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QUALIDADE NA TV
JÔ SOARES & LUIZ ESTEVÃO
Desserviço à nação
Eugênio Viola
Depois de insistentes chamadas ao longo da programação da Rede Globo, começava, finalmente, já na madrugada, a entrevista exclusiva de Jô Soares com o ex-senador Luiz Estevão. Antes, o sexteto (sempre excelente) cantou o "Rap do Lalau". O índice de audiência naquela noite provavelmente foi alto. O programa misturava entrevistas com especialistas em ginástica para gestantes, o grupo musical As Meninas e o ex-parlamentar. Um programa jornalístico de variedades ou uma geléia geral?
Foram quase 30 minutos (exatamente 27 minutos e 17 segundos) na tentativa de o showman deixar o ex-parlamentar sem argumento. Em vão. Durante quase meia hora, Luiz Estevão mostrou que só um profissional da imprensa que acompanha de perto o caso, um representante do Ministério do Público ou da Justiça, também envolvidos no episódio do TRT/SP, teriam condições de discutir o fundamento das denúncias. Mesmo não sendo o estilo do programa, não houve chance de um debate, de dar palavra a quem efetivamente levantou dados para a cassação e prisão de Luiz Estevão. Na realidade, o que se viu foi o ex-senador ocupando 30 minutos em rede nacional na poderosa Globo. Sem contra-argumentos.
A entrevista com um personagem acusado de envolvimento em um dos maiores escândalos da República teve início com a admiração de Jô pelo fato de Luiz Estevão ter 58 anos. Logo em seguida, o ex-parlamentar falou do constrangimento causado à família por sua prisão "descabida". Atacou o Ministério Público pelo fato de ter remetido para o juiz um resumo de apenas 30 páginas do processo com quatro mil páginas – resumo este que fundamentou o pedido de prisão. Ponto para Estevão. Jô não tinha argumentos para rebater.
O showman disse que ele respondia a 14 processos no STF e o ex-parlamentar contestou, desfilando um a um os processos, inclusive citando o fato de ser o autor – e não o réu – em dois deles e de haver três acusações de sonegação fiscal, casos em que a situação já teria sido regularizada. Jô não tinha argumentos para rebater.
O apresentador partiu então para o "ponto nevrálgico": a obra superfaturada do Tribunal Regional do Trabalho em São Paulo. Acompanhe o diálogo:
Jô – O que há de mais grave é o envolvimento no caso de corrupção na obra da sede do TRT/SP. Sua empresa participou da licitação e ficou em segundo lugar. Mas, depois surgiram evidências, provas de que você seria o principal acionista, que teria comprado 90% das ações da Incal, que foi quem ganhou a concorrência.
Estevão – Esta é a acusação e nós realmente estivemos negociando a compra de 90% dessas ações cinco dias antes da concorrência, mas, numa concorrência, é assim, as empresas se comunicam, conversam, discutem...
Jô – Então não é uma concorrência, é uma combinação.
Estevão – Não é uma combinação, até porque a licitação permite a formação de consórcios.
Ponto para Estevão. Silêncio de Jô.
Logo a seguir, o apresentador cita a reportagem de capa da revista IstoÉ, onde foi publicado que Luiz Estevão seria o "encarregado de fazer sumir o dinheiro". Bate-boca se o texto referia-se ao ex-parlamentar ou ao empresário Fábio Monteiro de Barros Filho. Mais uma vez, nada a esclarecer ao telespectador. Jô então levanta a questão de que Luiz Estevão teria falado por telefone com o ex-juiz Nicolau dos Santos Neto por 68 vezes. O ex-senador alega que "apenas quatro telefonemas tiveram mais de um minuto de duração" e acrescenta que foram ligações em datas especiais, como Natal, aniversário e até durante o seqüestro de sua filha.
Em seguida, voltam a falar amenidades, como a razão dele ter o apelido de "Escovão", da amizade com Collor durante a juventude, de um grupo musical chamado "Trio Mocotó", etc.
Na última tentativa de dar mais densidade, Jô perguntou a que o ex-senador atribuía sua cassação no Senado. Antes de responder, Estevão fala de sua ascensão na vida política, destaca o fato de ter sido "o deputado estadual mais votado na história do Distrito Federal", o mesmo acontecendo com sua eleição para o Senado, e atribui sua cassação à tentativa de torná-lo um "bode expiatório".
"O que havia com a Comissão de Orçamento do Congresso" – indaga Luiz Estevão –, "que é quem decide que aquele dinheiro, que falta para a merenda escolar, para a cesta básica dos flagelados do Nordeste, que falta para a aposentadoria, para melhor pagar o servidor público? Para isto não tem, mas tinha para colocar 200 milhões de reais naquela obra e ninguém percebeu que tinha irregularidades?"
Ponto para Luiz Estevão. Silêncio de Jô.
A entrevista chegou ao final com direito de aplausos da platéia. Vinte e sete minutos e dezessete segundos em rede nacional de desserviço à nação.
CINEMA & TV
Brasil fora do roteiro
Luiz Carlos Pires (*)
Como anda a televisão do Brasil depois da retirada de alguns programas nacionais da grade da Rede Globo, no momento em que se comemora nosso meio século de telinha?
Nesses 50 anos, a estação do Jardim Botânico, com 35 anos de atuação, tem uma história de sucesso. Levou a cultura nacional a todo o planeta com suas novelas e minisséries. Profissionais de várias áreas na dramaturgia e espetáculo formaram um elevado padrão de qualidade colocando a emissora entre as cinco maiores redes do mundo. A grande conquista foi, sem dúvida, o folhetim que deu a liderança do gênero e é o carro chefe das exportações.
Ao ver os personagens da novela Laços de Família percorrerem os lugares paradisíacos do Rio de Janeiro, temos vontade de visitar a cidade. Foi assim que nos sentimos quando o Nordeste foi mostrado pelas novelas Gabriela e Saramandaia. E o Globo Repórter nos trouxe as belas imagens dos santuários ecológicos de Fernando de Noronha e Abrolhos. Com a Muvuca e o Brasil Legal, de Regina Casé, o brasileiro se descobriu na TV e conheceu o maior cajueiro do mundo. Além de vender o paraíso, provocando o crescimento da indústria do turismo, essas imagens ajudam a conhecer melhor o nosso povo e tudo que ele consome e produz culturalmente.
Em muitos países estrangeiros, a indústria do entretenimento é tratada com a maior seriedade. Nos últimos três anos, a quantidade de filmes de longa metragem realizados nos EUA pulou de 300 para 800 ao ano. Esses números refletem uma estratégia de investimentos na indústria cinematográfica que, em alguns casos, oferece retorno financeiro maior do que muita aplicação em bolsas de valores, fora o que é arrecadado em direito autoral durante anos.
A produção americana atende aos mercados interno e externo e as grandes corporações não fazem por menos na conquista e ocupação que envolvem bilhões de dólares. No Terceiro Mundo, porém, também há países que se preocupam com a sua cultura e possuem mecanismos de proteção. A Índia e o Irã apresentam uma grande produção cinematográfica para o mercado interno e externo. O magnífico filme iraniano Close Up, que nos chega agora, exemplifica bem este enorme esforço.
Coincidência ou não, a retirada por tempo indeterminado de programas como Muvuca, Você Decide e outros surge no momento em que a audiência está sendo batida por filmes importados de outras culturas, feitos por outros profissionais e colocados no ar pela concorrente SBT, do senhor Silvio Santos. Não custa sonhar que o senhor Silvio Santos está atento aos sinais e que em breve assistiremos mudanças na programação de sua emissora.
Num mundo globalizante, a estratégia protecionista do Irã e da Índia é uma parte inicial do processo que garante uma forte estrutura de identidade nas complexas relações culturais e comerciais entre os países.
Os projetos bem sucedidos do supletivo das Organizações Globo e da programação da TVE conseguiram evitar que a educação estivesse pior do que está. Para a divulgação de nossa indústria cultural não basta criar leis protecionistas como querem os roteiristas e demais categorias profissionais, obrigando a exibição de um percentual mínimo de produção nacional em todas as redes. Esta estratégia pode funcionar bem num primeiro momento, mas aumenta depois o fosso de qualidade entre o que é produzido aqui e no Primeiro Mundo, sendo necessário portanto um esforço total da sociedade para aumentar seus níveis e educação e cultura que, nestes 50 anos e com a ajuda da TV, poderiam estar em melhor situação. Uma proteção, no entanto, que se faz urgente num momento em que o país está fora do roteiro cultural.
(*) Roteirista. Endereço eletrônico: lcpires@gbl.com.br
ASPAS
50 ANOS DE TV
Mauro Wilton de Sousa
"Falta qualidade à mídia que chega a nossa casa", copyright O Estado de S. Paulo, 30/7/00
"A oportunidade de uma comemoração é sempre a celebração de caminhos andados com sucesso. Se isso é verdade, a atual comemoração dos 50 anos da televisão brasileira é uma indicação do sucesso de um modelo de produção e gestão que a põe como uma das principais televisões do mundo e está presente na vida cotidiana da quase maioria da população do País.
Mas a crítica social, exatamente na oportunidade dessas comemorações, demandando cada vez mais uma televisão de qualidade, evidencia caminhos vividos como não tendo sido só de êxito.
A demanda de uma TV de qualidade é expressão de um sentimento de recusa ao que tem sido vivenciado. Ora isso se expressa na dificuldade de escolher numa diversidade de canais e de programas que se repetem, como que a obrigação de escolher na diversidade do que de fato é único, como modelo de televisão. Ora isso se expressa em valores morais e estéticos para dizer que o que é tornado público não reflete o que é culturalmente comum à maioria das pessoas, invasão e uso conflitivos das fronteiras do que é público e privado. Ora isso se expressa na indicação de que ela pouco acrescenta de valor crítico e reflexivo, uma experiência sem resíduos para além dos instantes vividos.
É como se nessas expressões de recusa estivessem demandas de algo mais do que apenas a diversão, o lazer e o entretenimento; algo mais do que a competência tecnológica para digerir o velho e o conhecido; algo, enfim, que justificasse o tempo dado aos longos processos de silenciosa permuta valorativa entre produção e recepção.
Talvez se possa dizer que, na verdade, se busca, para além desse modelo mercadológico sustentado na pluralidade de opções de canais e programas, mas sem opções de pensamento, modelos alternativos que possibilitem a circulação de valores, que dêem um salto de qualidade como em outros campos dos veículos de comunicação social, algo que ultrapassando limites e convergências tecnológicas propicie também a oportunidade de degustar valores que acrescentem política, social e culturalmente.
Na verdade, esse papel, via de regra ausente na televisão brasileira, significa conflito com o modelo comercial hegemônico de televisão. A presença mais intensa da TV pública tanto quanto de outras formas alternativas e independentes de produção televisiva necessariamente traria o diverso, estabeleceria outros elementos de conflito, criaria outros mecanismos de geração de hegemonias, propiciaria mecanismos plurais de construção da opinião pública.
As experiências brasileiras contemporâneas de TV pública orientam-se nessa direção e têm se mostrado capazes, especialmente se mais bem estruturadas em suas condições, na consecução desse papel social hoje quase ausente.
Faltam-lhes sobretudo condições estruturais para fazer valer em intensidade este esforço.
Símbolos - Essa pluralidade desejada de modelos televisivos é também um direito. Um direito historicamente situado a partir daquilo que é a própria marca da televisão, seu potencial de atuação na esfera simbólica. É por meio do mundo simbólico que se constroem as identidades culturais coletivas de um povo como é por meio dele que se caracteriza a nação, enquanto comunidade imaginada de valores. Isso significa que a TV, de alguma forma, atua como estruturante do mundo simbólico.
Ora, enquanto em outros países primeiro se privilegiou o modelo público de televisão e, depois, se abriu para modelos alternativos, aqui vem se dando o contrário. Isso acabou criando para o Estado a incômoda responsabilidade de ter dado prioridade e condições a terceiros, o que agora lhe é cobrado, ou seja, oferecer condições mais democráticas de construção de um mundo simbólico.
É ainda um direito na pluralidade de representações sociais, dado que a televisão hoje participa da construção de identidades coletivas tanto quanto supre papéis de outras instituições. Exemplos como o das Diretas Já, da questão Collor e tantos outros vêm indicando que ante a crise de representatividade política ela também se coloca como espaço de negociação e de representação.
Esse espaço de mediação entre o Estado e a sociedade civil tem dado à televisão o acesso a novas fronteiras, ora nos programas populares, mesmo sob a preocupação comercial, exercendo o papel substitutivo de serviços públicos, ora legitimando ideais e respaldando interesses até mesmo de novos movimentos sociais. Afinal, a TV também é espaço pelo qual os fatos se tornam acontecimento, e isso é uma questão pública e política.
Talvez por isso a TV seja hoje um dos espaços privilegiados de expressão do comum desejado, é espaço de simbolização de um povo. Se, ontem, a Igreja, o Estado e mesmo a escola tiveram papéis relevantes nessa representação, hoje a televisão também o exerce, uma certa praça pública mediática, ainda que plural e fragmentada.
Esses diferentes pressupostos buscam assegurar a necessidade de se reforçar o espaço e a direção de atuação das TVs públicas no País, mas também de condições que lhes garantam autonomia para ocupar competitivamente lugar de mediação na crise de representatividade política e de politização do social que hoje se vive.
São essas condições de autonomia, em toda a sua extensão, e sob o princípio maior de espaço competitivo de circulação de valores, que têm orientado discussões no seio da sociedade civil do País, ora buscando assegurar por parte do Estado novas responsabilidades a respeito, tanto quanto revendo a participação da mesma sociedade civil. A presença ou não do próprio capital privado na construção dessas condições, quer sob a forma de publicidade, quer sob a forma de parcerias, acaba sendo aspecto de uma questão-chave pressuposta: uma TV de qualidade sustentada em princípios e condições de autonomia, de fato pública, o que não significa estatal."
NO LIMITE
Joaquim Ferreira dos Santos
"É tudo mentira", copyright no. <www.no.com.br>, 27/7/00
"A sensação geral é de frustração, tédio: não se faz mais um bom mundo cão como antigamente. Saudade do Flávio Cavalcanti raspando a barba do Tenório Cavalcanti e, em pagamento, mergulhando na piscina do bunker de Duque de Caxias. Mundo pit bull total. Saudade do seu Sete da Lira jogando para dentro uma garrafa inteirinha de marafo e provocando a suspensão do Chacrinha por um mês. Aquilo sim. Repugnante. Doente. Prometia-se a visão do mundo atráves da jaula de uma carrocinha e, já que era o trato, já que as pessoas tinham ligado a tv para ver aquilo, cumpria-se. Domingo a Globo ameaçou servir cachorrada com a estréia de No Limite. Deu para trás. Medrou. Fez apenas uma festinha parecida com aquela do lulu da Vera Loyola.
A fórmula do No Limite, estamos todos de acordo, é asquerosa. Doze pessoas se prestam a ficar numa praia deserta no Ceará, regadas a uma dieta de carambola e tamarindo, disputando gincanas que darão ao vencedor R$ 300 mil. Na Dinamarca ninguém toparia, mas aqui já são 5 mil inscritos. Miséria do neoliberalismo globalizante, diria o Jabor. Dormem ao relento. Há cobras na tocaia. E - ai que susto! - o Zeca Camargo aparece de vez em quando, sempre arfante e bronzeadíssimo, contando regras complicadíssimas de mandalas, totens e portais. O programa juntou domingo uma audiência de 50 milhões de pessoas, todas certas de que veriam a versão pós moderna dos leões comendo cristãos. Bicas. Foi todo mundo dormir com a impressão de que a segunda-feira de qualquer um, em qualquer escritório da Paulista, em qualquer ônibus no Jardim Botânico, seria muito mais difícil.
Nesse programa do dia 23 foram mostrados os dois primeiros dias dos aventureiros na tal praia. O máximo de mundo cão foi um sujeito vomitando água e, segundo alguns espíritos mais sensíveis, quando uma moça leu, aos prantos, trechos do livro Minutos de Sabedoria. A sensação era de que a Globo estava passando um show de turismo do canal Voyage. Clima de camping total, talvez mesmo um Mediterranée rústico com Zeca Camargo no papel de G O propondo gincanas. Cantava-se música de Lulu Santos e uma aventureira arrebitada foi saudada pelo colega com um 'popozuda'. Ninguém parecia em situação limite. Nenhum perigo daquele jegue que o Ratinho colocou no ar outro dia, excitadíssimo, correr novamente atrás de um aventureiro mais despido. Enfim. Mais uma vez a televisão tenta flagrar o ser humano no básico: vivendo, sem ponto eletrônico no ouvido, sem telepronter, sem homem-claquete gritando ação. Mais uma vez, como em 20 e Poucos Anos, da MTV, fracassa. A sensação é de que Neuzinha Brizola voltou e, ligue agora o seu webradio, Mintchura virou hit de novo.
O principal erro de No Limite, além das gincanas bobas, de não dar o prometido buraco da fechadura e de não flagrar ninguém nos estertores da decência, é não deixar a câmera oculta. Os participantes são proibidos de falar com a produção, mas os técnicos estão por ali, visíveis, movimentando a parafernália da tv. Você sabe que está no ar e, claro, trava, fica artificial. Mintchura. Já que a Globo não consegue ser mundo cão, sejamos: é como se comportar naturalmente no banheiro sabendo que há uma câmera ligada no espelho da pia em frente. A situação é banal, mas a vaidade, sabe bem o Zeca Camargo dentro de suas bermudas cáqui, a vaidade é uma coisa muito louca, meu filho. Se tem 50 milhões de pessoas olhando, você tenta tornar charmosa até a escavação daquela meleca mais profunda.
É tudo editado demais, o contrário do prometido. Isso prejudica o que seria, no bloco final, um curioso mergulho na canalhice humana. O grupo perdedor da gincana precisa dispensar um de seus membros e explicar por que está defenestrando o infeliz. É a hora de matar para sobreviver, um instinto básico, remontando às primeiras selvas do nosso inconsciente coletivo, todo mundo andando novamente de quatro. O bicho homem em estado bruto e agora piorado, porque saliva feito um porco não só pela ânsia da sobrevivência, mas porque aprendeu, com lalaus e estevões da selva pós-moderna, o prazer de chafurdar no estrume de 300 mil notas alheias.
Embora todo mundo prefira pizza no cardápio de domingo à noite, faltou flagrar o ser humano em mais exemplos no limite dessa cafajestice - e olhe que num domingo de outrora este mesmo restaurante já serviu sushi sobre o corpo nu de uma modelo e quatro galãs, mesmo sabendo que as câmeras estavam ligadas, banquetearam-se. A primeira demissão de No Limite foi suave. Até mesmo D. Eugênio, se no grupo estivesse, faria o feito. Cortaria a dona Hilca, que não conseguiu concluir qualquer uma das gincanas pelo fato, em geral apenas estético, mas aqui fundamental, de ser uma senhora muito gorda, coitada. Há senhoras gordas ótimas na advocacia ou no jornalismo. Mas, definitivamente, elas não cumprem a tarefa de subir uma duna de areia num tempo melhor que o do adversário sarado. Nenhum preconceito, embora dona Hilca, cheia deles, tenha dado seu voto eliminatório para uma outra senhora. Mais magra que ela. Porém mais velha, coitada. Era a jaula da carrocinha, finalmente, embora sempre dando a impressão de que um contra-regra passou um paninho nas grades. ‘Não se cuida, um absurdo’, sentenciou outro aventureiro acabando com o turismo de Hilca e mandando a gordota de volta para casa. Depois da degola, os algozes de Hilca choram abraçados. Repugnante, certo, mas, ufa!, só aos 44 minutos do último bloco. O ser humano não falha, mas em No Limite ele tarda muito a aparecer."
VIOLÊNCIA NA TV
Margarida Portugal
"TV violenta afecta crianças" , copyright Público, 27/7/00
"Um senador norte-americano, Sam Brownback, disse ontem que a importância de estabelecer uma relação peremptória entre a televisão e a violência só é comparável ao momento em que se provou um paralelo entre o tabaco e o cancro. ‘Estamos perante um ponto de viragem. Já não há na comunidade profissional dúvidas nenhumas sobre isto. Pela primeira vez, quatro das mais prestigiadas associações médicas e psiquiátricas juntaram-se para afirmar categoricamente que a violência veiculada pela indústria do entretenimento tem um efeito directo nos nossos filhos’.
A emotividade do político norte-americano tem razão de ser. Até hoje, as certezas sobre o grau de influência da televisão, dos vídeos, da música e dos filmes nos telespectadores não eram muitas e, sobretudo, não eram consistentes. Desta vez, a Associação Americana dos Médicos, dos Pediatras e dos Psicólogos, para além da Academia de Psiquiatria Infantil e Adolescente juntaram-se para afirmar a uma só voz as suas certezas quanto à existência de uma relação directa entre o aumento da violência entre os menores de idade e os conteúdos transmitidos pelo audiovisual, designadamente a televisão, o vídeo e a música. E fizeram-no de forma taxativa.
A declaração conjunta das quatro associações, ontem divulgada no âmbito de um debate sobre a violência na indústria do entretenimento, dizia que ‘a conclusão da comunidade de saúde pública, baseadas em mais de 30 anos de pesquisa, é de que consumir conteúdos violentos aumenta a agressividade nas atitudes, valores e comportamentos, particularmente nas crianças’. Segundo o depoimento, os ‘efeitos são mensuráveis e duradouros’ e têm ainda uma consequência suplementar: ‘o consumo prolongado de imagens violentas pode gerar distanciamento emocional em relação à violência no mundo real’.
‘As crianças que estão expostas a muita violência nos media têm tendência a ver a violência como um meio efectivo de resolver conflitos e a achar que gestos violentos configuram um comportamento aceitável’, continuam as associações na sua declaração conjunta. Para além do ‘alheamento emocional em relação à violência real’, as crianças que consomem muita violência na televisão, por exemplo, ‘têm menos probabilidade de agir a favor da vítima de um acto violento’, defende o comunicado. Finalmente, as associações norte-americanas concluem que ‘o visionamento da violência pode induzir em comportamentos violentos na vida real’. Crianças precocemente expostas a programação violenta têm uma ‘tendência maior a assumir comportamentos agressivos mais tarde, do que crianças que não sofreram essa exposição’, especificam.
A forma definitiva como as associações traduziram as suas constatações levou os organismos representativos da indústria do entretenimento a reagir com cautela. ‘Não nos podemos pronunciar sobre algo que ainda não vimos’, disse o porta-voz da Associação Nacional de Operadores de televisão.
Menos hesitante, o senador Brownback espera que ‘os pais olhem para estas conclusões e percebam que têm que vigiar melhor os conteúdos que os filhos visionam, da mesma forma que vigiam a sua alimentação ou outros aspectos da sua saúde’. O director de um organismo de monitorização da violência nos media, o ‘The Lion and Lamb Project’, saudou a declaração conjunta das associações médicas dizendo: ‘Neste preciso momento a mensagem que se está a enviar para as crianças é de que a violência não tem problema, que faz parte da vida e que até pode ser divertida’, disse. E frisou: ‘Estamos mesmo a usar a violência para fazer humor’. Quanto ao envolvimento dos pais, não tem dúvidas: ‘Nós pensamos que os pais têm de controlar melhor o uso do controlo remoto’."
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