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QUALIDADE NA TV

BARROS E SILVA vs. CUNHA LIMA
Etiqueta de mercador

 

Fabiano Golgo

No bate-boca (ou seria bate-tecla?) entre o articulista do TV Folha, Fernando de Barros e Silva, e o manda-chuva da TV Cultura, Jorge da Cunha Lima, estampado nas páginas da Folha (3, 10 e 17/10/99) e no site do Observatório da Imprensa (20/10/99) [veja remissões abaixo], ficamos confusos, tentando discernir se há um embate de idéias ou de personalidades. Em um primeiro instante, a desconfiança quanto ao posicionamento de Barros e Silva surge em função da aparente batalha de boa parte da imprensa, Folha incluída, contra a introdução de anúncios comerciais na TV Cultura, o que em princípio representa diluição de verbas publicitárias hoje tão disputadas. Mas, apesar da linha editorial de seu veículo, parece que pelo menos os articulistas têm liberdade garantida de expressão (exceção feita ao caso Alberto Dines, cujas críticas foram por demais baseadas em verdades comprováveis, incriminadoras da gestão do herdeiro, para que fossem toleradas).

Por um lado, Barros e Silva destaca uma declaração de Cunha Lima onde este diz que os programas da emissora terão que alcançar um patamar mínimo de audiência (4 pontos, mais tarde racionalizados para algo mais realista) para que permaneçam no ar. Barros e Silva acertadamente reage contra a religião do mercado, versão brasileira, moda importada pelos outrora social-democratas, no âmbito governamental, e, no privado, pelos herdeiros catequisados nos campi anglo-saxões pagos pelos seus pais – estes investindo na aposentadoria e na passagem do cetro (interessante que adotem a cartilha neoliberal à risca, e contudo não abram suas empresas ao mercado de ações, como na terra progenitora de seus métodos administrativos, e sigam a retrógrada tradição familiar).

Cunha Lima, em seu rebote, busca mais o seu dicionário de palavras de pouco uso para adjetivar o articulista do que discutir os perigos de tal decisão. Ao mesmo tempo em que ressalta os deveres – nobres – de uma emissora pública, sucumbe à psicose do Ibope protegendo-se com o mantra difundido (ironicamente, entre as elites culturais que são exatamente as vítimas do espetáculo de mau gosto televisivo atual, uma vez que é improvável que os 20 milhões de novos telespectadores – leia-se, consumidores – participem da retórica ideológica da alta economia). A réplica do presidente da Fundação Padre Anchieta, mantenedora da TV Cultura, é, porém, reveladora. Pouco se detém no ataque objetivo de Barros e Silva, preocupando-se com irrelevâncias – tipo sua intimidade com FHC e os méritos do "dom da amizade", peculiaridades de sua fé católica, sua não-filiação "a clubes ideológicos, econômicos ou mesmo intelectuais" ou frases sem significado como "queremos o mercado também, no que ele possa se confundir com a sociedade". No que ele possa se confundir com a sociedade?! A única confusão aqui é a própria frase...

Réplica reveladora

O problema de Cunha Lima parece não ser más intenções, mas sua filiação, mesmo que não perceba, a um modelo administrativo da moda, numa tentativa, possivelmente honesta, de salvar a TV pública. Só que se para salvar o barco for preciso afogar os tripulantes, a estratégia é burra. Se a Cultura "dá traço", em referência à simplista classificação do Ibope, isto não significa audiência zero, mas menos de 80 mil pessoas – na Grande São Paulo (neste país imenso e diverso!). Vão querer fazer o quê? Quem dá 4 pontos de audiência é a Sílvia Poppovic ou o Fantasia. Vão querer fazer isto? Se mesmo emissoras privadas, que dependem unicamente de publicidade, conseguem manter programas com 2, 3 pontos, alguns com o famoso traço, por que a Cultura, cujos fundos são mais variados, não poderia?

Os atuais anunciantes da Cultura são empresas de grande porte, com aspirações institucionais, interessados não exclusivamente em vender seus produtos, mas em qualificar sua imagem, aliando-se à de certos programas. Se a Cultura passar a fazer sua grade em função do Ibope, cujos métodos de apuração são duvidosos e certamente incompletos, em um país continental tão variado como o nosso, então vai virar outro SBT ou Globo, onde o Sílvio e a Marluce mudam horários e programas como o Yeltsin muda de primeiro-ministro.

O que Cunha Lima disse, corretamente, é que "aprimorar a linguagem, a beleza e o ritmo dos programas é um dever mínimo de administrador"; isso contudo não deve ser atrelado à audiência, mas à responsabilidade esperada de uma empresa pública.

Drogas? Como drogas?

É preciso que entendamos que um professor não chega à sala de aula e pergunta: o que vocês querem aprender hoje? Não é por uma pesquisa de opinião entre alunos que o professor vai pautar sua docência (ou vai acabar como um professor de educação física de meus tempos adolescentes, que promovia tal falsa democracia e acabou permitindo que todas as suas aulas fossem exclusivamente partidas de futebol – a escolha quase unânime da gurizada). A TV pública tem que exatamente preencher um espaço não levado a sério pelas emissoras privadas: aculturar, senão educar. Oferecer programas de qualidade, aprofundados, sem apelos que visem aumentar o número de telespectadores. É dever de uma mãe dar ao filho proteínas, sais minerais, vitaminas e todo o resto que garanta a saúde deles. Não simplesmente perguntar o que desejam: ou vai ter que estocar biscoitos.

O que é mais revelador da tendência do presidente da TV Cultura (aliás, interessante como ele se diz "presidente e jornalista", em seu artigo, pois presidente, não sendo o Getúlio, não é profissão, mas cargo) aparece em um texto publicado na Folha de 8/10/99, de sua autoria, sob o título "A rede da amizade". Extremamente revelador porque usa uma linguagem apelativa, emocionalesca, muito parecida com a usada pelos animadores de auditório quando querem "sensibilizar" a população (ato geralmente hipócrita, precedendo a entrada de anormalidades alavancadoras de audiência). Não apenas trata um deficiente físico que participou do Teleton da emissora pelo dúbio "toco de gente", acompanhado de palavras simpáticas como que para frisar sua messiânica visão do rapaz, como escreve em tom que soa como Ana Maria Braga lendo um conto de Cony (outro sinal preocupante desses novos tempos de circo & circo).

Contando como o Sílvio Santos ofereceu a "grande" idéia de criar uma espécie de associação entre as redes de TV para mutirões de arrecadação de dinheiro e conscientização quanto a problemas que aflijam nossa sociedade, seguindo o exemplo do "espetáculo cívico do Teleton", Cunha Lima elaborou o texto que poderia ser atribuído a algum RP de político, recheado de esperanças bonitas de um futuro melhor a ser garantido pela iniciativa, quase equiparada a um ovo de Colombo. E ainda cita as drogas como "o problema mais grave da sociedade brasileira"... Drogas? Sem dúvida há uma epidemia lá fora, mas alguém acha que as drogas sejam o problema mais grave do Brasil? Ele empatou o problema dos entorpecentes com o da exclusão social, este sim, de fato gigantesco.

Festinhas e holofotes

Vale notar, entretanto, que deu o nome agradável ao que o colóquio chama de pobreza, ou melhor (ou pior), miséria. Há uma lista de problemas graves na sociedade brasileira, pobreza sendo a mais relevante, com seus afluentes violência, falta de acesso a educação (alô, TV "Cultura"!), doenças evitáveis com higiene, o colapso da assistência social, além dos males não necessariamente conectados a esse problema-mor, como a corrupção e sua raiz, a amoralidade generalizada, ou o caos que é o governo. Talvez aí, e somente aí, entre o problema das drogas.

O que me deixa inquieto é que – ainda mais sendo fã de carteirinha da TV Cultura – o atual administrador esteja buscando soluções para sua sobrevivência tão ineficazes quanto os pacotes milagrosos de todos os nossos governos passados e presente, tão simplista quanto a última moda pop.

O boom do consumo que a indiarada experimentou nos anos recentes levou muitos a acreditarem nas supostas leis de mercado como dogmas existenciais. Ora, as explicações bíblicas também soavam suficientes antes de Newton, Galileu, Einstein ou Voltaire, Descartes, Erasmo. A Cultura pode se dedicar a investigar quem são os 80 mil aqui, 80 mil ali (quantos estados ela atinge?) e convencer seus anunciantes de que vão atingir camadas com maior poder aquisitivo que os 4 x 80 mil que Cunha Lima queria e que não garantem lá muita grana aos equivalentes na Bandeirantes ou na CNT.

Que a Cultura se dedique a oferecer o que puder, de melhor, como faz um professor, que independentemente do salário, ou das condições de sua escola, vai ensinar o que é necessário à formação do aluno. Talvez eu seja por demais idealista e não perceba que as festinhas e os holofotes da mídia que recebe, hoje em dia, um presidente de emissora pública, provavelmente alimentam seus desejos secretos de um participar do clube formado por "notáveis" tipo Marluce, Senor, Vallone e outros mercadores, copiando-lhes a etiqueta.

 

MAIS VOCÊ
TV para a mulher do Louro

 

Teresa Barros (*)

Assim como existiu o óleo de fígado de bacalhau, cuja lembrança até hoje provoca engulhos em quem foi criança no final dos anos 50, existiu também, para quem teve mãe num período pouca coisa anterior, um tônico ou elixir feminino que prometia acabar com os males da mulher "naqueles dias" (era o eufemismo vigente para menstruação). É só folhear velhos exemplares da revista O Cruzeiro nas bibliotecas e está lá o "reclame", que estampava uma senhora de sorriso ameno, satisfeita porque, enfim, estava livre das cólicas e do excesso de fluxo ou da inconstância dele, para suportar sorrindo o dia-a-dia com a casa, o avental sujo de ovo e, no final da jornada doméstica, receber também sorrindo e perfumada o marido exausto da labuta.

Pois quando parecia que afinal estávamos livres do óleo de fígado de bacalhau – afinal já se passaram quase 50 anos e desde então surgiram purgantes mais sofisticados – eis que reaparece o velho remédio em nova embalagem, mas produzindo os mesmos efeitos. A embalagem do novo óleo de fígado de bacalhau é moderninha porque vem com brinde para atrair o consumidor da era do e-commerce: contém um papagaio de matéria-prima desconhecida, com voz inumana de acento caipira, que conta piadas infames sobre louras burras e/ou gostosas, velhinhas mal-educadas e maridos feios. Para garantir a autenticidade do produto, o papagaio-brinde, uma redundância chamada Louro José, vinha com crachá do fabricante. (Dá para devolver se der defeito?)

Pois não é que com ele voltou também o elixir da mulher? Aquele que fazia sorrir durante os dias críticos, que permitia suportar a insuportável rotina da pobre senhora do lar, tão exausta no final do dia que mal dava conta de ouvir pela boca (e opinião) do marido as novidades do mundo lá fora?

O elixir feminino agora se chama Mais Você, sua embalagem também é moderninha, mas o efeito é o mesmo. Promete garantir a saúde da mulher de hoje, dando-lhe doses cavalares de vitaminas para o cérebro, para o corpo e o espírito – ou seja, crônicas poéticas lidas com timing de novela mexicana, receitas de chefs com nomes estrangeiros e orientação sentimental ao estilo do "jornal das moças". Sem esquecer os testes de múltipla escolha, uma espécie de vestibular de boas maneiras entre colegas, parentes e amigos. Tudo muito edificante para as mulheres que esperam perfumadas e livres de cólicas o marido voltar da labuta.

Mas onde estão essas mulheres, me pergunto? Onde elas encontram uma hora livre para sentar diante da TV, dinheiro extra para comprar azeite extra-virgem e arroz italiano e, principalmente, esperar o marido voltando de algum trabalho?

Minha amiga lembra que a TV Globo não arrisca nenhum produto sem pesquisa de público. E chega à conclusão de que o público de Mais Você é potencialmente formado de velhinhas aposentadas, porque ela não conhece qualquer mulher com saúde que não esteja nesse horário labutando ou procurando labuta. Faria sentido a opinião da minha amiga se nos intervalos comerciais entrassem os "reclames" do elixir da mulher e do óleo de fígado de bacalhau.

Assistir ao Mais Você é como entrar no túnel do tempo. Pena que minha TV não seja a válvula.

(*) Jornalista, autora com Márcia Braga de O bestiário do emprego, Editora 34.

 

CARTAS
TVs públicas e educativas

Julgo louvável e oportuno que Mauro Garcia e Jorge da Cunha Lima se entusiasmem com a criação da RPTV (ou Abtec). São passos importantes para fugir da mediocridade, da falta de autocrítica e da insanidade de leitura crítica com relação aos vários discursos políticos da chamada TV comercial e mesmo da mídia escrita. Mas é preciso respeitar os fatos e a verdade histórica. O governador Abreu Sobre pode ter tomado conhecimento da existência da TV Educativa no Canadá, mas o assunto da TVE estava na pauta nacional desde antes.

Tomou conhecimento da importância do assunto por intermédio da Assessoria Especial da Presidência da República no Rio. Ficou muito interessado e colaborou eficazmente para a compra da emissora dos associados. Não para ajudar ninguém, mas para que o Estado de São Paulo se integrasse ao Sistema de TV Educativa, objeto de lei de 1987 e do Funtevê.

A lei não proibia doações, ao contrário, permitia. A proibição era de contratar funcionários. Os recursos do Funtevê não podiam ser usados para contratar funcionários... É importante que os paulistas compreendam como em muitos casos se dá sua inserção no assuntos de alta relevância do país e do estado. A compra da TV foi articulada pela Assessoria Especial, pelo governador Abreu Sodré e por Emil Farah, na época presidente da MCan-Eriksson. Foi plantado um "factóide" na imprensa dizendo que o governo levaria a Voz do Brasil à TV... Só "factóide", para criar um ambiente que facilitasse a compra: os funcionários da emissora associada, sem receber; os donos das emissoras comerciais com medo da Voz na TV e da possibilidade da entrada de capitais estrangeiros na mídia.

E por que tudo isso? É que em São Paulo, sempre à frente do progresso, todos os canais já haviam sido concedidos. O ovo de Colombo da Lei de 67 foi a auto-restrição que o Estado brasileiro se impôs: concessão de todos os canais por critérios comerciais, menos uma concessão, a qual seria pública, sem fins comerciais. Não estávamos tão atrasados como diz o Mauro Garcia. John F. Kennedy lutou como senador para estender o princípio da TV Educativa ao sistema VHF, como acontecia em Massachussets. E reconheceu seu fracasso. Por ser justa a idéia, mereceu aprovação dos educadores autênticos de todo o país, a começar por Rio Grande do Sul e Ceará, onde já havia TVs educativas. Se não fosse o governador Abreu Sodré, seu secretário de Fazenda (?) e Emil Farah, São Paulo ficaria de fora. Ficaria quase impossível recuperar o tempo perdido ou custaria muito mais caro.

Perguntem a Marcio Fortes (não é o deputado), atualmente chefe de Gabinete de Pratini de Morais. Dirá como sempre há funcionários de todos os governos que procuram cumprir seu dever na administração pública sem coloração partidária ou mesmo sem adesismo aos eventuais detentores do poder.

Luiz Felippe Penna, pesquisador independente

 

ASPAS
"NOVO" FEMINISMO
Fernando de Barros e Silva

"Qualquer pessoa relativamente esclarecida que eventualmente pare em frente a uma banca de jornal para espiar as opções que se lhe oferecem pode ter a sensação incômoda de estar diante de um cemitério do feminismo – cada uma das revistas dedicadas à mulher sendo uma lápide dessa paisagem. Nunca houve tantas publicações voltadas para o que Simone de Beauvoir chamou um dia – e lá se vão algumas décadas – de ‘segundo sexo’. A história parece estar lhe dando razão, ironicamente.

Modetes sorridentes disputam na vitrine aberta da calçada a atenção do possível comprador – alugam seus corpos para vender ilusões. ‘Você também pode ser como eu’, é o que dizem na capa das revistas, geralmente desmentindo já pelo olhar a promessa de felicidade de que são as portadoras profissionais.

Há revistas que ensinam a cozinhar e trazem logo a seguir a última receita mágica para perder as calorias indicadas páginas atrás. A segmentação do mercado do narcisismo e da tirania da beleza criou monstros como publicações para leigos especializadas em cirurgia plástica – retalhe-se você também, queridinha, transforme-se numa boneca, é o que parecem solicitar e prometer.

O mais comum, porém, ainda são as revistas destinadas simplesmente ‘à mulher’, sem especificações. No seu interior há um pouco de tudo, cada seção ou reportagem representando um pedaço dos escombros do feminismo. Aprenda a masturbar seu marido, diz uma, descendo a detalhes técnicos dessa operação tão complexa; elas contam como praticam o adultério, diz uma outra; saiba como fisgar seu homem, convida a terceira.

Como a época atual é utilitária e pragmática, mais do que moralista, essas revistam apostam na geléia de costumes e arriscam agredir um grupo para satisfazer a outro, buscando nessa colagem frankensteiniana das imagens femininas algo como o mínimo denominador comum entre todas as mulheres do mundo, que é dado pelo conservadorismo reinante. Feminismo de mercado e machismo são no fundo cambiáveis. Isso se aplica também à TV.

Adriane Galisteu e Hebe Camargo, Tiazinha e Silvia Poppovic, Xuxa e Ana Maria Braga são tão iguais e diferentes entre si quanto as revistas expostas nas bancas de jornal. O programa ‘Mais Você’, protagonizado por esta última representante da nova-velha mulher, que estreou com sucesso na última semana na Globo, não é pior que seus similares, a não ser apenas pelo fato de que nele a condição subalterna é vivida à moda antiga, fazendo escancaradamente tábula rasa das conquistas da mulher independente. Mais do que tirar proveito dos escombros do feminismo, miss Braga encarna a revanche de uma mãe de família idealizada; seu apelo e popularidade vêm do fato de projetar sobre o presente uma imagem fantasiosa do passado.

Já se escreveu bastante sobre o significado de um programa como este integrar a programação da Globo. O padrão da emissora (cuja qualidade é preciso obviamente qualificar e discutir) está sendo sacrificado em nome da audiência. A Globo passa a incorporar o lixo que obrigou as suas não-concorrentes a produzir durante décadas. Isso é fato, mas gostaria de chamar a atenção para o que há de reciclagem moderninha nessa receita retrô kitsch quando assimilada pela Globo.

Ana Maria Braga continua sendo o que sempre foi – e chegamos a ter inveja de quem consegue organizar seu universo mental em torno de piadas frívolas de papagaios, tarôs e panelas. A frequência com que a palavra ‘amor’ sai da sua boca, como bem notou Marcelo Rubens Paiva, é abjeta, sugere uma caricatura de vida interior, um sub-romantismo de resultados a empilhar clichês sobre as profundezas da alma.

Na Globo, porém, esse escárnio doméstico-utilitário e pseudo-espiritual vem temperado por ingredientes que visam legitimá-lo para além de seu público cativo. Há por exemplo as crônicas de Carlos Heitor Cony, um suflê de sofisticação. Há também Glória Kalil, consultora de moda dos ‘modernos’, que empresta um verniz de prestígio de gente fina para a apresentadora que veio de uma emissora ‘brega’. Essa, a meu ver, a novidade desse programa em sua versão global, novidade que faz com que fale não mais apenas à dona-de-casa de um passado remoto e idealizado, mas sim que se dirija ‘à mulher’, de modo geral, como as revistas neoconservadoras.

Um exemplo aparentemente tolo, mas muito sintomático: no programa de estréia, Glória Kalil ensinava as mulheres a usar colares – devem ser bem justos na garganta, dizia, acrescentando a seguir que os materiais da estação eram quatro, entre eles o ‘ouro escovado’ e o ‘étnico’. A violência contida nessa enumeração espontânea – ouro escovado e étnico – é daquelas que ou se percebe imediatamente ou não adianta mais explicar. O que é a moda étnica? O que sobrou da Índia, da África, aquilo que dessas culturas e desses povos transformados em carvão ainda tem valor de mercado e glamour exótico no mundo globalizado?

Ana Maria Braga obviamente não devia ter idéia do que sua colunista de moda estava falando, embora, ironicamente, ela também seja um utensílio étnico reaproveitado nestes tempos em que a mulher subalterna volta a ter um enorme valor de mercado."

"A vitória do pré-feminismo de mercado", copyright Folha de S. Paulo, 24/10/99

 

VIRANDO A CÂMERA
Ariano Suassuna

"Neste ano de 1999, o Instituto Goethe e o Sesc realizaram, em São Paulo, o ‘Encontro Latino-Americano sobre TV de Qualidade’. E o jornalista Gabriel Priolli, na ‘Gazeta Mercantil’, comentou uma intervenção, uma espécie de desafio que, no encontro, foi lançado pelo professor Arlindo Machado, da USP e da PUC-SP: ‘Sempre que falamos de televisão, falamos de má televisão. Por que não viramos a câmera para o outro lado, o da boa televisão, que sempre existiu?’.

Reconhecendo que na televisão aparecem, lado a lado, o bom e o péssimo, Gabriel Priolli lembra, porém, que ‘fora da televisão, as coisas não são muito diferentes, dado que há excelência e mediocridade em qualquer segmento da cultura, e que a depauperação dos padrões culturais é problema universal’.

Como autor de teatro, estou a cavaleiro para subscrever as palavras de Arlindo Machado e Gabriel Priolli: porque na venerável arte praticada por gênios como Sófocles, Molière ou Calderón de la Barca, a excelência e a mediocridade também sempre viveram de braços dados, no Brasil e lá fora; e agora mais do que nunca, porque no mundo contemporâneo, fortalecidos pela quantidade, o mau gosto e a vulgaridade alcançaram uma amplitude sem precedente na história humana. Mas, chamando nossa atenção para que, ao lado do ruim e do péssimo, a televisão, como qualquer outro meio de expressão, pode mostrar (e mostra) excelente arte, Gabriel Priolli recorda que ‘uma coletânea de grandes obras brasileiras de TV deveria incluir, por exemplo, inúmeras minisséries produzidas a partir dos anos 80, sobretudo pela TV Globo. (...) Deveria listar quase toda a produção do Teatro 2 da TV Cultura nos anos 70. (...) Deveria considerar os diversos teleteatros (ou ‘casos especiais’) dirigidos por Ziembinski na Globo. E (...) inúmeros documentários, produzidos por diversas emissoras, que revelaram com sensibilidade os mais variados aspectos da realidade nacional’.

Entretanto, o que me pareceu mais importante no artigo de Gabriel Priolli foi o texto sobre o papel que tem a televisão na busca de uma identidade nacional. Identidade que não se confunde com qualquer indesejável uniformidade e que sempre vi, pelo contrário, como uma bela e fecunda unidade de contrastes. O que, por outro lado, não implica a aceitação do mau gosto e da vulgaridade da arte americana de massas que nos querem impingir como expressão do ‘universal’ (contraposto, por seus entusiastas, ao que seria o nosso ‘estreito nacionalismo’). Diz Priolli: ‘É imperioso reconhecer que é a existência de uma televisão nacional forte, cobrindo todo o território, que serve de anteparo aos efeitos perversos da globalização, à imposição universal de padrões culturais norte-americanos que tanto debilita outros países. (...) É preciso enfrentar a globalização de uma perspectiva altiva, apresentando-se ao intercâmbio cultural com a consciência de que temos tanto de bom a receber quanto a oferecer’.

Por tudo isso, mando daqui meu abraço a Arlindo Machado e Gabriel Priolli, cujas palavras aplaudo e subscrevo."

"Televisão e identidade nacional", copyright Folha de S.Paulo, 19/1099

 

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