumentar e ganhar mais visibilidade. Parece surpreendente que se possa fazer tanto com tão pouco dinheiro. A província brasileira pouco estará produzindo para o novo canal. E possivelmente vai esperar anos para vê-lo, abrigado num entre os 200 slots pelos quais, como simples assinantes, estamos pagando tão caro.
(*) Jornalista, diretor de TV e escritor
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